A homenagem desrespeitada

POR GERSON NOGUEIRA

O amigo Edgar Augusto, colunista mais longevo do DIÁRIO e crítico musical dos bons, dá nome ao estádio Mangueirão. Pode parecer brincadeira, mas é verdade. Afinal, quem lê a placa oficial fica sabendo que o nome é “Estádio Edgar Augusto Proença”. Óbvio que há uma incorreção, uma tremenda barbeiragem, pois o homem que recebeu de verade a homenagem é Edgar Proença, que vem a ser avô do beatlemaníaco Edgar Augusto.

Nas românticas redações de antigamente, esse carrinho por trás na informação era chamado de lomba. Nos dias de hoje, com o adendo de envolver um logradouro público estadual, o erro é apenas a comprovação (e perpetuação) da boçalidade própria dos poderosos de plantão.

A tal placa, que só está ali pela premissa de informar corretamente o nome do homenageado, jornalista Edgar Proença, foi afixada pomposamente durante o governo de Almir Gabriel. Estranho é que o erro tenha se perpetuado por tantos anos, sem que ninguém se importasse.

Indiferente ao erro no tributo prestado a um dos pioneiros da comunicação no Brasil, o governo de então bancou a malsinada placa. Em papo recente com o escritor e dramaturgo Edyr Augusto Proença, também neto do velho Edgar, ouvi dele a denúncia sobre o absurdo equívoco.

Quando a praça de esportes foi reformada no governo de Almir circulava com insistência a história de que o tucano queria a todo custo eternizar seu nome no estádio. O plano travou no impedimento legal de batizar prédios e logradouros públicos com o nome de pessoas vivas.

Talvez pela pretensão não atendida, alguém teve a infeliz e aloprada ideia de renomear o Mangueirão como “estádio olímpico”, designação que passou a vigorar sem qualquer sentido lógico, pois a pista de atletismo foi usada em raras oportunidades, nem sempre para apresentação de atletas.

De certa feita, o próprio Almir teve a pachorra de correr pela pista, com a camisa empapada de suor, acenando demagogicamente para bate-paus e cabos eleitorais que se acotovelavam nas cadeiras e tribunas.

É legítimo especular que erro tão grosseiro no texto da placa tenha sido proposital, visto que a vontade tucana era que o Mangueirão ficasse apenas como Estádio Olímpico – na impossibilidade de botar o nome do governador do período.

Aliás, com placa errada e tudo, os governos seguintes mantiveram a denominação “Estádio Olímpico Estadual”, descumprindo a decisão da Assembleia Legislativa, que batizou oficialmente o Mangueirão como Estádio Jornalista Edgar Proença.  

Não se pode obrigar ninguém a chamar o estádio pelo nome certo, mas a administração do estádio tem a obrigação de corrigir a placa à entrada do estádio. Antes tarde do que nunca. Uma questão de respeito com o velho Edgar, um gigante do rádio no Pará e na Amazônia.

Ecos do mundo (consciente) do futebol

Claudio Bravo, goleiro do Manchester City e da seleção chilena, se manifestou sobre a revolta popular no Chile, causada pela desastrada política econômica do governo conservador. “Eles venderam nossa água, eletricidade, gás, educação, saúde, aposentadoria, remédios, estradas, florestas, geleiras e transportes. Enfim, algo mais? Não queremos um Chile para poucos. Queremos um Chile para todos”.

Vidal, volante do Barcelona, acompanhou o tom crítico de Bravo. “Resista, meu Chile querido! Os políticos têm que escutar o povo quando nos fazemos sentir. As pessoas estão passando muitas necessidades e estamos dizendo: basta! Sigamos nos manifestando pacificamente, sem violência, sem saques. Sem nos machucarmos”.

Gary Medel, defensor do Bologna, foi na mesma direção. “Uma guerra necessita de dois lados e aqui somos um só povo, que quer igualdade. Não desejamos mais violência. Necessitamos que as autoridades digam que vão mudar para resolver os problemas sociais. Elas falam de delitos, e não de soluções sobre como resolver o problema”.

Se tudo isso estivesse ocorrendo no Brasil, o mundo do futebol se recolheria ao mais absoluto silêncio covarde de sempre.

A noite da decisão mais esperada da temporada

Na véspera do confronto do ano entre clubes brasileiros, o Grêmio de Renato Gaúcho se apoia no retrospecto das últimas três temporadas para manter esperanças de derrotar o invicto Flamengo no Maracanã. Com campanha fulgurante no Brasileiro, o time rubro-negro é apontado como favoritíssimo para chegar à grande decisão continental.

As entrevistas de Renato têm mostrado um tom meio sorumbático. Normalmente boquirroto e provocador, ele tem dosado as alfinetadas em Jorge Jesus, a quem já chamou de treinador mediano, com poucos títulos na carreira. O reconhecimento da superioridade técnica do Flamengo é sempre enfatizado, até para diminuir a responsabilidade gremista.

Ainda assim, o velho estilo brotou ao projetar que somente rubro-negros e colorados (do Internacional) estarão na torcida por um triunfo do líder do Brasileiro amanhã. O resto do país, cutucou Renato, estará com o Grêmio onde o Grêmio estiver, como diz o belíssimo hino composto por Lupicínio Rodrigues.

O fato é que, ao contrário do empate no Olímpico, o confronto desta noite será marcado pela ofensividade, o que é garantia de uma partida emocionante. O Flamengo, que tem a significativa vantagem do empate em 0 a 0, conta com um conjunto forte, com cinco ou seis jogadores em nível de Seleção e praticando um futebol eficiente e vistoso.

Caso supere o Grêmio, o time de Jesus entra em pé de igualdade na decisão contra o River Plate de Gallardo, que se classificou com derrota (0 a 1) em La Bombonera, ontem à noite. Já os gaúchos têm no embate de hoje, pelo fator casa, um desafio até maior do que o de superar o River na final.

(Coluna publicada no Bola desta quarta-feira, 23)

Um comentário em “A homenagem desrespeitada

  1. Verdade, Gerson, parece que aquela pista foi colocada de propósito pra desqualificar a homenagem ao lendário Edgar Proença. Seria bom que fosse feito um levantamento pra ver como votou a bancada tucana, no projeto de Miriquinho Batista(PT) que trocava de Alacid Nunes, este estava vivo e a homenagem era ilegal, pra Edgar Proença o nome do Mangueirão, acho que foi contra.
    Almir começou sua carreira política como secretário de saúde do Alacid, é sempre bom lembrar, por isso os achaques fortuitos do então governador contra o que chamava de culto à personalidade, algo tão verossímil como uma nota de três reais, pois ainda estava vivo quando viu a Alepa nominar um bairro inteiro com seu nome e nem reclamou do personalismo.
    Cabe agora a SEEL tomar providência simplesmente trocando a placa, esta também com jeito de resultado da má vontade que induziu à mancada, colocando uma mais vistosa e digna da reforma e mais ainda do grande paraense que foi Edgar Proença.

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