Despedida

Por Edyr Augusto Proença

Mais dois anos e eu completaria 50 anos de atividades como radialista. Olho para trás e acho que acrescentei alguma coisa. Comecei aos 16 anos, em uma das funções mais simples, na discoteca, primeiro com Jacy Duarte, Souza Filho e depois meu irmão Edgar. Meu primeiro programa de rádio foi “Gente da Pesada”, aos sábados, oito da manhã. Junto ao Janjo, Edgar, Tarrika, Ricardo Albuquerque, Gilvandro Furtado e Fredoca Alfredo Gantuss, comandados por Rosenildo Franco, botamos no ar o “Sábado Gente Jovem”. Também tinha um programa na madrugada, que deixava gravado, apresentado sob o pseudônimo de Mr. Moonlight. Meu grande amigo Laredo Neto. Grandes tempos. Convivi com alguns dos maiores comunicadores do rádio paraense. Descobri um mundo diferente, aprendi muito. Da Rádio Clube do Pará, conheço todos os que ainda estão em atividade. Mas estive com Grimoaldo Soares, José Simões, Osmar Simões, Jair Gouveia, mas devo dizer que para mim, os melhores narradores foram meu pai, que depois passou a comentar, meu irmão Edgar, desculpem se pareço parcial, Zaire Filho e Cláudio Guimarães.

Hoje admiro Guilherme Guerreiro, Gerson Nogueira e Carlos Castilho. Aos que não mencionei, minhas desculpas. Atrás dos microfones, um mundo de profissionais ótimos, bons amigos. Mas um dia, o Dr. Raul Navegantes, do Idesp, foi até meu pai pedir a sugestão de um nome para montar a Rádio Cultura do Pará em Ondas Tropicais. Meu pai me chamou. E a emissora, com seus transmissores em Marituba, foi ao ar. Sem muitos exemplos a seguir, tateamos uma programação para o interior, sem deixar de lado a Cultura. Uma grande experiência. Porque em seguida, veio a Rádio Cidade Morena e a parceria com meu irmão Janjo, minha outra metade, se firmou, com a ajuda de Jones Lara Tavares e jovens santarenos como Silvio Junior, Arturo GonçalvesNelson Gill, mais Cacá RaymundoAntonio Jorge ReisCaito Lanhoso MartinsJulio Cezar de Araujo e os que esqueci, perdão ao velhinho que o alemão quer pegar.

No começo, ligava os transmissores e ia ao microfone às seis da manhã até onze. Apresentei lá a Feira do Som, com o Edgar Augusto. Mas então veio a filiação com a Rede Rádio Cidade, a melhor FM do Brasil. Muitas promoções, gincanas. A Cidade encerrou atividades por conta de problemas da família dona da marca. O pessoal Machado de Carvalho, da Jovem Pan entrou em contato. O velho Paulo, marechal da vitória na Copa de 58, fizera negócios com meu avô Edgar, trazendo artistas durante o Círio. Fomos os segundos a nos filiar e durante bom tempo, nas reuniões de todas as Pans do Brasil, fomos considerados a segunda melhor emissora, perdendo apenas para a matriz, claro. Formamos muitas pessoas. Criamos um estúdio para gravar jingles e comerciais no nível que a emissora precisava, falando para jovens. Após pesquisa de comportamento, levamos às agências estudo completo sobre o que os jovens queriam. No meio do caminho, fui convidado a montar outra emissora, a Belém FM, uma das primeiras do Brasil no gênero segmentado, procurando claramente o público bem jovem, alternativo, gostando de rock. Mas cansei.

O rádio virou algo muito técnico, usando as mídias sociais como parceiras. Para realizar o que fizemos, sendo somente uma emissora de rádio, sem contar com jornais ou emissoras de tv como apoio, nos desgastamos muito. Chegou a hora de parar. Parar no auge. Sabemos, eu e Janjo, que com a saída do sinal da Pan, haverá tristeza. Mas é bom sair no momento certo. Foi muito bom. O rádio me deu e me ensinou tudo. Espero ter deixado alguma coisa, também, para os ouvintes e para os que comigo trabalharam. A esses o meu sincero agradecimento pela paciência que tiveram comigo. Agora terei mais tempo para escrever. Muito obrigado.

Edyr Augusto Proença
(Publicado em O Diário do Para e opiniaonaosediscute.blogspot.com)

Novo ídolo dos bolsominions, Gabeira curte lua-de-mel com a extrema direita

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Por Kiko Nogueira, no DCM

Um dos momentos mais bonitos da sabatina de Bolsonaro na Globo News se deu quando o candidato disparou: “Você sabe que sou apaixonado por você, né, Gabeira?”

Ao final, se animou mais: “Vou dar um abraço hétero no Gabeira agora!”

Conquistou o coração dos bolsominions. Mas Fernando Gabeira é ídolo da extrema direita há algum tempo. 

Vou repetir o que escrevi aqui:

Tem um passado na luta armada, sequestrou o embaixador americano Charles Elbrick, vestiu tanga de crochê e hoje é um convertido, alguém que enxergou a luz e abandonou a heresia marxista para ficar ao lado dos cidadãos de bem.

Subiu nos palanques do golpe e posou sorridente com os fascistas do MBL, a quem naturaliza com palavras melífluas.

Em 2017, escreveu que a milícia, “um movimento que se destacou na oposição ao governo de esquerda, tem uma clara opção liberal”.

Àquela altura, qualquer cidadão medianamente informado — e o Gabeira é jornalista — sabia das picaretagens da galera em nome desse liberalismo.

Ele não titubeou em apoiar a intervenção militar no Rio de Janeiro no dia seguinte ao decreto, num artigo que circulou bonito pela hordas bolsonaristas.

“Não tenho o direito de encarar o Exército com os olhos do passado, fixado no espelho retrovisor. Além de seu trabalho, conheci também as pessoas que o realizam”, escreveu, com autoridade auto outorgada em Haiti.

O mesmo Gabeira que passou pano numa farsa arquitetada pela Globo e por um governo corrupto foi convidado pela BBC a falar de Marielle Franco e se saiu com as mesmas relativizações.

Marielle sabia qual era o foco da operação e nunca hesitou em expôr a farsa. Onde ela era firme e determinada, o ex-deputado é um peixe ensaboado.

“Sua morte é um grande desafio e uma grande agressão a todos nós. Independente de posições politicas”, diz ele.

“Não acredito que tenha sido a intervenção militar que a matou. Mas sua morte poderia ser, potencialmente, uma reação à intervenção federal por parte dos setores da polícia que estão sendo atingidos”.

Que setores estão sendo atingidos??

Gabeira vive num mundo à parte, advogando uma causa que tem na execução de Marielle um símbolo de seu fracasso.

As “posições políticas” que ele desdenha fazem, sim, toda a diferença. Não fossem elas, Marielle provavelmente estaria viva.

Gabeira é o epítome do isentão (“Ninguém pode servir a dois senhores”, Mateus, 6:24).

Marielle tinha lado. O MBL tem lado. Gabeira finge que não tem. E, nesse sentido, é mais nocivo que os bolsonaros que abraça.

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Emicida: “Ninguém é racista até o negão aparecer com um carro melhor que o seu”

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Em entrevista a coluna de Monica Bergamo, na Folha, o rapper Emicida, que acaba de completar dez anos de carreira como um dos principais nomes do gênero no Brasil, fala sobre o começo da carreira, racismo e a política no país. Confira alguns trechos:

[Minha mãe trabalhava como] empregada doméstica. Mas ela fez muita coisa, muito bico. Fez coisa de bordado, uns chinelos de artesanato. Trabalhava na feira… Mano, eu lembro da minha mãe me levando até pra cuidar de uma barraca de jogo do bicho. E eu chapava [me divertia], porque tinha um monte de páginas amarelas lá e eu ficava lendo.

Tinha vários telefones tipo de pizzaria, tá ligado? Você ficava imaginando o dia que você ia ter dinheiro pra pedir uma pizza. Eu ficava viajando muito nisso.

………….

Existe uma expectativa tão baixa com relação aos pretos, aos favelados, que as pessoas acreditam que a gente tem uma noção muito rasa a respeito do nosso negócio. Querem ensinar a gente.

Não entra na cabeça das pessoas que a gente sabe o que está fazendo. Que a gente tem um conceito, valores, uma história, que temos um modelo de negócios, uma filosofia, uma meta.

E a gente tem liberdade, que é uma parada que pouquíssimos pretos no Brasil têm. Liberdade de dizer o que a gente quiser, fazer o que a gente quiser, morar onde a gente quiser, comer o que a gente quiser. Sacou?

Isso é uma parada extremamente ofensiva. Muitas pessoas que discursam a favor disso, mas no momento em que veem o preto passar com um carro bacana, aí você vai ver! Mano, ninguém é racista até o negão aparecer com um carro melhor que o seu. Aí você vai ver o nariz torcer.

…………..

Se você for analisar com profundidade, a princesa Isabel era o Michel Temer. Não era o presidente. Era alguém que tava ali por acaso, não porque foi eleito e tinha capacidade para aquilo. Isso é uma situação muito profunda e que o brasileiro nem compreende! Ele agradece a princesa, tá ligado?

Com o Supremo com tudo: Fachin restitui bens de Geddel e família

O ministro Edson Fachin, do STF (Supremo Tribunal Federal), decidiu restituir os bens de Geddel (MDB) e Lúcio Vieira Lima (MDB), além da mãe da dupla, Marluce Vieira Lima. A informação foi divulgada hoje (3) pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, que ressalta que o pedido à Justiça foi feito pela matriarca da família.

Os bens da família foram bloqueados pelo magistrado, a pedido de investigadores. Segundo a decisão, havia indícios de que foram realizados investimentos no mercado imobiliário, com envolvimento de empresas que pertenciam aos denunciados.

A resistência tem nome: Lula

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Por Eleonora de Lucena, na Folha SP

Com cabos de vassoura, paralelepípedos e barras de ferro, o grupo avançou pela rua e parou em frente a uma loja de carros importados. Entraram quebrando tudo: vitrines, para-choques, estofados.

Uma centena de metros antes, tinham atacado uma cervejaria estrangeira. A raiva explodira e deixava um rastro de destruição. Inconformados, incrédulos, desesperados percorriam a cidade. Uns berravam; outros choravam.

Era o que meu avô contava daquele agosto. Pelo rádio, a “Carta Testamento” trouxe a denúncia sobre o complô promovido por grupos internacionais e seus aliados internos. Expôs ataques à Petrobras, à Eletrobras e às leis trabalhistas.

Isso em 1954.

A morte de Getúlio Vargas adiou o golpe por dez anos, costumam apontar os historiadores. Pois cá estamos, em 2018, no meio de um golpe que ainda tenta derrotar a Petrobras, a Eletrobras, as leis trabalhistas. Além delas, outras conquistas de muitas décadas estão na mira: a Embraer, o SUS, o BNDES, os programas sociais, a educação universal.

Marielle e Anderson são assassinados. Violência e preconceito crescem. A mortalidade infantil aumenta. O desemprego, o desassossego e a desesperança campeiam. O retrocesso civilizatório é amplo, geral e irrestrito. Cotidianamente, a democracia e a soberania são enxovalhadas.

De costas para tudo isso, uma parte do empresariado não tem constrangimento em flertar e apoiar um candidato que defende o assassinato de pobres. Ignorando princípios básicos da civilização pós-iluminista, promovem encontros de olho apenas nos seus rendimentos de curto prazo.

Herdeiros de grandes nomes da burguesia se alinham a arrivistas para cortejar quem quer que diga defender os seus ganhos. A direita — que gosta de ser chamada de centro e que alimenta o fascismo — reza para que o tempo de TV seja a salvação da lavoura, da sua lavoura, claro.

Há uma complicação inexorável para a direita: o voto universal. Coisa que os alardeados mercados não cansam de dizer que causa “tumulto”, “incerteza”, “imprevisibilidade”. Para eles, seria melhor que não houvesse eleição.

Assim, seguiria, sem maiores percalços, o ataque aos fundos públicos, ao Estado. E a entrega de patrimônio construído por décadas. E o alinhamento subserviente ao Norte.

Ocorre que o líder nas pesquisas está preso. Um processo questionado por renomados juristas é instrumento para deixá-lo de fora da disputa — que poderia vencer até em primeiro turno.

A direita finge que Lula não existe, que é carta fora do baralho, que deve abandonar o jogo e indicar um substituto. Já quando ele foi preso, obituários encheram páginas e páginas, decretando o fim de um mito.

Mas, até agora, a maior parcela dos eleitores está com ele. Votar em um preso, nessa conjuntura, significa um protesto, uma revolta silenciosa, uma forma de derrubar, pela via eleitoral e legal, a malta que saqueia o país e seus cidadãos. Nada a ver com letargia. É uma ideia de futuro que move os eleitores.

O que ninguém sabe é o que vai acontecer se Lula não estiver na urna em 7 de outubro. Ou se os votos dados a ele forem cassados pela Justiça. As eleições serão consideradas legítimas? É certo que um dos objetivos da direita sempre foi afastar o povo da urna. A ideia do voto não obrigatório é uma face desse antigo projeto.

É possível que a exclusão de Lula da eleição coloque a própria democracia em risco ainda maior. Os golpistas, que jogam o país no precipício, têm poucas semanas para sacramentar sua estratégia. Já os defensores da democracia precisam se unificar em torno da sua: Lula livre! E candidato.