Vinte anos de Cartão Verde

CARTÃO VERDE RIVELINO _ESTRÉIA_FOTO JAIR MAGRI (154)

Um dos mais antigos programas esportivos do país completa 20 anos nesta semana. É o Cartão Verde, da TV Cultura de São Paulo, cujo primeiro apresentador foi o jornalista José Trajano. A atração, comandada hoje por Vladir Lemos e os comentaristas Roberto Rivellino, Vitor Birner e Celso Unzelte, é exibido às terças-feiras, às 22h, ao vivo pela emissora. Nesta semana, Trajano será o convidado especial e vai resgatar a história do Cartão Verde, no qual esteve à frente por sete anos, entre 1993 e 2000. Nessa época, seus companheiros de bancada eram os jornalistas Armando Nogueira e Luiz Alberto Volpe. Os técnicos Carlos Alberto Parreira e Telê Santana foram os convidados do primeiro programa, no dia 7 de março de 1993. Atualmente, Trajano é comentarista e atua no canal ESPN Brasil, participando dos programas Linha de Passe Pontapé Inicial, e na Rádio Estadão ESPN.

O futebol dos gerentes

Por Leandro Beguoci

O Maracanã morreu. O Mineirão também. O Palestra Itália já não está mais entre nós. Até o imortal Olímpico nos deixou numa tarde ensolarada de domingo. Aliás, para falar a verdade, eu mesmo não estou me sentindo muito bem… Os últimos meses têm levantado um cheiro suave de coroa de flores e, sabe como é, sou altamente influenciado por esse clima de velório. Quando morre uma parte do futebol, uma parte (grande) de mim também se vai.

Futebol-dos-gerentesAlguns desses estádios vão ser inaugurados com os mesmos nomes, é verdade. Outros vão se chamar arena mais o nome do time ou do antigo estádio. Provavelmente vão ser inaugurados por CEOs (o novo nome do velho cartola) que vão fazer de tudo para convencer os stakeholders (acostume-se: esse será o novo nome do velho torcedor) de que, afinal, o espírito do estádio foi apenas transposto para uma nova estrutura.

Mas, da mesma forma que você não ressuscita o seu avô quando coloca o nome dele no seu filho, manter o velho nome em um novo estádio é apenas uma homenagem. Bonita, é verdade. Bonita e inútil.

O que tem acontecido nos estádios, sob o pretexto da Copa do Mundo, é apenas a última parada de um caminho longo. O futebol, no Brasil, não é apenas um esporte. Já seria bastante, aliás, se fosse apenas um esporte imensamente popular. O futebol, nesta parte da América do Sul, é uma manifestação cultural poderosa, tão intensamente ligada à identidade do Brasil quanto a língua portuguesa. É pelo futebol que organizamos nosso tempo, nossas relações familiares e, em muitos casos, julgamos o caráter de outra pessoa.

É diferente dos Estados Unidos, por exemplo, onde os times se chamam franquias e mudam de cidade ou de cores como uma rede de lanchonete. Também é diferente do vôlei jogado no Brasil, onde os times têm nomes de empresas. Nos dois casos, a única ligação passional entre o time e o torcedor é o lugar onde os dois estão. O futebol transcende a localização. Um gremista, ao se mudar para o Recife, não passa a torcer para o Sport.

Isso acontece porque o futebol disseminou por toda a sociedade o estilo de vida dos trabalhadores das fábricas, que se espalhavam por amplas áreas das maiores cidades do país. Ir a um estádio de futebol, alguns anos atrás, era uma experiência semelhante a começar o dia em uma indústria. A comida na porta, as longas filas para entrar, a simplicidade do concreto armado, o desconforto das arquibancadas, o companheirismo de quem compartilha o mesmo destino difícil e suado.

À medida que o país mudou, o futebol também se transformou. Agora, quem vai aos estádios são as pessoas que trabalham em escritórios com ar condicionado, janelas amplas, em áreas próximas a shopping centers e usam palavras em inglês, mesmo com um belo similar em português – espero, aliás, que partida nunca seja chamada de “match” por aqui. Essas pessoas, filhas dos trabalhadores que frequentavam os estádios, agora querem que as arenas sejam mais parecidas com o mundo em que elas vivem. Com a Copa do Mundo, isso foi possível. É o fim do churrasquinho. É o começo do espaço gourmet.

Esse processo não aconteceu apenas no Brasil. A Inglaterra passou por isso na década anterior. A partir da experiência inglesa, é possível concluir que não são apenas os estádios que mudaram, mas a própria forma de amar o time. O torcedor que frequenta essas novas arenas dificilmente vai arrumar confusões violentas ou arremessar objetos no gramado. Esse novo torcedor quer conforto e segurança. Por outro lado, a relação dele com o time é muito mais de consumidor do que de amante. Ele fica decepcionado com o resultado como fica triste quando compra um carro novo que começa a dar defeito. Tem vontade de reclamar para o SAC do departamento de futebol. Ele não está preocupado apenas com quem fez o gol mais bonito ou qual time tem mais craques, mas quem tem o melhor departamento de marketing e quem lidera o ranking de venda de camisas. Talvez, no futuro, esteja disposto a gritar o nome do time mais o nome do patrocinador.

Não é uma questão de julgar, agora, se essas mudanças são boas ou ruins. O fato é que o futebol brasileiro morreu. E outro está começando a nascer em seu lugar. As arenas são apenas a forma em concreto e vidro que materializam essa mudança. Resta saber o quanto de paixão vai restar neste futebol dos naming rights.

Três pontos
Beatles e o Liverpool
Um dos momentos mais emocionantes do futebol inglês aconteceu em 1964, num Liverpool x Arsenal. O estádio, cheio muito além da capacidade, começou a cantar She Loves You, um dos maiores sucessos dos Beatles.

Heysel Stadium
Por outro lado, o Liverpool foi protagonista do desastre no Heysel Stadium, na Bélgica. Em 1985, na final da Champions League, contra a Juventus, 39 pessoas morreram e cerca de 600 ficaram feridas numa briga que traumatizou uma geração de torcedores.

Racismo
Os novos estádios ingleses são mais modernos, limpos e confortáveis. Sempre cheios, especialmente com pessoas das classes média e alta. Supostamente, mais educadas e tolerantes. Mas os casos de racismo na Premier League são comuns, ano após ano. A casa nova não acaba com todos os problemas, afinal.

As variações do ataque remista

Por Gerson Nogueira

bol_sex_010313_15.psEnquanto o mundo vive a expectativa pelo novo papa e a farinha custa os olhos da cara, há um cidadão sem motivos para reclamar da sorte. Refiro-me ao técnico Flávio Araújo, do Remo, que vivencia um dilema positivo. Precisa escolher, a cada jogo, qual o jogador de área que entra como titular ao lado de Fábio Paulista, seu principal homem de velocidade no ataque.

Ao contrário do que normalmente ocorre nesses casos, Araújo tem várias e qualificadas opções. Como tem procurado revezar a preferência, dois jogadores aparecem como titulares. Leandro Cearense é o mais utilizado para começar as partidas e, no segundo tempo, abre espaço para a entrada de Val Barreto. Branco, a terceira opção, é menos acionado, mas normalmente vai no banco de suplentes.

Cearense, artilheiro do Parazão 2011 pelo Cametá, é um centroavante de perfil técnico. Tem bom passe, controla bem a bola e é especialista na função de pivô, preparando jogadas para um segundo atacante que chega. Quando bem lançado, faz também o papel habitual do atacante enfiado na área, disputando bolas pelo alto ou tentando a antecipação aos zagueiros, como no gol da vitória sobre o Paissandu na fase classificatória do turno.

Val Barreto, um dos goleadores do time, ganhou maior identificação com o torcedor devido aos gols que costuma marcar, misto de explosão e pontaria. O idílio com a torcida começou logo na estreia quando balançou as redes contra o Santa Cruz disparando de fora da área um tubo certeiro no ângulo. Um golaço, que foi sucedido por outros tentos igualmente bonitos e decisivos.

De estilo forte e impetuoso, quase um tanque, Barreto torna-se perigoso por surpreender a marcação. Contra o Paragominas, poucos minutos depois de substituir Cearense, disputou corrida com um zagueiro e chegou à frente para o arremate certeiro.

Bom nas arrancadas e no jogo aéreo – como no gol de abertura do Re-Pa da quarta rodada –, tem sido lançado por Araújo na etapa final, quando a defesa adversária já está fisicamente desgastada. Além da preferência da torcida, Barreto demonstra maior entrosamento com Paulista, funcionando como complemento para as arrancadas do velocista.

O terceiro atacante à disposição de Araújo é o experiente Branco, atacante que brilhou no São Raimundo e no Águia e que busca afirmação no Remo. Rápido dentro da área, com bom senso de oportunismo, pode também ser usado como extrema e por isso tem sido aproveitado como substituto de Paulista.

Com exceção da dupla Cearense-Branco, todas as combinações possíveis já foram usadas por Araújo no campeonato, o que comprova a utilidade do quarteto. A situação é tão tranquila que, dependendo da situação, o técnico ainda pode apelar para uma improvisação de emergência, lançando Tiago Galhardo como segundo atacante, função que o meia-armador desempenhou algumas vezes no Bangu.

———————————————————–

Rivais seguram contratações

O Re-Pa de domingo vai determinar as providências de Remo e Paissandu quanto a contratações para o returno, que começa na terça-feira, 5. Quem perder a Taça Cidade de Belém certamente vai procurar reforços, que, nos dois casos, já estão engatilhados.

Dirigentes do Paissandu não confirmam nomes, mas pelo menos um atacante de área foi sondado. Só virá, porém, se o resultado for desfavorável no clássico de domingo. Em caso de vitória, clube evitará a despesa, a fim não onerar a folha de salários antes da Série B.

O raciocínio vale para a diretoria remista, cujas negociações com Tiago Potiguar estão em compasso de espera. Detalhes separam as partes de um acordo, mas é certo que o meia-atacante dificilmente será contratado se o time conquistar o turno.

Por ora, o veterano Fumagalli (ex-Sport e Guarani) surge como principal atração do segundo turno. Vem defender o endinheirado – embora não patrocinado – Santa Cruz de Cuiarana.

———————————————————–

Estatuto desrespeitado

Apesar das incontáveis reuniões com as autoridades da segurança e do Ministério Público, os clubes não aprendem. O Estatuto do Torcedor volta a ser descumprido: ingressos para o Re-Pa na rede Big Ben serão vendidos a partir de hoje. A lei diz que a venda deve começar 72 horas antes do jogo.

———————————————————–

Sobre os limites da ética

Com citação de alto coturno – “A vida como bem supremo”, da pensadora Hannah Arendt –, o amigo Cássio de Andrade enviou uma reflexão interessante sobre a irracionalidade da ação do torcedor que vitimou um garoto nas arquibancadas de Oruro, na Bolívia. “Acreditei que os limites da indignação coletiva tivessem alçado à fronteira dos valores éticos e morais presentes na repulsa à violência e à exaltação impune da cultura da morte. Em pouco tempo, ruiu o castelo de areia da justiça e da boa vontade. Após o assassinato do garoto boliviano, unem-se a mídia, o Corinthians, os corintianos e todos os guardiões da barbárie para a construção de um fato: a invenção da culpa. A vida deixou de ser a bandeira da ética. Seu limite, a certeza da impunidade”, observa.

“O que assusta não é a medida da punição que impunifica, mas da não punição exigida em nome da justiça, da equidade e dos valores das maltas. No território sem fronteira das redes sociais não há limite à contravenção, ao apoio ao menor convertido, à testemunha que zomba da dor. Ares insuspeitos se movimentam em areias insuspeitadas e na áspera cor laranja dos dentes brancos da menina-deboche, não nos faz pensar Serraut, nem os impressionistas. Surrealistas, talvez, contradizendo Veloso”, Cássio acrescenta.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 01)