Aventuras gastronômicas no país da Copa (6)

Todo mundo estava cobrando e aí resolvi desafiar os cozinheiros aqui do Booysens Hotel por um prato mais à brasileira. Pedi carne assada na brasa, mas eles fizeram um prato à moda portuguesa. Tudo bem. O chef Tomás adicionou um ovo frito em cima, mais uma saladinha verde, que aqui é meio agridoce, e umas batatinhas meio intrusas. A questão é que o dono do restaurante garante que até a próxima semana teremos pratos apetitosos com a exótica carne de zebra. Esperemos. A nota para a carne assada lusitana foi 7,0.

Los 4 hermanos na missão copeira

Pose do quarteto belemense, no Southgate Shopping, no vão central ornamentado com as bandeiras das seleções da Copa, na ensolarada manhã de sábado em Johanesburgo. É um centro comercial localizado no meio do caminho entre o nosso hotel e o Centro de Imprensa. Abaixo, um afinado conjunto de cordas (violino, contrabaixo & violoncello) executando standards musicais.

Capello vê English Team “pressionado”

Era só o que faltava. O técnico da seleção inglesa Fabio Capello admitiu que seus jogadores podem estar sentindo a pressão de jogar um Mundial. Após empatar com os Estados Unidos e com a Argélia nas duas primeiras rodadas da Copa, o treinador lamentou os erros do time, mas promete evolução para partida decisiva com a Eslovênia. “Estes jogadores estão treinando muito bem, mas nestes dois jogos não foi o mesmo time que conheço. Cometemos erros incríveis. É impressionantel pelo nível dos jogadores da Inglaterra”, disse Capello. “Eu acho que a pressão da Copa do Mundo existe”, reconheceu o treinador. “Lembro minha estreia como técnico da Inglaterra. Eu vi a mesma coisa quando jogamos no Wembley – esquecemos de jogar confiantes e sem medo.”

Será?

Conexão África (12)

Alemanha tropeça, mas não está morta

Na Copa do futebol tímido e nivelado por baixo, o sábado trouxe outra decepção. A Alemanha, que havia encantado com um futebol de objetividade e organização tática na vitória sobre a Austrália, caiudiante da pouco badalada Sérvia. Foi 1 a 0, mas podia ter sido até um placar maior, diante das oportunidades desperdiçadas pelo ataque sérvio depois que Podolski perdeu um pênalti no segundo tempo. Os alemães até se esmeraram, procurando caprichar nos passes e nas jogadas trabalhadas, mas como é próprio do futebol germânico as jogadas exigem um grau de esforço maior. Para fazer uma tabelinha, fica-se com a impressão de que os jogadores se empregam além do necessário, como se o lance simples estivesse acima de seus próprios
limites.
Os sérvios, ao contrário, são naturalmente mais habilidosos e gostam de tentar um drible aqui, outro ali, fato que torna seu jogo bem mais simpático para nós, brasileiros. Confesso que comecei a ver o jogo sem grande entusiasmo, pois os alemães retinham a posse da bola, trocando passes no meio-campo e de vez em quando indo ao ataque. Como tem o projeto pessoal de superar Ronaldo como maior artilheiro em Copas, Klose tenta transformar em lance de gol toda e qualquer jogada. Sempre achei improdutivo para uma equipe ter um jogador mais dedicado a uma meta particular. Klose acabaria expulso, mas o time continuou dispersivo no ataque. Podolski, que é ídolo na Alemanha, joga um pouco menos do que ele próprio acredita e assim acrescenta um novo rol de problemas para o time de Joachim Low. Ozil, que havia sido brilhante na partida de estreia, só mostrou alguma eficiência no primeiro tempo. Na etapa final, entrou no desespero geral, tentando resolver as coisas com chutes longos, mas sem êxito. A juventude da equipe é outro fator a considerar num torneio que exige estrada e malandragem. Os mais experientes são Lahm e Klose, mas em certos momentos baixa uma certa confusão em campo, natural num grupo cuja média de idade está pouco acima de 24 anos. Se sobra vigor físico, falta malícia e equilíbrio.
O insucesso de ontem, porém, não pode ser visto com a mesma lente de aumento usada para aferir a goleada sobre os australianos. Do mesmo jeito que a Austrália não pode servir de referência para o futebol de ninguém, a derrota para a Sérvia não transforma o time alemão em medíocre. Que ninguém se engane: continua a ser uma equipe respeitável, com volume de jogo e poder de fogo para ir bem longe no torneio.

Dois jogos em tempos diferentes

Participei da transmissão para a Rádio Clube do confronto entre norte-americanos e eslovenos. Fiquei bem impressionado com os 45 minutos iniciais da Eslovênia, que imprimiu velocidade no passe e agressividade ofensiva que eu só havia visto antes na Argentina e no Chile. Foi uma bonita exibição, liderada pelo excelente meia Birsa, cérebro e motor da equipe. Distribuía lançamentos precisos e arriscava chutes perigosos de média distância. Pouco marcado pelos jogadores de Bob Bradley, que certamente não o conheciam, Birsa foi se agigantando, até disparar um tiro de 40 metros que pegou o goleiro Howard adiantado. A vantagem assustou os EUA e tornou a Eslovênia ainda mais insistente no ataque. Insistiu tanto que chegou ao segundo gol, em contra-ataque perfeito. No fim do primeiro tempo, o árbitro de Mali ainda atrapalhou um outro contragolpe igualmente forte dos europeus.
Tudo seria perfeito para a Eslovênia se o jogo acabasse ali. Mas havia o segundo tempo e as coisas mudaram por completo. Em primeiro lugar, houve o fator sorte. Os EUA conseguiram fazer um gol logo aos 2 minutos, estabelecendo novas condições para o duelo. Para tornar tudo mais favorável, o técnico Bradley conseguiu marcar os passos de Birsa, que sumiu em campo. Depois, a Eslovênia ainda teve que enfrentar um inimigo natural: o cansaço físico. De tanto correr na primeira parte, o time parecia travado no segundo tempo, aceitando passivamente a pressão americana. Donovan, o craque do time, passou a ditar as ações e passou a lançar o centroavante Altidore, que lutava contra dois zagueiros e conseguia levar vantagem. O gol de empate surgiu de um cruzamento do primeiro, escorado pelo segundo e finalizado por Michael Bradley, filho do treinador. E ainda haveria um terceiro gol, de Edu, confusamente anulado pela arbitragem.

O trabalho silencioso de Bielsa

Quem primeiro chamou atenção para o novo Chile foi o ex-atacante Ivan Bambam Zamorano. Com conhecimento de causa, o ídolo do Real Madri e da
seleção chilena disse que Marcelo Bielsa estava operando uma pequena revolução no futebol do país, que não conseguiu se reaprumar desde o episódio de Rojas no Maracanã. Com persistência e mão de ferro, El Louco Bielsa usou todos os seus conhecimentos para reconstruir a seleção. Apostou em jovens valores e os resultados começam a aparecer, a começar pela retomada da confiança interna. Nesta Copa, sem estar bem cotado, a seleção estreou muito bem, derrotando Honduras por 1 a 0 e criando condições para um resultado bem elástico. Vi o jogo e gostei muito da rapidez com que o time sai para o ataque e a busca permanente do gol. Não há embromação no meio-de-campo, há insistência e luta. Desconfio que Bielsa vai levar o Chile a um bom lugar neste mundial.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste sábado, 19)

Rock na madrugada – McCartney, Maybe I’m Amazed

Obra-prima de 1973 (pós-Beatles, portanto) de Macca. Aqui, a gravação original de estúdio, com acompanhamento dos Wings e de Linda. Grande músico e compositor, Paul comemorou 68 anos nesta sexta-feira. Longa vida a ele.

Novo tropeço inglês na Copa

Do técnico Rabah Saadane, da Argélia, depois de empatar com a Inglaterra sem gols:

“Pensei que eles fossem melhores. Nós fizemos nosso jogo com passes curtos e habilidade. Ficou claro que eles não estão em seu melhor momento ou não tiveram seu melhor dia”.

Para sorte de Fábio Capello e seus comandados, Eslovênia e EUA empataram também, adiando a definição de classificação para a última rodada do grupo, mas os eslovacos têm dois pontos de vantagem. O English Team terá pela frente a Eslovênia e os americanos terão a Argélia pela frente. Situação complicada para todos.

Alemanha cai e frustra boa impressão inicial

A Alemanha desfez nesta sexta-feira a impressão inicial, deixada com a goleada sobre a Austrália por 4 a 0 na estreia. Perdeu para a Sérvia, agora há pouco, jogando com as mesmas limitações e falta de inspiração das demais 30 equipes da Copa – a exceção, insisto, é a Argentina. Desperdiçou um pênalti com Podolski (nas fotos acima), mas os sérvios podiam ter feito pelo menos mais dois gols em ataques bem tramados.

Conexão África (11)

Será que a Argentina vai salvar a Copa?

A primeira reação à grande exibição de um time de futebol é manifestar simpatia e entusiasmo. Quando essa equipe é a rival Argentina, a empolgação é naturalmente reprimida, mas a verdade dos fatos não pode ser escondida. A seleção de Maradona fez, nesta quinta-feira, no Soccer City, o melhor jogo desta insossa Copa. E ninguém precisou que o adversário, a Coreia do Sul, jogasse alguma coisa. Um time só foi suficiente para fazer o espetáculo. E o encanto vem, obviamente, da quantidade de artistas reunidos por El Pibe. Feliz geração de craques sob o comando de um fora-de-série.
Mesmo não sendo técnico de verdade, Maradona tem a inclinação natural pelos bons de bola. Aí tudo fica mais fácil e simples: Higuaín, Di Maria, Tévez, Aguero (que entrou no final), Mascherano, Maxi Rodriguez e Messi, claro. Nenhuma outra seleção tem tal contingente de jogadores decisivos. Sorte dos argentinos que seu comandante gosta de gols, dribles em velocidade, passes sob medida. Como todo time habilidoso, a Argentina valoriza muito a posse de bola. Faz as jogadas passarem por quatro, cinco jogadores. Ao contrário do Brasil, esses passes são objetivos, não atrasam o jogo.
Contra a Coreia do Sul recuada, formando a mesma dupla linha de marcadores, o sofrimento argentino para abrir o placar durou apenas 17
minutos. E veio pelos pés de Park Chu Young, o craque sul-coreano, titular do Manchester United. Apavorado diante de uma cobrança perfeita de falta, mandou para as próprias redes. Mas não foi um lance casual. A Argentina já buscava o gol decididamente desde que a bola rolou. Criou seis chances claras, mas falhava no disparo final. Depois de 1 a 0, o time se lançou com mais voracidade ainda, tentando aumentar a diferença. Aos 33, em linha de passe na área, a bola sobrou para Higuaín cumprimentar para o barbante, com a colaboração do goleiro Jung Sung Ryong.
Aí, como é normal em times que cultivam a ofensividade, sobreveio um pequeno apagão e a Coreia descontou no derradeiro minuto do primeiro
tempo. O gol deu a impressão de que o jogo podia ficar difícil. E realmente ficou. Os primeiros movimentos da etapa final foram todos sul-coreanos, com boas triangulações e tentativas de chutes a gol.
Surgiam buracos na zaga argentina, De Michelis e Samuel erravam nas antecipações, mas a falta de objetividade do adversário não permitiu que esses vacilos fossem aproveitados. O cavalo passou selado e o empate não veio. Em poucos minutos, tudo mudou. Higuaín assumiu a artilharia do mundial, aproveitando dois contragolpes fulminantes, puxados por Messi e Aguero.
É a prova cabal e definitiva de que, quanto mais craques em campo, mais possibilidades de gol. Maradona sabe disso e está, aos poucos, exercitando essa crença. Depois da conduta errática nas eliminátórias sul-americanas, seu time começa a tomar forma no momento certo e é o primeiro a se classificar para as oitavas-de-final – com um pé nas costas. Pode até não chegar ao título, pois o mata-mata das próximas etapas costuma ser ingrato com favoritos, mas ainda vai nos brindar com grandes atuações de seus craques.

Maradona, sempre uma atração

Como na estreia diante da Nigeria, Diego Maradona voltou a brilhar, mesmo restrito àquele curto espaço ao lado do campo. Ao substituir Higuaín, quase ao final, recebeu seu atacante com os punhos cerrados, vibrando muito. Em seguida, deu-lhe um forte e demorado abraço. Antes, já havia arrancado aplausos ao dominar com elegância um bola que escapou pela linha de lado – e, obviamente, ofereceu-se em sua direção. Depois do jogo, na entrevista coletiva, esbanjou bom humor e agudeza de raciocínio. Bem articulado, evitou pedir desculpas ao Rei Pelé pelas farpas lançadas recentemente, mas sem mágoa, ira ou ressentimento. Coisa de eterno craque.

Palpite fora da realidade

Na burocrática entrevista de todo dia, Nilmar arriscou dizer que, caso se cruzem nas oitavas, Brasil e Espanha irão realizar uma espécie de “final antecipada”. Nada mais fora da realidade desta Copa. Nem o Brasil, nem a Espanha mostraram credenciais para serem finalistas. O futebol de resultados de Dunga diante da Coreia do Norte e o amarelão espanhol contra a Suíça permitem dizer que as duas esquadras precisam melhorar muito para começarem a sonhar com a final do torneio.

Câmera Big Brother vigia a todos

Na Copa da Alemanha, em 2006, a Fifa estreou o sistema de telão nos estádios, exibindo imagens ao vivo dos jogos. Surgiram questionamentos, mas com o tempo o futebol assimilou a nova prática, que veio em socorro do espectador presente ao jogo. Lances confusos, marcação de impedimentos e pênaltis passaram a ser mostrados no ato, para desespero dos árbitros. Nesta Copa, um novo passo foi dado. Uma câmera tipo Big Brother, suspensa por fios sobre o gramado, não permite que nenhuma ação dos jogadores ou da arbitragem passe despercebida. Chega a ser uma covardia, mas as deslumbrantes imagens em HD fazem deste o mundial da transparência absoluta.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 18)

José Saramago, *1922 +2010

Morreu nesta sexta-feira (18) em Lanzarote (Ilhas Canárias), o escritor português José Saramago, aos 87 anos. Saramago ganhou o Prêmio Nobel da Literatura em 1998. O escritor nasceu em 1922, em Azinhaga, aldeia ao sul de Portugal, numa família de camponeses. Autodidata, antes de se dedicar exclusivamente à literatura trabalhou como serralheiro, mecânico, desenhista industrial e gerente de produção numa editora. Começou a atividade literária em 1947, com o romance Terra do Pecado. Voltou a publicar livro de poemas em 1966. Atuou como crítico literário em revistas e trabalhou no Diário de Lisboa. Em 1975, tornou-se diretor-adjunto do jornal Diário de Notícias. Acuado pela ditadura de Salazar, a partir de 1976 passou a viver de seus escritos, inicialmente como tradutor, depois como autor.

Em 1980, alcança notoriedade com o livro Levantado do Chão, visto hoje como seu primeiro grande romance. Memorial do Convento confirmaria esse sucesso dois anos depois. Em 1991, publica O Evangelho Segundo Jesus Cristo, livro censurado pelo governo português – o que leva Saramago a exilar-se em Lanzarote, nas Ilhas Canárias (Espanha), onde vive até hoje. Foi ele o primeiro autor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998. Entre seus outros livros estão os romances O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1986), Ensaio sobre a Cegueira (1995), Todos os Nomes (1997), e O Homem Duplicado (2002); a peça teatral In Nomine Dei (1993) e os dois volumes de diários recolhidos nos Cadernos de Lanzarote (1994-7). (Do Portal UOL)

Encontro com as feras

Valmir Rodrigues e eu encontramos no Centro de Imprensa alguns novos “colegas” de ofício. É o caso de Enzo Francescoli, ídolo da seleção uruguaia e do River Plate nos anos 80/90. Sempre muito educado, Francescoli explicou que é comentarista de TV no Uruguai e mostrou-se animado com a vitória de seu país sobre a África do Sul, prevendo classificação à próxima fase. No outro registro, em frente ao Soccer City, Valmireko aparece ao lado de Carlos “El Pibe” Valderrama, que brilhou na seleção dirigida por Maturana na década de 90. Comentarista da Rede Caracol, uma das mais fortes da Colômbia, Valderrama acha (como todos) que a Copa ainda não engrenou, mas previu boa participação do futebol sul-americano.