Archive for 15 de setembro de 2013

Luiz Gushiken e o massacre midiático

Por Paulo Moreira Leite

Conheci Luiz Gushiken quando ele era gordo, tinha cabelos imensos e um bigode de estilo mexicano. Na última vez que nos encontramos, num quarto no Sírio Libanês, pesava menos de quarenta quilos, os cabelos tinham ficado brancos e ralos. Falava com dificuldade mas a mente seguia continuava alerta.
Conversamos sobre a conjuntura. Longe de qualquer atividade política, Gushiken estava preocupado com o resgate da história do Partido dos Trabalhadores e com o esforço dos adversários para esconder os méritos da legenda no progresso da maioria dos brasileiros.
Uma dos alvos das denúncias da Ação Penal 470, Gushiken conseguiu desmontar, uma a uma, as acusações apresentadas contra ele. Chamado a depor na CPMI, foi embora sem deixar pergunta sem resposta. Quando comentei esse desempenho com colegas de trabalho, ouvi uma resposta desoladora: “As pessoas são treinadas para mentir.”
Gushiken foi inteiramente inocentado no julgamento mas só depois de passar sete anos nas páginas de jornais. O professor de um de seus filhos chegou a criticar Gushiken em sala de aula, na frente de todos, enfrentando, mais tarde, a reação firme de Beth, sua mulher.
Se um dia você quiser saber o que é passar por um massacre midiático, acompanhe a história de Gushiken. Ele colecionou episódios que lembram que a falta de regras claras sobre o direito de resposta pouco tem a ver com o direito a liberdade e à dignidade da pessoa humana, mas é um estímulo à covardia e à incompetência. 
Publicou-se que uma empresa de consultoria da qual havia sido sócio cresceu mil vezes depois que ele assumiu a Secretaria de Comunicação do Governo Lula. Gushiken provou que os números estavam absurdamente errados e se baseavam em dados falsos, fornecidos por uma prefeitura inimiga, mas a correção jamais foi feita em público.
Toda a acusação sobre seu papel no mensalão teve como base uma entrevista de Henrique Pizzolato, publicada logo no início das denúncias. Levado para depor na CPMI, Pizzolato jamais confirmou a entrevista e disse que jamais dera declarações e que seu depoimento havia sido forjado. Pediu que lhe trouxessem fitas gravadas, que jamais apareceram. Gushiken também foi acusado de ter consumido R$ 3.000 num jantar. Provou que era mentira e ganhou uma indenização por causa disso. Mas a correção jamais foi publicada.

Como Secretário de Comunicação, Gushiken teve atitudes que honram a biografia de um homem público.

No início do governo Lula, quando a TV Globo e demais emissoras encontravam-se em situação falimentar, rondando o Planalto em busca de socorro, Gushiken concordou com a ideia de dar apoio, mas defendia uma proposta que, mesmo rejeitada, ajuda a entender seu pensamento. Já que se pedia recursos que jamais seriam pagos, o Estado brasileiro não poderia prestar serviços gratuitos. Deveria ser recompensado com uma participação acionária nas empresas que fossem beneficiadas. 
Gushiken tomou providências para disciplinar uma antiga folia com verbas de publicidade oficial, pela qual estatais negociavam anúncios a preços infinitamente superiores ao mercado, consumindo recursos públicos para subsidiar ganhos privados. Numa intervenção logo no início da gestão, exigiu negociações às claras entre as partes, criando uma mesa comum para dificuldade acertos às escondidas.
Dando início a uma política que seria generalizada e bastante ampliada no segundo mandato de Lula, por Franklin Martins, começou a desconcentrar a publicidade oficial, até então monopolizada por grandes e poucos veículos.
Nascido numa família de imigrantes de Okynawa, ilha que abriga uma das regiões mais pobres do Japão, Gushiken teve pais que venderam pastel em feira. Formado pela Fundação Getúlio Vargas, foi o principal líder dos bancários brasileiros em seu devido tempo. Teve um papel destacado na organização de uma greve nacional da categoria, em 1985.
Militante da Organização Socialista Internacionalista, matriz da tendência estudantil Liberdade e Luta, foi um dos primeiros a compreender corretamente a importância dos sindicatos oficiais, reconhecendo que poderiam servir à luta dos trabalhadores e não deveriam ser encarados como simples escolas de peleguismo e picaretagem – como sustentavam estudiosos ligados a UDN paulista e uma clientela de ultraesquerda que possuía tantos adeptos nos anos 1970 e 1980.
Lutando contra um câncer que levou dois terços do estômago em 2002, Gushiken exibia uma disposição fora do comum. Recebia atendimento médico no Planalto, para não atrapalhar o expediente.
Anos depois, arrastando o equipamento de soro que lhe servia de alimento, uma de suas diversões recentes era brincar com Kika, uma cachorrinha pequena e briguenta. Não podia alimentar-se mas discutia cardápios e receitas.
Essa capacidade de aproveitar cada momento da existência como uma experiência única e preciosa costumava confundir. Levei anos para compreender a gravidade real de sua doença.
Não era possível falar tanto no futuro, dar tantas risadas, se aquele mal fosse tão ruim como ele mesmo dizia. Saíamos para jantar e, enquanto foi possível, não recusava um copo de vinho.
Tratando-se com medicamentos experimentais que lhe permitiram uma vida mais longa do que a maioria dos pacientes, costumava dizer, nos últimos anos: “já estou no lucro.” Falava dos respeito e um certo distanciamento dos hospitais de ponta em que costumava ser tratado. “Aqui você não consegue morrer. Sempre que está ficando muito mal, aparece uma equipe e faz alguma coisa.”
Nas conversas mais recentes, tomava doses frequentes de morfina para aliviar a dor e dizia que estava “descendo a pinguela.”
De volta para casa, após nossa última conversa, enviei para seus filhos o link de uma música que expressa as melhores emoções que essa convivência me ensinou. Estou falando de “We Shall Overcome”, uma canção que se transformou num clássico da esperança simples de homens e mulheres que pretendem viver em paz, num mundo fraterno. 

15 de setembro de 2013 at 12:10 34 comentários

Celso de Mello ou a última tentativa de legitimar o enforcamento

Por Luis Nassif

luis_nassif-1Não se iludam com Celso de Mello.

Suas atitudes mais prováveis serão:

1. Votar pela aceitação dos embargos de infringência.

2. No segundo julgamento, ser o mais severo dos julgadores, fortalecido pelo voto anterior.

A aceitação dos embargos será uma vitória de Pirro. O resultado mais provável da AP 470 será um segundo julgamento rápido, em torno da tipificação do crime de formação de quadrilha. Poderá resultar em condenações um pouco menores, mas não o suficiente para livrar os condenados da prisão.

Com isso, se dará um mínimo de legitimidade às condenações. Celso de Mello é um garantista circunstancial, apenas a última tentativa de legitimar um poder que perdeu o rumo.

A deslegitimação do STF

Para entender melhor o jogo.

No primeiro julgamento, devido à atuação do grupo dos 5 – Gilmar Mendes, Luiz Fux, Ayres Britto, Joaquim Barbosa e o próprio Celso – o STF foi alvo de críticas generalizadas – embora veladas – do meio jurídico. Não há jurista ou advogado, estudante ou doutorado sério deste país que não tenha entendido o julgamento como o exercício abusivo do poder discricionário e da militância partidária.

Apenas uma coisa diferencia Celso de Mello de seus pares.

Este tentou preservar o mínimo apreço pela liturgia do cargo. Os demais perderam o pudor, exercem a politicagem mais malandra, típica das assembleias político-estudantis – como adiar o julgamento para permitir pressão da mídia sobre o voto de desempate de Celso – sem nenhuma estratégia de imagem. Querem exercer o poder plena e abusivamente. Não pensam na história, nem sequer na legitimação das sentenças, mas nos frutos imediatos de sua atuação.

Lembram – em muito – os burgueses da revolução industrial, os texanos barões de petróleo invadindo a Europa, pisando no Louvre de botas, agindo sem nenhum apreço pela liturgia do cargo.

Mal comparando, Celso é o juiz de faroeste que ouve todos os réus, trata civilizada, mas severamente, as partes e, cumprindo os rituais, manda todos para a forca, erguida em praça pública, com carrasco oficial seguindo o cerimonial. Os demais se assemelham ao juiz de barriga de fora, em um saloon improvisado de sala de julgamento, que interrompe o julgamento no meio, para não perder tempo, e manda enforcar os acusados na árvore mesmo.

São tão truculentos e primários que seguem a truculência primária da mídia, não cedendo em nenhum ponto, pretendendo o aniquilamento total a vitória completa, o extermínio, a vitória em todos os quadrantes, mesmo nas questões menos decisivas.

Se tivessem um mínimo de esperteza, aceitariam os embargos, atrasariam por algumas semanas o final do julgamento, e profeririam as mesmas sentenças duras mas, agora, legitimadas pela aceitação dos embargos. Mas são muito primários e arrogantes para pensar nesses desdobramentos.

A deslegitimação do padrão Murdoch

Essa é a perna mais fraca da estratégia de Rupert Murdoch e de sua repetição pelo Truste da Mídia (e pelo cinco do STF), quando decidiram conquistar o espaço político para enfrentar os verdadeiros inimigos – redes sociais – que surgiram no mercado.

A estratégia demandava insuflar a classe média, ainda seguidora da mídia, com os mesmos recursos que marcaram grandes e tristes momentos da história, como o macarthismo, o nazi-fascismo europeu dos anos 20 e 30, a Klu Klux Klan nos anos 60.

Essa estratégia exige uma linguagem virulenta, que bata no intestino do público, e pregadores alucinados, que espalhem o ódio. Qualquer espécie de juízo – isto é, da capacidade de separar vícios e virtudes – compromete a estratégia, porque ela se funda na dramaturgia, no maniqueísmo mais primário, na personificação do mal, na luta de extermínio.

Não há espaço para nenhuma forma de grandeza, para respeito ao adversário caído, para pequenas pausas de dignidade que permitissem legitimar minimamente o morticínio e dar um mínimo de conforto aos seguidores de melhor nível.

Por isso mesmo, nenhuma personalidade de peso ousou aderir a esse novo mercado que se abria. E ele passou a ser ocupado pelos aventureiros catárticos, despejando impropérios, arrotando poder, mostrando os músculos, ameaçando com o fogo do inferno, todos vergando o mesmo figurino de um Joseph McCarthy e outros personagens que foram jogados no lixo da história.

Guardadas as devidas proporções, foi essa divisão que se viu no Supremo.

A recuperação dos rituais

O universo jurídico ainda é o mais conservador do país, o mais refratário às mudanças políticas e sociais, aos novos atores que surgem na cena pública. Certamente apoiaria maciçamente a condenação dos réus.

Mas o que viam no julgamento?

Do lado dos acusadores, Ministros sem nenhum apreço pela Justiça e pelos rituais, exercitando a agressividade mais tosca (Gilmar), o autoritarismo e deslumbramento mais provinciano (Joaquim), a malandragem mais ostensiva (Fux), a mediocridade .

Do lado contrário, a dignidade de Ricardo Lewandowski, um seguidor das tradições das Arcadas, exercendo o papel que todo juiz admira, mas poucos se arriscam a seguir: o julgador solitário, enfrentando o mundo, se for o caso, em defesa de suas convicções.

Aí se deu o nó.

Por mais que desejassem a condenação dos “mensaleiros”, para a maior parte dos operadores de direito houve enorme desconforto de se ver na companhia de um Joaquim, um Gilmar, um Ayres de Brito e do lado oposto de Lewandowski.

Pelo menos no meio jurídico paulista, ocorreu o que não se imaginava: assim como os petistas são “outsiders” do universo político, os quatro do Supremo tornaram-se “outsiders” do universo jurídico. E Lewandowski, achincalhado nas ruas, virou – com justiça – alvo da admiração jurídica. Além de ser um autêntico filho das Arcadas.

É aí que surge Celso de Mello para devolver os rituais, remontar os cacos da dignidade perdida da corte, promover a degola dos condenados mas sem atropelar os rituais, Ele não é melhor que seus companheiros. Apenas sabe usar adequadamente os talheres, no grande festim que levará os condenados à forca.

15 de setembro de 2013 at 11:08 14 comentários

Beijoqueiro cara-de-pau

Desembaraço natural ou a arte da sedução. Um homem sai abordando jovens mulheres pelas ruas – e praias – da Flórida sempre usando as seguintes perguntas: “Você me acha atraente?”, “você tem namorado?” e “qual seria sua desculpa para não me beijar?”. O questionário é recebido com estranheza pelas garotas. Uma diz ter namorado, mas logo explica que não é exatamente um relacionamento sério. Outra, sozinha em uma mesa, ao ser questionada por que está desacompanhada, diz que está à espera de uma amiga, mas ouve com atenção o que o rapaz tem a dizer. No final do questionário, todas riem e beijam – ou são beijadas – pelo cara-de-pau. Produzido pelo “ator, comediante e piadista”, como se autodefine o norte-americano de origem russa Vitaly Zdorovetski, o vídeo – no ar há menos de um mês – já está perto de alcançar os 5,5 milhões de acessos no Youtube.

15 de setembro de 2013 at 9:24 5 comentários

Além do julgamento

Por Janio de Freitas

Tanto nos ataques mútuos e entremeados de inconfiáveis elogios, como nas entrelinhas das formulações teóricas dos magistrados, as sessões do Supremo Tribunal Federal têm oferecido, ainda que sem tal propósito, temas de interesse mais geral do que o destrói ou não destrói José Dirceu. Foi pródiga, nesse sentido, a sessão em que o Supremo se inviabilizou no empate de cinco a cinco, que vale o mesmo que o empate de zero a zero, duas partes que se anulam. O que reduziu todo o poder de decisão, no Olimpo do Judiciário, à voz de um só.

A discussão entre os ministros Marco Aurélio Mello e Luís Roberto Barroso, por exemplo, tem a ver com mais do que a influência da opinião externa, ou “do país”, sobre o tribunal. Em resposta a Barroso, que se disse subordinado à sua consciência de juiz e não à multidão, e muito menos ao que dirão os jornais do dia seguinte, Marco Aurélio proclamou-se subordinado, sim, “aos contribuintes” a que “deve contas”.

É um assunto que deveria figurar entre as preocupações permanentes das redações e dos seus jornalistas, dos críticos culturais, dos colunistas de costumes, de procuradores e promotores públicos, e de muitos outros. Deveria. A regra predominante, considerado o conjunto das atividades sensíveis ao tema, é procurar se “dar bem” fazendo “média” com a tendência mais favorecedora.

No caso suscitado pelos dois ministros, a prevalência da opinião mais exposta poderia até dispensar os juízes e os julgamentos, bastando aplicar a presumida vontade dos “contribuintes”. E ainda chamar isso de “democracia direta”, para alegria de certos esquerdoides.

Mas o risco não é de desemprego. A “vontade do povo” foi um argumento utilizado por juízes na Alemanha nazista e depois repetido nos julgamentos em que foram eles os réus, no pós-guerra. E, mesmo sem chegar a extremos políticos, sabe-se que a opinião do povo, da multidão, do contribuinte, ou lá que categoria se use, é manipulável e pode ser distorcida pelos meios que aparentemente a refletem quando, de fato, a induzem. Opinião pública: o que é isso, afinal?

Não foi Marco Aurélio nem foi Barroso quem suscitou o tema. Foi Gilmar Mendes.

A sessão seria cansativa, com votos muito extensos, não fosse Gilmar Mendes oferecer uma representação criativa, e a TV estava ali também para isso, como sempre. Dramático, espacial nos gestos teatrais, a voz ondulante como nos mares bravios, o ministro tonitruou um discurso à maneira dos tribunos das oposições de outrora, bem outrora. Estava preocupado porque “o país está a nos assistir” (o infinitivo dos portugueses, em vez do gerúndio dos brasileiros, é permanente, digamos, no seu estilo). E o STF não pode decepcionar esses espectadores, povo, contribuintes, as ruas. Preocupação muito reiterada, em especial, com referência ao número absurdo de sessões consumidas pela Ação 470: já 53! Um absurdo! E tome exclamações.

Foi bom o ministro recorrer à velha oratória, mas não à velha aritmética. Iria lembrar-se de que a Ação 470 levou 38 réus ao STF. Logo, implicou 38 julgamentos. Em média, portanto, cada um não ocupou nem uma sessão e meia. Incluídas no total e na média as sessões que não foram exatamente de julgamento, mas ocupadas com os recursos chamados embargos declaratórios e já com os combates pelos embargos infringentes. Se a aritmética é lembrada, lá se ia um pedaço fundamental da representação.

Tanta preocupação com o esperado do STF pelos espectadores e contribuintes (não são necessariamente a mesma coisa, sabendo-se que a classe alta acompanha o julgamento com o mesmo interesse que aplica na sonegação –e há quem diga que pelos mesmos motivos) leva a alguma dúvida. Porque, até onde se soube com certeza em nossos dias, o que todo cidadão brasileiro pleiteia do Judiciário é a segurança de que cada um conte com a busca da verdade e da justiça possíveis, para que ninguém seja injustiçado por pressa de juiz nem por interesses políticos ou econômicos.

15 de setembro de 2013 at 4:10 4 comentários

Capa do Bola, edição de domingo, 15

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15 de setembro de 2013 at 4:04 5 comentários

O futebol e o novo torcedor

Por Gerson Nogueira

bol_dom_150913_23.psMar de sentimentos e expectativas, nem sempre fáceis de corresponder. Assim é o futebol. O conflito está na diferença entre o olhar do torcedor, essencialmente conduzido pela paixão, e o comprometimento profissional que os atletas precisam ter na era da mercantilização galopante. A situação chega ao nível do impasse absoluto quando se espera que o jogador, empregado do clube, seja tão comprometido e apaixonado quanto o torcedor.

Na condição de trabalhador remunerado, cobra-se do futebolista dedicação e disciplina em regime espartano. Deve estar apto, física e mentalmente, a desempenhar suas funções em campo. Exige-se que tenha hábitos de monge tibetano, imunizado contra as tentações do mundo pagão e das barcas noturnas.

Ao mesmo tempo, o torcedor fica tocado quando o boleiro demonstra publicamente sua paixão pela camisa que defende. Não aquele encanto fugidio e quase sempre hipócrita do beijinho no escudo, cena recorrente em apresentações de atletas no Brasil. Não. O fã não se contenta mais com gestos teatrais, prefere atitudes práticas – e heroicas. Não se satisfaz com discursos, mas com demonstrações inequívocas de amor.

Jogar com a cabeça arrebentada ou o braço apoiado na tipoia, à la Franz Beckenbauer, assegura muitos pontos na escala de encantamento que as torcidas têm para avaliar os jogadores do time. Carrinhos insanos rumo à linha de fundo para tentar evitar um escanteio, mesmo que seja humanamente impossível alcançar a bola, também ajudam bastante.

Como paixões nem sempre podem ser mensuradas, surgem aqui e ali exemplos de forçada identificação, visando ludibriar os torcedores mais ingênuos. Existem atletas que conseguem exibir raça e lealdade extremas, independentemente do clube que estejam defendendo. Não deixa de ser uma atitude profissional, embora fria e distante.

No outro extremo, aprendemos a ver o torcedor como ser primitivo, incorporado pelo fanatismo e sempre a um passo do destempero. Seria, por assim dizer, o lado sentimental do grande negócio que envolve o jogo.

Acontece que criar um fosso entre atletas profissionais e torcedores românticos é desprezar o fato de que aficionados trilham cada vez mais um caminho de conscientização sobre seus direitos. Os programas de sócio-torcedor são a face mais visível dessa nova tendência, que faz do fã um consumidor e eleva o ato de torcer a um patamar necessariamente mais profissional. Começa a ficar para trás aquele torcedor descompromissado, que apenas pagava o ingresso momentos antes do jogo.

Os novos papéis talvez ainda não estejam bem claros por aqui, mas os exemplos lá de fora servem como referência. Torcedores que contribuem regularmente para o sucesso de um clube aprendem na marra que vitórias são importantes, mas não podem ser a condição primordial para que siga pagando as mensalidades.

O decisivo apoio financeiro nas fases negativas é a chave para a construção de times vitoriosos mais à frente. Fãs do Barcelona, do Manchester United, do Bayern e do Real Madri sabem disso muito bem.

Não significa que derrotas sejam recebidas com prazer. Torcedor será sempre torcedor, sendo inimaginável que aceite perder com passividade. Prevalece, porém, a noção madura de que o esporte é feito de altos e baixos, sendo que o sócio-torcedor não pode se limitar aos bons momentos. Precisa ser engajado e solidário, sempre.

O anseio por resultados passa, então, a ser um objetivo comum, partilhado por torcedores e pelos profissionais envolvidos no processo. O sucesso normalmente vem quando todos têm plena consciência de suas responsabilidades e direitos, não se furtando a participar e influir com ideias.

No Brasil, a nova era já chegou a clubes como Internacional, Grêmio, Atlético-PR, Coritiba, São Paulo e Corinthians. Avança rápido e logo deve atingir as outras agremiações do bloco de elite. Por aqui ainda não se sabe quando. Nem se este novo mundo será bom para todos.

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A brava resistência dos dinossauros

Em tempo de mudança de comportamento nos estádios, soa até inusitada a rabugice de veteranos torcedores, que não abrem mão do prazer de cornetar até ídolos incontestáveis e desafiar o coro dos contentes. Caso – testemunhado pelo jornalista Thales Machado, da ESPN, nas cadeiras do Maracanã durante o jogo Botafogo x Corinthians – de “seu” Walter, um botafoguense enfezado que detona ninguém menos que Clarence Seedorf.

“Eu faria esse gol com a bunda! Chega, chega desse Seedorf! Não joga nada esse cara! Tira esse cara, Oswaldo, tira esse holandês de m… pelo amor de deus!”, vociferava Walter enquanto Thales anotava para nos contar depois em delicioso texto que transcrevi no blog.

“Só eu enxergo que esse traste faz mal ao Botafogo?”, arremataria o furibundo Walter, indiferente à adoração que 99,9% dos botafoguenses nutrem pelo meio-campista holandês. Torcedor à moda antiga é assim, capaz de enfrentar tudo e todos para fazer valer suas ideias.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 15)

15 de setembro de 2013 at 3:07 1 comentário

O passado é uma parada…

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Fachada do primeiro prédio da Super Rádio Marajoara AM 1130, na avenida Assis de Vasconcelos, junto à Praça da República, em 1982. Fotografia pertencente ao arquivo particular do empresário Carlos Santos, proprietário da emissora.

15 de setembro de 2013 at 2:57 8 comentários

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