A globalização não poupa ninguém

Por Gerson Nogueira

A história já é bem conhecida, mas não custa avivar memórias. Quando ressurge o debate sobre a forma de disputa do Campeonato Brasileiro, cabe observar que os grandes torneios da Europa cresceram em importância à medida que passaram a ser organizados com profissionalismo, planejamento e austeridade financeira.

Foi a partir da fórmula de pontos corridos, que premia mérito e regularidade, que os clubes puderam captar investimentos de patrocinadores e passaram a faturar alto com os direitos de transmissão para as redes de TV, deixando de depender unicamente da bilheteria dos jogos.

Não me alinho à corrente que considera divinas e maravilhosas todas as ideias que deram certo no Primeiro Mundo. É preciso admitir, porém, que, no futebol, as iniciativas adotadas a partir dos anos 80 tornaram os clubes mais fortes, os jogos mais rentáveis e os campeonatos tecnicamente mais interessantes.

A dimensão da revolução do futebol europeu pode ser medida pelo domínio midiático exercido hoje pelos clubes do Velho Continente, com reflexos em todo o planeta. Isso só passou a existir de fato depois da mudança de conceitos empreendida inicialmente por ingleses e alemães.

Hoje, o poder financeiro faz de clubes como Manchester United, Barcelona, Real Madri e Milan populares em todos os continentes. Um triunfo tanto da estratégia marqueteira quanto do conceito de aldeia global.

No Brasil, o sucesso – e, acima de tudo, os lucros – europeu sempre foi invejado pelos dirigentes. Levou tempo para que o regulamento da primeira divisão fosse adaptado à principal prática dos torneios estrangeiros: a adoção do sistema de pontos corridos, a partir de 2005.

Como a mudança de hábitos do torcedor é um pouco mais lenta, ainda existe resistência aos pontos corridos. Ninguém sai facilmente de um sistema que valorizava os play-offs e as finais de campeonato.

Pessoalmente, sigo sentindo imensa falta de decisões de verdade. Mesmo aplaudindo a meritocracia embutida nos pontos corridos, não consigo abrir mão da carga emotiva que as finais trazem às disputas. A ausência de confronto final, opondo competidores em igualdade de condições, é algo ainda difícil de assimilar. Deve ser coisa desse tal coração tropical.

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Declínio dos azarões

Um reflexo do sistema de pontos corridos no Brasil é a impossibilidade de zebras. Explico: times emergentes ou fora do eixo dos 12 grandes (de Rio, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul) não têm mais a menor chance de vencer o Brasileiro da Série A. O retrospecto mostra isso claramente.

O último azarão a triunfar foi o Atlético-PR, em 2001. Liderado pelo artilheiro Washington, o Furacão conquistou o título e teve como vice outro parceiro emergente, o São Caetano.

Antes, os azarões faziam bem mais sucesso. Em 1988, o Bahia de Dodô foi o campeão. Em 1987, o Sport (naquele campeonato esquisito que teve ainda o Flamengo reconhecido como outro campeão pela CBF em 2011). Dois anos antes, o Coritiba também levantou a taça. Em 1978, o Guarani de Careca conquistou o título.

Nos dias de hoje, de profissionalismo galopante e investimentos vultosos nos clubes mais tradicionais, os nanicos têm cada vez menos chances. É um processo natural, mas não sei se gosto desse futebol cada vez mais ditado pela força exclusiva da grana.

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Araújo perdendo a paciência

O Remo, envolto em tantas incertezas, pode sofrer mais um baque nas próximas horas. Sem conseguir falar com o presidente Sérgio Cabeça, o técnico Flávio Araújo pode entregar o cargo, antes mesmo de começar a trabalhar de verdade no clube.

Depois de visitar o Baenão e confirmar o acerto com o Remo, Araújo viajou para Fortaleza e encaminhou a contratação de seis reforços para o Campeonato Paraense. Jogadores que atuaram no Sampaio Corrêa, Fortaleza e Santa Cruz.

Como não tem acesso telefônico a Cabeça – e Albani Pontes deixou a diretoria de futebol –, as negociações não avançam e os atletas têm propostas de outros clubes. Insatisfeito, Araújo estabeleceu prazo até hoje para falar com o presidente. Caso contrário, sai sem nunca ter sido.

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Iarley a caminho da Curuzu?

Leitores de Goiânia informam à coluna que a imprensa goiana aponta como praticamente certa a saída do meia-atacante Iarley do Goiás depois da campanha na Série B. Reserva no time que garantiu acesso à Série A, o veterano jogador tem sido atrapalhado por seguidas lesões, que o impediram de manter regularidade e brigar por um lugar na equipe titular.

A surpresa fica por conta do possível destino de Iarley, segundo os goianos: ele estaria acertando retorno para o Paissandu, onde teve excelente passagem em 2003, disputando a Taça Libertadores. Caso supere a sequência de contusões, Iarley é bom reforço, apesar do peso da idade.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 20)

37 comentários em “A globalização não poupa ninguém

  1. O conflito mata-mata x pontos corridos é antigo. Sou favorável aos pontos corridos apenas pela justiça, planejamento de longo prazo e aspecto técnico, mas reconheço que o mata-mata é mais emocionante por proporcionar injustiças e dar oportunidade aos mais fracos, que, em um jogo, podem vencer os mais preparados. Mas nem sempre o dinheiro vence, como é o caso do Palmeiras que tinha um elenco milionário, incluindo o técnico, e um time fraquíssimo que, mesmo assim, ainda ganhou um título. Ou ainda o caso do Corintians, que abandonou a disputa do brasileirão por outro torneio.

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  2. Gerson, acho que em 2001 o ataque do Furacão era formado por Kleber Pereira e Alex Mineiro, na época o Washington ainda jogava pela Ponte Preta.

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    1. Você tem razão, amigo Luís. Fui traído pela memória. O time-base do Atlético-PR era: Flávio; Rogério Corrêa, Nem e Gustavo; Alessandro, Cocito, Adriano, Kléberson e Fabiano; Ilan e Alex Mineiro. O técnico era Geninho.

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  3. Acredito, Gerson e amigos, que um campeonato de pontos corridos, seja o melhor para qualquer campeonato, independente do País ou continente. O problema é que, no brasileiro série A, se fez uma classificação do 5º ao 11º, para que esses clubes participem da Sul Americana, que pouco interessa aos grandes clubes brasileiros, o que seria o contrário, se fosse na série B.
    – Se não acrescentarem alguma outra competição, internacional interessante, ou melhorarem a Sul Americana, fazendo com que os grandes clubes tenham mais interesse em participar dela, a tendência é que, todo ano, se tenha um campeonato sem graça, mesmo justo, guardadas as emoções, apenas para a disputa do título, geralmente entre 2 ou 3 clubes e a briga para não cair para a divisão inferior. Lamentável..

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  4. O Grande problema dos “pequenos” não terem vez, na disputa do título, é porque esses clubes, pegam o dinheiro da CBF/TV e não investem pesado na contratação de um técnico a nível de série A e bons jogadores, o que não acontece com muitos dos grandes clubes brasileiros. Clube grande que pensar igual a clube pequeno, vai só lutar para permanecer na série A, ou pra não cair.. Elementar…

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  5. Justiça plena é difícil. O Atlético Mineiro, como capeão do 1º turno, deveria fazer dosi jogos finais com o Fluminense e não deixaria de existir o ponto corrido.

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  6. Para mim o pessoal da CBF decide quem vai cair e quem vai ser campeão. Ficou muito suspeito o fato do Mano não convocar jogadores do Fluminense durante o campeonato, enquanto que os possíveis concorrentes ao título tiveram atletas convocados o tempo todo.

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  7. Amigo Cláudio, ao escrever meu texto, de ontem, faltou um NÃO, que mudava todo o sentido da frase ! Queria dizer que: NÃO ERA IMPROVÁVEL que o FA entregasse seu lugar e que era bom, por isto, que o Gerson fosse logo pensando no título para sua coluna…

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  8. Que falta de respeito com o bom profissional que me parece ser o F. Araújo.

    Gerson e Cláudio, será que o CR vai ter que ser afundado ainda mais, por seus próprios mandatários, até atingir o chamado fundo do poço, para que possa tomar o rumo certo ?! Será que este fundo do poço é a Segundinha ?! Estou falando seriamente.

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    1. Fui informado, hoje cedo, que Sérgio Cabeça teria falado ontem à noite com o Flávio Araújo e acertado os ponteiros, evitando a desistência do técnico.

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  9. Mudando de assunto, Gerson, o Brasil conseguiu se classificar para o mundial de beisebol de 2013, vencendo duas vezes o Panamá na casa deles, feito inédito e surpreendente.

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  10. Gerson e amigos, em nenhum país do mundo se acabou com o mata-mata, só que no brasil ele tem ares diferente do que acontece mundo afora. Jogar campeonato local no meio de semana normalmente leva públicos menores q no fim de semana e isso também ocorre na europa e por isso q se joga o campeonato nacional no fim de semana e no meio de semana um mata-mata. Este mata-mata seria a copa do brasil e a libertadores/sulamericana. Para tal, seria preciso um ajuste de calendário, mas ai teria q cbf e comembol se mexerem, para termos copa do brasil, ano de 2013 pelo jeito já vai ser assim, e libertadores/sulamericana ocorrendo do primeiro semestre e encerrando no fim doa no.
    Se isto acontecesse além de sobrar mais datas, os clubes seriam menos penalizados em caso de convocaçao de seleção, já que praticamente não teríamos datas coincidentes.
    Sobre o Remo, tenho a dizer q fui informado que o Albany saiu pq deseja sair em chapa unica na situação para presidencia e como não foi bem aceito, saiu e só volta se ele for confirmado como concorrente a presidente.

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  11. O Campeonato “Brasileiro” ,que de Brasileiro mesmo ,nada tem ,e seria na melhor acepção do contexto,um torneio Centro-Sul. Além disso,está mais para Rio-SP,porque os times Gaúchos não conquistam um título há 16 anos(Grêmio) e os Mineiros, há 9 anos (Cruzeiro).

    E mesmo com todo poderio de organização,estrutural e financeiro o Internacional não consegue conquistar o Brasileiro,imaginem times do Norte ,Nordeste e Centro-Oeste,seria algo quase que milagroso,mesmo se tivessem organização,estrutura e receita semelhante…

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  12. Acho que o amigo Cláudio tenha até anunciado, mas não custa nada ratificar que já consta na grade da Sport TV, canal 39, o jogo Paysandu e Icasa, quinta-feira, as 20h. Vamos lá PAPÃOOOO!

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