Sobre ‘Apocalypse Now’

Por Edyr Augusto Proença

A primeira vez em que assisti “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola, não gostei. Era muito jovem. Achava que era filme de guerra. Não era. Hoje é um dos filmes da minha vida. Aproveitando o confinamento, assisto e leio obras realmente importantes. É a versão Redux, com quase 50 minutos a mais. Não pretendo revelar fatos novos ou interpretação brilhante, de um filme já suficientemente premiado e adorado, mas é impossível assistir e após, não ter vontade de dizer alguma coisa. Como sabem, Martin Sheen, como o capitão Willard, tem a missão de encontrar o coronel Kurtz, brilhante soldado que parece ter enlouquecido na guerra do Vietnã e formado exército próprio, ameaçando os americanos. Willard viaja em um barco, pelos tortuosos e perigosos rios da região que por ter a mesma vegetação da nossa Amazônia, o tempo todo ficamos a considerar a confusão que seria um combate por aqui, já procurando lembrar da luta contra traficantes, ratos d’água e contrabandistas.

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Os acontecimentos se sucedem. A viagem tem tudo menos monotonia. Em seus breves momentos de calma, Willard lê sobre Kurtz e o admira cada vez mais. Os horrores, injustiças a covardias das guerras. Nós, aqui na poltrona, também vamos concordando. A tripulação, que inclui um Laurence Fishburne bem novinho, é uma prova da loucura americana. Jovens despreparados, sem treinamento, em pânico, chapados de maconha e ópio, portam metralhadoras de guerra, não hesitando em usa-las por puro susto e medo. Willard vai nos tortuosos rios em busca de seu inferno, do que pode ser o máximo do horror e da maldade. Aparece Robert Duval, como um capitão chefe de esquadrão de helicópteros. Um psicopata genialmente criado. Leva consigo dois surfistas. Eles não combatem. Surfam.

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Na turma de Willard, um famoso surfista, agora soldado. Atacam uma aldeia, ao som da “Cavalgada das Walkyrias”, de Wagner. Entre balas e rojões, manda seus dois surfistas às ondas. Eles hesitam. Preferem surfar ou combater? Vão às ondas. Duval, em seu magnífico solo, diz algo, condensado, como “gosto do cheiro de napalm logo pela manhã, cedo. Tem cheiro de vitória”. Adiante, em um entreposto, há o famoso show das coelhinhas de playboy. Logo mais, um tripulante morre em combate. Vão parar em uma fazenda de franceses. Uma plantação. Recusam-se a sair. A cena não existe no original. Há uma viúva. Na cama, cheirando ópio, ela diz “você é duas pessoas. A que ama e a que mata”.

Então, em outro entreposto, abandonado, em um helicóptero sem combustível, as coelhinhas, prostituindo-se. Cenas e diálogos demolidores. E então chegamos ao ápice, ao coração do horror, o “coração nas trevas”, de Conrad, inspiração para o filme. A essa altura, há apenas três tripulantes, um deles, completamente pirado, o tal surfista. Quem primeiro surge, espetacularmente, chapado no momento da filmagem, é Dennis Hopper, como um fotografo, na verdade, um coringa, que salta por todos os lados, falando sem parar.

Marlon Brando chegou enorme de gordo para filmar. Não decoro textos. Deixe que eu improviso. Dá seu show. Um monólogo, apenas acompanhado por Willard. Você é um assassino? Não. Sou um soldado. A visão do inferno, do horror máximo ao que o ser humano pode chegar. E sim, está pronto para morrer, o que ocorre simultaneamente com a execução de um boi, caindo estrepitosamente, os olhos rútilos, apascentados, talvez, mas enorme, como um grande pesadelo, toneladas de maldade.

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Willard, ao final de tudo, levando o surfista pirado a tiracolo, mais um soldado que queria ser um saucier, especializado em molhos, retorna ou, quem sabe, nunca mais sairá daquele labirinto, passando a ocupar o lugar do Minotauro. O filme termina e ficamos em silêncio, impactados.

Desculpem se me alonguei. Talvez, nesses tempos de confinamento, possamos trocar essas impressões sobre filmes, livros, discos.

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