Necessidade de reinvenção

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POR GERSON NOGUEIRA

Cinco jogos sem vitórias, 15 pontos disputados e somente três conquistados. Perda considerável em qualquer competição, mas amplificada em torneio cuja fase classificatória tem somente 18 jogos. A campanha recente do Remo na Série é digna de preocupações sérias por parte da comissão técnica.

Soluções encontradas meio ao acaso no último jogo, diante do Luverdense, podem ser assimiladas e talvez resolvam o maior drama da equipe ao longo de toda a Série C: a timidez dos atacantes.

Curiosamente, o Remo até consegue marcar gols (fez 13), mas boa parte deles foi consignada por zagueiros. Não por acaso, o zagueiro Marcão (três gols) é o principal goleador do time.

Márcio Fernandes tentou com Douglas Packer e Carlos Alberto efetivar uma dupla criativa capaz de fazer com que o ataque girasse a bola, criando as condições para abrir os sistemas defensivos dos adversários. Funcionou até certo ponto.

Em alguns jogos, Douglas foi bem. Noutros, nem tanto. Carlos Alberto foi ainda mais inconstante. Jogou bem contra o Boa Esporte, Tombense e Volta Redonda, mas andou sumido nos últimos cinco jogos, justamente no momento em que o time empacou.

Ao lado de Eduardo Ramos, Carlos Alberto vem se mostrando ainda mais ausente, pouco à vontade para as manobras que o meio-campo precisa executar a fim de que o ataque funcione.

Contra o LEC, sua ineficiência rendeu uma troca logo aos 23 minutos de partida. A entrada de Emerson Carioca, mesmo fora de suas características habituais, foi suficiente para dar ânimo novo ao time. Deu consistência à meia-cancha e se aproximou das ações de ataque, exatamente o que Carlos Alberto não fez.

Na etapa final, Fernandes lançou Guilherme Garré, tornando ainda mais leve a distribuição de jogo, com o passe fluindo normalmente. Foi a chave para que o Remo adquirisse a presença ofensiva necessária para ir em busca (e alcançar) o empate.

É quase certo que o técnico a partir de agora deverá trabalhar com uma nova configuração do meio para frente. A questão é que a esperada entrada em cena de um centroavante de referência, Marcão, não se mostrou eficaz até o momento.

Com isso, Alex Sandro, mesmo desperdiçando uma chance de ouro contra o LEC, deve merecer novas chances como titular, até porque Emerson está fora do jogo de sexta-feira contra o Ypiranga. Garré é outro que deve ser mais utilizado, pois pode ser o parceiro de Eduardo Ramos na construção de jogadas.

Acima de tudo, Fernandes deve ficar atento ao fato de que o Remo passou a ser um time previsível, que tinha na participação dos meias seu ponto mais forte. Os laterais apoiam pouco, sendo que a perda de Rafael Jansen (foto) pode ser ainda mais danosa ao esquema do que pode parecer.

Mesmo improvisado, Jansen era um jogador em ascensão nas investidas ao ataque, conciliando força e habilidade. Além de recuar quando necessário para reforçar a marcação.

O fato é que os atacantes seguem devendo e o afunilamento da competição exige justamente uma produção ofensiva em alto nível, capaz de surpreender as zagas inimigas.

O problema é que o desempenho dos dianteiros é desalentador. Gustavo Ramos, em 25 jogos, marcou quatro gols. Alex Sandro, em 18 partidas, também fez quatro gols. Emerson, em 19 jogos, somente três gols.

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Um destaque solitário no tímido ataque do Papão

Elielton, que teve boa passagem pelo Remo no ano passado, ganhou chance no Papão por força de suas boas atuações nos clássicos da temporada passada. Virou arma decisiva em vários jogos pelo Leão. Uma rápida participação na Segundinha de acesso ao Parazão antecipou sua ida para a Curuzu.

De início, foi utilizado com parcimônia por João Brigatti e depois por Léo Condé. O último chegou a deixá-lo de lado, preferindo recomendar a contratação de Pimentinha, também velocista e especialista em jogadas pelos lados do campo.

Humilde, Elielton viu tudo isso ocorrer e seguiu dedicando-se aos treinos. A chegada de Hélio dos Anjos, já com a Série C em andamento, veio trazer novas esperanças para atacante paraense. A atual sequência de jogos mostrou que a paciência deu resultado

Foi o primeiro jogador a ser distinguido pelo novo técnico como titular da equipe. Rendeu bem nos jogos fora de casa, principalmente contra Atlético-AC, Tombense e Juventude, consolidando a titularidade.

Nas partidas caseiras, sente na pele o que todo atacante mais agressivo sofre: tem os passos obstados pela dupla marcação. Foi assim contra Luverdense e Ypiranga. Obrigado a ultrapassar as linhas de bloqueio, sem o espaço para puxar contra-ataque, fica sem conseguir repetir o desempenho das exibições como visitante.

O desafio estará de volta na segunda-feira, 22, contra o Volta Redonda (RJ), cuja postura fechada não difere em nada dos demais times que jogam em Belém. Para superar essa dificuldade, Hélio dos Anjos terá que explorar a velocidade de Elielton mais ou menos como fez no Re-Pa, com a ajuda do lateral e de um volante (Wellington Reis) ou meia (Tiago Primão).

Por ora, é válido e juto destacar o papel desempenhado por Elielton nesta série invicta do PSC, cujo ataque continua a ser o mais tímido do campeonato (6 gols). Mesmo falhando nas finalizações, tem sido utilíssimo para prender a marcação adversária e abrir caminho para seus companheiros de meia-cancha e de linha ofensiva.

(Coluna publicada no Bola desta terça-feira, 16)

#VazaJato: veículos de comunicação confirmam autenticidade dos diálogos

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Por Glenn Greenwald e Leandro Demori – The Intercept_Brasil

No dia 9 de junho, Intercept publicou os primeiros artigos da série #VazaJato, que tratam de abusos cometidos pelo ex-juiz Sergio Moro e pela força-tarefa da operação Lava Jato. Tanto a força-tarefa quanto o ministro Moro responderam negando qualquer impropriedade, mas não contestaram – e, implicitamente confirmaram – a veracidade do material publicado. Eles dizem “não reconhecer a autenticidade”, o que é diferente de dizer que os chats são falsos. Eles jamais apontaram uma frase sequer que teria sido, segundo eles, inventada ou adulterada.

Somente depois da repercussão atingir grandes proporções e ex-aliados ferrenhos da Lava Jato passarem a criticar duramente o comportamento revelado nas conversas – a exemplo do Estadão, que publicou um editorial no dia 11 de junho exigindo a renúncia de Moro do Ministério da Justiça e o afastamento de Deltan; e da Veja, que dedicou a capa da edição do dia 19 de junho ao desmanche da imagem de Moro – que o ex-juiz e os procuradores mudaram de discurso. Adotaram então a tática de insinuar – sem nunca afirmar expressamente – que enquanto (nas palavras de Moro) “tem algumas coisas que eu eventualmente posso ter dito,” as “mensagens podem ser total ou parcialmente adulteradas.”

Em um editorial anunciando uma parceria com o Intercept no trabalho de reportagem da #VazaJato, publicado no dia 23 de junho, a Folha de S.Paulo recapitulou as mudanças no discurso dos procuradores e do ex-juiz Moro:

Após as primeiras reportagens sobre as mensagens, publicadas pelo Intercept, no dia 9, Moro e os procuradores reagiram defendendo sua atuação na Lava Jato, mas sem contestar a autenticidade dos diálogos revelados.

Depois de alguns dias, passaram a colocar em dúvida a integridade do material, além de criticar o vazamento das mensagens. Até agora, porém, Moro e os procuradores não apresentaram nenhum indício de que as conversas reproduzidas sejam falsas ou tenham sido modificadas.

Até hoje – depois de cinco semanas e mais de uma dúzia de artigos publicados por Intercept, Folha, Veja, e pelo jornalista Reinaldo Azevedo em seu blog e em seu programa na rádio Bandnews FM –, Moro e a força tarefa não apontaram um único indício de adulteração ou inautenticidade nas mensagens publicadas pelos diferentes veículos.

O que ocorreu foi justamente o oposto: diferentes veículos de mídia, de diferentes orientações e com credibilidade reconhecida – além dos nossos parceiros já citados, também El País, Correio Braziliense, Buzzfeed News – investigaram o conteúdo publicado e confirmaram – de diferentes formas, a partir de evidências concretas e segundo os métodos jornalísticos tradicionais – que o material publicado é totalmente autêntico.

Apesar da abundância de provas da autenticidade do material, publicadas pelos diferentes veículos, diversas fontes disseram ao Intercept ao longo dos últimos dias que a Polícia Federal, durante o afastamento do ministro Sergio Moro, está considerando realizar essa semana uma operação que teria como alvo um suposto “hacker”, que supostamente seria a fonte do arquivo. Esse suposto hacker seria estimulado a “confessar” ter enviado o material ao Intercept e que esse material teria sido adulterado.

Essa tática equivocada fracassará. A razão é simples: as evidências provando a autenticidade do material são tão grandes, e oriundas de tantas fontes de credibilidade conhecida, que nenhuma “confissão” do tipo seria verossímil.

O Intercept só publicou o material após uma apuração minuciosa, que incluiu consultas com especialistas em tecnologia, com fontes que corroboram a autenticidade de conversas privadas que tiveram com os procuradores (das quais jamais saberíamos sequer da existência), com juristas e partes envolvidas nos processos que confirmaram a veracidade de vários documentos e atos processuais inéditos e confidenciais, além da comparação jornalística entre o conteúdo das discussões e eventos – públicos ou não –- que os procuradores participaram. Após a publicação dos primeiros artigos da série #VazaJato, diferentes veículos, usando métodos similares de investigação jornalística, confirmaram a autenticidade do material.

O primeiro deles foi o BuzzFeed News, num artigo publicado no dia 13 de junho. Os três repórteres que assinam a matéria explicam que o site “cruzou nos últimos dias as mensagens e os atos da procuradoria e do juiz nas mesmas datas nos processos citados.” Apontando para vários exemplos documentados, os repórteres concluem, como bem resumido na manchete: “Documentos mostram que atos da Lava Jato coincidiram com orientações de Moro no Telegram.”

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O mesmo BuzzFeed realizou investigação semelhante após a publicação de novas mensagens privadas pelo Intercept, e novamente listaram amplas provas da autenticidade do arquivo

Em matéria publicada no dia 19 de junho, repórteres do site mais uma vez detalharam como os desdobramentos da Lava Jato coincidem perfeitamente com as conversas publicadas: “A troca de mensagens divulgada pelo site The Intercept Brasil, em que atribui a Sergio Moro a sugestão para Deltan Dallagnol ‘inverter a ordem’ de operações da Lava Jato, coincide com os documentos e registros que antecederam a deflagração da fase Aletheia, a da condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.”

Novas provas da autenticidade do material foram oferecidas no dia 23 de junho pela Folha de S. Paulo, num editorial explicando as razões pelas quais decidiram trabalhar em parceria com o Intercept:

O site permitiu que a Folha tivesse acesso ao acervo, que diz ter recebido de uma fonte anônima há semanas. (…) Nos últimos dias, repórteres do jornal e do site trabalharam lado a lado, pesquisando as mensagens e analisando seu conteúdo. (…)

Ao examinar o material, a reportagem da Folhanão detectou nenhum indício de que ele possa ter sido adulterado.

Os repórteres, por exemplo, buscaram nomes de jornalistas da Folha e encontraram diversas mensagens que de fato esses profissionais trocaram com integrantes da força-tarefa nos últimos anos, obtendo assim um forte indício da integridade do material.

No dia 29 de junho, o Intercept publicou uma nova série de chats privadosem que procuradores do MPF criticam duramente a conduta do ex-juiz Moro. O artigo revela, entre outras coisas, que a procuradora Monique Cheker disse que “Moro viola sempre o sistema acusatório e é tolerado por seus resultados.” Outros procuradores – inclusive Deltan – manifestaram a preocupação de que a decisão de Moro de aceitar a oferta do presidente Jair Bolsonaro de assumir o ministério da Justiça pudesse colocar em xeque a credibilidade da operação e comprometer sua imagem de apartidarismo cuidadosamente cultivada.

Após os defensores de Moro tentarem mais uma vez lançar dúvidas sobre a autenticidade do material, o jornal El País Brasil realizou investigação similar à conduzida pelo BuzzFeed, e chegou à mesma conclusão: o material publicado coincide perfeitamente com os eventos conhecidos, oferecendo novas evidências da integridade do material.

No dia 30, o El País publicou um artigo sob o título: “Artigo de procuradora no EL PAÍS coincide com diálogo vazado por ‘The Intercept’,” e explicou: “o conteúdo da nova reportagem revela trechos de uma conversa privada dos procuradores que coincidem com a linha de raciocínio de um artigo publicado pela procuradora Jerusa Viecili no EL PAÍS Brasil no dia 28 de outubro.”

O artigo do El País cita uma crítica feita por Viecili aos colegas no dia 25 de outubro do ano passado, em que a procuradora lamenta que a força tarefa não tivesse condenado posições antidemocráticas de Bolsonaro, o que poderia criar a percepção que a Lava Jato apoiaria a candidatura do ex-capitão nas eleições. O jornal nota então que “Viecili decidiu por si só se posicionar em um artigo enviado ao EL PAÍS Brasil na noite do dia 27 de outubro, e publicado no dia 28, sob o título ‘Corrupção se combate com respeito à liberdade e à imprensa’.” Em outras palavras, o jornal demonstra que as críticas feitas pela procuradora nos chats privados e publicados por nós coincidem com sua decisão de publicar no El País um artigo que defende a mesma posição.

Todos esses fatos levaram o El Pais a concluir que, mesmo se “seu conteúdo pode não ter valor jurídico neste momento para anular a operação”, o material, “vem tirando capital político importante do ministro Sergio Moro e do procurador Deltan Dallagnol.” Notando ainda que outros veículos de mídia estabelecidos, como Veja e Folha, em parceria com o Intercept, têm acesso ao ao arquivo, o jornal espanhol explicou: “Os jornalistas de todos os veículos parceiros estão checando informações com fontes, e consultando suas próprias mensagens trocadas no passado com integrantes da Lava Jato para confirmar a veracidade dos diálogos.”

Uma entrevista publicada pelo Correio Braziliense no mesmo dia oferece evidência ainda mais forte da autenticidade do material publicado. O repórter Renato Souza, baseado em Brasília, entrevistou um dos procuradores do MPF que era membro de alguns dos grupos de telegram onde foram trocadas as mensagens publicadas e pôde confirmar a veracidade das conversas publicadas.

Em resposta às tentativas de Deltan e de outros procuradores do MPF de insinuar que as mensagens não são autênticas, o procurador ouvido pelo Correio acessou em seu próprio celular as mensagens trocadas no aplicativo Telegram e comparou com as  mensagens publicadas pelo Intercept. A conclusão do procurador foi enfática: “aquelas mensagens que foram publicadas ontem (sexta) são autênticas.”

Ao passo que o procurador não pôde atestar a autenticidade de todas as mensagens publicadas – visto que não era membro de todos os grupos de chat em que as mensagens foram trocadas – a verificação oferecida por ele foi bastante clara:

VERACIDADE

Ao Correioum dos procuradores que estava no grupo em que ocorreram as conversas, disse, sob a condição de anonimato, que os trechos divulgados são verdadeiros. “Me recordo dos diálogos com os procuradores apontados pelo site. O grupo não existe mais. No entanto, me lembro do debate em torno do resultado das eleições e da expectativa sobre a ida de Moro para o Ministério da Justiça”, disse.

O integrante do Ministério Público Federal (MPF) também declarou que conseguiu recuperar parte do conteúdo. “Consegui recuperar alguns arquivos no celular. Percebi que os trechos divulgados não são de diálogos completos. Tem mensagens anteriores e posteriores às que foram publicadas. No entanto, realmente ocorreram. Não posso atestar que tudo que foi publicado até agora é real e não sofreu alterações. No entanto, aquelas mensagens que foram publicadas ontem (sexta) são autênticas”, completou.

Novas provas da veracidade do material foram produzidas pela Veja quando a revista – que por anos apoiou enfaticamente Moro e a Lava Jato – decidiu trabalhar em parceria com o Intercept nas reportagens do arquivo. Antes de tomar essa decisão, a revista enviou um time de repórteres experientes, inclusive os que são considerados especialistas em sua cobertura da Lava Jato, para analisar e investigar o arquivo.

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Após semanas de trabalho lado a lado com nossos repórteres e com acesso ao arquivo, a Veja chegou à mesma conclusão que os demais veículos: o material é autêntico. Acompanhando a primeira reportagem da Veja – uma detalhada reportagem de capa de 8 páginas descrevendo como Moro, de forma antiética e ilegal, comandou os procuradores da Lava jato – foi publicada uma carta ao leitor, em que os editores da revista explicam as razões pela quais estão publicando reportagens sobre o material e como puderam confirmar sua autenticidade:

A reportagem desta edição é a primeira em parceria com o The Intercept Brasil. Comandados pelo redator-­chefe Sérgio Ruiz Luz, nossos repórteres continuam vasculhando a enorme quantidade de diálogos e áudios trocados entre procuradores e o juiz Sergio Moro. Assim como a Folha de S.Paulo, também parceira do site, analisamos dezenas de mensagens trocadas ao longo dos anos entre membros do nosso time e os procuradores. Todas as comunicações são verdadeiras — palavra por palavra (o que revela fortíssimos indícios de veracidade do conjunto). Caso esta equipe depare com outras irregularidades no decorrer do processo de apuração, novas reportagens sobre o tema serão publicadas.

Na própria reportagem de capa, os editores e repórteres da Veja reafirmam a autenticidade do arquivo:

Só uma pequena parte do material havia sido divulgada até agora — e ela foi suficiente para causar uma enorme polêmica. Em parceria com o site, VEJA realizou o mais completo mergulho já feito nesse conteúdo. Foram analisadas pela reportagem 649?551 mensagens. Palavra por palavra, as comunicações examinadas pela equipe são verdadeiras e a apuração mostra que o caso é ainda mais grave. Moro cometeu, sim, irregularidades.

A revista disse então, na Carta ao Leitor, que “caso esta equipe depare com outras irregularidades no decorrer do processo de apuração, novas reportagens sobre o tema serão publicadas.” Nesse sentido, a revista continuou a seu trabalho de reportagem e na sexta feira, novamente em parceria com o Intercept, publicou um artigo descrevendo novas “conversas impróprias” entre Deltan e “um dos membros do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), João Pedro Gebran Neto, órgão encarregado de julgar em segunda instância os processos da Lava-Jato em Curitiba.”

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Frente à abundância das evidências da autenticidade do material, publicadas por vários veículos de credibilidade conhecida, se torna impossível para um observador racional atribuir qualquer credibilidade às insinuações de Deltan e Moro de que as “mensagens podem ser total ou parcialmente adulteradas.”

Entretanto, se restava alguma dúvida, uma matéria publicada no domingo pelo El País resolve de uma vez por todas qualquer debate que restava sobre a veracidade do arquivo.

O jornal foi capaz de provar a autenticidade do arquivo da #VazaJato utilizado os métodos mais tradicionais – e confiáveis – de investigação jornalística. Tal qual o Correio Braziliense, o El País falou com uma fonte que participava de conversas de Telegram que compõem o arquivo da #VazaJato. Essa fonte entregou ao El País a transcrição original dos chats armazenados em seu telefone pessoal, e o jornal comparou esses chats com material que compõe o arquivo da Vaza Jato. A conclusão não deixa dúvida: o arquivo da #VazaJato é idêntico – em todos os aspectos – às transcrições originais dos chats que foi enviada ao El País pela sua fonte.

A matéria do El País começa citando as tentativas de Moro e dos procuradores de lançar dúvidas sobre a autenticidade do material publicado, e postula então que a missão do jornalista nessas situações é tentar determinar por conta própria o que é verdade: “se alguém diz que está chovendo, e outra pessoa diz que não está, não é trabalho do jornalista citar as duas, é ir olhar lá fora”.

Nesse sentido, o El País realizou seu trabalho jornalístico da seguinte maneira:

O EL PAÍS testou este impasse. Com o auxílio de uma fonte externa ao The Intercept, que prefere preservar sua identidade, tivemos acesso a parte de um arquivo de mensagens de um dos chats mencionados nas reportagens e comparamos seu conteúdo com o material disponibilizado pelo site. O conteúdo é idêntico. À parte imagens, que não estavam disponíveis nos documentos consultados, as informações são as mesmas em ambos os chats e mostram o dia a dia de conversas de trabalho entre procuradores, assessores de imprensa e jornalistas.

Inclusive, mensagens do EL PAÍS com pedidos de informações enviados à Lava Jato puderam ser identificadas. É o caso de um pedido feito pelo repórter Gil Alessi por email no dia 2 de março de 2017 para a assessoria do Ministério Público Federal do Paraná (MPF-PR), e que foi compartilhado em um dos chats do Telegram por um assessor de imprensa.

Esse não foi o único método empregado pelo jornal para confirmar a autenticidade do arquivo. Os repórteres encontraram no arquivo conversas entre o procurador Deltan Dallagnol e o diretor executivo da Transparência Internacional Brasil Rodrigo Brandão e o professor de direito da FGV Rio Michael Freitas Mohallem. Os repórteres mostraram essas conversas aos envolvidos para que pudessem confirmar se os chats são autênticos ou não.

Brandão confirmou de forma definitiva que o material em nosso arquivo coincide exatamente com os chats que teve com Deltan. Nas palavras do El País, “Brandão informou por mensagem: ‘com respeito especificamente ao diálogo enviado, confirmo que ocorreu’”. Já Mohallem disse que não conseguiu recuperar as conversas que teve com Deltan – especulando que tivessem sido apagadas permanentemente por Deltan –, mas confirmou ao El País ter trocado inúmeras mensagens com o procurador.

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A conclusão da investigação jornalística do El País é a mesma de todos os outros veículos que realizaram investigações similares: o material em nosso arquivo é autêntico. Como o jornal resumiu em sua manchete:  “O EL PAÍS teve acesso a um trecho dos arquivos da #VazaJato e confirmou, com a ajuda de fontes externas ao site de notícia que sacode o Brasil, que as mensagens trocadas eram verdadeiras.”

Frente a todas as evidências, apresentadas por diferentes meios de comunicação, que provam a autenticidade do material, não há literalmente nenhuma evidência – ou mesmo uma única alegação concreta – de que qualquer mensagem publicada tenha sido adulterada, muito menos forjada.

Ao contrário, quando forçados a responder diretamente, Moro e Deltan reconhecem que o material é autêntico, como Moro implicitamente fez quando pediu desculpas aos os integrantes do MBLpor tê-los chamado de “tontos”, e como Deltan fez em sua entrevista no domingo com Estadão quando foi perguntado sobre o áudio de sua voz publicado pelo Intercept na semana passada.

ESTADÃO: A força-tarefa não tem reconhecido as mensagens, mas o site Intercept divulgou um áudio e afirma ter vários áudios. Isso não confirma a autenticidade das mensagens?

DELTAN: É realmente possível que o criminoso tenha obtido mensagens do aplicativo telegram. Entretanto, isso não afasta a possibilidade de edição ou falsificação das mensagens de texto ou áudio, o que pode ter ocorrido até mesmo antes de o material ser entregue ao site, que não o submeteu a nenhuma autoridade para verificação. Aliás, o que se viu em publicações foram indícios claros de que as mensagens realmente foram editadas.

Para além do uso de insinuações sobre supostas “adulterações” – sem que tenham apontado um único exemplo concreto –, chama atenção a admissão de Moro, Deltan e dos demais procuradores da Lava Jato que dizem ter apagado de forma permanente todos os registros das conversas trocadas no curso de seu trabalho público. Usando a desculpa de que temiam um possível ataque hacker, Moro e os procuradores destruíram todas as evidências que poderiam corroborar sua acusação de que o material teria sido adulterado, deixando-os na cômoda posição de lançar dúvidas sobre a autenticidade do arquivo sem que jamais precisem – ou possam – oferecer qualquer evidência contrária.

ESTADÃO: O sr ou os outros procuradores não podem apontar o que é verdade ou mentira nas mensagens que são atribuídas?

DELTAN: Não temos as mensagens originais para comparar. Antes da divulgação do hackeamento, encerramos nossas contas no aplicativo para proteger as investigações em andamento e nossa segurança. Isso apagou as mensagens nos celulares e na nuvem. É impossível lembrar detalhes de milhares de mensagens trocadas ao longo de anos.

É importante considerar o quão antiético – e suspeito – esse comportamento é. Como pode ser permitido ou justificável que autoridades públicas, que detêm poder político, possam destruir permanentemente todos os registros relativos ao seu trabalho, em especial – como é o caso aqui – quando esse material é diretamente relevante para inúmeros processos judiciais pendentes nos tribunais. Em muitos países do mundo democrático, isso seria considerado destruição de provas.

Mesmo que Moro e Deltan tenham decidido remover esse material de seus telefones para evitar possíveis ataques de hackers, não seria o caso de salvar as transcrições num disco rígido, numa cópia física ou em algum outro dispositivo protegido para que permanecessem acessíveis por tribunais, ou mesmo pelo registro histórico das atividades de autoridades públicas? Como pode ser justificável que um juiz e procuradores destruam, de forma permanente e irrecuperável, provas relativas a processos criminais em curso, dos quais são parte?

De certa forma, a desculpa apresentada por eles para explicar por que não podem produzir qualquer evidência que corrobore suas insinuações vagas de adulteração – ‘nós destruímos permanentemente todas as provas, mesmo que o material seja relativo a processos judiciais pendentes e ao nosso trabalho de interesse público’ – é tão escandalosa e antiética quanto a conduta revelada nas mensagens.

A conduta de Moro, Deltan e da força-tarefa demonstrada pelas reportagens do Intercept e de nossos parceiros jornalísticos é indefensável. É por isso que o ex-juíz e os promotores, ao invés de defender o indefensável, optaram pela estratégia equivocada de insinuar – sem nunca afirmar diretamente e muito menos apresentar uma única prova – que o material pode ser inautêntico ou ter sido alterado, e que nós, jornalistas, somos “aliados a hackers criminosos”. É provável que a tática de confundir e enganar o público seja a única que resta aos envolvidos e ao governo – incluindo a própria Polícia Federal, sob comando de Moro, em mais um flagrante conflito de interesses.

Por isso, não resta qualquer credibilidade às tentativas dos procuradores e do ex-juiz de lançar dúvidas sobre a autenticidade do material. É a responsabilidade dos jornalistas e das pessoas razoáveis, quando confrontadas com essa tática cínica, apontar para a enorme evidência concreta e conclusiva que prova, de maneira definitiva, que o material publicados pelo Intercept e pelos demais veículos é totalmente autêntico e verdadeiro. É disso que eles têm medo.

Moro e Deltan discutiram usar dinheiro da Justiça recolhidos à 13ª Vara

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blog no UOL de Reinaldo Azevedo traz a informação com o The Intercept. “Diálogos inéditos mantidos entre o então juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol — oficialmente ao menos, coordenador da Lava Jato — evidenciam que nunca existiu uma distinção entre a atuação do magistrado, a dos procuradores da força-tarefa e, pasmem!, a da própria Polícia Federal. As conversas revelam que a promiscuidade era de tal sorte que não poupava nem mesmo recursos — dinheiro! — recolhidos à 13ª Vara Federal de Curitiba, onde Moro se comportava, vê-se agora, não como juiz, mas como imperador absolutista”.

Ele desenvolve o raciocínio: “Moro — aquele que deveria, quando magistrado, ter recebido os elementos dos autos para, então, ouvir com igual atenção os argumentos da acusação e da defesa para formar o seu convencimento — participava do planejamento das operações. Os diálogos ora divulgados integram arquivos — mensagens de texto, gravações em áudio, vídeos, fotos, documentos judiciais e outros itens — enviados por uma fonte anônima ao site The Intercept Brasil”. Eles vêm sendo publicados pelo próprio TIB, pela Folha, pela Veja e por este blog, em divulgação simultânea com o programa “O É da Coisa”, da BandNews FM.

E completa: “Cumpre reiterar que tanto Moro como os procuradores dizem não reconhecer como autêntico o material que vem a público, mas também não negam a sua veracidade, criando, assim, uma categoria nova: a das coisas que são e que não são ao mesmo tempo. Têm repetido essa resposta padrão. E ela vale, pois, também para os diálogos de agora. Havendo esclarecimentos novos — ou respostas novas —, serão publicados nesta página e divulgados no programa de rádio”.

O diálogo na íntegra:

O DINHEIRO DA 13ª VARA FEDERAL DE CURITIBA

No dia 16 de janeiro de 2016, Deltan envia uma mensagem a Moro com um pedido realmente inusitado. Segue o diálogo, conforme o original:

13:32:56 Deltan – Vc acha que seria possível a destinação de valores da Vara, daqueles mais antigos, se estiverem disponíveis, para um vídeo contra a corrupção, pelas 10 medidas, que será veiculado na Globo?? A produtora está cobrando apenas custos de terceiros, o que daria uns 38 mil. Se achar ruim em algum aspecto, há alternativas que estamos avaliando, como crowdfunding e cotização entre as pessoas envolvidas na campanha.
13:32:56: Deltan – Segue o roteiro e o orçamento, caso queria [buscou escrever “queira”] olhar. O roteiro sofrerá alguma alteração ainda
13:32:56: Deltan – Avalie de modo absolutamente livre e se achar que pode de qq modo arranhar a imagem da LJ de alguma forma, nem nós queremos
13:35:00: Deltan – pdf
13:35:28: Deltan – pdf

No dia seguinte, 17 de janeiro de 2016, Moro responde:
10:20:56 Moro – Se for só uns 38 mil achi [quis escrever “acho”] que é possível. Deixe ver na terça e te respondo.

NOTA DA REDAÇÃO:
– A sequência de mensagens de Deltan Dallagnol tem a mesma hora de envio porque retransmitidas ao mesmo tempo de um outro grupo ou interlocutor para Sergio Moro.
– Vejam em outro post os arquivos de PDF enviados pelo procurador para aprovação prévia do então juiz. 

De Lula aos estudantes: “Geração de vocês tem o desafio de lutar contra o atraso e a opressão”

O ex-presidente Lula enviou carta à presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Marianna Dias, a propósito do 57o. Congresso da UNE, que se realizou em Brasília do dia 10 até ontem. Lula destaca a importância dos estudantes “na luta contra o atraso e a opressão”. A seguir, a íntegra:

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Querida Mariana, juventude querida do meu Brasil,

Fiquei muito feliz com o convite para participar do 57o. Congresso da UNE. É muito bom ser lembrado em momentos tão especiais, mesmo estando aqui onde estou, proibido há mais de um ano de ver de perto meus amigos e nosso povo. Que vontade de estar aí e sentir de perto a energia boa de vocês.

Antes de mais nada, quero dizer que que vocês me deram uma das maiores alegrias nesses tempos tão difíceis para o país. Fiquei emocionado ao saber que centenas de milhares de estudantes tomaram as ruas do Brasil nas jornadas de maio, para defender o que construímos juntos e que este governo quer destruir.

Eles simplesmente não consideram que educação e o conhecimento são importantes para a vida de cada ser humano e para o país. Querem dominar pela ignorância, porque são ignorantes, além de individualistas. Não toleram a alegria e a liberdade que eles chamam de balbúrdia. Eles são a cara da tristeza e da opressão que desejam impor.

Pelos jornais e pelos relatos que recebi, notei que foi intensa a participação de estudantes, inclusive de cidades do interior, naquelas manifestações tão bonitas. É o resultado do que nós plantamos, abrindo cursos universitários em mais de 170 cidades, criando as cotas, o Prouni, o Novo Fies; fazendo o que não foi feito pela educação em séculos.

Vocês me deixaram seguro de que o nosso legado está sendo muito bem defendido, com muita garra e muita consciência. Eu que já participei de tantos Congressos da UNE, sinto que este será tão importante como aquele de 40 anos atrás, quando uma outra geração de estudantes desafiou a ditadura para refundar o que haviam proibido.

A geração de vocês tem o desafio de lutar contra o atraso, contra a opressão e contra a ignorância. Vocês aprenderam que as pessoas e o país podem melhorar muito quando ampliamos o acesso à educação. E agora podem ensinar como é importante lutar para que todos e todas, sem exceção, tenham educação de qualidade.

Desejo de coração que façam um grande Congresso da UNE e que jamais desistam da alegria, da liberdade e da confiança no futuro que vocês estão construindo.

Viva a nossa UNE!

Viva a juventude do Brasil!

Viva a democracia!

Um abraço e um beijo do companheiro de sempre,

Luiz Inácio Lula da Silva”

Com seu fascínio por dinheiro e poder, Dallagnol arruinou imagem da justiça

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Por Jeferson Miola

As novas revelações do Intercept flagram um Deltan Dallagnol fascinado por dinheiro e poder.

Deslumbrado com a fama, ele planeja negócios para ficar rico fazendo pregações falso-moralistas explorando a imagem institucional da Lava Jato.

É forçoso dizer que as mensagens divulgadas pela Folha de São Paulo [aqui] mostram que por trás da imagem do procurador da República austero, pregador religioso e implacável no combate à corrupção existe um pilantra, uma figura rasteira, um vigarista.

São vergonhosas as tratativas do Dallagnol com sua esposa e com o colega Roberson Pozzobon, intimamente tratado como “Robito”, para colocarem as respectivas esposas como testas-de-ferro de empresa de fachada que seria usada para lucrar com a exploração da imagem da Lava Jato num lucrativo negócio de palestras.

Dallagnol tem uma ambição desmesurada por dinheiro. No passado recente ele até especulou comprando imóveis do Minha Casa Minha Vida, programa destinado à população com renda muito inferior à dele.

Conforme apurou a reportagem da FSP, Dallagnol teve rendimento líquido de cerca de R$ 300 mil em 2018, sem considerar valores de indenizações.

Apesar deste salário que o situa entre os 1% das pessoas com maior renda no Brasil, Dallagnol se regozija com a esposa por se locupletar com uma cifra ainda maior usando indevidamente a imagem institucional da Lava Jato: “Se tudo der certo nas palestras, vai entrar ainda uns 100k limpos até o fim do ano. Total líquido das palestras e livros daria uns 400k. Total de 40 aulas/palestras. Média de 10k limpo”.

A 1ª revelação do Intercept sobre os crimes da organização criminosa, como Gilmar Mendes batizou a força-tarrefa da Lava Jato, cumpriu 1 mês de aniversário em 9 de julho.

As denúncias mostradas naquele momento já seriam suficientes para afastar os implicados dos cargos públicos e sujeitá-los aos procedimentos da Lei. Nada, porém, foi feito. Dallagnol, Moro e outros agentes do bando continuam nos cargos destruindo provas e obstruindo as investigações.

À continuação se seguiram outras revelações graves sobre as ilicitudes do bando, uma mais aterradora que a outra, porém incrivelmente não produziram nenhuma reação de parte dos órgãos e das autoridades competentes. Uma mistura de catatonia, cumplicidade e conivência.

A situação do Dallagnol é insustentável. Ele não comprometeu somente a própria imagem, mas arruinou irremediavelmente a imagem e a confiança na Lava Jato, no Ministério Público e na justiça.

Essa gente jogou o Brasil no precipício.

Destruição do Itamaraty não é falta de habilidade, mas “um projeto”

Por Tiago Angelo

O ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou em entrevista ao Brasil de Fato nessa sexta-feira (12) que o processo de desmonte da diplomacia brasileira, em curso desde que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) assumiu o governo, não ocorre por falta de habilidade, mas “é um projeto” político.

O diplomata, que foi chanceler durante as administrações de Itamar Franco e Luiz Inácio Lula da Silva, comentou a possível nomeação de Eduardo Bolsonaro como embaixador em Washington, a degradação da imagem do Brasil em fóruns internacionais e a quebra das tradições diplomáticas do país.

“O Itamaraty sempre procurou ser guardião das tradições brasileiras que estão na Constituição. Nunca se colocou a questão ideológica em primeiro plano. Talvez a exceção tenha sido o começo do governo militar, depois do golpe [de 1964]. Mas ainda que no Brasil prevalecesse um regime ditatorial, o Itamaraty procurava se afastar disso e não fazer uma frente ideológica como estão fazendo agora: uma frente ideológica/religiosa”, afirma.

Nas últimas décadas, o país alcançou prestígio internacional com a consolidação de uma postura não intervencionista e com a capacidade de dialogar com atores diversos. A reputação rendeu ao Brasil um lugar de destaque entre os países em desenvolvimento e a capacidade de influenciar decisões ao redor do mundo.

No entanto, deliberações recentes, entre elas a de vetar qualquer referência ao termo “gênero” em resoluções da ONU, geraram perplexidade em diversas delegações estrangeiras, abalando a credibilidade do país.

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“Os países ocidentais, europeus, estão chocados com as votações que o Brasil tem feito sobre questões de gênero, questões de saúde reprodutiva da mulher. Em todas essas questões, o país tem entrado por um caminho que parece que o Brasil é uma teocracia medieval”, afirma.

Segundo ele, o Itamaraty parece “um navio sem rumo”. “Ou melhor, com o rumo errado, à beira do naufrágio, e com os diplomatas como passageiros de uma nau que está naufragando, procurando um barco salva-vidas. E dificilmente encontrarão. Eu sinto muita tristeza pelos meus colegas. Muitos devem estar trabalhando de maneira muito contrariada, até evitando ficar em lugares muito importantes, para não ter que se associar [ao governo Bolsonaro]. E isso agora vai só piorar”, lamenta.

Casamento real

O Brasil voltou a ser ridicularizado internacionalmente nessa quinta-feira (11), quando Jair Bolsonaro anunciou que pretende indicar seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), ao cargo de embaixador em Washington, nos Estados Unidos.

O parlamentar, que não tem experiência diplomática, completou 35 anos – idade mínima para assumir o posto – na última quarta-feira (10), um dia antes do anúncio de Bolsonaro. O cargo está ocioso desde abril, quando o diplomata Sérgio Amaral foi destituído.

“Não vou entrar no detalhe do nepotismo, porque assessoria jurídica do próprio Congresso deve ver [a questão]. [Mas a indicação] é grave de qualquer maneira. Foge totalmente aos padrões civilizados hoje em dia”, afirma Amorim.

Após Bolsonaro afirmar que pretende nomear Eduardo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que também poderá indicar seu filho Eric para a embaixada norte-americana em Brasília.

Para Amorim, “se isso acontecer, vai parecer coisa de dinastia do século 17, 18, em que se faziam alianças militares na base de casamentos, na época do poder absoluto das monarquias […] essa é uma prática que ninguém segue, a não ser as monarquias absolutistas”.

A indicação, segundo o diplomata, fragilizará ainda mais o Ministério das Relações Exteriores. “Há o debilitamento do Itamaraty como instituição, que tem muitos diplomatas competentes. E há o temor de formação de um eixo de extrema direita com setores do governo norte-americano. Nem o governo dos EUA como um todo tem essa visão. E o Trump tem uma postura muito pragmática. Não se deve pensar que por uma aliança ideológica ele vai deixar de defender o interesse norte-americano”, avalia Amorim.

Para ele, os últimos acontecimentos não representam uma falta de habilidade política, mas sim “um projeto”. “O próprio presidente Bolsonaro, não se referindo especificamente ao Itamaraty, mas à política externa – então indiretamente ao Itamaraty –, disse que o objetivo é destruir mesmo”, ressalta.

Hambúrguer e inglês avançado

Embora não tenha nenhuma experiência em cargos diplomáticos, Eduardo afirmou ser qualificado para exercer a função de embaixador. “Já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos Estados Unidos, no frio de Maine, estado que faz divisa com o Canadá. No frio do Colorado, numa montanha lá, aprimorei o meu inglês”, disse.

Caso Eduardo realmente seja indicado, seu nome será encaminhado à Comissão de Relações Exteriores do Senado. O órgão é responsável por nomear um relator com a incumbência de levantar o currículo do indicado. O nome é então colocado em votação na comissão e, depois, de forma secreta, no plenário do Senado.

Para ser embaixador em Washington, Eduardo deveria renunciar ao cargo de deputado. Uma proposta do Capitão Augusto Rosa (PL-SP), no entanto, pretende garantir que parlamentares mantenha funções eletivas mesmo após assumirem as sedes diplomáticas.

Segundo o site Opera Mundi, a decisão de indicar um filho ao cargo de embaixador nos EUA possui apenas um precedente recente: em 2017, o rei da Arábia Saudita escolheu o filho Khalib bin Salman como embaixador em Washington. Ele deixou o posto em 2019 após suspeitas de envolvimento no assassinato do jornalista Jamal Khashoggi.

Emoção até o último instante

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POR GERSON NOGUEIRA

O Remo ainda lamenta os pontos perdidos em casa, sábado, para o Luverdense. Levado ao pé da letra, o resultado ficou realmente aquém das expectativas criadas e das próprias exigências do momento da competição. É preciso, porém, entender que o jogo foi atípico e que as circunstâncias não podem ser menosprezadas.

Com estádio lotado, ambiente festivo, emoções à flor da pele e um certo clima de já-ganhou, o time remista entrou desplugado. A distração custou caro. Em dez minutos, um apagão permitiu ao Luverdense construir o que parecia quase uma vitória garantida. Em duas jogadas pela direita, Anderson e Kauê conseguiram chegar ao gol com extrema facilidade.

Com 2 a 0, a equipe de Junior Rocha ficou à vontade para desenvolver uma estratégia de espera. Mantinha-se em seu campo, explorava os erros de passe dos azulinos e saía em velocidade com jogadas sempre centralizadas em Juninho Tardelli, que acionava Da Silva e Kauê pela direita e Jefferson Recife e Anderson Ligeirinho pela esquerda.

O tempo ia passando, o drama se acentuando e revelando que, além do nervosismo de algumas peças (Daniel Vançan, Carlos Alberto e Geovane), o Remo tinha sérios problemas de confiança para definir situações no ataque. A bola queimava nos pés dos atacantes.

Só depois que Emerson Carioca entrou aos 23 minutos, no lugar de Carlos Alberto, o time se recompôs e passou a dispor de quantidade e maior qualidade na frente. Posicionando-se de maneira mais recuada, próximo a Eduardo Ramos, Emerson surpreendeu pelo desassombro e coragem de buscar a finta e o chute de média distância, coisas que seus companheiros pouco arriscavam fazer.

Sua entrada em alta rotação corrigiu desajustes da equipe. Entusiasmado, Emerson quase fez um gol tocando à esquerda da trave do LEC e ainda disparou um chute na gaveta, que o goleiro Edson espalmou para escanteio. Além da utilidade no esquema de jogo, Emerson foi responsável por afastar o marasmo e fazer a torcida continuar acreditando.

No segundo tempo, quando o Remo se lançou definitivamente à frente, já com Alex Sandro no lugar de Geovane, a importância do camisa 9 se acentuou porque ele se desdobrava ajudando Vançan no lado esquerdo e recuando para se juntar a Yuri e Ramires na marcação.

Com Garré substituindo a Marcão Assis, peça improdutiva pelo mau aproveitamento do jogo aéreo no primeiro tempo, o Remo cresceu em movimentação e elevou a qualidade do passe. Foi o suficiente para controlar as ações dentro do campo do LEC, mas o gol não saía.

Aos 31 minutos, em escanteio batido por Eduardo Ramos, o zagueiro Marcão escorou de cabeça e diminuiu. Pela primeira vez na partida, a torcida conseguiu festejar. O time então se lançou a um esforço de superação para alcançar o empate, que veio no minuto final dos acréscimos, em cabeceio de Eduardo Ramos.

A festa podia ter sido melhor, mas também podia ter virado pesadelo. O esforço dos jogadores compensou os erros, arrancando um empate com sabor de vitória. Até porque seria um tremendo pecado se a celebração vista no Evandro Almeida fosse manjada por uma derrota em campo.

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Arbitragem errática e tímida nos acréscimos

O Luverdense, a despeito de ter feito uma boa atuação quando teve a bola nos pés, foi muito aplicado também nas paralisações para conter a reação remista. E contou com a conivência involuntária do atrapalhado árbitro Gilberto Junior (PE), que inverteu marcações, aplicou cartões injustos e deixou de punir faltas violentas.

O pior foi ter colaborado com a cera ao conceder quatro minutos de acréscimos no primeiro tempo, quando o correto seria dar no mínimo seis minutos. No tempo final, a contabilidade foi ainda pior. O jogo ficou parado para atendimento a jogadores do LEC por mais de 10 minutos e Gilberto deu apenas seis.

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Papão conquista empate e mantém série invicta

O técnico Hélio dos Anjos saudou como positivo o empate do PSC em Caxias do Sul (RS), no sábado à tarde. E foi mesmo um bom resultado. Manteve o time na briga pela classificação e ainda segurou a arrancada que o Juventude ameaçava dar.

De negativo apenas o fato de que o Papão teve durante boa parte do tempo as rédeas da situação. Marcou o gol aos 30 minutos, com Nicolas, teve mais três excelentes chances e acabou se acomodando com a vantagem mínima. Na etapa final, mesmo com um jogador a menos (Dalberto foi expulso no 1º tempo), o Juventude conseguiu reagir e empatar aos 33’, com Breno.

Poucas vezes o PSC desfrutou num jogo de tantas chances para melhorar a artilharia. Nicolas, Tony, Jheimmy e Elielton, com atuação destacada, também perdeu o seu. O mais incrível foi o lance desperdiçado por Diego Rosa, que, livre e de frente para o gol, errou o arremate.

Hélio tem toda razão em enaltecer a evolução do time, que abandonou a sequência de tropeços para abraçar uma série invicta que já lhe garante uma posição de destaque na chave. Com dois jogos em casa nas próximas rodadas, as perspectivas não poderiam ser melhores.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 15)

A frase do dia

“Marielle foi assassinada há quase 500 dias. Sua memória desperta calafrios na extrema-direita no País. É um fantasma assombrando essa gente tosca, que não quer que o mandante do crime seja revelado. O que assusta vocês? O fato de ter sido mulher, negra, comunista ou lésbica?”.

Fabio Pannunzio, jornalista