Nirlando Beirão, a morte de um grande jornalista, um lorde em terras de bárbaros

Nirlando Beirão, que dotou seu jornalismo de uma prosa refinada ...

Por Luis Nassif

Conheci Nirlando Beirão pouco antes de sair da revista Veja. Era pouco mais velho do que eu e chegara de Belo Horizonte. Fazia parte de uma geração de mineiros amantes das letras e da elegância no trato e no texto. E também da ironia fina. Gente da estirpe dele, de Humberto Werneck, Marco Antonio Rezende, seguindo o pioneirismo de Ivan Angelo, Geraldo Mayrink.

Saí da Veja em 1979, Nirlando permaneceu. A carreira de jornalistas de primeiro time é curiosa. Sempre mantém o nível, mas há momentos em que um tipo de texto se destaca, como uma pintura colorida sobre um quadro branco e preto. Nirlando teve vários desses momentos, o primeiro dos quais na própria Veja. E olha que não era fácil se enquadrar no estilo estereotipado da revista, com suas laudas de linhas de 37 toques, títulos com 16 caracteres e adjetivação abundante – e, muitas vezes, pouco seletiva.

Naqueles anos 70 e 80, a Editora Abril enveredou por uma espécie de jornalismo digamos fútil-sofisticado. Visava um público específico, que emergira da fase de ouro das agências de publicidade, pessoal que frequentava o Riviera, gostava de Godard, bebia muito uísque e apreciava a sensualidade elegante.

Foi um período em que se sobressaíram as revistas Playboy, Vip, Caras e outras. Nirlando seguiu esse caminho, com a competência de sempre até emplacar, durante algum tempo, uma coluna social no Estadão.

Mas sua referência maior sempre foi Mino Carta. Em 1986, quando enfrentei o então ministro da Justiça Saulo Ramos, e fui abandonado pela Folha, uma entrevista na revista Senhor, concedida a Mino e a Nirlando, me permitiu juntar forças para prosseguir na briga.

Nirlando Beirão - Cultura - Estadão

Nirlando acompanhou Mino em todas as empreitadas, no jornal A República, na revista Senhor e, depois na Carta Capital. Anos atrás fui a um jantar na casa de Mino, presente Nirlando. Era encantadora a maneira como ambos esgrimiam marcas de vinho, cinema italiano e francês, literatura e conceitos civilizatórios. Eram lordes em uma terra de bárbaros.

A doçura de Nirlando impediu que fosse para a linha de frente contra o jornalismo que surgiu em meados dos anos 2.000, repleto de violência, factoides, discurso de ódio. Mas nunca abdicou de seus princípios, mesmo quando a abjuração era condição essencial para reabrir portas na grande imprensa. E, sempre que nos encontrávamos, manifestava sua indignação contra a deturpação da profissão, o corporativismo dos colegas, a submissão ao anti-jornalismo que começou a ser praticado e que resultaria, anos depois, no fenômeno.

Meu último contato com ele foi no lançamento de seu último livro, no qual narra a saga familiar. A doença já tinha dominado seu corpo. Em vez de autógrafo, ele usava um carimbo. Mas os olhos continuavam vivos e emocionados. Sua maneira de se comunicar era olhando e, através do olhar, manifestando carinho, acolhimento, e todos os afetos que sempre foram a marca central da personalidade de Nirlando.

“As palavras me despertam à noite, em escrevinhação borbulhante que, no entanto, apago à luz do sol. Assim tenho vivido. Entre o passado que assoma, carregado de culpas, de frustrações e de buracos, e o futuro de enigma insondável, sorvo, no presente, o duvidoso privilégio de chorar todos os dias a minha própria morte.” (Página 13 de Meus Começos e Meu Fim de Nirlando Beirão)

Deixe uma resposta