
Aumenta a suspeita de que o chamado ‘Dia do Fogo’ tenha sido promovido por pecuaristas, empresários e proprietários rurais da região de Novo Progresso. A Polícia Federal (PF) cumpriu quatro mandados de busca e apreensão nas casas e estabelecimentos de fazendeiros e empresários que estariam envolvidos com o ‘dia do fogo’, nesta terça-feira (22), em Novo Progresso, no sudoeste do Pará.
As investigações sobre os incêndios florestais começaram após um veículo local divulgar informações sobre o evento criminoso que ocorreu no dia 10 de agosto, e logo tomou repercussão nacional.
Segundo a PF, durante a busca foram apreendidos objetos, anotações e principalmente mídias eletrônicas como celulares, computadores e notebooks, que serão analisados a fim de procurar ligações entre esses suspeitos e os crimes ambientais cometidos.
A PF informou ainda que foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão, três relacionados à fazendeiros de Novo Progresso e de um empresário. As investigações sobre o caso continuam. As suspeitas são de crimes ambientais, devido à provocação de incêndios e de associação criminosa por conta da organização promovida para cometer os crimes.
Em agosto, a Polícia Civil abriu um inquérito para investigar a prática de incêndios criminosos no sudeste e sudoeste do Pará e identificou três irmãos fazendeiros suspeitos de provocar queimadas em uma área de floresta nativa em São Félix do Xingu. A execução das diligências contou com o apoio da delegacia de Altamira, no sudoeste do Pará, e com agentes encaminhados de Brasília para a região.
Um dos primeiros suspeitos ouvidos pela Polícia Civil foi Agamenon Menezes, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais da cidade, que também foi alvo de operação de busca e apreensão da Polícia Federal nesta terça-feira (22). A operação ‘Pacto de Fogo’ apreendeu documentos na sede do sindicato, além do computador pessoal de Menezes. Os policiais cumpriram outros três mandados de busca e apreensão, mas não informaram quais foram os alvos. Além da Federal, a Polícia Civil também investiga o caso, mas a colaboração é prejudicada por brigas entre as duas corporações.
“Quem não deve não teme”, disse Menezes por telefone à Repórter Brasil após ter o seu computador apreendido, nesta terça-feira. Em outra entrevista, realizada no início de outubro quando a reportagem esteve em Novo Progresso, Menezes negou ter acontecido uma combinação entre os produtores rurais para queimar a floresta. Ele atribuiu o aumento dos focos de incêndio ao período seco.
Além de Menezes, a Polícia Civil também investiga o empresário Ricardo de Nadai, proprietário da loja de insumos agrícolas Agropecuária Sertão. Ele teria sido o criador de um grupo de WhatsApp, chamado ‘Sertão’, com 70 integrantes, onde foram combinados os detalhes de como seria o ‘Dia do Fogo’.
Os detalhes sobre o ataque incendiário foram costurados no grupo ‘Sertão’, mas as conversas sobre a ação começaram em outro grupo de WhatsApp, com 256 pessoas (lotação máxima permitida pelo aplicativo), chamado ‘Jornal A Voz da Verdade’. Neste grupo, estavam presentes também autoridades da região, como o delegado da Polícia Civil, Vicente Gomes, chefe da Superintendência da Polícia Civil do Tapajós, sediada em Itaituba, distante 400 quilômetros de Novo Progresso.
Foi Gomes quem determinou ao delegado de Novo Progresso o não repasse, à Polícia Federal, dos depoimentos que já haviam sido tomados pela Polícia Civil na cidade – o que piorou a relação entre as duas instituições responsáveis pela investigação.
Questionado pela Repórter Brasil, o delegado Vicente Gomes disse que não falaria nada sobre a apuração do ‘Dia do Fogo’, pois a investigação corre em sigilo por determinação judicial. Perguntado se estava no grupo de WhatsApp ‘Jornal A Voz da Verdade’, Gomes respondeu: “Não posso comentar nada”.
O acordo entre fazendeiros e madeireiros que resultou no ‘Dia do Fogo’ foi revelado em 5 de agosto pelo jornalista Adécio Piran, do site paraense Folha do Progresso. Após a publicação, Piran ficou fora da cidade por dois meses por conta das ameaças de morte que recebeu. Chegou a contar com proteção policial, mas voltou ao trabalho e dispensou a segurança. “Os responsáveis pelo fogo tornaram meu negócio inviável, já que conseguiram pressionar os comerciantes para tirarem os anúncios no meu site”, relata.
FAZENDEIROS TÊM REDE PROTETORA
Os responsáveis pelo fogo também estão dificultando as investigações, segundo policial federal que apura o caso e que foi ouvido pela Repórter Brasil na condição de não ter o nome revelado. O policial disse que os fazendeiros da região são bem relacionados com deputados e senadores, além de terem interlocução com o alto escalão do governo federal.
Ele destacou ainda o poder do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso, que tem influência na Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), que, por sua vez, é bem articulada com a Frente Parlamentar Agropecuária – a bancada ruralista – uma das mais bem organizadas do Congresso.
Um dos principais representantes dos ruralistas no governo federal, o secretário especial de Assuntos Fundiários, Luiz Antônio Nabhan Garcia, esteve em Castelo dos Sonhos, distrito de Altamira vizinho a Novo Progresso, para participar da Festa do Boi no Rolete no início de setembro. Nabhan Garcia adotou um discurso em que atribui parte da culpa dos incêndios na Amazônia aos povos indígenas. Ele disse, durante Comissão do Meio Ambiente no Senado, que os produtores rurais não são responsáveis pelas queimadas. Entre os convidados do Boi do Rolete, estava Agamenon Menezes.
Além de possíveis influências políticas, a rixa entre as polícias Federal e Civil colaboram para o atraso nas investigações – cujo passo mais importante foi dado nesta terça-feira, mais de dois meses após o ‘Dia do Fogo’.
A disputa entre as organizações começou em novembro do ano passado, quando três federais foram presos por policiais civis e militares em Novo Progresso – e chegaram a passar uma noite na delegacia até serem devidamente identificados. Por conta dessa prisão indevida, um delegado da Polícia Civil de Novo Progresso foi afastado do cargo. Agora, o outro delegado da cidade que cuida das investigações está em férias, o que pode atrasar ainda mais as conclusões do caso.
As investigações também esbarram em desafios logísticos, já que a delegacia da PF em Santarém fica distante 700 quilômetros de Novo Progresso. A de Altamira fica 970 quilômetros de Castelo dos Sonhos. (Com informações do G1 e Repórter Brasil)