Conexão África (16)

América do Sul avança, mas é só o começo

Para surpresa de muitos, o combalido futebol sul-americano está dando um passeio aqui na África do Sul. É cedo para fazer rufar os tambores, mas é fato que a campanha dos cinco representantes desmente todas as previsões de uma Copa dominada pelos europeus e com forte participação dos times africanos. No fechamento da primeira fase, a América do Sul está na lideranças de seus respectivos grupos e três seleções, justamente as mais tradicionais, Argentina, Brasil e Uruguai, já se classificaram antecipadamente às oitavas de final. O Chile, que caiu no grupo da favoritíssima Espanha, depende de um empate apenas para seguir em frente.
Além disso, as cinco seleções estão sobrando nos confrontos dentro dos grupos, conservando-se invictas até o momento. Em doze confrontos, são dez vitórias, três empates, o que perfaz um total de 33 pontos ganhos em 36 disputados. Aproveitamento excelente, marca acachapante. Claro que é apenas a primeira fase, convém manter certa prudência, mas essa performance sinaliza para um domínio sul-americano nas fases seguintes.
Diego Maradona, em entrevista, anteontem, avaliou que o segredo das cinco seleções do continente está na forma de disputa das eliminatórias, por pontos corridos. O sistema privilegia o mérito técnico e a regularidade, ao contrário da divisão por grupos que vigora na Europa, criando situações absurdas, como Portugal obrigado a se classificar na repescagem. Concordo com a tese, pois a América do Sul escolhe de fato suas melhores seleções. Maradona chegou a citar o Equador, sexto colocado nas eliminatórias, como um time capaz de fazer boa figura na Copa.
Outra possível explicação para o êxito inicial das “cinco irmãs” pode ser o calendário praticado nesses países, onde os campeonatos (com exceção da Argentina) não se baseiam no modelo europeu, que divide o ano em duas temporadas, exigindo de seus clubes e jogadores esforço total nos meses que antecedem a Copa. Um outro fator muito temido no mundial sul-africano era o climático, mas sua influência até o momento tem sido mínima, com evidentes benefícios para as equipes da América do Sul, ao contrário do que se imaginava antes. Por fim, é preciso considerar a forma física e técnica de alguns dos grandes jogadores do planeta. Os ingleses, muito cotados antes do torneio, tinham em Rooney, Lampard e Gherrard suas grandes esperanças, mas nenhum deles se sobressaiu até aqui. A Alemanha trouxe Podolski, Klose e Ozil, mas também não se consolidou na disputa, apesar da boa estreia. A Itália veio desprovida de grandes nomes e a Holanda, também apontada como favorita, tem vários astros (Sneijder, Van Persie), mas seu principal regente, Robben, ainda não jogou. Há, por fim, a decepção proporcionada pela França, eliminada ontem com apenas um ponto assinalado na disputa.
É grande, portanto, a possibilidade de um renascimento sul-mericano para o mundo do futebol. Afinal, na Copa da Alemanha, em 2006, nenhum de seus representantes conseguiu atingir as semifinais do torneio.

Bafanas inocentes, Parreira aliviado

Quem acompanhou a decisão do grupo A pode perceber a preocupação dos organizadores com a eliminação precoce da África do Sul, que depois se
confirmaria. No primeiro tempo, com 2 a 0 no placar e um francês expulso, ficou a impressão de que a seleção conseguiria o milagre da classificação, contando com a categórica e honrosa colaboração uruguaia, que fazia sua parte frente ao México. Bastou, porém, começar o tempo final para perceber que aos Bafanas falta ainda aquele instinto matador que caracteriza os times vencedores. Desperdiçou boas chances de fazer o terceiro e permitiu que o fraquíssimo esquadrão francês descontasse, o que redobrou o grau de dificuldades matemáticas para obter a vaga. Parreira, muito questionado através da imprensa nos últimos dias, sai pelo menos com um troféu pessoal: ganhou sua primeira partida em Copas treinando outra seleção que não a
brasileira.

Uruguai em vantagem no mata-mata

Os dois primeiros confrontos de mata-mata já definidos incluem duas seleções sul-americanas. A Argentina terá um osso duro de roer contra o México, domingo à tarde. Toda a estratégia ofensiva do time de Maradona será posto à prova pela aguerrida seleção mexicana. No outro duelo, entre Uruguai e Coréia do Sul, vejo amplas vantagens para a Celeste Olímpica, que tem aliado à tradicional garra com alguns momentos de bom futebol, pelos pés de Forlán e Suárez.

Briga de cachorro grande

Circulou com insistência a informação de que a Globo resolveu amaciar discurso em relação a Dunga, temendo a pecha de vilã caso algo de errado aconteça com a Seleção nas fases de mata-mata. Apesar dos evidentes exageros do treinador no treinador com os jornalistas, há prudência no gesto da emissora, pois nas derrotas a torcida costuma carimbar quem esteja pelo caminho. Foi assim com a Nike em 1998 e com Roberto Carlos e seus meiões em 2006. A dúvida é saber para que lado pende, a essa altura, o todo-poderoso presidente da CBF. Já há quem jure que, por trás da truculência verbal de Dunga, está a cabeça grisalha de Ricardo Teixeira. O tempo se encarregará de clarear as coisas nesta batalha que promete ter desdobramentos depois do dia 11 de julho, qualquer que seja o resultado.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 23)

5 comentários em “Conexão África (16)

  1. A ofensividade do futebol sul-americano está se destacando em meio ao estático e mecânico futebol europeu (salvo exceções).

    Veja o Chile, futebol rápido, de marcação claro, mas com saídas agudas e sempre agressivas. Uruguai joga muito parecido aos chilenos. O Paraguai é o que mais se aproxima do futebol pragmático, mas tem lampejos de boa técnica, o que acaba fazendo a diferença.

    Vejo uma semis com os “sudamericanos”.

  2. É isso que me preocupa, a moda europeia que copiamos. Quando tivemos lampejos do nosso futebol, fizemos gols. Mas temos só Kaká e Robinho, quando poderíamos ter um exercito, como tem a Argentina, que prefere a tecnica que o “comprometimento”. A nossa sorte é que nunca houve uma copa com tão poucas seleções, dignas de estarem lá.

  3. Já houve quem, após a análise das combinações insinuadas pela tabela, vislumbrasse a probabilidade matemática das semifinais virem a ser disputadas por quatro Sulamericanas, numa espécie de “mini Copa América”. Não chequei, será possível?
    O que tenho como certo é que o Brasil que já pegou um grupo mais difícil na primeira fase, continuará, em teoria, pelo menos, enfrentando maiores dificuldades que o Uruguai e a Argentina para seguir em frente. Quanto ao Parreira e aos bafanas acho que eles chegaram ao máximo que poderiam chegar, mais do que isso só num golpe de sorte que até acenou de longe para eles na última rodada do grupo. Quanto ao confronto do Dunga com a Globo, acho que só quem tem a perder é o treinador, mesmo que seja campeão e continue contando com o apoio da esmagadora maioriada população brasileira como atualmente conta. Os tentáculos da Globo, tanto os regulares, como os nem tanto, são incontáveis e poderosíssimos. É que como eu já disse noutra postagem, apesar de heróico, o remédio para a moléstia absolutista da emissora foi amargo demais e causou desnecessários e desagradáveis efeitos colaterais. Torço para que ele e a Seleção triunfem! Torço, inclusive, paradiando um antigo revolucionário, para que ele siga firme e de algum modo adquira alguma serenidade.

  4. É preciso ser comedido em análises de equipes vencedoras (futebol). Quase tudo foi perfeito nos vencedores ao contrário dos perdedores. Já ouvi de alguem categórico que os erros de uma equipe perdedora são melhor percebidos. Da mesma forma afirmo, um jogo não serve a um juizo final, de jogador à equipe. Mas reconheço “capacidades” que se bastam de uma exibição para concluir, cabalmente, analises, julgamentos e valorações da arte inexata que se chama futebol.
    Minha ousadia neste campo é mais contida e ahí vai o principio que há muito firmei da inexistencia de favoritismo num jogo de equipes quase iguais.
    A imponderabilidade no futebol é fator que devemos considerar quanto a faixa de incerteza
    que existe num jogo (futebol).
    Em razão disso não chego às raias do escandalo
    quando me deparo com certos resultados.
    Há muito convenci-me de uma nova ordem que se forma no futebol mundial e não ouso desafia-la, simplesmente acompanho-a como fiz minutos atrás assistindo a derrota dos quatro Scudetto.

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