Mês: março 2020
“Enganados por um presidente que não valoriza a vida”

A médica e professora Ana Escobar, que foi garota-propaganda de uma campanha lançada pelo governo há duas semanas sobre coronavírus, diz que é contra a postura defendida pelo presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido-RJ), de ignorar a importância da quarentena.
“O Brasil tem que parar. O mundo está dentro de casa e nós temos que ficar também. É essencial, disse. Sobre a campanha “O Brasil não pode parar”, ela afirma não se sentir enganada. “Sinto que todos estamos sendo enganados por um presidente que não dá valor à vida”.
Carreata da morte
Início da nova era?
“Será um futebol mais verdadeiro. Quando tudo isso acabar haverá um redimensionamento geral: técnicos e jogadores ganharão a metade, o preço dos ingressos vai cair, as TVs pagarão menos e talvez seja tudo melhor”.
Carlo Ancelotti, em entrevista ao Corriere dello Sport
Sobre ‘Apocalypse Now’
Por Edyr Augusto Proença
A primeira vez em que assisti “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola, não gostei. Era muito jovem. Achava que era filme de guerra. Não era. Hoje é um dos filmes da minha vida. Aproveitando o confinamento, assisto e leio obras realmente importantes. É a versão Redux, com quase 50 minutos a mais. Não pretendo revelar fatos novos ou interpretação brilhante, de um filme já suficientemente premiado e adorado, mas é impossível assistir e após, não ter vontade de dizer alguma coisa. Como sabem, Martin Sheen, como o capitão Willard, tem a missão de encontrar o coronel Kurtz, brilhante soldado que parece ter enlouquecido na guerra do Vietnã e formado exército próprio, ameaçando os americanos. Willard viaja em um barco, pelos tortuosos e perigosos rios da região que por ter a mesma vegetação da nossa Amazônia, o tempo todo ficamos a considerar a confusão que seria um combate por aqui, já procurando lembrar da luta contra traficantes, ratos d’água e contrabandistas.

Os acontecimentos se sucedem. A viagem tem tudo menos monotonia. Em seus breves momentos de calma, Willard lê sobre Kurtz e o admira cada vez mais. Os horrores, injustiças a covardias das guerras. Nós, aqui na poltrona, também vamos concordando. A tripulação, que inclui um Laurence Fishburne bem novinho, é uma prova da loucura americana. Jovens despreparados, sem treinamento, em pânico, chapados de maconha e ópio, portam metralhadoras de guerra, não hesitando em usa-las por puro susto e medo. Willard vai nos tortuosos rios em busca de seu inferno, do que pode ser o máximo do horror e da maldade. Aparece Robert Duval, como um capitão chefe de esquadrão de helicópteros. Um psicopata genialmente criado. Leva consigo dois surfistas. Eles não combatem. Surfam.

Na turma de Willard, um famoso surfista, agora soldado. Atacam uma aldeia, ao som da “Cavalgada das Walkyrias”, de Wagner. Entre balas e rojões, manda seus dois surfistas às ondas. Eles hesitam. Preferem surfar ou combater? Vão às ondas. Duval, em seu magnífico solo, diz algo, condensado, como “gosto do cheiro de napalm logo pela manhã, cedo. Tem cheiro de vitória”. Adiante, em um entreposto, há o famoso show das coelhinhas de playboy. Logo mais, um tripulante morre em combate. Vão parar em uma fazenda de franceses. Uma plantação. Recusam-se a sair. A cena não existe no original. Há uma viúva. Na cama, cheirando ópio, ela diz “você é duas pessoas. A que ama e a que mata”.
Então, em outro entreposto, abandonado, em um helicóptero sem combustível, as coelhinhas, prostituindo-se. Cenas e diálogos demolidores. E então chegamos ao ápice, ao coração do horror, o “coração nas trevas”, de Conrad, inspiração para o filme. A essa altura, há apenas três tripulantes, um deles, completamente pirado, o tal surfista. Quem primeiro surge, espetacularmente, chapado no momento da filmagem, é Dennis Hopper, como um fotografo, na verdade, um coringa, que salta por todos os lados, falando sem parar.
Marlon Brando chegou enorme de gordo para filmar. Não decoro textos. Deixe que eu improviso. Dá seu show. Um monólogo, apenas acompanhado por Willard. Você é um assassino? Não. Sou um soldado. A visão do inferno, do horror máximo ao que o ser humano pode chegar. E sim, está pronto para morrer, o que ocorre simultaneamente com a execução de um boi, caindo estrepitosamente, os olhos rútilos, apascentados, talvez, mas enorme, como um grande pesadelo, toneladas de maldade.

Willard, ao final de tudo, levando o surfista pirado a tiracolo, mais um soldado que queria ser um saucier, especializado em molhos, retorna ou, quem sabe, nunca mais sairá daquele labirinto, passando a ocupar o lugar do Minotauro. O filme termina e ficamos em silêncio, impactados.
Desculpem se me alonguei. Talvez, nesses tempos de confinamento, possamos trocar essas impressões sobre filmes, livros, discos.
520 anos de história
Direto do Twitter
“Nada mais bolsonarista do que a campanha oficial – paga com dinheiro público, sem licitação – que ‘nunca existiu’: foi disseminada, cumpriu sua missão, ainda ecoa irresponsavelmente nos rincões do zap; mas o governo recuou, tirou a coisa do ar e já tem nada com isso. Padrão”.
Carlos Andreazza
Protestos de um novo tempo
Enquanto isso…
O passado é uma parada
Há 26 anos, o Pink Floyd lançava o álbum “The Division Bell”, seu 14º disco de estúdio. Foi o último da banda até “The Endless River” (2014), que aproveita sobras de sessões de gravação desse álbum. O disco frequentou a paradas. “Take It Back” e “High Hopes” saíram como singles. A climática “Lost For Words” foi um dos maiores sucessos de “The Division Bell”.
Um criminoso de guerra
Por Francisco Assis, no Público! (Portugal)
Nestas horas tão angustiantes é impossível deixar de olhar para o Brasil, país tão próximo e tão presente no nosso imaginário colectivo. Por mais europeus que sejamos, e somo-lo profundamente, nenhum outro povo suscita em nós um sentimento tão forte de irmandade como o povo brasileiro. Nada do que se passa naquele país nos é estranho. Essa é a razão pela qual temos seguido com particular atenção a forma como as autoridades brasileiras têm tratado o problema da pandemia viral que assola o mundo. Desgraçadamente, o que se nos depara é a perspectiva de um desastre anunciado e previamente denunciado.
Jair Bolsonaro não é um canalha acidental. A ausência dos mais leves vestígios de integridade moral constitui a essência da sua personalidade, tal como ela publicamente sempre se manifestou. Só assim se compreende, entre outras coisas, a sua sórdida declaração aquando da votação da destituição da Presidente Dilma Rousseff. Convirá recordar que nessa ocasião o sacripanta não teve pejo algum em declarar o seguinte: “Dedico o meu voto à memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff.” Este Coronel Ustra foi um dos maiores torcionários no tempo da ditadura militar que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985. Dificilmente se conceberia acto mais vil.
Eleito e empossado Presidente da República, o medíocre capitão, que acabou compulsivamente afastado do Exército, tem vindo a dirigir o país com o mesmo grau de alarvidade que sempre caracterizou a sua intervenção política. Tudo no Presidente brasileiro é do domínio da fraude, da fancaria, da pura indigência mental. Tem como referência “intelectual” um tal Olavo de Carvalho, figura semi-anedótica que se pretende passar por filósofo, depois de ter dedicado parte da sua vida à prática da astrologia, essa ciência ultra-sofisticada que, como todos sabemos, permite antever o futuro. Formou um Governo à sua imagem, repleto de militares e integrado por fanáticos religiosos e serôdios representantes da Escola de Chicago. Para ministro da Justiça escolheu o justicialista Sérgio Moro, uma das personagens mais sinistras do Brasil atual.
Por tudo isto não pode causar espanto a forma como Bolsonaro tem gerido internamente a dramática crise sanitária que se abateu sobre o planeta. O seu comportamento só pode ser apodado de criminoso. Recorrendo a um discurso anti-racionalista e anti-científico formulado num tom jocoso, o Presidente brasileiro lançou uma mensagem pública e optou por uma linha de actuação política que, se não for rapidamente contrariada, poderá condenar milhares, senão milhões, de brasileiros à morte. O seu comportamento é imperdoável – considero-o equiparável ao de alguns criminosos de guerra que acabaram por cair na alçada da jurisdição penal internacional.
O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, com uma parte significativa da sua população a viver em situação de carência absoluta; dispõe de um sistema sanitário público débil, a precariedade habitacional é por demais evidente, escasseiam as infra-estruturas básicas. O contexto não poderia ser mais favorável à rápida propagação de uma doença altamente contagiosa e com uma elevada taxa de letalidade. Como sempre, será a população mais desfavorecida, esses milhões e milhões de brasileiros que procuram escapar diariamente à miséria e à fome, quem constituirá a principal vítima de tão criminosos desmandos presidenciais. Basta pensar nas favelas do Rio de Janeiro, nos subúrbios de São Paulo, na imensa pobreza nordestina, para antecipar a dimensão trágica do que poderá vir a suceder.
A verdade é que Bolsonaro foi eleito Presidente da República do Brasil. Já na ocasião era óbvia a sua impreparação política, intelectual e moral para o desempenho de tão exigente função. Como foi possível a eleição de uma figura destas? Não desconheço a estereotipada teoria de que os brasileiros se queriam a todo o custo libertar do PT. Essa tese é histórica, política e moralmente improcedente.
O que houve foi um processo devidamente orquestrado por vários sectores da elite política e oligárquica visando a demonização da governação do PT numa altura em que esta se debatia com os sérios problemas gerados por uma crise económico-financeira internacional. Por insuficiente cultura democrática, própria de uma sociedade ainda largamente dominada por um legado mental escravocrata, amplos sectores da classe média aderiram a um projecto subversivo que teve na destituição de Dilma Rousseff o seu momento inaugural. A seguir, com o apoio da fortíssima corrente evangélica e com a participação activa de muitas das principais figuras do centro-direita, promoveram a eleição de Bolsonaro.
Tudo isto com o objectivo de impedir uma verdadeira democratização social do Brasil. Nessa perspectiva há muito boa gente que tem responsabilidades por cumplicidade pretérita com o que agora está a acontecer. Muitos estarão genuinamente arrependidos e dispostos a contribuir para a correção do grave erro cometido. Porém, o tempo urge. Pela sua conduta criminosa e pelas consequências trágicas que dela poderão advir, o Presidente brasileiro perdeu aquilo que se designa por legitimidade de exercício. Há que retirar daí todas as ilações.
Justiça do Maranhão proíbe atos contra o isolamento social

As medidas de isolamento social para evitar o contágio do novo coronavírus (Covid-19) e a proibição de atividades que gerem aglomeração de pessoas são temporárias. Além disso, fazem parte das determinações de autoridades sanitárias como forma mais adequada para retardar o crescimento da curva de disseminação do vírus.
Com esse entendimento, o juiz Douglas de Melo Martins, titular da Vara de interesses difusos e coletivos de São Luís, proibiu a realização de eventos contra o isolamento social em todo o estado do Maranhão.
A decisão é desta sexta-feira (27/3). A proibição vale “enquanto durarem as medidas de isolamento e proibição de aglomeração adotadas pelas autoridades sanitárias estaduais, de modo a preservar a saúde pública”.
Caso concreto
Sob o lema “o Brasil volte a funcionar já”, uma carreata em São Luís aconteceria na próxima segunda-feira (30/3). Trata-se de autodenominada “Carreata geral de São Luís”. De acordo com a chamada nas redes sociais, o ato foi convocado por empresários, comerciantes, motoristas de aplicativos e profissionais liberais.
A ação cautelar foi ajuizada pelo Ministério Público estadual, a Defensoria Pública do Maranhão e a seccional da OAB. Na decisão, o juiz determinou que o estado do Maranhão promova as medidas necessárias para barrar esse tipo de movimento, com a identificação dos responsáveis pela organização e acionamento dos órgãos de segurança. (Do Conjur)