Enfim, um protesto de fôlego

Por Gerson Nogueira

Depois de infindáveis manifestações, dos mais variados matizes e motivações, de estudante a gari, de professor a flanelinha, surge enfim a notícia de um protesto que merece todo respeito. É um passo que pode encerrar a longa noite de escuridão e obscurantismo político dos boleiros nacionais. Sim, o país pentacampeão é também imbatível em alienação de seus profissionais da bola. Uma vergonha diante do ativismo de argentinos e uruguaios, vizinhos de continente.

bol_dom_290913_23 nova.psO último a cantar de galo, com boa reverberação, foi Doutor Sócrates, mentor e símbolo da Democracia Corintiana. Antes dele, Reinaldo fez das suas em Minas, mas o que restou de sua militância foi apenas o gesto famoso, remetendo à saudação lendária dos Panteras Negras americanos – o punho fechado em direção ao céu. Cerca de uma década antes, outro pioneiro da contestação, o meia Afonsinho (Botafogo), marcou gerações com sua barba e ideias incômodas para a cartolagem.

Os exemplos de politização se encerram nessas três figuras. Muito pouco para o país que mais cultiva o amor pela bola e melhor expressa o sentido de futebol-arte. Mas, ao contrário do que ocorreu nos tempos de Afonsinho, Reinaldo e Sócrates, quando o isolamento dos líderes não permitiu que mudanças ocorressem, a pátria de chuteiras ganhou na sexta-feira um  esboço de mobilização.

Alguns dos principais atletas brasileiros tomaram a iniciativa de peitar a CBF, os próprios clubes onde jogam e a Globo, emissora que detém os direitos de transmissão das duas principais divisões nacionais e que faz gato-e-sapato dos campeonatos, estabelecendo horários estapafúrdios e marcando jogos para praticamente todos os dias da semana.

O manifesto traz a assinatura de 75 futebolistas dos principais clubes, incluindo alguns de Seleção Brasileira, como Jefferson (Botafogo) e Alexandre Pato (Corinthians), além de Paulo André (Corinthians), Elias (Flamengo), Alex (Coritiba), Rogério Ceni (São Paulo), Marcelo Lomba (Bahia) e D’Alessandro (Internacional).

Por ora, a ideia é apenas reunir com a CBF em busca de melhores condições de trabalho, limite no número de jogos por temporada e garantia de férias normais, a que todo trabalhador tem direito. A manifestação se deve principalmente ao calendário de 2014, anunciado nesta semana pela entidade, destinando pouquíssimas folgas aos atletas. Até as férias obrigatórias foram fatiadas, sendo divididas em 15 dias no começo do ano e mais 15 no meio da temporada.

Alex, meia do Coritiba, já expôs publicamente sua insatisfação com a carga de jogos do Campeonato Brasileiro, culpando diretamente a Globo pela saturação do torneio. Como é habitual, a CBF tergiversa. Carlos Eugênio Lopes, diretor jurídico, pede que os atletas tenham paciência “e boa vontade”, acenando com o fato de que 2014 será um ano excepcional por causa da Copa do Mundo.

Os jogadores – historicamente desunidos – parecem entender justamente o contrário. Como é ano de mundial, a sensibilidade da cartolagem talvez esteja mais aguçada, tornando mais viável atingir os objetivos pretendidos.

Só para se ter uma ideia do absurdo da situação, a temporada começará a 12 de janeiro, com os certames estaduais e a Copa do Nordeste, indo até 4 de junho, quando tudo será paralisado para a Copa do Mundo. Os campeonatos regionais terminarão em 13 de abril, com apenas 21 datas disponíveis. Alguns Estados encurtaram seus campeonatos, optando por turno único. É o caso do Rio de Janeiro, e pode vir a ser assim também no Pará.

“Estamos convictos de que dar esse primeiro passo significa caminhar na direção do profissionalismo, da transparência e da busca pela excelência no futebol de alto rendimento praticado no Brasil”, destaca o documento dos atletas, que, pelo ineditismo, já pode ser dado como histórico. A dúvida é se terá força suficiente para romper as amarras políticas e econômicas.

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Clássico do Círio sob indefinição

Dependerá da boa vontade da Polícia Militar, que já se antecipou proibindo qualquer jogo de futebol na semana do Círio, a realização de amistoso entre Remo e Paissandu na antevéspera da maior festa religiosa do povo paraense. O patrocínio seria da Prefeitura de Belém, que na última sexta-feira reuniu com os presidentes dos clubes.

Ao Paissandu, que já teve que concordar com o adiamento de jogo pela Copa do Brasil (contra o Figueirense) naquela data, a ideia soou como inviável. O Remo, sem calendário até janeiro, encara o clássico como quase um milagre da padroeira. A grana do cachê viria em boa hora, aliviando o clube de inúmeras pendências.

Tudo agora dependerá da garantia de policiamento. Se a PM mantiver sua posição, a Prefeitura pensa em conseguir que a Guarda Municipal se encarregue da missão. O jogo, em princípio, seria de portões abertos no Mangueirão. Para ter acesso, torcedor contribuiria com um quilo de alimento não perecível.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 29)

6 comentários em “Enfim, um protesto de fôlego

  1. E o os jogadores do clube que está de férias desde maio ? Algum deles assinou esse manifesto ? Como é a vida, enquanto uns brigam por trinta dias de férias regulamentares, outros gozam nove meses de férias por ano fazendo turismo pelo interior paraense.

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  2. Estando de pleno acordo com a manifestação dos jogadores, e com o próprio teor da Coluna, desta só me cumpre destacar uma passagem que reputo da mais alta relevância, qual seja a que refere ao entendimento dos jogadores, segundo o qual, este momento onde prevalece a atmosfera de copa do mundo, é exatamente o mais propício para reivindicar, eis que encontra a sensibilidade dos gestores (no caso do futebol) mais aguçada, por assim dizer.

    Quanto ao RE/PA, estou com o Edson do Amaral, bicolor de esperança renovada lá de Marituba, que dia desses falou com muita propriedade que o prefeito deveria utilizar esta verba para investir nos PSM’s que estão muito mais necessitados do que a dupla Re/PA.

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  3. Penso que se os jogadores não peitarem a CBF, agora, é daí pra pior esse calendário… Jogador de futebol, não é uma máquina.. Por aqui, poderiam fazer a mesma coisa, principalmente o Paysandu, que disputa a série B, pois o Parazão termina 6 dias antes dessa competição…
    – Por que não fazer um Parazão 2014, com pontos corridos, se classificando os dois primeiros para disputar o título?

    É a minha opinião.

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  4. Acho de uma irresponsabilidade imensa um amistoso destes com o Paysandú em reta final na série B e correndo o risco de ter atketas lesionados para o resto do campeonato.
    Seria burrice extrema da parte da direção bicolor aceitar tal sandice!

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  5. Esses caras são engraçados, pensam que o problema do mais querido será resolvido se jogar contra o eterno freguês listrado. Meus fregueses da arquibancada. ao mais querido, tanto faz fazer amistoso contra o papinha ou contra o Castanhal, pois sinceramente ele mete o cassete em qualquer um dos dois. Agora se vocês acham que esse amistoso, vai favorecer apenas ao Leão Azul, Saibam que o papinha, já está com os pagamentos de Arinelson e Jobson em atraso. Portanto parem de se sentir por cima da carne seca, e entendam que a situação financeira do freguês listrada é tão complicada quanto a do mais querido.

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