Protocolos da Bundesliga na retomada vão de higienização da bola à análise de testagem

Reinício da Bundesliga está marcado para o próximo final de semana

Por Gustavo Hofman, na ESPN

“O objetivo não deve ser garantir 100% de segurança para todos os participantes, já que isso provou ser praticamente impossível. A ideia é garantir risco médico justificável baseado na importância do futebol (em termos sociais, sócio-políticos e econômicos) e no desenvolvimento da pandemia. Todas as medidas são baseadas na premissa estrita de que não há concorrência resultante com os recursos de prevenção da população em geral sobre a COVID-19”.

Essa explicação está na primeira página de conteúdo, das 50 no total, de um detalhado documento publicado pela DFL, responsável pela realização da Bundesliga. Trata-se de uma série de protocolos rigorosos a serem seguidos por todos os atores que fazem o futebol na Alemanha e, acima de tudo, considera a situação do país no combate ao coronavírus.

O levantamento da entidade indicou que os testes nas duas principais divisões alemãs representarão apenas 0,4% de toda capacidade disponível nos laboratórios do país, cerca de 818 mil testes por semana, e desta forma não afetarão a sociedade civil. Na semana passada, a chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou uma série de medidas de relaxamento das restrições. Nesta terça, o Instituto Robert Koch (RKI), responsável pela prevenção e controle de doenças em território alemão, divulgou que a taxa de infecção deve se manter constante nos próximos dias, apesar do crescimento apresentado após o anúncio do Governo. 

Até a última segunda-feira (11/mai), foram registrados na Alemanha 170.508 casos, com 7.533 mortes. Os estados mais afetados são Baviera, Baden Württemberg e Renânia do Norte-Vestfália.

Todas as partidas da Bundesliga poderão ter, no máximo, 98 pessoas na área do campo, incluindo os jogadores, além de 115 trabalhando no estádio. Para alguns estádios, haverá a liberação extra de 109 funcionários para a área externa. Já na Bundesliga 2, os limites são menores: 90 pessoas no campo, 98 nas arquibancadas e 82 no exterior do estádio. Essas três divisões foram classificadas no documento como Zonas 1, 2 e 3 – e cada uma tem outra série de restrições para as respectivas atividades profissionais. Há também limitação de tempo e funcionários para cada área de trabalho, com delimitação de início e fim de expediente. Tudo será muito controlado no cronograma da partida.

O longo documento deixa claro que os casos detectados serão prontamente informados às autoridades sanitárias e as pessoas isoladas, assim como todos ao redor. Isso já gerou um empecilho para a retomada da segunda divisão. Dois jogadores do Dynamo Dresden, na terceira rodada de testes conduzidos pela liga, apontaram positivo. Com isso, toda equipe foi colocada em quarentena e a retomada da Bundesliga 2 será feita com uma partida a menos.

Pessoas pertencentes ao grupo de risco precisam ser excluídas dos treinamentos e, naturalmente, dos jogos, deixa claro o documento. Todos os jogadores têm o poder de decisão de não participar dos jogos também, e a responsabilidade de avisar sobre os riscos existentes cabe ao médico do clube. Um detalhe, por exemplo, que consta nas 50 páginas elaboradas pela DFL, é o limite para permanência no vestiário antes dos jogos para atletas e árbitros: 40 minutos no máximo.

Não haverá: crianças, mascotes, fotos do time, cerimônia de abertura, cumprimento com as mãos, organização das equipes em grupos, repórteres de campo, entrevistas antes, no intervalo e depois do jogo – as coletivas serão virtuais. Os bancos de reservas terão que ser adaptados, já que há obrigação de distância mínima de 1.5m entre as pessoas. Assim, as arquibancadas podem ser utilizadas ou mesmo assentos simples colocados ao lado.

Haverá, naturalmente, diversas medidas básicas de higiene, distanciamento social e cuidado pessoal, já tomadas por todas as pessoas responsáveis no mundo. Portanto, com exceção dos jogadores em campo, todos deverão usar máscaras. Jornalistas terão que respeitar a distância mínima entre eles. Fora todos os protocolos de limpeza e higienização do ambiente, assim como das bolas selecionadas para a partida. Toda alimentação das equipes deve ser levada pelos próprios clubes e não por terceiros, garrafas terão que ser de uso individuais, assim como a utilização de chuveiros – banhos em casa ou no hotel, ao invés de no estádio, são recomendados. Aliás, todas as medidas são exigidas também dos hotéis credenciados para receber as equipes. O nível de detalhamento é tão grande, que há a indicação para temperatura e umidade dos quartos (21°C, 50–60%), onde não for possível manter as janelas abertas.

E antes de pensar no retorno dos jogos, foi elaborada a estratégia de treinamentos dos times. Grupos menores, atletas distantes entre si e todas as orientações básicas já citadas acima. A preocupação se estende aos familiares e aos cuidados necessários em casa também. Tudo muito bem descrito.

Acima de tudo, a DFL deixa claro que é impossível eliminar todos os riscos e assume a importância social e econômica do futebol como principal motivo para sua retomada, baseada no amparo legal do Governo e das autoridades de Saúde. Para isso, houve uma extensa pesquisa e elaboração de medidas para garantir maior segurança possível a todos os envolvidos. A partir do próximo sábado descobriremos a eficácia de tudo isso e se a Bundesliga apontará o caminho para outras ligas.

O documento da DFL é público e está disponível neste link.

Em vídeo devastador, Bolsonaro diz: “Querem f** com minha família”

O presidente Jair Bolsonaro subiu o tom e atacou duramente a Polícia Federal ao defender, na reunião ministerial gravada pelo Palácio do Planalto, a troca de investigadores no Rio de Janeiro. Segundo o presidente, familiares estariam sendo perseguidos em apurações policiais.

“Querem f* com minha família”, disse Bolsonaro na reunião cuja gravação em vídeo foi exibida nesta terça-feira (12) como evidência no inquérito que investiga a acusação do ex-ministro Sergio Moro de que o presidente tentava interferir politicamente na corporação. Relatos de quem viu o vídeo indicam que o conteúdo é devastador para o presidente.

De acordo com relatos de quem assistiu ao vídeo do encontro, em meio a palavrões, Bolsonaro disse que, se não fosse trocado o superintendente da Polícia Federal do Rio Janeiro, ele mudaria o comando da PF e até o ministro Sergio Moro.

Esqueçam todos os motivos para afastar Bolsonaro, olhem só a pandemia

Por Luís Felipe Miguel

O novo coronavírus começou a se espalhar pelo mundo pela Ásia e pela Europa. Não era difícil prever que chegaria às Américas. Era hora de se preparar para o que viria: equipar hospitais, garantir suprimentos, adquirir insumos para produção de testes. Mandetta era ministro, mas muito pouco, quase nada, foi feito.

Quando a OMS declarou pandemia, em 11 de março, o Brasil tinha 52 casos confirmados, sendo apenas seis de transmissão local.

Fechamento de fronteiras e monitoramento de viajantes eram as medidas óbvias, mas foram postergadas e, quando adotadas, adotadas de maneira frouxa.

Em relação à Europa Ocidental, nossa crise sanitária está umas quatro semanas “atrasada”. Ou seja, teríamos condições de aprender com a experiência deles.

Não aprendemos. Hoje, já ocupamos o segundo lugar no ranking mundial de mortes diárias pelo novo coronavírus, atrás apenas dos Estados Unidos.

Fizemos, na verdade, o contrário de aprender. Há um esforço para evitar que se adote aqui qualquer medida que a experiência dos outros países recomenda.

Quando o ministro da Saúde demonstrou consciência da gravidade da situação, foi trocado por outro – submisso, desnorteado, insignificante, em suma, alguém que preenchia o requisito fundamental de não ofuscar o “mito”.

O isolamento social é boicotado todos os dias, por palavras e por ações. Agrava-se deliberadamente a situação dos mais pobres para dar credibilidade ao discurso de que defender a economia é o mais importante.

Os laboratórios das forças armadas desperdiçaram recursos produzindo milhões de comprimidos de uma droga que, está sendo provado, é ineficaz.

Primeiro, a doença foi desprezada como desimportante ou incapaz de atingir brasileiros acostumados à insalubridade. Depois, não era preciso preocupação porque a cura milagrosa estava ao alcance da mão.

Agora, é uma fatalidade que vai atingir milhões, mas à qual é inútil resistir. O jeito – para quem der a sorte de não ser atingido – é deixar de lado, ignorar, parar de “carregar um cemitério nas costas”, ficar “mais leve”, como disse a nova filósofa do governo.

Esqueçam as milícias. Esqueçam Queiroz. Esqueçam as rachadinhas. Esqueçam as fake news. Esqueçam o desvirtuamento das funções dos órgãos do Estado. Esqueçam as ameaças de fechamento do Congresso e do Supremo. Esqueçam as tentativas de golpe. Esqueçam os ataques à liberdade de expressão. Esqueçam as quebras do decoro. Esqueçam todas as dezenas de outros motivos para afastar Bolsonaro do cargo.

Olhemos só para a pandemia. Temos um presidente da República que empurra o país para uma mortandade sem paralelo na sua história, debochando de suas vítimas.

O que falta para que se perceba a urgência de derrubá-lo?

Não tenhamos ilusões: as Forças Armadas apoiarão, sim, um autogolpe de Bolsonaro

Por José Dirceu, no Nocaute

Frente à crescente reprovação de seu governo pela maioria do país e ao aumento do apoio popular a seu impeachment, Jair Bolsonaro não deixa dúvidas de que pretende dar um autogolpe de Estado. O militarismo está de volta e a politização das Forças Armadas será inevitável, se não reagirmos e não dermos um basta a toda e qualquer ação militar fora dos marcos da Constituição.

Não há mais dúvidas. De novo nosso Brasil e sua democracia enfrentam o risco e a ameaça do militarismo. Não se trata apenas de presença de 3 mil militares, inclusive da ativa, no governo federal, mas da tutela aberta militar sobre o país, da volta do militarismo, da politização das Forças Armadas.

Não será a primeira vez. Toda nossa história republicana está marcada pela atuação dos militares como uma força política — no caso armada —, disputando o poder e os rumos do país. Foi assim na instauração da República em 1889; nos anos 1920 e 1930 com o tenentismo; em 1937 quando o Estado Maior do Exército apoia o autogolpe de Getúlio do Estado Novo. Durante toda década de 1950, facções das Forças Armadas aliadas à direita tentaram dar golpes de Estado: em 1950 para impedir a posse de Getúlio; em 1955, para impedir a posse de JK; em 1961 para impedir a posse de Jango como presidente. Se os três primeiros fracassaram, o quarto golpe, em 1964, foi vitorioso, com a destituição pela força das armas de um governo constitucional e democrático que contava com o apoio da maioria do povo.

É preciso registrar que os dois golpes em que os militares assumiram o poder, de 1937 a 1945, na ditadura do Estado Novo, com Vargas, e de 1964 a 1985, com militares diretamente no comando do país, foram marcados pela impunidade. São fatos históricos. Os militares brasileiros que torturaram e assassinaram durante a ditadura militar jamais reconheceram seus crimes, dos quais, aliás, foram anistiados, caso único na América Latina.

Não há uma ala militar ou um núcleo militar no governo Bolsonaro. Seja pela razão que for, o governo é militar, a presidência e o Palácio do Planalto, oito dos 22 ministérios e cada vez mais militares assumem as secretarias de outros ministérios como no da Saúde, sem falar das estatais e autarquias. A cada dia fica evidente que as operações políticas e planos do governo, como o Pro-Brasil, são realizadas pelos militares. Suas digitais estão em movimentos como a cooptação do Centrão para a base do governo na Câmara dos Deputados com distribuição de cargos, ou a guerra política contra a oposição, o STF e a imprensa. Estão presentes na orientação das políticas indígena, ambiental e educacional, e na gravíssima rendição total aos Estados Unidos na política externa, com a alienação de nossa soberania.

Os militares aderiram e apoiam toda gestão de Paulo Guedes na economia do país, inclusive o desmonte dos bancos públicos e as privatizações, a entrega das reservas e da riqueza e renda do Pré-sal, o desmonte da saúde e da educação pública, das universidades e centros de pesquisa. Mas, cinicamente, salvaram dos cortes e das reformas as estruturas militares, o orçamento das Forças Armadas, que não foi contingenciado, e sua Previdência. Enquanto o povo amarga uma reforma da Previdência que aumenta anos de trabalho, reduz benefícios e penaliza os pobres, os militares mantiveram seus privilégios: paridade, integralidade, sem limite de idade para aposentar, gratificações, verbas, ajudas, aumento real de vencimentos de 45%. Uma casta.

Tutela militar

Esta tutela se expressa desde o governo Temer. Quando do julgamento do HC de Lula na Suprema Corte, o então comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, publicou um twitter expressando que as Forças Armadas não o aceitariam e, o mais grave, publicou a foto da reunião do Estado Maior do Exército para demonstrar o apoio que tinha para praticar aquele crime constitucional. O mesmo Villas Boas que, agora na reserva, saiu em defesa da secretária da Cultura, Regina Duarte, que em entrevista recente defendeu a ditadura.

No dia 31 de março deste ano, os três comandantes militares assinaram uma nota de elogio e apoio ao golpe militar de 1964, sem que os poderes e as instituições se manifestassem ou coibissem essa escalada das Forças Armadas rumo ao poder. Mesmo na oposição e na mídia, poucas vozes se levantaram para protestar.

Frente à crescente reprovação de seu governo pela maioria do país e ao aumento do apoio popular a seu impeachment, Jair Bolsonaro não deixa dúvidas de que pretende dar um autogolpe de Estado. De novo vemos a ilusão política que não haverá golpe de Estado. Não é bom acreditar em ilusões, quando já temos um governo militar e aqui, na vizinha Bolívia, foi dado um violento e covarde golpe de Estado com a Polícia Militar. Para o Exército sobrou a tarefa de exigir a renúncia do presidente Evo Morales.

É certo que razões políticas não bastam e não devem ser a justificativa para o impedimento constitucional de um presidente. É golpe parlamentar, como foi contra a presidente Dilma Rousseff, com a anuência e conivência da Suprema Corte. Mas todos os dias o presidente viola a Constituição e manifesta publicamente sua disposição rumo ao autoritarismo. Está evidente que ele capturou os órgãos de fiscalização, investigação, seja o COAF, a Receita Federal, o Ministério Público e agora a polícia judiciária da União, a Polícia Federal, para evitar exatamente a apuração e as investigações e processos contra sua família, filhos, partido, campanha e atuação na presidência, evitando assim um julgamento judicial ou pelo parlamento.

Se não encontra reação, sua estratégia, no curto prazo, continua sendo a de provocar e avançar sobre os outros poderes. A médio é formar uma maioria na Câmara, eleger em fevereiro do ano que vem um presidente alinhado com o governo e ao mesmo tempo esperar as aposentadorias na Suprema Corte para tentar anular sua ação constitucional. Objetivos que podem não ser alcançados e seu governo se arrastar até 2022, o que não seria um problema não fosse a gravíssima crise que o mundo e o Brasil vivem. A ação de Bolsonaro contra o isolamento social e a verdadeira sabotagem que ele e seu governo fazem em plena pandemia que já matou mais de 11 mil brasileiros já são razões mais do que suficientes para seu afastamento da presidência.

Hora de reagir

A oposição liberal de direita, os partidos PSDB-DEM-MDB e a grande mídia – ainda que aos poucos seus editoriais revelem o temor de um golpe – com exceções, não apoiam o impeachment do presidente. Evitam também a questão militar, preferindo apostar que as Forças Armadas como instituição não apoiariam um autogolpe. Esquecem as lições da história e o fato concreto de que Bolsonaro agita os quartéis, apela aos oficiais com comando e tem nas PMs e empresas de segurança uma reserva armada à sua disposição, fora suas milícias que hoje ocupam a Praça do Três Poderes exigindo o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo.

O militarismo está de volta e a politização das Forças Armadas será inevitável, quase automática, se não reagirmos e não colocarmos um basta a toda e qualquer ação militar fora dos marcos da Constituição. E a toda e qualquer ação do presidente quando viola a Constituição usando as Forças Armadas ou as invocando.

Espero que não acreditemos em notas oficiais dos militares que repudiam o golpe ou reafirmam sua vocação democrática – incompatível com o apoio e a louvação ao golpe militar de 1964. A tradicional aversão militar ao conflito inerente à democracia, seu elitismo de achar que o povo não sabe votar, sua convicção recebida nas escolas militares de que eles são os únicos patriotas, seu histórico de formação positivista como o déspota esclarecido que Geisel bem representou, seu corporativismo exibido sem pudor na votação da reforma da Previdência, são ingredientes que apenas devem aumentar nossa convicção de que os militares têm que estar fora da política. Não podem ser agentes políticos pela simples razão que a nação os armou para a defender e não para a tutelar ou para nos submeter à tirania e à ditadura.