Fazendo churrasco das vacas sagradas do cinema

Por André Barcinski

A revista inglesa “Uncut” tinha uma seção que eu adorava: “Sacred Cows”, ou “Vacas Sagradas”, em que eles faziam picadinho do trabalho de unanimidades da música, arte e literatura. Orson Welles, The Clash, Neil Young, Miles Davis, todos foram vítimas. Era sensacional. Mesmo que você não concordasse com uma palavra dos textos, era encorajador ler algo que fugia da idolatria cega. Fiquei pensando em fazer algo parecido por aqui. E começar pelo cinema.  Aí vai, portanto, uma listinha de sete vacas sagradas das telas que, na minha opinião, merecem virar churrasco. Faça sua lista e compare:

2001 – Uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968) – Perguntar não ofende, certo? Então aí vai uma pergunta para quem diz que “2001” é um dos maiores filmes já feitos: você realmente viu o filme, ou leu em algum lugar que era grandioso e resolveu abraçar a causa? Se assistiu, achou agradável os 100 minutos sem diálogos? Se emocionou com uma história que não vai a lugar nenhum e não tem clímax? Ou achou uma das experiências mais entediantes e pretensiosas? Se você não suporta “2001”, saiba que não está sozinho: Pauline Kael chamou-o de “o maior filme amador já feito”, e Renata Adler definiu com precisão: “em algum lugar entre hipnótico e imensamente entediante”.

“O Grande Ditador” (Charles Chaplin, 1940) – Fui rever “O Grande Ditador” há uns quatro anos, no cinema. Confesso que não agüentei meia hora. Perdeu totalmente a força e a graça. “Ah, mas não dá para analisar uma comédia dos anos 40 pela perspectiva de um espectador moderno”, dirão alguns. “OK, então alguém me explica por que ‘Em Busca do Ouro’ e ‘Luzes da Cidade’ não parecem ter envelhecido um dia sequer?

“Cinema Paradiso” (Giuseppe Tornatore, 1988) – Piegas, brega e previsível, apela aos sentimentos mais rasteiros com uma cara-de-pau digna de novela mexicana. Tudo – a música, as atuações histriônicas, o clima de realismo mágico, a nostalgia de cartão postal – é irritante.

Beleza Americana (Sam Mendes, 1999) – O filme mais careta, disfarçado de transgressor. A vida de Kevin Spacey é uma monotonia só, até que ele decide mandar tudo pro espaço e “enlouquece”: dá uma banana pro emprego, dá em cima da amiga da filha e – oh, o horror! – até fuma maconha. Mas, na melhor tradição fatalista de Hollywood, acaba levando uma bala na cabeça. Quem manda abandonar a vidinha classe média, Kevin?

“La Strada” (Federico Fellini, 1954) – Como “Cinema Paradiso”, é uma pieguice só, disfarçada de drama neorrealista. Giulieta Masina faz uma menina que é vendida pela mãe para um artista de circo (Anthony Quinn). O resto é só clichê de dramalhão: o maldoso explora a menina que, inocente, cura sua melancolia trabalhando de palhaça no circo. Diabetes a 24 quadros por segundo.

Blow Up – Depois Daquele Beijo (Michelangelo Antonioni, 1966) – Uma relíquia dos anos 60, que deveria ter ficado por lá. Na época, foi visto como um mergulho na loucura e hedonismo da “Swinging London”. Hoje, é puramente ridículo. Impossível não rir com os mímicos jogando tênis ou correndo pelas ruas fazendo algazarra. Difícil acreditar que “Blow Up” já foi considerado sexy e ousado. O que o tempo não faz…

Gran Torino (Clint Eastwood, 2008) – Um velho racista, misógino e fracassado destila seu veneno contra os imigrantes que infestam seu bairro, outrora um paraíso de tranqüilidade e eugenia. Já vimos esse filme antes: chamava-se “Desejo de Matar”, era estrelado por Charles Bronson e foi considerado uma apologia do fascismo. Corta para 2008: Clint Eastwood faz um filme igualzinho, com a diferença que, no fim, ele tem uma recaída moralista e se sacrifica como uma Joana D’Arc moderna. Pelo menos “Desejo de Matar” tinha um charme kitsch, que Clint disfarça como uma lição de humanismo. De doer.

4 comentários em “Fazendo churrasco das vacas sagradas do cinema

  1. No Pará ser intelectual é bem recebido pelos paraneses,NÃOPODE É É SER INTELIGENTE E PENSAR E IR CONTRA QUEM MANDA.TROCANDO EM MIUDIS O FILME EMQ UE BRONSON DEFENDE OS INDEFESOS PODE SER MAL VSITO PELOS QUE QUEREM COMANDAR A MASSA EVITANDO QUE ESTA MESMA MASSA ..PENSEM.

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  2. O GRANDE DITADOR SEMPRE SERÁ ATUAL, NA MEDIDA EM QUE RIDICULARIZA A SOBERBA DE GRUPOS EUROPEUS QUE EXISTEM ATÉ HOJE. POR OUTRO LADO, EXISTEM FILMES QUE PARECEM DESCARTAVEIS , COMO CRASH NO LIMITE(PRINCIPALMENTE POR CONTER SANDRA BULOK) MAS QUE SÃO SURPREENDENTES… ACREDITO QUE DEPENDE TAMBÉM DO NOSSO MOMENTO PESSOAL CONSIDERAR OU NÃO UM FILME RELEVANTE.

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    1. Rosivan, a lista postada é uma escolha pessoal do Barcinski. É um bom crítico de cinema, mas não significa que seja o dono da verdade. Vale pela curiosidade e por gerar discussão em torno da paixão pelos filmes.

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