Radiografia de um Leão em crise

Por Gerson Nogueira
gerson_26-03-2013 (1)Mais que as hesitações do Paissandu na atual fase do returno, o que chama atenção e provoca debate é a queda vertiginosa de produção do Remo. De líder do turno até a decisão, o time se transformou num bando sem rumo, incapaz de reagir quando sofre um gol e alvo fácil de qualquer ataque adversário. Várias teses têm sido levantadas para justificar a assombrosa derrocada azulina, mas, como é próprio do futebol, uma só questão não explica todo o problema.
O Remo entrou em parafuso aos poucos, embora os resultados adversos só estejam se enfileirando agora. Além da instabilidade emocional, que tem tido influência muito forte sobre os jogadores, é preciso analisar a trajetória do time sob o comando de Flávio Araújo para entender o que se passa. No final do ano passado, o elenco estava reduzido praticamente ao volante Jonathan e a alguns garotos da base. O novo treinador, cacifado pelo título nacional da Série D com o Sampaio, chegou trazendo uma legião estrangeira para arrumar a casa. Fez o que tinha que ser feito, afinal o Remo precisava de time para as competições do primeiro semestre.

Ocorre que Araújo sempre trabalhou em clubes nordestinos e foca suas observações no futebol da região. Trouxe jogadores que conhecia, indicou alguns outros e o Remo de repente virou um time de forasteiros (sem qualquer conotação discriminatória nesta observação). Com tantos importados, surgiu de cara a preocupação em relação ao clima de começo de ano, sempre pródigo em chuvas – e gramados enlameados.

Ao longo do primeiro turno, com o inverno ainda pouco intenso, o Remo rendeu e foi levando de vencida, mesmo sem ter um conjunto afinado. O entrosamento precário deu margem a jogos duríssimos contra adversários teoricamente inferiores. Ainda assim, a equipe se manteve invicta até o jogo decisivo. A perda do turno adquiriu uma importância maior porque Araújo e seus comandados se prepararam para conquistar logo a vaga na final do campeonato. Trabalharam duro nesse sentido.
A frustração advinda do fracasso juntou-se à realidade de chuvas pesadas ao longo do returno, contribuindo para o esgotamento físico de um grupo pouco afeito a essas condições climáticas. Vai daí que o Remo passou a acumular, além do habitual enrosco tático do time, dificuldades extras vinculadas à exaustão dos atletas. Em praticamente todos os jogos o time tem acusado deficiência de condicionamento nos minutos finais.
Acrescente-se a esse quadro a crônica indefinição tática do time, que tem como “xis” do problema a falta de um meio-de-campo efetivo. Ao contrário do Paissandu, campeão do turno, o Remo não conseguiu montar uma meia-cancha que tenha eficiência na marcação e boa produção criativa. Ora, desde os tempos de Gentil Cardoso e Gradim, que o futebol começa e termina no meio. Quem não ajusta o setor quase sempre paga um alto preço por isso. Todos os grandes times da história – Hungria de 54, Brasil de 70, Holanda de 74, Milan de Arrigo Sacchi, Barcelona de Pep Guardiola – têm como traço comum a altíssima qualidade de seus meio-campistas.
Em torno de um meio sólido constrói-se um time. O Remo tentou fazer o caminho inverso: montar uma equipe sem meio-campo. Não podia ter futuro. Ganha alguns jogos, pode faturar um turno, mas estará sempre sujeito a sérios problemas no percurso. Escrevi sobre isso pelo menos três vezes ainda no primeiro turno.
No momento, a dois dias do jogo mais importante da temporada, Araújo está diante do dilema de preservar o 3-5-2 de sua predileção – e reprovado na prática – e o 4-4-2 tímido, que não se consolida porque a armação fica em segundo plano. Para encarar o também desesperado Águia, as peças disponíveis no Baenão permitiriam uma formação razoavelmente ofensiva, sem tanta desproteção defensiva: Fabiano (Dida); Zé Antonio, Carlinhos Rech, Mauro e Alex Ruan; Gerônimo, Tragodara, Clebson e Diogo Capela; Leandro Cearense (Galhardo) e Val Barreto. O problema está no fato de que essa alternativa jamais foi treinada, embora tenha a ampará-la o fato de que estes são os melhores jogadores disponíveis.
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Federação ameaça inviabilizar o campeonato
O absurdo desmembramento da rodada decisiva do returno pode significar a chamada pá de cal num campeonato marcado por omissões e interferências infelizes da Federação Paraense de Futebol. Logo depois de uma rodada marcada pelo inacreditável jogo disputado numa piscina – no caso, o campo do estádio Zinho Oliveira, em Marabá -, em flagrante agressão às normas da Fifa, ao Estatuto do Torcedor e ao Código de Defesa do Consumidor, surge a tese de que o jogo entre Santa Cruz e Paissandu seja disputado na quinta-feira, um dia depois dos demais confrontos. Espanta que a simples menção à ideia de mudança não venha acompanhada pela pronta e enérgica reação dos demais clubes disputantes do campeonato.
Caso o disparate da rodada desmembrada se confirme, a competição estará definitivamente avacalhada e passível até de suspensão por vias judiciais. No fundo, todo mundo sabe que a atual direção da FPF é capaz de qualquer coisa para preservar interesses de sua cúpula dirigente, embora quase sempre isto conflite com a defesa dos interesses do futebol paraense. A autorização dada por um alto cartola da entidade para que os jogos de Paragominas e Marabá fossem disputados mesmo com gramados inundados vem ratificar a imagem de descompromisso que marca a atual gestão.
Como esquecer a forma canhestra como o triste episódio do megafone registrado na partida entre Santa Cruz e PFC foi tratado pela FPF? Surpreendentemente, o presidente da Tuna por má conduta contra a arbitragem em incidentes verificados em Cametá, mas a entidade fechou os olhos para as arbitrariedades cometidas em Cuiarana. O árbitro central teve a coragem de escrever na súmula que o bufão flagrado berrando ao megafone era uma figura não identificada. Depois dessa presepada, tudo é possível.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 26)

Rodada decisiva do returno é desmembrada

Rasgaram todos os critérios normais e válidos de definição de vaga no Campeonato Paraense. O desmembramento da rodada decisiva do returno, marcada para a quarta-feira (27), com a mudança do jogo Remo x Águia para quinta-feira, avacalha de vez com uma competição marcada por interferências canhestras e omissões ridículas da Federação Paraense de Futebol, como no caso do megafone em Cuiarana. Depois de reunião realizada na tarde desta segunda-feira, na FPF, dirigentes de Paissandu, Remo e Tuna concordaram com as alterações sugeridas e a sétima rodada ficou assim definida: na quarta-feira, 27, jogam São Francisco x Cametá, no estádio Barbalhão, e Santa Cruz x Paissandu, no Mangueirão. Na quinta-feira, 28, jogam PFC x Tuna, na Arena Verde, e Remo x Águia, no Baenão. A alegação para a mudança de planos foi a existência de um laudo dos Bombeiros interditando o estádio Parque do Bacurau – sendo que, domingo, Cametá e Santa Cruz jogaram normalmente lá. Com isso, a FPF propôs ao Santa Cruz que mandasse o jogo em seu estádio, com portões fechados. O clube não aceitou e agora tentará, por via judicial, paralisar o campeonato.

Parazão 2013 – Classificação geral

TIMES PG J V E D GP GC SG AP
Paissandu 38 17 11 5 1 43 20 23 74.5
Remo 33 17 10 3 4 30 23 7 64.7
Paragominas 24 15 7 3 5 25 23 2 53.3
Santa Cruz 17 13 5 2 6 15 18 -3 43.6
São Francisco 14 15 4 2 9 22 32 -10 31.1
Cametá 13 13 3 4 6 14 18 -4 33.3
Tuna 11 13 3 2 8 12 18 -6 28.2
Águia 11 13 2 5 6 17 26 -9 28.2

Crise técnica ou emocional?

S FranciscoXRemo Parazao2013-Mario Quadros (17)

Por Gerson Nogueira

O que leva um time a cair no despenhadeiro a cada gol tomado? Quem conseguir uma resposta para esse enigma terá desvendado o mistério que envolve a derrocada do Remo no returno do Campeonato Paraense. Ontem, em Santarém, pela terceira vez consecutiva, o time desabou ao sofrer gol – no caso, o segundo do São Francisco, aos 35 minutos de bola rolando.

Como já havia acontecido anteriormente contra o Paissandu e o Paragominas, o time de Flávio Araújo acusou o impacto do gol e se desnorteou por completo. Passou a errar passes como um time de garotos e a se atrapalhar na marcação, permitindo que o São Francisco tomasse as rédeas da partida.

O ponto de desequilíbrio parece ser a insegurança que tomou conta de todos os jogadores. Não se sabe o que ocorreu internamente, mas o fato é que o Remo perdeu o bonde no último Re-Pa. As circunstâncias daquela derrota, que se desenhou depois de um gol surgido quando o jogo ainda era equilibrado, tiraram a tranquilidade e a força emocional do elenco.

No gramado do estádio Barbalhão, a crise de identidade ficou patente na volta para o segundo tempo. O São Francisco vencia por 2 a 1 e mostrava-se à vontade em campo, embora não fosse uma partida exuberante. Qual a vacina para conter um time em ascensão no jogo? Óbvio: tentar interromper o processo, através de mudança de jogadores ou de posicionamento.

O Remo não fez nenhuma das duas coisas. Entregou-se ao nervosismo. Seus zagueiros exprimiam esse sentimento, cometendo faltas desnecessárias e falhando seguidamente. Logo aos 4 minutos, em cruzamento que atravessou a área, o zagueiro Aldair cabeceou a bola na trave. Cinco minutos depois, Jefferson, o melhor do jogo, invadiu a área e foi chutar na cara do gol. Fabiano saiu com os pés e salvou.

S FranciscoXRemo Parazao2013-Mario Quadros (20)

A confusão que dominava o time não era percebida pelo técnico, que deixou o barco correr. Veio o terceiro gol, após cobrança de falta pelo lateral Levy. Como em lances anteriores, a bola passou pelos zagueiros e foi desviada pelo meia Mário Augusto.

Só então, com a derrota desenhada, o técnico resolveu partir para mudanças. Entraram Diogo Capela e Val Barreto. Saíram Carlinhos Rech e Fábio Paulista. Val pouco acrescentou, mas Capela botou ordem na meia-cancha, lançando e aparecendo para finalizações. Participou dos três lances mais agudos do Remo na etapa final. Pelo que mostrou fica ainda mais difícil entender sua condição de reserva num time tão carente de qualidade na criação.

O São Francisco, sempre seguro e superior, acabou perdendo mais duas oportunidades e Berg apareceu em campo aos 46 minutos, disparando um chute no travessão. O Leão santareno estava sem vencer há nove rodadas e conquistou seus primeiros pontos no returno. Depois do vexame, o meia Tiago Galhardo repetiu a frase do goleiro Evandro e disse que era um absurdo perder para o pior time do campeonato. Faltou completar que quem perde não tem o direito de desqualificar o vencedor. (Fotos: MÁRIO QUADROS/Bola)

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Águia guerreira mata na hora

O lado emocional parece ter tido papel decisivo também no clássico de sábado entre Tuna e Paissandu, disputado no Mangueirão. Depois de estabelecer vantagem de 2 a 0, os bicolores relaxaram e acabaram por permitir a reação cruzmaltina. Foi o segundo empate do Papão depois do Re-Pa.

É claro que a ausência de Eduardo Ramos, principal destaque do time, pesou na balança. Mas não explica como a equipe deixou escapar uma vitória que parecia líquida e certa até 42 minutos do segundo tempo. Não foi a primeira vez no campeonato que o Paissandu permitiu a um oponente tirar diferença nos instantes finais, mas desta vez exagerou na dose.

O resultado reforçou a posição da Tuna na briga por uma vaga nas semifinais e deixou o Paissandu dependente de um bom resultado contra o Santa Cruz, fora de casa.

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Paragominas confirma grande fase

O Paragominas confirmou o bom momento conquistando a segunda vitória seguida em circunstâncias desfavoráveis. Na quinta-feira havia derrotado o Remo na Arena Verde completamente alagada. Ontem, também sob forte chuva, superou o Águia no Zinho Oliveira.

As duas vitórias asseguraram ao time de Charles Guerreiro a classificação antecipada às semifinais, com excelentes possibilidades de conquistar vantagem no cruzamento. Na última rodada, enfrentará a Tuna em Paragominas e em caso de vitória ficará em primeiro lugar.

Já o Santa Cruz percorre caminho menos tranquilo. O empate em Cametá deixa a equipe sob risco de exclusão do G4 na última rodada, pois cruza com o Paissandu na última rodada.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 25)