Por André Forastieri
Tive umas merecidas férias, das quais infelizmente voltei uma semana atrás. Merecia mais tempo – um ano estava ótimo! Mas valeu cada minuto. Fui sem celular nem notebook. Carreguei guias, aqueles de 600 páginas, pra cima e pra baixo, completamente escangalhados na volta. Não chequei Facebook ou Twitter. Não li jornal ou revista. Desliguei meu e-mail de trabalho. Chequei meu e-mail pessoal uma vez por semana.
Tirei umas fotinhos, com câmara, não smartphone. Foi perfeito. Eu não tenho nada contra tecnologia. Trabalho com isso. Sou fã de ficção científica. Fui diretor da PC Magazine, pô! E porque entendo um pouco dessas paradas, sei que ficar online, como ficar offline, tem hora. As novas gerações talvez discordem. A função delas é discordar mesmo, mas estou certo e os meninos, errados.
Lidar inteligentemente com tecnologia é questão de educação, mas também de disponibilidade. Se você coloca hoje um iPad na frente de um bebê, não pode esperar que dez anos depois ele preste atenção no mundo não-digital, não-interativo, ou mesmo no que você diz.
De volta ao Brasil, avião taxiando, um monte de passageiros sacou os celulares para dizer, gritar, o óbvio: oi mãe-pai-filho-bem, cheguei, vou passar na alfândega e duty free, te ligo quando entrar no táxi. E depois, imagino, quando entrar na marginal, e quando chegar em casa e tirar os sapatos, e quando sair do banho. Um cara manipulava o celular sem parar. Impossível não pensar em um bebê acariciando o pinto.
Minha amiga Márion Strecker tem feito uma série bem interessante na Folha de S. Paulo sobre dependência digital, da qual quer se livrar, mas não muito… os textos são ótimos e estão repercutindo bastante. Porque cada dia aparece uma dependência nova. E porque cada dia aparecem novas razões para você não se desconectar. Inclusive financeiras. O assunto rende em todo lugar.
Hoje na bíblia da economia, o Wall Street Journal. Começa com um causo ilustrativo. Na véspera de sair de férias, a jornalista Jennifer Green, editora de beleza da revista Teen Vogue, avisou seus seguidores no twitters: “Estou oficialmente de férias!”. Nos cinco dias seguintes, ela passeou de carro pelo Estado do Arizona. Neste período ela twittou mais de 120 vezes, fez checkin 15 vezes no Foursquare e postou mais de 30 fotos no Instagram. Quando chegou pela primeira vez na vida no Grand Canyon e viu aquele esplendor todo, a primeira coisa que fez foi tirar uma foto e compartilhar com seus 32.600 seguidores no Twitter. Jennifer é burra. Na minha ausência do mundo digital, ganhei um monte de seguidores no Twitter e amigos no Facebook.
A vida digital caminha sem a gente. Um dia, inclusive, vamos morrer, e parar de twittar, imagine! Compartilhar tudo com todo mundo equivale a não compartilhar nada com ninguém. A vida digital é parte da vida. Não o contrário.