Na bucha

“Você não sabe o que é uma mulher ganhar um salário menor que o homem, ter as mesmas capacidades e ser a primeira a ser demitida, a última a ser promovida, e quando vai numa fila de emprego, pelo simples fato de ser mulher, não é aceita”.

Marina Silva, dirigindo-se a Jair Bolsonaro, no debate da RedeTV. 

Determinação da ONU, mesmo que não seja atendida, beneficia Lula

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É uma grande vitória do ex-presidente Lula e de seus advogados, e também dos direitos humanos e fundamentais e da Constituição brasileira. Mais do que isso, é um sinal muito forte de que no meio jurídico internacional vem se formando uma maioria crítica aos abusos que vêm ocorrendo no Brasil não somente contra Lula, mas também contra os próprios direitos humanos, por parte do sistema de Justiça.

A opinião é do jurista e professor de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Pedro Serrano, sobre a decisão do Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta sexta-feira (17), determinando que o Estado brasileiro garanta os direitos políticos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como candidato. Segundo Serrano, a decisão é baseada em tratados internacionais que o Brasil subscreve. “Segundo a nossa Constituição, tratados internacionais sobre direitos fundamentais e políticos que o Brasil assina são lei aqui, acima das leis comuns. É uma decisão contundente.”

Embora tais decisões tenham pouca “coercibilidade” (a ONU não vai usar a força contra o Estado brasileiro, por exemplo), avalia, elas têm muita força. O Brasil pode ser constrangido por meio de multas e sanções pecuniárias. “Se o Estado brasileiro não cumprir, Lula sai vitorioso também, no plano político e moral“, afirma o jurista.

Segundo a ONULula pode ser candidato, a não ser que haja um processo justo que o declare impedido de forma terminativa, depois de todos os recursos. Serrano destaca que a decisão confirma o ponto de vista de que, uma vez inscrito como candidato, Lula tem direito a fazer campanha. O comitê da ONU rejeita a ideia do Ministério Público de que Lula não tem direito a se manifestar da cadeia e não pode receber advogados que sejam dirigentes partidários.

Se o juízo de execução (no caso, a juíza Carolina Lebbos, de Curitiba) impedir que Lula dê entrevistas livremente, receba dirigentes partidários, pratique atos de campanha, como filmar vídeos, fica consolidado que a intenção do Judiciário é liquidar seus direitos humanos.” A decisão diz que Lula pode praticar todos esses atos e se manifestar publicamente.

Bate-papo no boteco virtual – Londrina x PSC

Campeonato Brasileiro da Série B 2018 – 21ª rodada

Londrina x Paissandu – estádio do Café, em Londrina (PR), 19h15

Na Rádio Clube, Claudio Guimarães narra, Rui Guimarães comenta. Reportagens – Giuseppe Tommaso, Dinho Menezes. 

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FICHA TÉCNICA: LONDRINA x PAYSANDU

Local: Estádio do Café, em Londrina (PR)

Data: 17 de agosto de 2018, sexta-feira

Horário: 19h15 (de Brasília)

Árbitro: Vinicius Furlan (SP)

Assistentes: Herman Brumel Vani (SP) e Vitor Carmona Metestaine (SP)

LONDRINA: Vagner; Matheuzinho, Luizão, Lucas Costa e Victor Luiz (Sávio); João Paulo, Jardel (Moisés) e Dudu (Higor Leite); Dagoberto, Paulinho Moccelin e Thiago Ribeiro. Técnico: Roberto Fonseca

PAYSANDU: Renan Rocha; Guilherme Teixeira, Perema e Fernando Timbó; Maicon Silva, Renato Augusto, Nando Carandina e Guilherme Santos; Thomaz, Pedro Carmona e Mike. Técnico: Guilherme Alves.

Lombardi ganha R$ 227 mil em ação judicial contra o PSC

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O Paissandu sofreu uma derrota judicial nesta sexta-feira (17) na ação movida pelo zagueiro Fernando Lombardi, ex-atleta do clube. Ele teve seu pedido acatado pelo juiz Raimundo Itamar de Lemos Fernandes Junior, da 16ª Vara do Trabalho. Com isso, o PSC terá que pagar a quantia de R$ 227.891,47 ao zagueiro, que passou pelo clube entre os anos de 2015 e 2017. Cabe recurso.

Após 100 anos, Seleção convoca jogador nascido fora do Brasil

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Uma das grandes surpresas na convocação de Tite para a seleção brasileira, anunciada nesta sexta-feira, foi a presença de Andreas Pereira, meia que atua no Manchester United. Ele, porém, não é nascido no Brasil, algo que não acontecia no time principal brasileiro desde a década de 1920. Andreas, atualmente com 22 anos, é filho de brasileiros, mas nasceu na cidade de Duffel, na Bélgica, já que na época seu pai, Marcos Pereira, atuava pelo Mechelen.

Ele é tido como uma promessa desde muito novo e, com nove anos, já treinava no PSV, da Holanda. Por causa disso, passou a ser convocado para as seleções de base da Bélgica, defendendo as equipes sub-15, sub-16 e sub-17.

Em 2014, porém, quando foi contratado pelo Manchester United, passou a chamar atenção da CBF e decidiu trocar de seleção, passando a defender o Brasil desde a categoria sub-20. A convocação desta sexta foi a sua primeira para a equipe principal.

Apesar de um não-brasileiro de nascença defender a seleção parecer estranho para nós, essa não é a primeira vez que isso acontece. Isso porque no início do século XX, atletas como Sidney Pullen (nascido na Inglaterra), Casemiro Amaral (nascido em Portugal) e Francisco Police (nascido na Itália), também defenderam o Brasil em pelo menos uma oportunidade entre as décadas de 1910 e 1920.

Além deles, alguns outros jogadores também atuaram pelo Brasil nas categorias de base, caso do atacante Marcelo Moreno, nascido na Bolívia e que atualmente defende seu país e também de Gabriel Kazu, garoto atualmente na base do Flamengo que é constantemente convocado para a seleção sub-20. Ele nasceu no Japão.

NOVIDADES NA CONVOCAÇÃO

O técnico Tite divulgou a primeira convocação da seleção brasileira no projeto para a Copa do Mundo de 2022, no Catar. Os primeiros compromissos serão contra Estados Unidos e El Salvador, nos dias 7 e 11 de setembro. Da lista da Copa do Mundo da Rússia, 10 nomes não se repetiram. Como levou 24 jogadores, Tite convocou 11 novidades.

Antes da divulgação da lista, Edu Gaspar informou que o planejamento para 2022 conta com três fases, que mudarão as características da convocação. Nesta primeira, de curto prazo (até o final de janeiro), será de mais testes na equipe. No médio prazo, que vai até o final da Copa América, as convocações serão de menos observações.

Sobre a polêmica das convocações de jogadores de times que estão nas semifinais da Copa do Brasil, Tite anunciou que convocaria no máximo um jogador por time envolvido na disputa. Corinthians, Flamengo e Cruzeiro tiveram convocados, sendo apenas o Palmeiras a ficar de fora da lista.

Goleiros: Alisson (Liverpool), Hugo (Flamengo), Neto (Valencia)

Laterais: Filipe Luís (Atlético de Madrid), Alex Sandro (Juventus), Fagner (Corinthians) e Fabinho (Liverpool)

Zagueiros: Dedé (Cruzeiro), Felipe (Porto), Marquinhos (Paris Saint-Germain) e Thiago Silva (Paris Saint-Germain)

Meio-campistas: Andreas Pereira (Manchester United), Arthur (Barcelona), Casemiro (Real Madrid), Fred (Manchester United), Lucas Paquetá (Flamengo), Coutinho (Barcelona) e Renato Augusto (Beijing Guoan).

Atacantes: Douglas Costa (Juventus), Everton (Grêmio), Roberto Firmino (Liverpool), Neymar (Paris Saint-Germain), Pedro (Fluminense) e Willian (Chelsea)

(Da ESPN)

ONU diz que Brasil deve respeitar o direito de Lula ser candidato

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O Comitê de Direitos Humanos da ONU determinou nesta sexta-feira (17) que o Estado Brasileiro “tome todas as medidas necessárias” para garantir os direitos políticos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como candidato, incluindo o acesso à imprensa.

A decisão decorre de um pedido da defesa do ex-presidente que foi apresentada pelo advogado inglês Geoffrey Robertson, e determina que a candidatura de Lula não deve sofrer impedimentos “até que todos os recursos pendentes de revisão contra sua condenação sejam completados em um procedimento justo e que a condenação seja final”.

O ofício, assinado pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU,  reconhece a existência de violação ao art. 25 do Pacto de Direitos Civis da entidade e a ocorrência de danos irreparáveis a Lula na tentativa de impedi-lo de concorrer nas eleições presidenciais ou de negar-lhe acesso irrestrito à imprensa ou a membros de sua coligação política durante a campanha.

“Diante dessa nova decisão, nenhum órgão do Estado Brasileiro poderá apresentar qualquer obstáculo para que o ex-Presidente Lula possa concorrer nas eleições presidenciais de 2018 até a existência de decisão transitada em julgado em um processo justo, assim como será necessário franquear a ele acesso irrestrito à imprensa e aos membros de sua coligação política durante a campanha”, diz em nota a advogada Valeska Teixeira Zanin Martins. (Do Sul21)

Conceito minimalista transforma logo da Pepsi

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Na Colômbia, a Pepsi criou uma campanha de conceito bem minimalista para a linha Pepsi Light. Brincando só com as curvas que são características do logo da marca, a ideia é adicionar uma pequena figura humana no desenho e pronto, o contexto muda e passa a representar diferentes atividades esportivas. As criações feitas pela agência Sancho BBDO para outdoors transforma as curvas do logo em pistas de esqui, paraquedas, ondas e montanhas.

Segundo o diretor executivo de criação da agência, Daniel Alvarez, a Pepsi Light historicamente destacou as curvas do logo “estabelecendo um conceito de mulheres magras e curvilíneas que se refrescaram com o refrigerante com zero de açúcar e zero calorias”.

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A nova campanha busca mudar também esse conceito , deixando-o menos objetivado: “Transformamos as curvas do logotipo em uma atividade esportiva que convida as pessoas a sentirem-se leves, mudando o foco da estética para algo realmente significativo”, diz o diretor. (Da B9)

Fogão despacha Nacional e avança na Sul-Americana

Com uma linda festa da torcida, que esgotou os ingressos no Estádio Nilton Santos, o Botafogo derrotou o Nacional-PAR por 2 a 0 nesta quinta-feira e se classificou para as oitavas de final da Copa Sul-Americana. Na próxima etapa, o Fogão enfrentará o Bahia, num confronto doméstico, com o primeiro jogo em Salvador.

Rodrigo Lindoso abriu o placar, de cabeça, no primeiro tempo – é bom lembrar que o Botafogo havia perdido o primeiro jogo por 2 a 1. Na etapa final, o Fogão ainda colocou duas bolas na trave e ampliou já no fim, com Leo Valencia.

No próximo domingo, o Botafogo volta a atuar no Estádio Nilton Santos, desta vez pelo Campeonato Brasileiro, contra o Atlético-MG, às 16h.

BOTAFOGO – Saulo; Igor Rabello; Joel Carli, Marcinho e Moisés; Rodrigo Lindoso, Matheus Fernandes, Renatinho (Rodrigo Pimpão), Léo Valencia e Luiz Fernando (Gilson); Aguirre (Brenner). Técnico: Zé Ricardo.

NACIONAL – Rojas; Franco (Nery Cardozo); Victor Velázquez, Paniagua e Montiel; Alegre (Báez), Luis Miño, Argüello (Vieyra), Clarke e Santacruz; Bareiro. Técnico: Celso Ayala.

GOL – Rodrigo Lindoso, aos 38 minutos do primeiro tempo; Léo Valencia, aos 44 minutos do segundo tempo.

ÁRBITRO – Patricio Loustau (ARG)

CARTÕES AMARELOS – Montiel e Paniagua (Nacional); Rodrigo Lindoso e Léo Valencia (Botafogo)

PÚBLICO – 35.788 torcedores (33.891 pagantes)

RENDA – R$ 362.285,00.

LOCAL – Estádio do Engenhão, no Rio.

Abril e o Brasil

Por Denis R. Burgierman, no Nexo Jornal

Conheci Roberto Civita numa tarde há 12 ou 13 anos. Eu já o havia visto muitas vezes, pelos corredores da empresa, onde eu trabalhava e ele dava ordens. Mas, até então, eu era só um entre os milhares de rostos impressos nos crachás com o logotipo da árvore verde. Naquela tarde, pela primeira vez, sentei à frente dele. Eu tinha acabado de assumir o comando de uma entre as dezenas de revistas de sua propriedade, a “Superinteressante”. Fui à sua vasta sala envidraçada no 26° andar acompanhado de meu chefe de então, o Adriano Silva, que tinha cometido a temeridade de me entregar a responsabilidade, eu mal passado dos 30.

Entrei, sentei com São Paulo aos meus pés, ele abriu um daqueles sorrisos imensos dos quais era capaz e, com seu improvável sotaque meio americano, perguntou: “Quando vocês escolhem as ilustrações, vocês querem que seja feio ou erram mesmo?” A conversa seguiu daí para baixo: ele começou a discordar de quase todas as escolhas que fazíamos. Na época, eu tinha bem mais arrogância que juízo, e discordei enfaticamente. Eu tinha índices de satisfação em alta para exibir – e também números crescentes de venda.

“A revista não é para você, doutor Roberto. É para gente mais jovem que você”, concluí, e ouvi escorregar a frase da minha boca com uma agressividade maior do que a que eu pretendia. Senti o Adriano soltar um meio suspiro ao meu lado, como quem folheia mentalmente uma lista de editores no mercado, pensando em alternativas à disposição. Mas não. O fato é que naquela tarde ganhei a confiança do “doutor” Roberto.

Daí para a frente, ele me encomendava pesquisas e me mandava visitar redações pelo mundo. Pedia minha opinião sobre o que fazer com títulos problemáticos. Seu maior prazer era papear com seus editores. Para mim, contava histórias da faculdade nos Estados Unidos – estudou física nuclear antes de se conformar com o destino de herdeiro de magnata da mídia – e me mostrava que amava ciência e entendia do assunto.

De vez em quando opinava sobre a “Super” – muitas vezes em tom de crítica. Não gostava de ler nossa revista. Anos depois, ele organizou um curso de editores e me convidou para a segunda turma. Só aí, nas aulas que ele dava, entendi porque ele me respeitava, apesar de não gostar da revista que eu ajudava a fazer. Eu tinha dado a resposta certa para a primeira pergunta que ele me fez: “a revista não é para você”. É que ele era um profissional da segmentação.

Aprendeu com o pai – o idolatrado “seu” Victor Civita – que sua maior riqueza era a diversidade, e por razões bem pragmáticas. Se a empresa dele queria conversar com vários públicos, de maneira a publicar anúncios para eles, precisava aprender a conviver com vários tipos de gente. Não é à toa que seu Victor empregou na época da ditadura mais esquerdistas do que o PT tem hoje filiados: sabia que precisava conversar com todos os setores da sociedade.

Não é que Roberto Civita confiasse em mim apesar de não gostar da minha revista: ele confiava em mim porque ele não gostava da minha revista. Sabia que eu fazia revista para alguém diferente dele e achava bom: se eu fizesse como ele, não atingiria meu público, que era imenso (a “Super” teve naquela época uma das maiores circulações do Brasil: quase meio milhão por mês). Por causa disso, a Abril para mim foi uma universidade.

Convivi lá com uma quantidade imensa de talento – e mais que tudo, com uma diversidade impressionante. Havia uma editora, a Marília Scalzo, que entre um fechamento e outro, viajava o Brasil em busca de gente diferente uns dos outros: designers de Olinda e Santa Maria, jornalistas de Aracaju e Belém, fotógrafos de Porto Alegre e Belo Horizonte. Era uma busca permanente por diversidade. Nessa diversidade, encontrei minha turma (inclusive acabei casando com a tal designer de Olinda que citei aí em cima).

Conto essa história para explicar porque foi tão chocante para mim quando, depois de um tempo experimentando coisas diferentes, voltei para a Abril, no final de 2012. Encontrei lá – e vi chegar cada vez mais – gente autoritária, adepta do pensamento único. Havia um clima burocrático, quase o estereótipo de estatal – gente sem querer se expor, sem coragem de propor diferente, com um discurso “o chefe quis assim”. O chefe, no caso, ainda era o mesmo doutor Roberto, no finalzinho da vida, amargurado com assuntos de política, talvez jogando suas frustrações na revista sobre a qual mais tinha influência, a Veja, que virou um pote de fel, mais preocupada em influir na política do que em fazer jornalismo de verdade. A coisa desandou de vez quando Roberto morreu, em 2013, e deixou a empresa para filhos desinteressados. O espaço para a diversidade foi rareando. Eu via colegas talentosos de cabeça baixa no elevador, envergonhados.

Num dia de 2016, a esposa de um dos vários presidentes executivos que a Abril teve nesses tempos turbulentos comentou em seu Facebook que “o Nordeste colocou Dilma no Planalto, agora um nordestino não quer deixá-la sair. Depois dizem que somos preconceituosos, será mesmo?” (era uma referência ao deputado Waldir Maranhão, do estado de mesmo nome, que tentou parar o impeachment). Em reação, um ótimo designer pernambucano de uma revista da Abril perguntou no Facebook “se eu ofender essa senhora, serei demitido?” Foi, no dia seguinte.

Segundo a explicação que lhe deram, por corte de custos. Pouco depois, assim que Dilma caiu, o mesmo presidente da empresa enviou um email esquisito para os editores: um texto confuso, no qual não dizia diretamente, mas insinuava que era hora de pegarmos leve com Temer. Escrevi para ele em busca de esclarecimentos, ele nunca respondeu. Após a morte de Roberto, não fui mais convidado ao 26°.

A “Super” não tratava de política partidária, mas também não fugia de assuntos polêmicos. Mencionamos Temer em notinhas, geralmente para a internet – nada muito pesado, mas com olhar crítico. Marcamos cerrado a falta de noção de sua política agrária e de sua agenda científica, apontamos os riscos que ele representava para a democracia, desmentimos desinformação. Um dia recebi o pedido explícito de que não mais falássemos de política, nem em notinhas na internet. E que evitássemos mencionar Temer. Declinei. Disse que isso – evitar um tema inteiro, ainda mais um que nos dava tanta audiência – eu não poderia fazer. Não combinava com a forma como eu via o serviço que eu prestava ao meu público.

Fui demitido semanas depois, também por corte de custos, na explicação oficial – e quem há de negar que uma empresa que perde centenas de milhões ao ano precise mesmo cortar custos? Não é fácil diagnosticar a doença terminal que acometeu a Abril e que a colocou naquilo que desde a grande demissão da semana passada parece ser a embicada final de sua história.

A empresa foi vítima de um coquetel de crises simultâneas: da mídia impressa no mundo, da economia no Brasil, da sucessão na família. Mas tenho para mim que a maior de todas as crises foi de confiança. A uma certa altura de sua história notável, a editora esqueceu de que precisava falar com todo mundo. E embarcou na canoa furada de ter um projeto político e usar suas capas para fazer campanha de ataque a reputações – sem se dar conta de que isso acabaria machucando a sua própria.

A ironia é que, quando percebeu e tentou mudar de rumo, colocando a Veja nas mãos mais moderadas de André Petry, um jornalista de verdade que tentou fazer uma revista equilibrada, foi vítima de suas próprias criações. A direita irracional, cultivada pela Veja, passou a acusá-la de petismo, e abandonou-a também. André Petralha, eles dizem. A crise da mídia é global, mas há pelo mundo empresas que a estão enfrentando com dignidade, cabeça erguida e dedicação ao melhor jornalismo possível.

Por exemplo, o “New York Times”, que também perdeu centenas de milhões, mas seguiu trabalhando sério, inovando, fazendo reportagens e produtos incríveis, e parece que já saiu do outro lado do túnel – vem lucrando dezenas de milhões de dólares ao ano, engordados pela eleição de Trump, que convenceu os americanos de que eles precisavam financiar bom jornalismo.

Para a Abril, infelizmente, parece tarde demais para encontrar uma saída dessas. A empresa não esteve à altura deste país diverso – não esteve nem à altura dos valores pragmáticos de seus dois primeiros donos. Pena, foi um bom lugar. Que seu desaparecimento próximo abra espaço para coisas melhores.

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Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira. Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.  

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2018/Abril-e-o-Brasil