Glórias e contradições de um festival

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Por Jotabê Medeiros, Julio Maria e Roberto Nascimento (Estadão)

O gigantismo do Rock in Rio conseguiu firmar no mundo do show biz um dos maiores eventos de entretenimento do mundo. Em suas 13 edições no Brasil e na Europa, o festival reuniu até agora cerca de 7,1 milhões de espectadores – quase a população inteira da Bélgica. Deve chegar aos Estados Unidos em dois anos, em Las Vegas, numa associação com o Cirque du Soleil. E já confirmou a edição brasileira de 2015, quando completará 30 anos de existência.

Bruce Springsteen reinou soberano no Rock in Rio 2013. Misturando excelência musical com entrega e vibração, o Boss dominou a quinta edição do Rock in Rio no Brasil. Sua performance se junta a outros momentos históricos do festival, como o show do Queen em 1985; o do Guns N’ Roses em 1991; o de Neil Young em 2001; e o de Stevie Wonder em 2011.

Houve outros grandes momentos nesta edição do Rock in Rio, muitos deles fora do palco principal, como os encontros entre Ben Harper e Charlie Musselwhite e Zé Ramalho e Sepultura. E a confirmação de reputações, como Metallica e Iron Maiden. Mas ficou a sensação de que o critério comercial norteou as escolhas, que resultaram em apostas equivocadas de astros que não têm estatura para encarar 80 mil pessoas.

Outro problema é a repetição de elenco – cerca de 30% das atrações já tinham passado pela mostra. Para piorar, boa parte dos headliners não estava mostrando um show novo, mas os de carreira já batidos, como Justin Timberlake e Metallica. A falta de ineditismo cria uma certa frustração. O espaço dado para vácuos de criatividade como o grupo Jota Quest, e uma organização que não se cansa de reiterar que o foco é em ‘entretenimento’, não em música, deixa claro que a ganância está sobreposta à visão artística e ao incentivo de uma cultura musical contemporânea.

A presença brasileira cresceu, o que é bom, mas os nossos artistas ficaram devendo este ano. Durante muito tempo reclamaram, dizendo que não tinham um som à altura. Quando finalmente se equipararam em condições com os internacionais, ninguém trouxe um show novo, um disco novo. Limitaram-se a fazer desfile de hits.

Uma excessiva ênfase no apelo publicitário, verdadeiro bombardeio que ocupa ininterruptamente os telões do festival e enche de banners e produtos toda a área, também é um obstáculo para que o objetivo artístico seja preponderante. “Isso é o Rock in Rio. Uma marca de comunicação que conversa com todos os públicos e idades sem interrupção. Este ano chegamos a números surpreendentes, entre eles o de 600 produtos licenciados, o que atrai ainda mais as marcas”, afirmou Rodolfo Medina, vice-presidente do festival.

Dados de pesquisa do Ibope revelaram que 88% dos entrevistados garantem que pretendem voltar ao festival em 2015. Além disso, 77% das pessoas que estiveram presentes nas edições de 2011 e 2013 afirmaram que o evento melhorou. Houve problemas com saturação de bombas de água nos banheiros e de logística de atendimento de emergência, o que levou o Ministério Público a pedir a interdição do festival. Mas os problemas foram sanados no decorrer do evento. Do ponto de vista da logística urbana, o festival avançou muito em questões como transporte e segurança. Segundo a Secretaria de Transportes da prefeitura do Rio, das 595 mil pessoas que foram ao festival, 500 mil optaram pelo transporte coletivo.

Manaus: arena pode servir para triagem de presos

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Por Lucas Reis – Folha de S. Paulo

DE MANAUS

A Arena Amazônia, em Manaus, receberá quatro partidas da Copa do Mundo de 2014 e, em seguida, pode ter uma destinação inusitada: o estádio seria usado com um centro de triagem de presos. O Tribunal de Justiça do Amazonas enviará ao governo do Estado a sugestão para que a arena, cujas obras passam de 80% e custará R$ 605 milhões, abrigue os detentos recém-capturados. Hoje essa triagem é feita na cadeia pública Raimundo Vidal Pessoa, superlotada e em condições insalubres.

A sugestão para o futuro do estádio é do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário, órgão ligado ao TJ, que também cita o sambódromo – situado ao lado do estádio– como outro possível local de triagem. “Não vejo outro local melhor, ainda que temporário, para receber os detentos em Manaus”, afirmou o desembargador Sabino Marques, presidente do grupo de monitoramento do sistema carcerário no Amazonas. “Até que o Estado resolva o problema, construindo novas unidades prisionais, que utilize, então, estes dois espaços ociosos”, completou.

VISTORIA

O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) iniciou, há uma semana, mutirão carcerário no Amazonas e sinalizou que recomendará a desativação da cadeia, que tem capacidade para 300 presos, mas abriga, atualmente 1.100 detidos. O mutirão encontrou uma mulher detida em hospital de custódia exclusivo para homens, que também deverá ser desativado por falta de condições estruturais.

De acordo com o desembargador, a ideia é que o estádio e o sambódromo recolham os detentos por até 48 horas até que haja uma destinação prisional adequada. “O estádio ainda não está pronto, por isso é difícil prever como seria o acolhimento dos presos lá. Mas é uma área grande que pode ser utilizada. No sambódromo, há várias salas ociosas que podem ser ocupadas desde já.”

A Arena Amazônia, com capacidade para 43 mil torcedores, terá custo de R$ 6 milhões/ano em manutenção. Não se sabe quem bancará os R$ 500 mil mensais -haverá licitação para que a iniciativa privada possa administrar a arena.

TEMERIDADE

“Isso é uma temeridade. Nenhum destes dois locais têm condições de segurança para fazer este tipo de triagem de detentos”, disse o presidente da seção local OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Alberto Cabral Neto. Em nota, a Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos informou que só se pronunciará após receber oficialmente a proposta do TJ. “Assim que esta secretaria receber [a proposta], analisará a viabilidade de tal e divulgará seu parecer”, diz o texto.

A UGP-Copa (Unidade Gestora do Projeto Copa), ligada ao Estado, também informou que prefere aguardar a formalização da proposta antes de comentar o assunto.

Não seria a primeira vez que uma arena de futebol abrigaria presos. Isso já ocorreu em ditaduras. No Chile, o estádio Nacional, em Santiago, por exemplo, foi usado como campo de prisioneiros na regime de Augusto Pinochet (1973-1990).

Hora dos oportunistas

Por Juca Kfouri

Como era de se esperar, os acomodados “sindicalistas do futebol” que há décadas fazem de seus cargos meros cabides de empregos, agora surgem radicalizando, propondo até greve  e querendo tomar para si as conquistas trabalhistas dos atletas que jamais tiveram o dedo deles. É só o que têm a fazer os que há anos não chutam uma bola e jamais foram capazes de mobilizar os jogadores, simplesmente por não entender a especificidade desta categoria profissional.

O Bom Senso FC deve seguir seu caminho sem dar pelota aos oportunistas de sempre e aprofundar a discussão. Há, por exemplo, divergências sobre que calendário adotar, o gregoriano, como faz a CBF, ou o chamado calendário mundial, que um dia foi só europeu e hoje não é mais, porque adotado também pela Argentina, Uruguai, México etc.

Há entre os atletas quem defenda o gregoriano, o que faz sentido, não só pelo hábito como também pelas características das estações do ano num país tropical como o Brasil.

Ocorre que a adequação não só desfalcará menos o Campeonato Brasileiro nas janelas de negociação, como permitirá conviver melhor com as datas Fifa, sem interrupções, por exemplo, por ocasião das Copas do Mundo, além de permitir o intercâmbio com o futebol europeu nas pré-temporadas.

Mas estes são temas discutíveis. Inadmissível é ver quem não representa ninguém querer reaparecer numa hora dessas.

Às portas da redenção

Por Gerson Nogueira

bol_ter_240913_11.psDepois do empate com o Atlético-GO, o técnico Vagner Benazzi pôs o dedo na ferida da má preparação do Paissandu para disputar o Brasileiro da Segunda Divisão. Observou que as exigências do calendário impõem cada vez mais providências nem sempre fáceis de aceitar. Exemplificou com sua experiência no futebol catarinense, quando dirigia o Avaí e apostou suas fichas na competição nacional, deixando de lado o certame estadual.

Mesmo sem ter acompanhado a temporada do Paissandu, Benazzi acabou fazendo o diagnóstico preciso. De fato, a preocupação com o Parazão afetou seriamente os preparativos do clube para a Série B. Ao invés de reforçar a equipe ao longo do estadual, optou por disputar a competição com um time mais caseiro e se empolgou com a conquista do título, abrindo mão de cuidados com a montagem do elenco.

Com isso, sobreveio a ilusão de que seria possível disputar o torneio sem grandes gastos. Ocorre que o erro estratégico na formação do elenco e a dificuldade para contratar em tão curto espaço de tempo gerou o efeito contrário. O clube foi obrigado a gastar mais do que esperava, contratando jogadores disponíveis no mercado, mas de baixa qualidade.

A vinda do gerente Oscar Yamato fez crer que os maus passos iniciais seriam compensados pela capacidade de observação e a experiência do executivo. Infelizmente, Yamato até listou um grande número de atletas, mas não havia suporte financeiro para trazer todos os indicados. Com o tempo, as carências começaram a aparecer e refletir na campanha caótica que o time ora cumpre na Segundona.

Foi justamente sobre isso que Benazzi discorreu na entrevista pós-jogo. Lembrou que clubes de massa têm dificuldades em priorizar competições, mas destacou que não há outra alternativa para quem pretende ir longe. Não citou, mas o exemplo do Atlético-PR é obrigatório. Disposto a brilhar na Série A, disputou o certame estadual com o time sub-20. Até o momento, a estratégia vem dando certo, pois chegou ao G4 e está em ascensão no torneio.

Alguém só precisa dizer a Benazzi que o campeonato aproxima-se de sua reta final e não há mais tempo para chorar o leite derramado. É preciso, acima de tudo, agir rápido. Mais ou menos como ele próprio fez no segundo tempo da partida de sábado, ao perceber que precisava entrar em cena para evitar que o desastre se consumasse.

Suas orientações nos vestiários e à beira do gramado mudaram a face do Paissandu, fazendo com que alguns jogadores passassem a jogar de forma diferente, com mais aplicação e objetividade. De uma postura apática nos primeiros 45 minutos, o técnico conseguiu fazer com que o time adquirisse vida e personalidade. Criou várias chances e podia ter vencido.

Graças a essa pequena mágica, o tropeço em casa foi absorvido sem maiores cobranças. A pronta intervenção de Benazzi foi suficiente para restituir a confiança na recuperação do time. Hoje, diante da vice-líder Chapecoense, essa convicção será posta à prova.

É preciso levar em conta que o retorno de Eduardo Ramos vai contribuir para que o meio-de-campo ganhe em criatividade, deixando o esquema mais eficiente ofensivamente. Pelo grau de dificuldades, é o tipo de jogo que pode representar a redenção, apagando a imagem ruim e abrindo caminho para uma campanha de recuperação.

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Um visitante muito perigoso

A Chapecoense não é vice-líder (quase classificada para a Série A 2014) por acaso. Com 46 pontos, a equipe catarinense fez 12 jogos como visitante, vencendo seis vezes, empatando duas e perdendo quatro. O aproveitamento é de 55%. Números capazes de fazer inveja ao Paissandu, que só conseguiu um empate fora de casa.

De todo modo, o time do artilheiro Bruno Rangel sabe – por experiência própria – que vai encarar um tremendo desafio na Curuzu. Afinal, no primeiro turno, lá em Chapecó, o Paissandu teve grande atuação e vendeu caro a derrota, surgida no minuto final.

Além do respeito pela tradição do Papão e a experiência de Benazzi, ajuda também a refrear o entusiasmo dos visitantes o inesperado tropeço na última partida, contra o lanterna ABC.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 24)

O problema de Marina

Por Janio de Freitas

Tantos partidos de mero oportunismo financeiro – por certo, a maioria das três dezenas existentes – e, no entanto, Marina Silva está diante de mal explicadas dificuldades de registrar o seu, a Rede Sustentabilidade, em tempo de usá-lo para candidatar-se à Presidência.

Os números não batem quando se trata das assinaturas para atender à exigência de 492 mil apoios de eleitores. Seja quanto à quantidade coletada, a aceitação ou a rejeição das assinaturas pelos cartórios eleitorais e a sua acusada lentidão. Seja, ainda, quanto ao número alegadamente alto de rejeições feitas pelos cartórios sem as justificar.

No caso de Marina e da Rede não se passa o mesmo que de repente acometeu Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, e o seu pretendido Solidariedade. Tudo lhes correra muito bem, tratavam já de compor os diretórios regionais, quando, como se podia prever, apareceram fraudes. A relação de funcionários da Câmara, com os respectivos dados, engordou a iniciativa de Paulinho com solidariedades que nunca lhe foram dadas.

Sob muitos aspectos, Marina Silva é uma incógnita. Apesar de ter sido candidata à Presidência, até hoje não se sabe o que pensa sobre o que talvez seja a maioria dos assuntos nacionais relevantes. Mas naqueles que a identificam sem dificuldade, em alguns até com posição de liderança incontestável, o seu partido viria a cumprir um papel de realce, em representatividade e em combate político, que nenhum desempenha. O PT, porque não é mais partido de ação; o PSDB, porque não seriam posições de interesse do setor financeiro e do grande capital; o PMDB, porque é o PMDB. Ah, e quanto a assuntos da clorofila, o Verde, porque amarelou.

A decisão do Tribunal Superior Eleitoral sobre o partido de Marina, a ser tomada em dias próximos, não é só mais uma sobre a criação de mais um partido. Não será o caso de concessões que transgridam as exigências da legislação, se estiverem pedidas (o recurso ao Supremo já está desmentido). Mas o TSE deve explicações sobre vários itens da enrolada tentativa de criação da Rede. Sobretudo para esclarecer, e eventualmente tomar providências, o que se passa de fato nos cartórios eleitorais, que são de sua responsabilidade por intermédio dos tribunais regionais, também estes devedores de explicações públicas.

PRÊMIO

É impossível saber a razão do clamor quando a irmã Dorothy Stang foi assassinada, no começo de 2005, se a sua vida não valia nada. Como indica o quarto julgamento do mandante do assassinato. Apesar de condenado a 30 anos, o dono de terras e fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura está livre do regime fechado.

EM TEMPO

Muito bonita a atitude e muito significativa a entrevista de Ives Gandra Martins, sobrepondo às suas extremadas divergências ideológicas com José Dirceu a convicção de jurista, no sentido de que “não há provas contra ele”.

Sua advertência de que o Supremo, ao inovar com a teoria do “domínio do fato” para condenar Dirceu, projeta insegurança jurídica de amplo alcance, é daquelas que merecem reflexão enquanto é tempo.