Tudo pode estar por um segundo

Por Gerson Nogueira

coluna gersonO futebol é impreciso e imprevisível, sujeito a percalços motivados pelo mero acaso. Pode-se dizer que é o esporte coletivo mais sujeito a ações do imponderável. Rigorosamente nada pode ser determinado antes de um jogo, mesmo quando os adversários representam forças desiguais. A zebra, figura raríssima nas quadras de vôlei e basquete, é frequentadora assídua dos gramados boleiros.

No fundo, tudo pode estar por um segundo, como disse o poeta Gil. O último Re-Pa serve como referência desse risco permanente. Aos 46 minutos do segundo, quando os bicolores já comemoravam a vitória, uma bola lançada para a grande área acabou desviada, indo parar nos pés de um azulino. Num piscar de olhos, a bola foi parar nas redes de Zé Carlos.

Mas o que era infortúnio de repente pode virar epifania. A alegria que invadiu os corações remistas naquela tarde pode trocar de lado hoje em benefício da nação alviceleste. Já aconteceu outras vezes.

Poucos especialistas admitem o peso das incertezas num jogo que contempla tantas variáveis. Tempo, espaço e velocidade. Itens decisivos para que um time consiga conduzir a bola até o destino final.

Gentil Cardoso, Tim, Osvaldo Brandão, Gradim e vários outros autodidatas já sabiam disso lá nos primórdios da era profissional. Quase não teorizavam, mas eram precisos na execução desses princípios. Lançaram as bases do que se tem hoje no Brasil, para o mal ou para o bem.

Esses vovôs do futebol estarão representados no que se vai ver no Re-Pa que decide o primeiro turno do campeonato. Flávio Araújo e Lecheva, comandantes das equipes, repetem ensinamentos e mantras inventados há mais de 60 anos. Como se vê é um esporte velho, mas atraente desde sempre.

A evolução só visitou o futebol fora das quatro linhas. Está presente nas modernas técnicas de condicionamento físico, regeneração e melhoria de performance. Pode-se dizer que os uniformes, chuteiras e bolas também evoluíram bastante.

Dentro do tabuleiro as transformações foram tímidas, quase insignificantes. O que os velhos mestres pensavam continua valendo. Mais que isso: segue em uso. As maneiras de montar a linha de zaga não sofreram alterações. Na frente, a novidade está na quantidade de peças, mas os caminhos ainda são os mesmos e os lados do campo permanecem o caminho preferencial rumo ao gol.

A estrutura do meio-campo mudou em intenções, mas nos melhores casos permanece com dois homens de criação e dois volantes – involução dos antigos médios. Lá, onde tudo acontece, a sentença genial de Gentil é a prova da permanência das lições: quem se desloca recebe, quem pede tem preferência. Quem segue a receita, vai longe. Resta torcer para que remistas e bicolores provem que são bons alunos.

———————————————————-

Iarley e a voz das arquibancadas

A quase certa escalação de Iarley confirma o peso da pressão popular nas decisões dos técnicos. Criticado depois do empate de domingo passado, Lecheva parece disposto a acatar a patrulha, mesmo que isso contrarie suas crenças. Rafael Oliveira, artilheiro do time e do campeonato, é uma óbvia aposta do técnico. Caso a troca se confirme, será um triunfo da massa. O que, em futebol, nem sempre seja garantia de sucesso.

———————————————————

Homenagem a um jovem senhor

Nem poderia ser diferente. O estádio estadual Edgar Proença, maior templo do futebol papachibé, que completa 35 anos amanhã, teve seus maiores públicos em dois clássicos Re-Pa de diferentes épocas. No primeiro, em 11 de julho de 1999, 65 mil peregrinos do futebol superlotaram o estádio para ver o triunfo remista por 1 a 0, válido pelo Campeonato Paraense. Vinte anos antes, também num Re-Pa, o ainda “bandolão” havia recebido 64.010 torcedores. O jogo terminou empatado em 1 a 1.

O terceiro público ficou com Paissandu x Fluminense pelo Brasileiro da Série B em 1998. Sessenta mil torcedores viu o Papão triunfar por 2 a 0. E um dos mais eletrizantes duelos vistos no estádio, a vitória do Boca Juniors sobre o Paissandu por 4 a 2 na noite de 15 de maio de 2003, pela Libertadores, registrou a quarta lotação do Mangueirão, com 57.330 espectadores.

Com tantas histórias acumuladas, o Mangueirão representa o corte entre a era amadorista e o profissionalismo no Pará. Mudou o jeito de torcer em Belém, mas as limitações arquitetônicas já clamam por rejuvenescimento.

———————————————————-

É proibido fumar!

Coerência, definitivamente, não é a praia da Fifa. Depois de muito pelejar pela liberação da venda de cerveja nos estádios da Copa das Confederações e da Copa do Mundo, a entidade baixa norma vetando o consumo de cigarro nas duas competições. Ora, a lei brasileira proíbe fumo em ambientes fechados, de grande circulação de pessoas. Por serem áreas abertas, os estádios estão liberados.

Ocorre que Dona Fifa que tem motivo mais do que justificado para ser moralista com cigarro e tolerante com cerveja: o patrocínio da Copa pertence a uma das maiores cervejarias do mundo. Entre um vício e outro o que importa mesmo é a quantidade de grana envolvida.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 03)