Bye bye, Miami: Dólar já é vendido a R$ 5,16 em casas de câmbio

Do Metrópoles:

Pela 12ª sessão consecutiva, o dólar opera em alta nesta quinta-feira (05/03), superando pela primeira vez o patamar de R$ 4,60, em meio às crises relacionadas ao coronavírus. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reunirá em 17 e 18 de março para deliberar sobre a taxa de juros, que está em patamar mínimo recorde de 4,25% ao ano.

Apoiadas pela alta da moeda norte-americana, as casas de câmbio chegam a negociar o dólar a R$ 5,16, considerando o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), no cartão pré-pago. Esse valor foi encontrado em uma empresa de São Paulo. Agora, se pago em espécie, o preço fica na média de R$ 4,87.

Os 35 anos de Calvin & Haroldo

Por André Forastieri

Em 2020, celebramos os 35 anos da criação de Calvin e Haroldo, e um quarto de século do seu fim. A tira foi lançada nos EUA no dia 19 de novembro de 1985.

Bill Watterson produziu essas histórias encantadoras por um pouquinho mais que uma década. Começou aos 27 anos, parou aos 37.

Nunca mais publicou nada. Nunca mais deu as caras ou entrevistas. Vive tranquilo, em Ohio, pintando e, imagino, matutando – 60 anos completos.

As tiras clássicas são repetidas desde então, nos poucos jornais que ainda publicam tiras, nos poucos jornais que ainda restam. As páginas coloridas, dominicais, só nos álbuns.

Foi o último gênio desta arte tão poderosa e popular no século que passou. Combinação única, escrevia com a delicadeza dos melhores, como seu ídolo Charles Schulz; ilustrava com a expressividade dos maiores da HQ.

Peça rara, Bill proibiu todo tipo de merchandising e extensão de marca. Nada de boneco, lancheira, desenho animado ou game do Calvin. Nem autógrafo dava. Não queria desvalorizar os personagens, nem culto à personalidade.

Rasgou dinheiro. Conquistou com isso uma aura muito pura e exclusiva para seus heróis. Se você quer ter um pedacinho do menino e seu tigre, a única coisa a comprar são os livros, poucos.

Estão por aí e são obrigatórios. As edições brasileiras trazem o selo da Conrad, que tenho orgulho de ter co-fundado. Negociávamos os direitos quando eu deixei a editora, em 2005. O primeiro volume é este aqui. 

Ou você pode comprar a coleção completa do Calvin em inglês. 

Calvin foi a última tira que aguardávamos em massa, mundo afora, mais de 2.400 jornais. Hoje a cultura popular não tem mais um centro, tem infinitas dimensões. Ganhamos mais que perdemos. As perdas doem.

Calvin vive. E com ele Haroldo, que nome simpático… mas adotemos o original, Hobbes. Porque Bill Watterson o batizou assim em homenagem ao filósofo, que tinha “uma visão pouco otimista do ser humano.” Confira estas descrições que ele faz dos personagens, no seu antiquadão site oficial. 

Siga no Twitter o perfil @Calvinn_Hobbes. Ele reproduz tiras e páginas de Calvin. É um segundinho de alegria, todo dia. Sugiro que te dês o mesmo presente.

Mas antes, vou te dar outros três.

Esta homenagem foi feita por dois grandes talentos dos quadrinhos.

O escritor Brian Azzarello e o ilustrador Lee Bermejo, conhecidos por suas violentas recriações de super-heróis clássicos, acertaram exatamente no ponto ao recriar Calvin e Hobbes como Lex Luthor e Coringa.

A história foi feita para um gibi da DC Comics, por enquanto publicado só nos EUA. Milagrosamente, Brian consegue capturar os espíritos do menino e seu tigre, e também os dos arquiinimigos de Batman e Super-Homem.

E Lee, bem, se Bill quiser passar o nanquim para alguém, já achou herdeiro… mas não vai. E é melhor que seja assim. 

Mais um presentinho…

Gavin Aung Tham criou este site, o Zen Pencils. Transforma frases de outros, famosos ou nem tanto, em pequenos cartuns, ou às vezes histórias em quadrinhos. 

Esta é do Bill Watterson. Combina bem com a primeira semana do ano. Gavin não é gênio, mas sabe reconhecer e homenagear um. É uma história singelinha? Uma frase meio piegas? É lição muito difícil de seguir. 

E esta é a tira de despedida de Calvin e Hobbes. Foi publicada no dia 31 de dezembro de 1995, último dia desta dupla querida e de um distante ano.

É, o ontem se foi, só nos resta este momento mágico – este instante de decisão, de prazer, de poder.

Vamos juntos?

Imprensa que aguenta humilhação diária no Planalto gosta de apanhar

Por Kiko Nogueira, no DCM

Os jornalistas e seus patrões são responsáveis pela humilhação que lhes é imposta pelo presidente da República nas coletivas do Planalto. Para haver um sádico, é necessário um masoquista.

Os profissionais normalizaram o comportamento de um vagabundo que se compraz em humilhá-los. Nesta terça, um passo adiante foi dado rumo ao lixo. Como ninguém diz “basta”, não será o último.

O humorista Carioca, fantasiado do palhaço que ocupa o cargo de presidente, distribuiu bananas aos repórteres. Ele saiu de um carro junto com o chefe da Secom, Fabio Wajngarten, e tocou uma corneta.

“Foi o presidente Jair Bolsonaro que pediu para distribuir banana?”, questionou alguém. “Não vem com esse papo não, foi ideia minha, isso aqui se chama humorista”, respondeu o sujeito.

Parte disso era para Jair Bolsonaro fugir de questões sobre o pibinho de 1,1% em 2019. O comediante vai usar as imagens em seu programa de domingo na Record, emissora amiga do regime.

Daniel Gullino, do Globo, conta que seus colegas viraram as costas para Bolsonaro quando ele surgiu com Carioca, como se isso fosse grande coisa.

Muito pouco, tarde demais. Amanhã tem mais.

Bolsonaro tem um relacionamento abusivo com o reportariado, que engole bovinamente suas ofensas, voltando para ser subjugado. Por que topam essa parada? Que informação preciosa poderia lhes dar o energúmeno? Nenhuma.

É famosa a cena de 1984 dos fotógrafos de braços cruzados na rampa do Planalto diante do general João Figueiredo, em protesto a uma relação que se desgastava. O único a empunhar sua máquina, José de Maria França, foi escolhido para fazer o registro e distribuir para os jornais.

Figueiredo, uma cavalgadura, nunca chegou aos pés do bunda-suja Bolsonaro. Estávamos nos estertores de uma ditadura, hoje estamos nos estertores de uma democracia. Você não trata como gente quem te trata como cachorro. A não ser que você queira.

Aqueles que desafiaram o ditador Figueiredo eram homens.

Estes são meninos.

Benfica prepara proposta para tirar Jesus do Flamengo

Técnico do Flamengo, Jorge Jesus está na mira do Benfica para próxima temporada

O Benfica vai fazer uma proposta tentadora para tirar o técnico Jorge Jesus do Flamengo em maio de 2020, quando termina o contrato do treinador com o time carioca. Conforme a rede de TV do “Correio da Manhã”, de Portugal, o presidente Luís Filipe Vieira quer o regresso do comandante e está disposto a oferecer 5 milhões de euros líquidos (R$ 25 milhões) por ano ao técnico do Flamengo.

Conforme o canal, o investimento total do Benfica seria de 10 milhões de euros anuais (cerca de R$ 50 milhões), que seria o valor bruto do contrato do treinador. A única indefinição está relacionada com a duração do vínculo, que pode ser de duas ou três temporadas.

Ainda segundo a “CMTV”, o mandatário do Benfica e Jesus se falam diariamente por telefone. A relação de amizade que os une sempre foi forte e ainda permanece. No entanto, segundo a emissora, a vontade do presidente Luís Filipe Vieira não é unânime entre a diretoria e conselheiros, sobretudo em ano de eleições. Mesmo assim, o cartola não irá ceder às pressões internas quando tiver de tomar uma decisão, algo que já aconteceu em situações anteriores.

Jesus, de 65 anos, ainda não aceitou uma renovação de contrato com o Rubro-Negro e prometeu dar uma resposta em breve. Se deixar o Flamengo e aceitar ir para o Benfica, o treinador vai substituir Bruno Lage, que tem sido muito contestado pela torcida e pela imprensa, depois de ter deixado escapar uma vantagem de sete pontos para o Porto, que é agora o líder do Campeonato Português. (Do Extra)

Ronaldinho ficará detido no Paraguai por tempo indeterminado

Ronaldinho Gaúcho e Roberto de Assis Moreira ficarão à disposição da Justiça do Paraguai por tempo indeterminado, segundo afirmou nesta quinta-feira o promotor Federico Delfino, responsável pela investigação contra os dois ex-jogadores por porte de documentos falsos. O astro do futebol e o irmão, que gerencia sua carreira, foram detidos nesta quarta-feira e passaram toda a noite sob custódia das autoridades paraguais após operação policial na suíte presidencial do Hotel Resort Yacht y Golf Club em Lambaré, vizinho a Assunção.

Nesta quinta-feira pela manhã, ambos prestaram depoimento na sede do Ministério Público paraguaio, localizada em Assunção. Em seguida, os ex-jogadores foram encaminhados para o Departamento de Crime Organizado do país, onde também terão que dar explicações.

Ronaldinho Gaúcho no momento da prisão

“Foi checada a documentação, que chamou a atenção. Para ter a nacionalidade paraguaia, ser paraguaio naturalizado, tem que estar vivendo há algum tempo no país e ter um trabalho, essas coisas. Ronaldinho é uma pessoa de fama mundial… Estou igual a vocês. Já verificamos que os números de passaporte pertencem a outras pessoas. São passaportes originais, mas com dados apócrifos. Esses passaportes foram tirados em janeiro deste ano”, disse Federico Delfino.

Os documentos adulterados teriam sido entregues pelos responsáveis do evento. De acordo com a polícia paraguaia, os dois deixaram o Brasil, via Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, com a documentação brasileira e só em solo paraguaio apresentaram os passaportes suspeitos.

– Se checou a documentação, que chamou a atenção. Para ter a nacionalidade paraguaia, ser paraguaio naturalizado, tem que estar vivendo há algum tempo no país e ter um trabalho, essas coisas. Ronaldinho é uma pessoa de fama mundial… Estou igual a vocês. Já verificamos que os números de passaporte pertencem a outras pessoas. São passaportes originais, mas com dados apócrifos. Esses passaportes foram tirados em janeiro deste ano – disse Federico Delfino.

Ex-craque culpa empresário

Ronaldinho responsabilizou o empresário Wilmondes Sousa Lira, de 45 anos, que o representa no país vizinho, por portar o documento adulterado. Tanto o craque quanto o irmão e agente dele, Ronaldo de Assis Moreira, foram levados pelos agentes. Apontado como o autor dos documentos falsos, Lira também foi detido pelas autoridades.

O empresário estava jantando com Ronaldinho e o irmão na suíte presidencial do hotel Yatch e Golf Club, onde estão hospedados. Ronaldinho e Roberto Assis usaram passaportes falsos para entrar no Paraguai, e isso chamou da atenção da polícia, que já sabia desde a manhã de quarta-feira sobre a situação, mas só pegou os dois irmãos à noite.

“É uma pena que um ídolo mundial tenha acontecido isso (…) Estamos diante de um evento punível, principalmente quando se trata de um documento oficial (…) Nas primeiras horas da manhã, quando havia uma convicção de que essas pessoas entraram com documentos paraguaios, além do passaporte, foi relatado que eles nunca entraram no registro do Departamento de Investigações”, explicou o comissário da polícia Gilberto Fleitas, diretor de Investigação de Fatos Puníveis da Polícia Nacional.

O comissário comentou que Ronaldinho disse que foi convidado pela primeira vez para ir ao Paraguai por um compatriota para comparecer a inauguração de um cassino chamado Il Palazzo. No entanto, ele foi contatado por Sousa Lira, que aproveitaria sua presença no país para promover atividades de caridade de uma fundação chamada Angelic Fraternity, representada por uma política de San Pedro Colorado chamada Dalia López.

Ronaldinho e seu irmão foram presos sob custódia policial no hotel onde estão hospedados e devem testemunhar às 9h na sede da Promotoria contra o Crime Organizado. O ex-craque informou à polícia que os documentos falsos foram levados por Sousa Lira para a casa de Ronaldinho no Brasil.

“Há um técnico trabalhando nisso. As investigações continuarão, verificará quem ou quem está atrasado no Brasil e no Paraguai”, concluiu Fleitas.

O Brasil que deu certo está na França

Lula e Anne Hidalgo em Paris

Por Gustavo Conde

A miséria intelectual, a gente lamenta.

A aversão ao intelecto, o preconceito de si, a certeza da insignificância, a conformidade com as coisas postas, com as leis, com os significados chãos das palavras… Tudo isso é o que nos torna tão vitais para o ‘sistema’.

A moeda não é o dólar, o real, o iene. A moeda somos nós. Nós fazemos funcionar o sistema com a nossa força de trabalho associada a nossa ignorância.

Nós somos moeda e mercadoria. Somos commodity. A carne, o gado têm mais direitos do que nós. Têm mais assistência médica, sanitária. No Brasil, são até livres (andam pelo pasto).

Por isso Lula é essa ‘ameaça’ toda. Ao colocar um pouco de dinheiro na mão dos pobres ele reinventou a economia. Colocou valor monetário no seu hospedeiro sistêmico, o indivíduo.

O passo seguinte seria libertar o ser humano dessa condição de ‘moeda de troca’. Os brasileiros estávamos indo nessa direção, mas as notas maiores (as notas de cem, a classe média, os acumuladores monetários compulsivos) fizeram a revolta de 2013 e devolveram o sistema para a casinha do bom comportamento opressor.

Não sou ingrato. Foi bom experimentar a liberdade. Não durou muito, mas poucas pessoas na história tiveram a chance de ter esse gosto.

Eu me lembro de como era ter um país. Como era ter essa segurança em minha existência para pensar em outras coisas, na literatura, na arte, na teoria, no futuro.

As amizades eram mais leves, menos atravessadas pela desconfiança, pelo medo. Dava orgulho pensar que meu filho teria direito a uma universidade pública de qualidade, a um emprego, a assistência médica.

Hoje, a gente vê o país aos pedaços, as pessoas se matando para ganhar um centavo nas ruas.

Legiões religiosas fanáticas se agrupando em igrejas fraudulentas, focos de crimes e violência… Polícias assumindo sua face assassina e homicida sem mais nenhum tipo de pudores institucionais (já que a institucionalidade do país foi retorcida, moída e incendiada).

A lógica das classes covardes que destruíram o país maravilhoso que ia nascendo é, hoje, mandar seus filhos para o exterior.

Eles detestam o Brasil, sempre detestaram. Não são capazes de conviver com quem ama este país. Desconhecem o sentimento de amor, não só pela pátria, mas pela vida e por si próprios.

Gastam seu tempo assistindo novelas, assistindo o telejornalismo da Globo. Passam os dias lavando calçadas (lavam até paredes), trocam de carro (afundam-se em dívidas para manter um status que é pura falsidade), instalam portões eletrônicos, cercas elétricas, alarmes.

Muitos desses já tombaram com os governos Temer e Bolsonaro. Alguns estão morando nas ruas. Os que sobraram ainda não se desvencilharam de suas vidas miseráveis, regadas a mais profunda ignorância e a ausência completa de consciência política.

São assassinos. Eu não tenho pena, tenho ódio. E meu ódio não é ódio de classe. É ódio de sangue.

O tempo adicional de lazer que nos foi ofertado pelo país maravilhoso do passado recente – pelos governos civis de Lula e Dilma – foi mal aproveitado por todos nós, mas foi muito bem aproveitado por essa legião boçalizada que massacra tudo que vive ou anda.

Na ausência de intelecto para fazer brotar inovações e arte, o tempo lhes foi tóxico. Eles só conseguiam… Trocar de carro, lavar a calçada, instalar alarmes e edificar cercas elétricas…

E detestar os governos civis que lhes empurraram garganta adentro direitos trabalhistas para as ‘domésticas’.

Francamente? Eu me sinto feliz em não ser um deles. Isso me basta. Eu abro o sorriso e aproveito a vida, esquivando desses antissujeitos que potencializam minha percepção política de mundo e de ser.

A vida simples de jogar conversa fora é boa, ativa a memória, atávica e afetiva. Mas a responsabilidade em não se viver apenas para que o topo da pirâmide se alimente de minhas vísceras e trabalho é a condição básica para não se jogar toda uma existência no lixo.

É quase a diferença romântica entre homens e animais – com todo o respeito aos animais, que têm uma relação com o meio muito mais verdadeira e inteligente do que todos nós. Se for viver para procriar e predar, que seja para predar sentidos e procriar sonhos.

É assim que os donos do dinheiro nos veem a todos, intelectualizados ou não: como animais.

Esse Brasil que deu certo, hoje, está na França. É quase uma consagração, tardia e dolorosa, do mundo civilizado àquilo que nós, ‘selvagens’, construímos em tempos recentes: uma sociedade democrática, vibrante, inclusiva, criativa e alegre.

O retorno à selvageria é nosso pesadelo de turno. Mata-se mais indígenas hoje do que na época do descobrimento (mata-se simbólica e biologicamente). Perto desse governo, Martin Afonso de Souza era um ‘democrata’.

A memória, no entanto, é ingrata e insidiosa. É aquele comichão histórico que jamais vai se desprender dos sonhos dos justos e dos pesadelos do boçais: está cravado na história que todos nós, justos e boçais, fomos felizes um dia.

Para o indivíduo de uma espécie biológica que se acostumou, ao longo dos séculos, em organizar sentidos através da fala e da palavra escrita, não é pouca coisa.

Pode inclusive acionar um significante muito expressivo e exclusivo: a palavra ‘saudade’.

O cafajeste

O promotor do Ministério Público de Goiás Paulo Brondi diz que Jair Bolsonaro é “cafajeste”, “macho de meia tijela” e “a parte podre de um país adoecido”. Afirmação foi feita em texto compartilhado nas redes sociais e também divulgado no no blog de Juca Kfouri. 

Leia na íntegra seu protesto:

Por Paulo Brondi

Bolsonaro é um cafajeste. Não há outro adjetivo que se lhe ajuste melhor. Cafajestes são também seus filhos, decrépitos e ignorantes. Cafajeste é também a maioria que o rodeia.

Porém, não é só. E algo que se constata é pior. Fossem esses os únicos cafajestes, o problema seria menor. 

Mas, quantos outros cafajestes não há neste país que veem em Bolsonaro sua imagem e semelhança?

Aquele tio idiota do churrasco, aquele vizinho pilantra, o amigo moralista e picareta, o companheiro de trabalho sem-vergonha…

Bolsonaro, e não era segredo pra ninguém, reflete à perfeição aquele lado mequetrefe da sociedade.

Sua eleição tirou do armário as criaturas mais escrotas, habitués do esgoto, que comumente rastejam às ocultas, longe dos olhos das gentes.

Bolsonaro não é o criador, é tão apenas a criatura dessa escrotidão, que hoje representa não pela força, não pelo golpe, mas, pasmem, pelo voto direto. Não é, portanto, um sátrapa, no sentido primeiro do termo.

Em 2018 o embate final não foi entre dois lados da mesma moeda. Foi, sim, entre civilização e barbárie. A barbárie venceu. 57 milhões de brasileiros a colocaram na banqueta do poder.

Elementar, pois, a lição de Marx, sempre atual: “não basta dizer que sua nação foi surpreendida. Não se perdoa a uma nação o momento de desatenção em que o primeiro aventureiro conseguiu violentá-la”.

Muitos se arrependeram, é verdade. No entanto, é mais verdadeiro que a grande maioria desse eleitorado ainda vibra a cada frase estúpida, cretina e vagabunda do imbecil-mor.

Bolsonaro não é “avis rara” da canalhice. Como ele, há toneladas Brasil afora.

A claque bolsonarista, à semelhança dos “dezembristas” de Luís Bonaparte, é aquela trupe de “lazzaroni”, muitos socialmente desajustados, aquela “coterie” que aplaude os vitupérios, as estultices do seu “mito”. Gente da elite, da classe média, do lumpemproletariado.

Autodenominam-se “politicamente incorretos”. Nada. É só engenharia gramatical para “gourmetizar” o cretino.

Jair Messias é um “macho” de meia tigela. É frágil, quebradiço, fugidio. Nada tem em si de masculino. É um afetado inseguro de si próprio.

E, como ele, há também outras toneladas por aí.

O bolsonarismo reuniu diante de si um apanhado de fracassados, de marginais, de seres vazios de espírito, uma patuléia cuja existência carecia até então de algum significado útil. Uma gentalha ressentida, apodrecida, sem voz, que encontrou, agora, seu representante perfeito.

O bolsonarismo ousou voar alto, mas o tombo poderá ser infinitamente mais doloroso, cedo ou tarde.

Nem todo bolsonarista é canalha, mas todo canalha é bolsonarista.

Jair Messias Bolsonaro é a parte podre de um país adoecido.

Astros do rock, pop e rap se unem em showmícios de Bernie Sanders

Julian Casablancas, vocalista da banda Strokes, ajuda o pré-candidato democrata Bernie Sanders a subir no palco de comício - Joe Raedle/AFP

Fernanda Ezabella – Colaboração para o TAB, em Los Angeles (EUA)

Strokes, Public Enemy, Ariana Grande, Vampire Weekend, Cardi B, Jack Johnson e Jack White. Seria um line-up incrível para um festival no próximo verão no hemisfério norte. Mas não é. Eles são as atrações musicais da campanha de Bernie Sanders, pré-candidato do Partido Democrata à presidência dos EUA. Essa febre de juventude em torno do mais idoso aspirante à Casa Branca ganhou até um nome: “Bernchella”, mistura do festival Coachella com o nome do político que se anuncia como socialista em um país em que o termo tem ares de palavrão.

“Levante os punhos, Los Angeles!”, comandou Chuck D, rapper do Public Enemy, à plateia que esperou mais de três horas para ver Sanders, num comício na noite de domingo (1), num salão do centro de convenções. Horas antes, em outra cidade da Califórnia, o cantor Jack Johnson tocou seu violão para Sanders e seus eleitores.

De todos os concorrentes a presidência dos Estados Unidos em 2020, o mais velho de todos é quem consegue atrair os eleitores mais jovens. E, como em sua campanha de 2016, também atrai o maior número de músicos entusiastas. Jack White tocou num evento de Sanders em Detroit, em outubro, e os Strokes deram a graça numa cidade de New Hampshire, em fevereiro.

O senador de 78 anos levou 24 mil pessoas aos seus dois encontros na Califórnia no domingo, em Los Angeles e San José. Ele tem liderado as prévias do partido nos Estados, perdendo apenas para Joe Biden na Carolina do Sul, no sábado. Hoje acontece a Super Terça, quando 14 Estados e um território anunciam suas prévias.

Com essa largada poderosa na corrida presidencial, Sanders deve continuar caprichando nas bandas de comício até sair a indicação oficial do Partido Democrata para a eleição do dia 3 de novembro.

Não que misturar música com política dê sempre certo. A aparição de Chuck D no domingo aprofundou a rixa dentro no Public Enemy. Flavor Flav, um dos cofundadores da banda, mandou uma carta a Sanders e a Chuck D exigindo que eles parassem de usar o nome da banda já que ele não endossava nenhum candidato. No final do dia, o grupo anunciou que havia demitido Flav.

Em Los Angeles, o público jovem majoritariamente branco e latino usava camisetas curiosas com Sanders ou com os mais variados xingamentos ao presidente Donald Trump. O espaço apertado na frente do palco, com clima de show de indie rock, deu uma esvaziada após a aparição de 20 minutos de Sanders, antes de Chuck D entrar para fechar a noite com quatro músicas.

“É um jeito de atrair gente nova que não sabe ainda em quem votar ou nem é ligada em política”, acredita o eleitor e chef Joe Figueroa, 39, usando uma camiseta com o logo do Black Flag, mas com o nome de Bernie Sanders no lugar do nome da banda. Ele foi com quatro amigos, mas todos foram embora antes do show. “A gente veio para ver o Bernie mesmo.”

Chuck D, ao lado de dois dançarinos com cara de guarda-costas vestidos de militares, cantou quatro músicas intercaladas com seu falatório político, às vezes um tanto confuso. Antes de mandar o clássico “Fight the Power”, ele pediu atenção da plateia para “falar a real”.

“Sei muito bem que não vamos ter um messias ou Jesus na Casa Branca dos EUA, mas vocês sabem o quê? Eu certamente reconheço um Hitler filho da put*! Vamos ‘Fight the Power’!”, gritou.

No público, o bartender e rapper aspirante Rey Ross, 26, vestia uma jaqueta do Public Enemy e uma camiseta branca do democrata. “Em 2016, não saí de casa, fiz torcida pro Bernie do sofá. Agora não dá mais, é preciso mostrar apoio”, disse Ross, em seu segundo comício. “Chuck D sempre foi meu favorito do grupo, então essa mistura Bernie e hip hop foi perfeita. Ter shows no comício é uma coisa bem esperta, faz parte do marketing.”

Sem dúvida é um marketing de mão dupla. Quando os Strokes tocaram num evento de Sanders em New Hampshire, eles apresentaram uma música nova (“Bad Decisions”), um videoclipe novo (“At the Door”) e, ao final, ainda anunciaram a data de lançamento do novo álbum, “The New Abnormal” (10 de abril).

“Como único candidato verdadeiramente não corporativo, Bernie Sanders representa nossa única chance de derrubar o poder corporativo e ajudar a devolver a América à democracia. É por isso que o apoiamos”, disse o líder da banda, Julian Casablancas.

A campanha eleitoral 2020 também contou com outro favorito do indie rock, Rivers Cuomo, do Weezer, que se apresentou em novembro com Andrew Yang, pré-candidato que abandonou a corrida recentemente.

No domingo, Sanders chegou ao palco acompanhado de sua mulher, Jane, que não falou nada e logo sumiu. De cabelo bagunçado e gesticulando seus dedos no ar, ele brincou que falaria por “apenas três horas” para que a plateia pudesse logo ouvir a banda da noite. Sander então repetiu suas promessas de campanha, como saúde gratuita para todos, aumento do salário mínimo, reforma imigratória e legalização da maconha por decreto presidencial.

Também falaram a comediante Sarah Silverman, a ativista Patrisse Cullors (cofundadora do movimento Black Lives Matter) e a rapper chilena Ana Tijoux, que citou o Brasil e mandou um “Fora Bolsonaro”, sem gerar muita comoção do público.

Na sua campanha de 2016, quando perdeu a indicação do partido para Hillary Clinton, Sanders também levou músicos para seus comícios. Em Iowa, o senador até cantou com o grupo “This Land Is Your Land”, de Woody Guthrie.

Entre os inúmeros músicos que deram apoio a Sanders na época, estava também Neil Young. Assim como outros artistas já fizeram com candidatos republicanos, o canadense pediu para a campanha de Trump parar de usar sua música “Rockin’ in the Free World” em 2016 e 2020. Agora com cidadania norte-americana, Young poderá votar em Sanders.

Claro, celebridades e músicos famosos são garantias de pouca coisa: quatro dias antes das eleições, Hillary levou o casal mais poderoso da música atual para cantar em seu evento, Beyoncé e Jay-Z. O resultado nas urnas foi um desastre. Do lado de fora do centro de convenções de Los Angeles, barraquinhas vendiam broches, adesivos e camisetas de Sanders.

O americano Bill Wyatt, 59, desenha e vende camisetas desde os anos 1980 e se especializou em produtos de campanha, mas só dos democratas. Ele vendia camisetas com uns dez desenhos diferentes, incluindo Sanders vestido de Che Guevara.

“Os comícios dos outros candidatos não são tão legais como os do Bernie. Aqui a energia é muito boa”, disse Wyatt. Ele contou que em 2016 perdeu todo seu lucro das vendas ao investí-lo em mercadorias da Hillary, que acabaram encalhadas quando Trump ganhou a eleição. “Ela não tinha nenhum slogan ou frase boa. Não era nada divertido.”