Coluna: O parque dos elefantes

A três anos e meio da Copa no Brasil, as despesas se avolumam a cada novo cálculo quanto às obras. Aumentam também as desconfianças de que a maioria dos estádios terá destino parecido com os da África do Sul, transformados em imensos elefantes brancos decorridos apenas cinco meses do torneio.
A Copa brasileira já começou – e, pelo visto, muito mal. O futuro estádio de Brasília para a Copa de 2014 vai torrar R$ 696 milhões, mas não terá arquibancadas cobertas, telão, cabos de internet e TV. Pior: não há previsão nem de gramado! Tudo porque “esqueceram” de incluir esses itens básicos na licitação para construção da arena. A denúncia consta de reportagem do jornal Folha de S. Paulo, publicada na quinta-feira.
Quase todas as 12 sub-sedes do Mundial coincidem na prática de fazer orçamentos incompletos e cheios de gambiarras. Em alguns casos, por mera desinformação técnica. Em outros, por simples estratégia para driblar exigências legais.
Nada mais característico do jeito brasileiro de lidar com obras faraônicas. Os responsáveis dizem, sem tremor no rosto, que esconder as despesas representa economia no pagamento de impostos, além de deixar brecha para a aquisição de tecnologias melhores às vésperas do torneio.
Apesar do discurso de contenção de gastos, as contas estão cada vez mais salgadas: o custo total das arenas alcança R$ 5,3 bilhões. A projeção da CBF era de R$ 1,95 bilhão. A Arena Pantanal, em Cuiabá, deve ter um custo extra de R$ 50 milhões. O novo Castelão, em Fortaleza, exigirá despesas adicionais com internet e torres de energia que somam quase R$ 21 milhões. A arena de Manaus será substancialmente encarecida pela pressa na conclusão, pois o governo do Amazonas insiste em participar da Copa das Confederações.
Depois dos quatro ou cinco jogos que irá sediar no Mundial, é improvável que o Vivaldão volte a ter jogos de grande porte. A própria imprensa manauara especula que, na ausência de torneios locais fortes, o suntuoso estádio deverá se restringir a palco de shows musicais. 
Situação das mais esdrúxulas é a de Salvador: o orçamento oficial da Arena Fonte Nova é de R$ 590 milhões, mas o total deve chegar a R$ 1,6 bilhão. Em Belo Horizonte, a diferença é superior a R$ 300 milhões entre projeção inicial e custo real. E ainda existem os projetos em gestação, como o do estádio Itaquera, em São Paulo. Não há orçamento pronto, mas é certo que custará mais de R$ 700 milhões.
Na África do Sul, país em construção, as imensas dificuldades levaram a um esforço geral de superação para cumprir as exigências da Fifa e se apresentar dignamente ao mundo. O Brasil vive situação melhor e tem cidades mais aparelhadas e modernas. Pelas vias normais, a segunda Copa brasileira deve ser superior à sul-africana. O perigo está na quantidade de dinheiro público envolvido no negócio. Afinal, alguém terá que pagar as contas.  
 
Um feliz Natal a todos os homens e mulheres de boa vontade.

(Coluna publicada no Bola/DIÁRIO, edição deste sábado-domingo, 25/26)

11 comentários em “Coluna: O parque dos elefantes

  1. A organização desde evento trará a tona, presumo, situações vergonhosas, como já estão apresentando num começo abstrato como ocorre, pois nada ainda é real a não ser o correr do tempo, que me parece curto para a marcha lenta que segue.

    Curtir

  2. A questão maior é começarmos a achar normal esta farra que está acontecendo. O texto trata das arenas da Copa, mas temos de lembrar que ainda temos Olimpiadas, o trem-bala São Paulo-Rio, e a reforma dos aeroportos que estão bem atrasadas.
    Cada vez mais vemos essas coisas e não vemos como reagir e para piorar tudo, nos faltam opções de governantes sérios e o povo continua a votar naqueles que sempre estão metidos nestes safadezas.

    Curtir

  3. A Copa de 2014 vai acontecer aqui no Brasil assim como a aplicação de dinheiro público para levar a cabo os projetos, a priori, “enganosos”.
    Mas, já sabíamos que isso iria acontecer. E neste caso, o Brasil foi, é ou será o único país a injetar dinheiro num evento como a Copa do Mundo de Futebol ???
    Em nosso Planeta, não há tanto investidor para bancar um fenômeno desse porte.
    Alguém conseguiria elencar 5 investidor capaz de bancar, por exemplo: Manaus, Salvador e Belo Horizonte ?

    Curtir

    1. Caro Cezar falconi;
      A CC e a Sony, não eram as grandes patrocinadoras de manaus? o que houve??? também sou contra a farra com dinheiro público, principalmente para bancar os devaneios da anacrônica cbf

      Curtir

  4. AHAM….AGORA A INICIATIVA PRIVADA TEM ARCAR E O GOVERNO NÃO PODE…ETA POVO LOUCO ESSE.ACHAM QUE O ESTADO TEM OBRIGAÇÃO DE GERIRI A VIDA DE TODOS E DE TUDO E ACHAM RUIM FALARMOS QUE NÃO É ASSIM.DEPOIS REFUTAM QUE NÃO É O LIBERALISMO ECONOMICO QUE ALAVANCOU A ECONOMIA E O PLURALISMO MUNDIAL,AS TRANSNACIONAIS QUE LIDERAM O MUNDO .PODEM ME XINGAR RECLAMAR E ETC ,MAS …O TEMPO SEMPRE ME DARÁ RAZÃO,NÃO POR CAUSA DOS MEUS OLHOS CLARISSIMOS OU MEUS CABELOS LOIROS,MAS PORQUE QUEM TEM OLHOS E QUER VER ,VÊ…

    Curtir

    1. Não existe gente louca por aqui, mas somente alguns como vc que acham mais que todos. Assim como nunca se quis que os órgãos públicos pagassem todas as contas, também não é desejável contar apenas com investimentos privados. Mesmo na Alemanha, onde a parte pública foi de investimento em infra-estrutura e não nas arenas, o governo teve de colocar dinheiro na alianz-arena e desta forma foi acertado que 6 jogos das seleções patrocinados seriam realizados neste estádio. Isto se chama PPP, parceria público-privado e isto que sempre foi o desejado.
      E diferente disso, o que foi feito somente a injeção de parte pública. E conforme vc falou, LULA não abriu o cofre para o AK, mas para gente muito pior que ele, mas gente que tb é envolvida com os sindicatos da vida, políticos, apadrinhados, etc…, gente esta que não tem o menor compromisso com nada e torra totalmente o dinheiro pública. É só ler com atenção a nota do blog e além disso ver o caso do Maracanã que terá agora que derrubar a arquibancada superior e os camarotes, que não estavam no projeto original, pois esqueceram tb que a visibilidade destes locais tb não é o aceito pela FIFA.

      Curtir

Deixe uma resposta