O vírus do Ipiranga na rota Belém-Brasília

Por Xico Sá, no El País

Na rota Belém-Brasília, sigo com camaradas paraenses rumo a SQN 404, onde habitava, e a fita cassete da história toca um clássico do Detrito Federalgrupo punk brasiliense do período da Ditadura (anos 1980), quando o capitão Jair Bolsonaro já preparava a sua entrada na política profissional no Rio de Janeiro, ramo que não largaria jamais. “O vírus do Ipiranga/ Não é mais que um vício/ Salve, salve Pátria terra/ Bandeira sem cor/ Idolatrada geração do medo/ Nossos lindos bosques/ Tem mais horrores”.

Final de fevereiro de 2020. Agora no sentido Brasília-Belém, a equipe do Ministério da Justiça, sob a batuta (não, não cante ainda aquela faixa do Garotos Podres sobre o Papai Noel) do ex-juiz Sergio Moro põe a máquina pública em ação e despacha um inquérito para intimidar e censurar os punks da metrópole amazônica. As “otoridades” foram mobilizadas à custa da bufunfa pública e deram um aperto na turma do coletivo Facada Fest.

Égua! Bote égua nisso. Se o amigo estava em Marte ou na buena, livre da vida chata das informações, tomando uma cerveja com caldo de turu na Praia Grande de Salvaterra (Ilha do Marajó), juro que isso é fato. Como se o ministro da Justiça não tivesse problemas importantes para resolver no faroeste brasileiro. A começar por episódios das milícias cariocas. Deixa quieto.

Melindrado com possível ofensa à honra de Bolsonaro, égua!, o ex-juiz mandou jogar duro com a rapaziada que desenhou uns cartazes para promover o festival. Como se o presidente no papel do palhaço Bozo ou destruindo a floresta fossem crimes a essa altura. São lugares de fala presidencial por excelência.

Nesta minha crônica estradeira na BelémBrasília, todo respeito, égua, a um neurônio especial à beira da morte que clama, aqui no hipotálamo, para que eu lembre da noite em que dancei ao lado da Daryl Hannah na boate Lapinha. Paguei de papachibé na pista. Pense num dançarino desajeitado ― ainda não havia assimilado a manha com meu compay Felipe Cordeiro e sequer sabia da riqueza do antimaestro Pio Lobato. Haja Pinduca e Eliana Pittman. A atriz filmava Brincando nos campos do senhor, do diretor Hector Babenco, crepúsculo dos 80.

Repare só no enredo do filme e tente viajar no tempo: casal de missionários evangélicos vai para a Amazônia e tenta impor sua crença a quem estava feliz com Tupã, lua e estrelas. Se não vai na prosa, o jeito é bombardear os nativos. Você está vendo esse filme mesmo que nunca o alugue.

Poxa, Sérgio Moro, vossa excelência quer pagar de garça namoradeira no meio do pitiú?, inventa outro inquérito para preservar a honra do presidente, a garça namoradeira namora o malandro urubu, eles passam a tarde inteira causando o maior rebu, isso aprendi com Dona Onete, na doca do Ver-o-Peso, não é pra qualquer um.

Veraneio vascaína do Aborto Elétrico ― a banda pré do Renato Russo ― vai dobrando uma esquina imaginária do Plano Piloto. E eis que de Belém parte a Klitores Kaos, grupo de mulheres perseguido pelo ex-juiz Sérgio Moro, “contra a inércia, atividade subversiva”.

Agora estamos nos anos 1990, de volta ao DF, no que a banda Bulimia mandava: “Você sempre quis tocar/ Você sempre quis andar de skate/ Você que sempre quis, quis, quis/ Você não é um enfeite/ Punk rock não é só pro seu namorado/ Punk rock não é só pro seu namorado”.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Se um cão vadio aos pés de uma mulher-abismo (Fina Flor editora), entre outros livros.

Dino afirma que Bolsonaro alimenta motim e vê luz amarela no Ceará

Do Valor:

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), afirmou que o presidente da República, Jair Bolsonaro, estimula ataques às instituições democráticas com o objetivo de governar sozinho, em nome dos interesses dele mesmo e da família Bolsonaro. “O presidente da República estimula ataques contra as instituições da democracia, não por seus defeitos, mas pelas suas virtudes”, afirmou Dino em palestra a lideranças sindicais na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, no centro da capital paulista.

“A democracia política plena no Brasil hoje vive uma ameaça. Temos uma tentativa de união de corpos armados militares e milicianos, sem controle”, disse Dino. “O Ceará é uma luz amarela [de alerta] poderosa, a mostrar o que acontece quando um presidente da República alimenta um motim contra a constitucionalidade”, afirmou o governador em relação à paralisação de policiais militares no Ceará.

Gelson e Mandai fazem transição e podem reaparecer no Re-Pa

Gelson e Dudi Mandai iniciaram etapa de transição nesta segunda-feira — Foto: Samara Miranda/Remo

O técnico Mazola Júnior pode ganhar dois reforços internos para o Re-Pa do próximo domingo. O lateral-esquerdo Dudu Mandai e o volante Gelson iniciaram, nesta segunda-feira, a fase de transição após problemas musculares. Mandai ainda nem estreou em jogos oficiais. Contratado em novembro, participou dos amistosos da pré-temporada, mas uma lesão o deixou fora do Parazão e quando estava voltando a treinar enfrentou seguidos problemas musculares.

Gelson, que chegou com o Parazão já em andamento, contundiu-se na partida conta o Brusque pela Copa do Brasil. Foi diagnosticado com uma lesão grau um no músculo adutor da coxa direita e ficou de fora do jogo contra o Carajás.

Em fase de transição, ambos vivem a expectativa de serem relacionados para o clássico contra o Paissandu, que acontece domingo, às 16h, no estádio Jornalista Edgar Proença, válido pela 7ª rodada do Campeonato Paraense. Os dois clubes dividem ponta da tabela da competição.

Três jogadores ainda continuam no departamento médico: o lateral-esquerdo Ronaell, o meia Douglas Packer e o atacante Gustavo Ermel.

Série C muda para melhor

POR GERSON NOGUEIRA

Troféu da Série C — Foto: Lucas Figueiredo/CBF

O que pode se extrair de mais positivo na cruzada liderada pelos presidentes de PSC, Remo e Santa Cruz (PE), que levou à mudança de formato de disputa do Brasileiro da Série C, é a constatação de que uma mobilização bem organizada pode render vitórias aos clubes, mesmo que do outro lado da mesa esteja a Confederação Brasileira de Futebol e sua proverbial má vontade com os clubes do Norte.

Para surpresa de muitos, a assembleia de ontem à tarde, na sede da CBF, aprovou por ampla maioria (14 votos a 6) a adoção de uma nova fórmula de disputa da competição, depois de oito anos com a utilização do sistema de mata-mata para definição do acesso à Segunda Divisão.

A fase classificatória permanece inalterada, com 20 clubes divididos em dois grupos regionalizados de 10 clubes. A fase seguinte, porém, sofre significativa modificação, a partir da proposta elaborada e defendida pelos três clubes – PSC, Remo e Santa.

Agora, ao invés de confrontos em mata-mata, serão disputados dois quadrangulares (com jogos em ida e volta) para escolha dos quatro classificados. O formato privilegia a regularidade e reduz o risco de injustiças, algumas derivadas de erros graves de arbitragem, como no jogo entre Náutico e PSC, quando Leandro Vuaden deu um pênalti inexistente contra os bicolores.

Os dois primeiros de cada grupo sobem de divisão e decidem o título. Os segundos colocados também garantem o acesso. A composição dos quadrangulares vai entremear times das chaves A e B. A dupla Re-Pa reivindicava a não marcação de clássicos regionais para a penúltima e última rodada da primeira fase, mas a tabela já estava aprovada.

Apesar do favorecimento ao mérito técnico na definição do acesso, a reunião fez uma concessão perigosa quanto à capacidade dos estádios para a segunda fase. Ao contrário do que vigorava até 2019, praças com capacidade abaixo de 10 mil pessoas passam a sediar jogos. Há o sério risco de avacalhação do campeonato com jogos em campinhos de várzea, como já acontece na Copa do Brasil.

A força-tarefa montada por Papão, Leão e Coral pernambucano conquistou um feito expressivo: mexer na fórmula que a CBF mantinha desde 2012. Sinal de que outros benefícios podem ser alcançados, precisando para isso superar diferenças e deixar as vaidades de lado.

O próximo passo deve ser uma nova pressão coletiva para que a CBF se empenhe em viabilizar parceria com um canal de TV (aberta ou por assinatura) para a transmissão dos jogos, hoje o ponto crítico da competição, cuja baixa visibilidade gera sérios prejuízos aos clubes.

De repente, o Remo descobre que tem lateral

Os torcedores que foram ao Baenão domingo pela manhã se surpreenderam com a qualidade do futebol de Ronald, menino de 17 anos, que substituiu Ronaell na lateral esquerda do Remo. Foi um dos poucos a merecer aplausos ao final da difícil e conturbada atuação azulina conta o Carajás.

Ronald tem sido relacionado em partidas do Campeonato Estadual como atacante de lado, posição que abraçou nos últimos dois anos. Era lateral quando iniciou na base azulina, mas a velocidade e o talento para o drible determinaram a opção pelo ataque.

Sua aparição lembrou a do lateral-direito Rony, que foi lançado também numa situação emergencial pelo então técnico Eudes Pedro, na partida contra o Atlético-AC, no Baenão, e encantou a torcida.   

Mas, ao contrário do ocorrido com Rony, que entrou em litígio com o Remo, Ronald deve ter um futuro auspicioso no clube. Tornou-se alternativa providencial para o técnico Mazola Jr. contra o Carajás e está cotado para entrar de cara no Re-Pa de domingo.

Ao lado de Hélio Borges, Wallace e Warley, Ronald integra a novíssima fornada de jogadores revelados pela base remista. Sua atuação no domingo deixou a forte impressão de que está prontinho para ocupar um lugar no time. 

Jogo bruto é o recurso dos incompetentes

Com a cara de pau de sempre, Felipe Melo e Fagner deram desculpas esfarrapadas para tentar justificar as entradas criminosas que se transformaram em cartão de visitas de ambos. Os dois pontificam pela violência desmedida há muito tempo, beneficiando-se do fato de que a maioria dos árbitros não tem peito para aplicar a lei.

Felipe, como todo carniceiro, alega que sempre jogou assim e que a maneira dura de entrar nas jogadas não é desleal. Insiste que futebol é jogo de contato físico, confundido a disputa normal pela bola com pugilismo explícito.

Fagner usa a mesma ladainha. Diz que sempre usou um estilo mais duro (sem maldade, diz ele) como forma de compensar o físico mirrado e assim garantir o leite das crianças. Ora, se fosse verdade, alguns dos maiores craques de todos os tempos nem teriam tido oportunidade de jogar.

Pela tortuosa lógica defendida pelo lateral corintiano, Maradona, Tostão, Baggio, Zico, Iniesta, Romário, Paolo Rossi, Bebeto, Ronaldinho Gaúcho e Messi jamais se dariam bem em campo. Todos eram baixinhos e só brilharam (e brilham) em campo pela força do excepcional talento.

A questão é que os bons de bola gostam do jogo limpo, praticado dentro das regras. Não precisam apelar para o antijogo dando pontapés e sarrafadas de intimidação. Distribuir botinada é uma forma de trapaça contra os adversários e contra o próprio futebol. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 03)

Barão de Limeira, 425: ontem, hoje e amanhã

Por Ricardo Kotscho

Pedir licença para entrar pela primeira vez numa casa ainda é um velho hábito cultivado no interior do Nordeste.

“Licença… Muito prazer, eu sou o …”

É o que faço hoje, pedindo passagem para me apresentar aos leitores, ao iniciar minha colaboração no UOL.

Essa casa já é uma velha conhecida minha.

Alameda Barão de Limeira, 425, Campos Elíseos.

A primeira vez que entrei neste endereço para trabalhar na Folha está fazendo exatos 40 anos. Foi no Carnaval de 1980.

Entrei e saí três vezes, rodei por muitas redações, e já estou na minha quarta temporada como repórter deste jornal.

Agora, além do impresso, estarei também todos os dias aqui no UOL com o meu blog, o Balaio do Kotscho, que em setembro completará 12 anos ininterruptamente no ar.

Tudo faz muito tempo, costumo dizer, mas a vida é um eterno recomeço.

Por coincidência, ou não, dias atrás participei de um debate na cerimônia de entrega do Grande Prêmio UOL

O tema era bem amplo: “Reportagem — Ontem, hoje e amanhã”.

Podia falar com conhecimento de causa porque sou um jornalista de ontem (comecei em 1964), ainda estou trabalhando e pretendo continuar amanhã, enquanto tiver espaço para escrever e contar minhas histórias da vida cotidiana.

Mudou o Brasil, mudou o mundo e mudou o jornalismo com o advento da internet, a maior revolução nas comunicações humanas desde Gutenberg, que inaugurou a imprensa uns 500 anos atrás.

Mas não mudou a essência, a natureza do jornalismo, que é muito simples: relatar o que está acontecendo, contar uma novidade, revelar uma tendência, prestar um serviço, criticar o que tem de errado, louvar o que bem merece, e ser sempre fiel aos fatos.

Por mais novas plataformas que surjam, ainda será a boa e velha reportagem que diferenciará um veículo do outro, desde que seja capaz de surpreender e encantar o leitor.

Dá-se a isso hoje o nome genérico de conteúdo. Nenhum robô será capaz de descobrir e contar uma boa e inédita história antes dos concorrentes.

Por isso, o conteúdo dependerá sempre de uma pauta original e um repórter disposto a fazer de cada pauta um novo desafio, como se fosse a primeira matéria da sua vida e, se possível, a melhor.

Quando me perguntam qual foi a melhor reportagem que já fiz nesses meus 55 anos de estrada no jornalismo, sempre digo que é a que estou fazendo.

Num mundo em que todos viraram emissores e receptores de informações e opiniões, haverá sempre espaço para o jornalista profissional que faz do seu ofício uma opção de vida, disposto a correr todos os riscos e ir fundo para descobrir onde está a verdade que os poderosos querem esconder. Não há outra profissão mais apaixonante do que essa.

Certa vez perguntei ao grande cardiologista Adib Jatene no programa “Roda Viva”, da TV Cultura, quando ele era ministro da Saúde e ainda fazia cirurgias nos fins de semana, se não tinha medo de morrer do coração, de tanto que trabalhava. Recebi uma resposta que nunca esqueci:

“Meu filho, o trabalho não mata ninguém. O que mata é a raiva. É você não poder fazer o que gosta e ser obrigado a fazer o que não gosta”.

Jatene viveu muito e morreu trabalhando no que gostava.

Vida que segue.