Internet chega aos 50 anos dominando o mundo – e em expansão

De uma conexão entre dois computadores instalados na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (Ucla), e no Stanford Research Institute, a internet se tornou onipresente em meio século de existência. No dia 29 de outubro de 1969, a rede mundial de computadores foi criada num experimento liderado pelo pesquisador Leonard Kleinrock e, em poucas décadas, ganhou tração, se popularizou e hoje faz parte do dia a dia de 4,5 bilhões de pessoas no mundo.

Para o futuro, especialistas, e o próprio Kleinrock, preveem que a internet se tornará invisível. Algo como a energia elétrica – onipresente e da qual você nem se dá conta que existe.

— A internet tende a ser esquecida, como o que aconteceu com a corrente alternada do Tesla. Hoje, ninguém dá bola para a luz, a não ser quando falta. É isso o que vai acontecer com a internet — prevê o empresário Aleksandar Mandić, um dos pioneiros da internet no Brasil.

Ele completa:

— Nós entulhamos os canos, tudo virou digital. Até o dinheiro está mudando. Era escambo, virou metal, adotou o papel, se tornou plástico e, agora, está virando digital.

A criação da rede aconteceu sem a pompa esperada para um avanço desta magnitude. Não havia uma filmadora para registrar o feito, nem mesmo um gravador de voz, apenas anotações num caderno.

Kleinrock (foto acima) brinca que não pensou numa frase de efeito, como “um salto gigante para a Humanidade”, do Neil Armstrong ao pisar na Lua, ou “que coisas Deus tem realizado”, do Samuel Morse ao enviar a primeira mensagem por telégrafo. A primeira mensagem trocada pela internet foi a palavra “Login”, e o sistema caiu após o “L” e o “O”.

No início, a rede era conhecida como Arpanet, por ser um projeto financiado pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (Arpa, hoje Darpa), braço de pesquisas do Departamento de Defesa dos EUA.

O professor do Departamento de Informática da PUC-Rio Daniel Schwabe, que participou das pesquisas dos primeiros anos da rede, lembra que a rede era “um universo restrito” aos cientistas envolvidos no projeto.

Ela funcionava, basicamente, para que pesquisadores pudessem usar suas próprias máquinas para acessar o poder dos computadores instalados nas universidades. Com o surgimento do e-mail, em 1972, a Arpanet se tornou uma ferramenta de comunicação, amplamente utilizada pelos poucos cientistas que tinham acesso à rede.

— A gente não fazia ideia do que estava começando. Todos os usuários da Arpanet constavam num catálogo telefônico — lembra Schwabe. — Mas tem uma coisa que a gente continua fazendo até hoje: usar a rede para trocar piadas e receitas.

A popularização da internet começou na década de 1980, após a Arpa decidir separar a sua rede para formar a Milnet (Military Network) em 1983. Paralelamente, diversas redes eram montadas, não só nos EUA como em outros países, e conectadas à internet.

A NSFNet, mantida pela National Science Foundation, se tornou a principal rede acadêmica mundial, como uma sucessora da Arpanet. Por aqui, a Rede Nacional de Pesquisa foi criada em 1989, para construir a infraestrutura de rede entre as instituições acadêmicas.

As primeiras conexões brasileiras à internet aconteceram em 1991, com a primeira troca de pacotes via protocolo de internet pela Fapesp com o Fermi National Accelerator Laboratory, que por sua vez estava conectado à nascente rede mundial de computadores; e, em 1992, quando pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro realizaram a primeira conexão direta com a Ucla.

— Foi em fevereiro de 1991 que conseguimos trocar os primeiros pacotes de internet com o Fermilab. A gente se conectou à Energy Science Network, que era uma parte da internet. A internet, como o nome diz, é um emaranhado de várias redes conectadas entre si — lembra o diretor-presidente do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), Demi Getschko, um dos responsáveis pela conexão com o Fermilab.

Nascida com fins científicos e financiamento militar, a Arpanet — sucedida pela NSFNet e, por fim, chamada genericamente como internet — só ultrapassou a barreira acadêmica em 1991, com a promulgação da lei de computação de alta performance nos EUA, uma iniciativa do então senador Al Gore, que ocuparia a vice-presidência do governo de Bill Clinton.

A nova legislação abriu a rede para a exploração comercial, dando início a uma corrida pelos primeiros endereços .com.

A abertura comercial deu início à revolução que vivenciamos hoje. Segundo o Internet World Stats, a rede tinha 16 milhões de pessoas conectadas, ou 0,4% da população mundial, em 1995. Eram quase todos americanos.

 Hoje, são 4,5 bilhões de internautas, ou 58,8% da população mundial. Os sites de internet saltaram de 1, em 1991, para 1.630.322.579 no ano passado.

No Brasil, o empresário Aleksandar Mandić foi o criador da primeira BBS (bulletin board system), sistema parecido com a internet, mas centralizado num servidor. Em agosto de 1993, recebeu permissão para explorar comercialmente a internet, criando um dos primeiros provedores brasileiros de acesso à rede mundial de computadores.

— A primeira coisa que eu acessei foi o site da Nasa. Era basicamente o que existia. Não tinha nada para acessar na internet, era um mundo vazio. Se eu pudesse comparar, a internet é como o cano, e o conteúdo é a água. Nós inauguramos o cano, mas não tinha água para passar — lembra Mandić. — Nós recebemos um gateway de 64 kbps, mas nós tínhamos 10 mil usuários registrados. Aquilo entupiu! Nós comemoramos quando recebemos um link de 1 mbps. Para fazer uma comparação, hoje eu tenho 300 mbps na minha casa, só para mim. (De O Globo)

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