Helder decreta ‘lockdown’ em 10 municípios paraenses

Com a confirmação de quase 500 novos casos de pacientes com a covid-19 no Pará em um dia, e a queda no índice de isolamento social, o governador Helder Barbalho decretou no final da tarde desta terça-feira (05) o bloqueio total, o chamado “lockdown”, em 10 municípios paraenses. A decisão começa a valer na quinta-feira (7) e durará, a princípio, uma semana. 

O lockdown irá valer para todos os municípios da Região Metropolitana de Belém (Belém, Ananindeua, Marituba, Benevides, Santa Bárbara, Santa Isabel do Pará e Castanhal),  além de Vigia de Nazaré, Santo Antônio do Tauá e Breves, este no Arquipélago do Marajó.

“Os nossos esforços [até o momento] não têm sido suficientes. O percentual de isolamento social está em torno de 45% a 50%, e isso está fazendo com que os casos [de contágio por covid-19] avancem, os números cresçam e vidas sejam perdidas”, afirmou Helder no pronunciamento. 

Segundo Helder, nesta segunda-feira (04), a taxa de isolamento social no Estado ficou em aproximadamente 48%, percentual ainda distante da meta de 70% estabelecida pela Organização Mundial da Saúde para um isolamento adequado. 

Com a nova medida, funcionarão apenas as atividades consideradas essenciais nestas 10 cidades, a exemplo de supermercados, estabelecimentos de comércio de alimentos, farmácias, bancos, lotéricas, feiras de rua (que funcionam como supermercados dos mais humildes), onde poderá entrar apenas uma pessoa por família. 

Paralisação das atividades é a saída para conter a covid-19 - Crédito: Reprodução - Agência Belém

Jovens tardes de domingo

POR GERSON NOGUEIRA

Os tempos sombrios desta longa noite da quarentena pela covid-19 acabam empurrando a gente para a nostalgia. Nossa memória é seletiva, vai garimpando acontecimentos esportivos que nos deram alegria e felicidade em determinado momento das nossas vidas. Chama atenção, porém, o quanto é pouco o que há por recordar dos anos recentes. Todas as boas lembranças, as mais marcantes, já têm mais de 15 anos de tempo.

A série Jogos Memoráveis, que a Rádio Clube do Pará está levando ao ar nas (ainda) jovens tardes de domingo, tem feito um bem danado a todos os desportistas paraenses. No último domingo, a reconstituição da final de 1970 entre Tuna e PSC, vencida pela Águia Guerreira, encheu de gostosa saudade a todos que vivenciaram aqueles dias de bom futebol.

Tunantes, que normalmente reclamam de esquecimento por parte da mídia, no que estão certíssimos, puderam reviver a excepcional campanha daquele timaço que a Cruz de Malta formou, com destaque para Mesquita, Antenor, Leônidas e Marinho.

A decisão foi na Curuzu, com vitória de 1 a 0 (gol de Gonzaga), contra um PSC que tinha Quarenta, Beto, Bené e Vila. Os registros da época revelam que a Lusa não reeditou as boas atuações do campeonato, mas ainda assim conquistou o título.  

O interessante é que a equipe cruzmaltina era tão forte que derrotou os bicolores nos dois jogos finais. No primeiro confronto, marcou 3 a 2, no estádio do Souza. Prova irrefutável do merecimento da conquista.

Revisitar as fichas técnicas desses jogos memoráveis traz sempre altas doses de sentimentalismo, que irrigam a alma em meio a tantos pensamentos de angústia em meio à pandemia. Há na programação organizada pela Rádio Clube um quê de terapia e conforto aos corações aflitos do torcedor, impedido temporariamente de acompanhar futebol.

O programa também abriu espaço para a estupenda vitória do Papão sobre o São Paulo em 1994, no Morumbi, em jogo que – guardadas as devidas proporções – antecipou a mítica vitória sobre o Boca Juniors anos depois dentro de La Bombonera. O Tricolor paulista era um esquadrão repleto de craques e favorito absoluto diante do PSC. Mirandinha e seus companheiros subverteram os prognósticos.

A goleada do Remo sobre a Portuguesa de Desportos por 5 a 2, no Mangueirão, em 1993, pelo Brasileiro, foi uma exibição primorosa da equipe azulina, principalmente no setor ofensivo, que contava com Geovani, Mauricinho e Ageu. Só a citação desses nomes tem a capacidade de mexer com as emoções da torcida.

Em tempos de tantas notícias ruins, revisitar o passado de glórias é um remédio que aplaca nossos infortúnios recentes no futebol.

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Clubes tentam apressar volta aos treinos e jogos

O dia de ontem foi cruel com o clube que mais defende a volta imediata aos gramados, desafiando a virulência da covid-19. O Flamengo, que havia demitido 62 funcionários na quinta-feira (30), perdeu um de seus colaboradores mais queridos: Jorge Luiz Domingos, o Jorginho, massagista que trabalhava há 40 anos no clube, morreu vitimado pela pandemia. Tinha 68 anos e participou de todas as conquistas rubro-negras desde 1980.

A notícia talvez arrefeça o ímpeto da diretoria do clube, que radicalizou o posicionamento pelo retorno aos treinos e jogos, contrariando as orientações das autoridades sanitárias e da Organização Mundial da Saúde. O movimento do Flamengo encontra eco apenas na dupla Gre-Nal, que também parece disposta a desafiar a lógica sob o argumento de que não pode perder receita.

A autorização concedida pelo prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr (PSDB-RS), através de decreto, permitiu a Grêmio e Inter realizarem atividades de treino presenciais em seus Centros de Treinamento. Os clubes garantem estar seguindo os protocolos de higienização de vestiários e áreas internas.

O documento veta, porém, contato físico entre os atletas, exigindo que seja respeitada a distância mínima de dois metros. Apesar da pressa em retomar os treinos, a volta dos jogos ainda não tem data certa. Caso dependa do presidente do Inter, os jogadores terão que se submeter à vontade do clube, postura que desafia princípios da CLT.

Por enquanto, com o avanço da covid-19 em quase todas as regiões brasileiras, é improvável que a briga dos grandes gaúchos e do Flamengo parece condenada ao fracasso.

Glória a todas as lutas inglórias

O tema recorrente é saudade. Sentimos saudade até de simples passeios pela rua, idas ao bar, roda de conversa com os amigos. Há um remédio para isso. Quando a quarentena acabar, voltaremos a ter esses pequenos prazeres. O problema está nas saudades sem remédio, como a que passamos a sentir hoje do grande Aldir Blanc.

Letrista de nível top que trabalhou em dupla clássica com João Bosco. Nossa geração cresceu ouvindo hinos compostos por Aldir e musicados por João. Ontem, na carta que postou nas redes sociais, João comentou que eles eram tão diferentes que se complementavam naturalmente. Espécie de Lennon & McCartney à brasileira, até nos rompimentos e reconciliações. Aldir era médico, João hipocondríaco.

Comecei a admirar a dupla a partir de canções que protestavam contra injustiças e mazelas do Brasil velho de guerra. “O Bêbado e a Equilibrista” foi a trilha do movimento da anistia, mas o que me toca o coração até hoje é a marchinha “Rancho da Goiabada” (acima), cujos versos têm muito a ver com a minha visão de país. “Os bóias-frias quando tomam umas biritas/Espantando a tristeza,/sonham com bife-a-cavalo, batata-frita…”, diz a monumental primeira estrofe.

Grande Aldir, obrigado por tanta canção bonita.  

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 05)

Renan, o agressor de enfermeiras, foi um dos organizadores do ato golpista de domingo

O engenheiro eletricista Renan Sena (foto) é um dos líderes da manifestação de domingo, 3, em Brasília, para pedir a destituição do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e a expulsão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Sena é a pessoa que foi flagrada, dois dias antes, no dia 1º de maio, agredindo uma enfermeira que participava de um ato pacífico de sua classe, a favor do isolamento social, por causa da pandemia do coronavírus.

Ligado a grupos de direita que pedem ações como como o fechamento do STF e que seus ministros sejam julgados por crimes por uma “corte militar”, Renan Sena teve participação direta na organização do ato e estava presente na Praça dos Três Poderes no domingo. Sua atuação foi confirmada ao Estado pela Polícia Militar do Distrito Federal, que detinha, inclusive, o contato de Sena como um dos representantes da manifestação. O caso é investigado pela Procuradoria da República no Distrito Federal. Renan pode pegar até um ano e quatro meses de prisão.

Na sexta-feira, no Dia do Trabalho, ele agrediu uma enfermeira que participava de um ato pacífico. Nas imagens gravadas por pessoas que estavam no local, Sena aparece xingando e indo para cima da mulher, que é empurrada. Outros entram em sua frente para protegê-la. Sena estava acompanhado de outros dois bolsonaristas. Todos foram identificados pelo Conselho Regional de Enfermagem do DF, que já informou que vai processá-los.

Reprodução/Sindicato dos Enfermeiros do DF

HISTÓRICO

Engenheiro eletricista de formação e missionário da Igreja Batista Vale do Amanhecer, Renan Sena presta serviço, desde fevereiro, à SNDCA (Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), que coordena o Sinase (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo), responsável pela execução de medidas destinadas a adolescentes em conflitos com a lei. Sena é considerado por colegas de trabalho “como uma pessoa de trato difícil e insubordinada”, apurou a reportagem.

Desde meados de março até o dia em que agrediu as enfermeiras, ele chegou a alegar que estava doente, não respondeu aos emails de seus superiores no MDH nem executou suas tarefas. Contudo, participou de diversos protestos em que pedia intervenção militar ou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cometesse um golpe de Estado, como o ato realizado em Brasília no dia 15 de março.

O pior vira-latas da história

Por Paulo Nogueira Batista Jr.

Vou me arriscar no campo pantanoso da política outra vez. Começo com a pergunta que está na cabeça de todos: Bolsonaro tem futuro? Questão crucial, pois quase equivale a perguntar: o Brasil tem futuro?
É inegável que a crise do coronavírus e, em especial, a incapacidade do governo de lidar com ela provocaram imenso desgaste. Bolsonaro está cada vez mais isolado. Há quem o considere um cadáver político ambulante, prestes a ser ejetado da Presidência.

Wishful thinking? Provavelmente, sim. As notícias de sua morte são prematuras. Impressiona a resiliência do apoio ao governo nas pesquisas recentes de opinião (cerca de 30% de bom ou ótimo). Isso depois da demissão de dois ministros populares e bem avaliados: Mandetta e, sobretudo, Moro.

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Um quadrúpede de cinco patas

Mesmo assim, parece claro que a demissão de Moro foi um lance de alto risco, pois derrubou um dos pilares do esquema que levou Bolsonaro à Presidência: a aliança com o Lava Jatismo. A ameaça se vê reforçada pelo fato de Moro ter saído atirando, com pesadas denúncias ao presidente. As denúncias vão ser apuradas, como se sabe, e a apuração poderá enfraquecer Bolsonaro, Moro ou os dois.

Bolsonaro mostra-se, frequentemente, o pior inimigo de si mesmo. Empenha-se não raro em cavar a própria sepultura, atingindo inclusive pontos nevrálgicos do seu esquema de sustentação política. Além do Lava Jatismo, os pilares desse esquema são o bolsonarismo (inclusive milícias), o mercado, as forças armadas e a relação supostamente especial com Trump.

O governo começou como um quadrúpede de cinco patas, diria Nelson Rodrigues. Com a saída do marreco de Maringá, ficou reduzido às quatro patas regulamentares. Excetuado o bolsonarismo, que ainda apresenta certa solidez, as outras três parecem um pouco bambas.

Trump tem mais o que fazer; dá repetidas indicações de que está se lixando para o seu lacaio brasileiro. Com a crise internacional, o “America First” vem sendo levado ao paroxismo, reduzindo a pó qualquer expectativa de apoio mais sólido do lado americano.

Os militares, por sua vez, guardam um silêncio enigmático, mas devem estar preocupados com o desgaste que o envolvimento com este governo acarreta para as forças armadas. A saída constitucional, recorde-se, colocaria um general na presidência. Aqui Bolsonaro cometeu um erro que pode se revelar fatal: escolheu um vice-presidente que não assusta e tampouco se destaca pela lealdade. A julgar pela experiência, nada mais perigoso do que ter um vice tipo Temer, e não tipo José de Alencar.

A relação com o mercado também não prima pela solidez. Bolsonaro não é um quadro orgânico da turma da bufunfa, como foi por exemplo Fernando Henrique Cardoso. O acerto com o mercado passou pela nomeação de Paulo Guedes e Roberto Campos Neto para os cargos-chave na área econômica. Mas o primeiro não tem mais o mesmo prestígio com o presidente. As recentes declarações de apoio a ele por parte do presidente são, como se diz no futebol, do tipo “o técnico está prestigiado”.

Ainda que todas essas fragilidades e incertezas, fato é que Bolsonaro continua na presidência, com os instrumentos de que o presidente dispõe no regime presidencialista. E preserva quase todos os seus pilares iniciais de sustentação política, ainda que avariados. Não se deve perder de vista, em particular, a já mencionada confiança de cerca de 1/3 do eleitorado, número que permanece surpreendentemente elevado.

Lembranças da 2ª Guerra Mundial

Um paralelo com a Segunda Guerra me veio à mente. Comparações entre política e guerra ou entre política e futebol podem ser interessantes. Não passam evidentemente de analogias, não se prestam a explicações e muito menos previsões. Mas podem ajudar, pelo menos, a ilustrar alguns pontos.
Em 1942, quando os ingleses conseguiram expulsar as tropas do Marechal Rommel e retomar o Egito, Churchill colocou água na fervura das comemorações: “Este não é o fim, nem sequer o começo do fim, mas talvez seja o fim do começo”, disse ele. E, de fato, a queda de Hitler só viria em 1945.

Não poderíamos dizer o mesmo sobre Bolsonaro, ainda que o horizonte tenha que ser contado no seu caso em meses e não anos? Apesar do desgaste que vem sofrendo com a crise em março e abril, Bolsonaro não chegou a seu fim, nem sequer ao começo do fim, mas pode estar no fim do começo.

Desnecessário frisar que daqui para frente muito dependerá da determinação com que seus adversários políticos, não só da esquerda e centro-esquerda, mas principalmente da direita tradicional, atacarão os seus pontos fracos ao longo dos próximos meses.

As idiossincrasias do presidente e a sua inclinação para lances ousados funcionaram até agora – mas ao preço de aumentar o número de seus opositores e inimigos, até mesmo na extrema direita. Guardadas as proporções e as diferenças de contexto, Bolsonaro não lembra Hitler em alguns aspectos? O líder da Alemanha nazista teve, no começo, carreira de grande sucesso, baseada em apostas arriscadíssimas, mas também em astúcias e manobras diversionistas. Sem dar um tiro, ele reincorporou a Renânia desmilitarizada desde a Primeira Guerra, depois anexou a Áustria, depois anexou os Sudetos, em seguida ocupou Praga e o que restava da Tchecoslováquia. A cada passo, ele fazia recuos retóricos, assegurava suas intenções pacíficas e prometia parar ali. Quando invadiu a Polônia, em 1939, desencadeou a guerra com a França e o Reino Unido, mas continuou sua trajetória ascendente, derrotando a os franceses com surpreendente facilidade e ocupando vários outros países europeus.

A trajetória do capitão brasileiro não mostra, em miniatura, alguma semelhança com a do cabo austríaco? Desde a campanha eleitoral em 2018, Bolsonaro lançou-se em sucessivas manobras temerárias que deram certo, como as de Hitler inicialmente, mas que o deixaram cada vez mais isolado, com poucos aliados e inimigos poderosos, como ocorreu também com o líder nazista.
Até quando? A respeito de Hitler, Stalin fez a observação certeira: “É um gênio, mas não sabe quando parar”. Hitler deu o seu passo fatídico quando invadiu a União Soviética em 1941. Ao saber da notícia, Churchill fez o seguinte comentário (curioso pelo tempo do verbo): “So we won the war after all!” (Então, ganhamos a guerra, afinal!)

Bem. Bolsonaro não é nenhum gênio, longe disso, mas pode-se perguntar: quando fará a sua invasão da União Soviética? Quando solapará definitivamente, por excesso de auto confiança ou erros de cálculo, os pilares remanescentes da sua sustentação política? Lances ousados, que levem à perda de apoio dos militares ou do sistema financeiro, podem ser para ele o equivalente à invasão da União Soviética, especialmente se acompanhados de erosão do apoio na opinião pública.

Paulo Guedes parecia estar pela bola sete, mas Bolsonaro mostrou noção de timing e recuou. Não podia tirar Guedes logo depois de defenestrar Moro. Talvez seja questão de tempo. Uma alternativa seria substituí-lo por outro nome da confiança do mercado. Campos Neto, que já está no governo e parece mais flexível, talvez seja uma alternativa.

O radicalismo doutrinário do ministro da Economia é uma fonte de instabilidade. Outra, um possível conflito latente entre a ala militar e a equipe econômica. Difícil avaliar até que ponto os militares insistirão em planos de investimento em infraestrutura incompatíveis com a orientação da equipe econômica. Se o fizerem, poderão levar o chefe a mais uma manobra perigosa: a demissão do ministro da Economia, o que arriscaria abalar suas relações com a turma da bufunfa.

Uma questão de timing

Cabe então uma dupla paráfrase de Churchill: estamos no fim do começo, mas ainda não podemos dizer que ganhamos a guerra.

Não quero espalhar desalento, mas tudo é possível, inclusive a sobrevivência de Bolsonaro e até mesmo a sua reeleição em 2022. Que os seus adversários não cometam o mesmo erro que os de Lula cometeram na época do mensalão, em 2005 e 2006. Lula parecia liquidado e decidiu-se deixá-lo sangrar até o fim do primeiro mandato, na expectativa de que seria possível derrotá-lo nas eleições de 2006. Lula, como se sabe, deu a volta por cima e conquistou um segundo mandato.

Imagine, leitor, o seguinte cenário. Passada a pandemia, a economia começa a se recuperar, ainda que lentamente e com dificuldades, possivelmente no final deste ano ou no início do próximo (excluída a hipótese tenebrosa de uma segunda onda de contágio). As expectativas do brasileiro são sabidamente muito baixas. O alívio de ter superado a emergência de saúde pública abrirá espaço para que Bolsonaro, se ainda estiver no cargo, assuma ares de vencedor, reivindicando os louros do fim da pandemia e do início de recuperação econômica. Estaremos então a menos de dois anos da eleição presidencial – tempo de sobra para que ele possa se preparar para disputar a reeleição.

Eis o que eu queria dizer: o afastamento desse presidente danoso depende crucialmente de timing. Não se pode dar o bote cedo demais. Como disse Emerson, “when you strike at the king be sure that you kill him” (quando atacar o rei, tenha certeza de que irá matá-lo). Mas também não se pode demorar além da conta e perder a oportunidade para sempre.

Da escolha do momento certo depende o destino de Bolsonaro e, mais importante, do próprio Brasil.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países. Acaba de lançar pela editora LeYa o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém.

Carta do filho de Betinho sobre a morte do poeta

Acabei escrevendo isto sobre o Aldir e o meu pai.

Conheci o Aldir antes de saber quem ele era, quando ouvi junto com o Betinho, a música o Bêbado e a Equilibrista.
Ainda estávamos exilados no México, aquela canção já anunciava a volta do meu pai ao Brasil.
Lembro até hoje da sua emoção ao ouvir a Elis cantando que o Brasil sonhava com a volta do irmão do Henfil.
Quem resistiria a Elis e a uma música tão linda, que virou o hino da Anistia?
Betinho voltou, lutou pela democracia, contra a AIDS, contra a fome, mas principalmente pela solidariedade e a cidadania.
A primeira vez que encontrou o Aldir lhe disse carinhosamente: “voltei por causa da sua música, seu filho da puta!”
O descaso do poder público com o sangue contaminado matou o meu pai de AIDS.
O descaso do poder público com a saúde matou o Aldir, e ainda vai matar milhares de outros brasileiros.
Betinho voltou ao Brasil em plena ditadura.
Aldir nos deixa quando uma outra tenta voltar.
Ambos estão juntos agora, com o Henfil e o Chico Mário.
E eles nos cobram exatamente o que fizeram a vida toda: resistir ao autoritarismo e lutar pela democracia.
Salve Aldir!

Flamengo corta salários do futebol em 25% e adia pagamentos de direitos de imagem

Flamengo anunciou nesta terça-feira a redução de 25% do salário do elenco para os meses de maio e junho. Além disso, os direitos de imagem dos atletas referente ao mesmo período serão quitados em dez parcelas, a serem pagas a partir de janeiro de 2021. Segundo o clube, o acordo será formalizado nos próximos dias.

A decisão se dá por conta da crise causada pela pandemia do coronavírus, que paralisou o futebol no Brasil e no mundo. Os estaduais não foram finalizados, enquanto que a Série A nacional, que começaria no último final de semana, está suspensa por tempo indeterminado.

“Após este período, será feita uma nova avaliação a respeito dos impactos econômicos da pandemia e serão discutidos eventuais ajustes”, diz nota oficial do Flamengo, que ainda detalhou sobre a consequência do atual cenário no clube.

“As medidas tomadas esta semana (a mais dolorosa delas sendo a redução de aproximadamente 6% de seu quadro de colaboradores), aliadas a este importante acordo com os jogadores, ajudarão o clube: a quitar todos os direitos trabalhistas dos ex-colaboradores; a preservar ao máximo o emprego e o pagamento em dia de mais de mil colaboradores, entre funcionários e atletas.”

Palavra de homem

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Por Aldir Blanc

No apartamento onde moro existe um cômodo misterioso: o escritório. Não escrevo nele, mas lá estão os livros, o computador, a velha máquina de escrever, o fax, os discos. … De vez em quando, peço licença e entro lá pra apanhar alguma coisa. O lugar é dominado por minha mulher e quatro filhas.

Uma noite, fui atrás de um livro policial com Pepe Carvalho, meu detetive favorito, e dei de cara com as cinco me olhando.

Só o homem que vive com cinco mulheres sabe os riscos dessa convivência. É preciso ser o que meu amigo Mello Menezes chama de “canalha cálido”: terno, compreensivo, com apurado senso de justiça. Ajeita daqui, manera de lá, tentando não perder um pedacinho sequer do imenso amor que todas sentem por mim e que eu, modéstia à parte, mereço.

Na tal noite, que mudou minha vida, as cinco me olhavam, intensas, e pude sentir que o homem não é nada quando mulheres tomam uma decisão. Os olhares diziam mais ou menos assim: isso é assunto nosso, morou? Estamos envolvendo você por consideração, etc, mas ESSE NÃO É SEU DEPARTAMENTO, CERTO?

Uma delas me deu uma lata de cerveja geladinha, outra me passou uma cigarrilha holandesa, botaram um disco de jazz que eu amo na vitrola, e Isabel, a caçula, me jogou um beijinho como quem diz: coragem! Cumprido esse preâmbulo ritualístico, a Rainha das Amazonas anunciou: – Tatiana está grávida.

Elas dizem que é folclore, mas eu senti direitinho a fumaça da cigarrilha saindo pelas orelhas. Engasguei, fiz gestos estranhos, e a Patrícia suspirou: – Eu disse que era melhor acender um troço mais forte…

Eu nasci no Estácio, pô! Qualé? Fui criado em Vila Isabel! Não vou perder a pose mole, não! Eu e o Bruce Willis somos duro de matar, neguinhas! Vou mostrar pra vocês meu famoso jogo de cintura. Quando vocês iam, eu já estava voltando, tá legal?

Parei de espernear, levantei do chão, Isabel enxugou a lourinha entornada em minha camisa, e tomei ali, na hora, uma decisão de macho: não vou permitir que elas percebam meus verdadeiros sentimentos. Nunca! Para o próprio bem delas, tenho que ficar frio. Vou fazer minha imitação de Robert Mitchum.

Pronto. Nervos devidamente colocados no lugar, tive um acesso de choro. Nada de BUÁÁÁÁÁÁ e SNIFF, coisa de criança. Sou da Zona Norte. Foi assim: AAAMMMHHHNNNN! Vendo que eu havia conseguido o completo domínio de minha emoção, Mari Lúcia continuou: – São gêmeos. -AAAIIIIIMHHNNNHHHIIIIGRFSS!

Mais lenha: – A Mariana também está grávida. Voltei a mim, igualzinho no antigo samba, nos braços de Isabel. “Nos braços de Isabel eu sou mais homem, nos braços de Isabel eu sou um deus…? Afagando minha barba em desalinho, Isabel brincou: – Vai ser vovô…

Mari Lúcia me abanava, Mariana pingava gotinhas de Efortil dentro de outra latinha, Jung (meu bravo e fiel cão de guarda), lambia minha cara, Patrícia rezava um mantra aprendido em Búzios e Tatiana repetia, sorridente: – Assim a gente mata o velho…

Minha garganta emitia sons gorgolejantes. Todas insistiam: – Fala, tenta falar. Cê vai se sentir melhor. Consegui articular: – Tô com uma vontade louca de comer carambola. É isso, amigas. Fecundado pela palavra vovô, eu estava irremediavelmente grávido de meus netos.