Löw, entre a autocrítica e a convicção

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Por Gerd Wenzel, no DW

Após o fragoroso naufrágio da esquadra alemã na Rússia, frustrando milhões de torcedores alemães além dos fãs do futebol germânico pelos quatro cantos do planeta, a expectativa era de que, logo depois do desastre, fosse dado o pontapé inicial à uma vigorosa autocrítica de todos os envolvidos responsáveis pelo fracasso no Mundial de 2018.

Passados dois meses desde a eliminação precoce da até então campeã mundial já na fase de grupos, pouco ou nada foi visto nesse sentido. Pelo contrário: logo após a derrota frente à Coreia do Sul, Joachim Löw e Oliver Bierhoff foram confirmados em seus cargos com o objetivo de iniciar a reconstrução, termo utilizado à exaustão por dirigentes da Federação e membros da comissão técnica.

O que mais se ouviu foram declarações genéricas sobre melhorar isto ou otimizar aquilo. Até então, um mea-culpa pelos tantos equívocos cometidos desde o fim do ano passado, nem pensar. E não foi por falta de aviso.

Jerome Boateng e Toni Kroos, por exemplo, se manifestaram logo depois dos amistosos contra Espanha e Brasil em março, apontando problemas no setor defensivo e alertando contra a falta de engajamento de alguns colegas. Ninguém quis ouvi-los. O próprio técnico contemporizava: “Tivemos um dia infeliz, mas não me preocupo. Vamos melhorar”.

Em vez de autocrítica, houve até uma tentativa do presidente da Federação, Reinhard Grindel, de culpar Mesut Özil pelo colapso. Achar um bode expiatório parecia ser o caminho mais fácil do que assumir os próprios erros. Özil, injuriado, acabou se aposentando da seleção.

Durante boa parte do verão na Alemanha, o assunto nas mesas e nos balcões das Kneipen (botecos) era recorrente: o caso Özil e suas fotos com Erdogan, os medalhões cansados, a falta de empenho, a dispensa de Leroy Sané, a formação de panelinhas no time e por aí foi.

Enquanto isso, Joachim Löw tirava oito semanas de férias, parte em Freiburg, sua terra natal, e parte na ilha paradisíaca de Sardenha no Mediterrâneo, longe do conturbado ambiente que ronda o futebol alemão atualmente.

E que, diga-se de passagem, pode ficar ainda mais conturbado se a seleção alemã anunciada por Löw nesta quarta-feira (29/08) repetir as suas melancólicas apresentações do Mundial da Rússia nos próximos compromissos.

Num curto espaço de pouco mais de dois meses, de setembro a novembro, a Alemanha vai encarar França e Holanda, em confrontos de ida e volta pela Liga das Nações, além de jogar amistosamente contra Peru e Rússia.

O torcedor alemão, preocupado com os destinos de sua Mannschaft, pode estar se perguntando: a nova convocação representa uma nova esperança ou é apenas mais do mesmo?

A lista de convocados, a rigor, tem apenas três novidades. Duas contemplam o setor defensivo: o lateral esquerdo Nico Schulz (Hoffenheim) e o zagueiro Thilo Kehrer (PSG). Outro estreante no elenco da seleção é o jovem meia-ofensivo Kai Havertz (Leverkusen), de apenas 19 anos.

E tem ainda três convocados que foram dispensados por Löw alguns dias antes da viagem para a Rússia e agora voltam ao elenco: o zagueiro Jonathan Tah (Leverkusen), o atacante Nils Petersen (Freiburg) e o talentoso Leroy Sané (Manchester City).

Dos sobreviventes da desastrosa campanha em campos russos, apenas quatro não foram chamados: Trapp, Plattenhardt, Khedira e Rudy, além de Mesut Özil e Mario Gomez, que se aposentaram da seleção.

Em outras palavras: continua-se depositando total confiança na esmagadora maioria dos jogadores que formaram a espinha dorsal da Alemanha no Mundial (17 ao todo) a saber: Neuer, ter Stegen, Boateng, Ginter, Hector, Hummels, Kimmich, Rüdiger, Süle, Brandt, Draxler, Goretzka, Gündogan, Kroos, Müller, Reus e Werner.

Durante a entrevista coletiva à imprensa, Löw se mostrou convicto que o elenco convocado hoje vai dar a volta por cima e, ao mesmo tempo, reconheceu a sua responsabilidade pelo fracasso na Copa: “Fomos arrogantes, atuamos sem determinação, privilegiamos demasiadamente a posse de bola, jogamos com lentidão. Errei nas minhas avaliações”.

Durante a longa entrevista coletiva que deu aos jornalistas, não passou desapercebido que Löw não fez nenhuma crítica a nenhum jogador em particular, preferindo assumir ele mesmo a culpa pela pior campanha alemã em Copas do Mundo.

De outro lado, insighters dão como certo que, caso se repitam nos próximos jogos apresentações deprimentes como a que se viu na Rússia, Löw não vai conseguir se manter no cargo. A verificar.

Entre especialistas e corneteiros de plantão já circulam nomes para uma eventual substituição do atual comandante. Jupp Heynckes, Jürgen Klopp ou até Zinédine Zidane estariam cotados para assumir a direção técnica da seleção.

Se depender de Löw, isso dificilmente vai acontecer. Ele está plenamente convicto de que, como comandante, poderá levar a esquadra alemã novamente à uma trajetória vitoriosa.

Para ele definitivamente não será apenas mais do mesmo. Muito pelo contrário: uma nova esperança pode surgir no horizonte, desde que seja sob sua direção.

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Gerd Wenzel começou no jornalismo esportivo em 1991 na TV Cultura de São Paulo, quando pela primeira vez foi exibida a Bundesliga no Brasil. Desde 2002, atua nos canais ESPN como especialista em futebol alemão. Semanalmente, às quintas, produz o Podcast “Bundesliga no Ar”. A coluna Halbzeit sai às terças. Siga-o no TwitterFacebook e no site Bundesliga.com.br

Conselho Nacional dos Direitos Humanos reconhece que decisão da ONU é legítima

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O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) divulgou, nesta quarta-feira (29), nota pública, reconhecendo como legítima a resolução do Comitê de Direitos Humanos da ONU em relação ao direito do ex-presidente Lula de ser efetivamente candidato à presidência da República, assim como participar de entrevistas de debates. As informações são do lula.com.br.

No dia 17 de agosto, o Comitê de Direitos Humanos da ONU acolheu pedido liminar da defesa do ex-presidente para que Estado brasileiro que “tome todas as medidas necessárias para permitir que o autor [Lula] desfrute e exercite seus direitos políticos da prisão como candidato nas eleições presidenciais de 2018, incluindo acesso apropriado à imprensa e a membros de seu partido político”.

A decisão reconhece a existência de violação ao art. 25 do Pacto de Direitos Civis da ONU e a ocorrência de danos irreparáveis a Lula na tentativa de impedi-lo de concorrer nas eleições presidenciais ou de negar-lhe acesso irrestrito à imprensa ou a membros de sua coligação política durante a campanha. Acompanhe a íntegra da nota:

Nota pública do CNDH em reconhecimento à legitimidade do Comitê de Direitos Humanos da ONU

O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), órgão autônomo criado pela Lei n° 12.986/2014, vem, através desta Nota Pública, expressar seu reconhecimento à legitimidade do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU), enquanto órgão de monitoramento do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, de conferir interpretação autêntica do tratado internacional e, nesse sentido, reafirma o respeito às suas decisões.

Nesse sentido, está em consonância com o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos a decisão do Comitê de que Lula possa exercer seus direitos políticos, inclusive com acesso apropriado à mídia e a membros do seu partido político, enquanto candidato às eleições presidenciais de 2018. O CNDH entende, assim, que as medidas interinas adotadas pelo Comitê devem ser cumpridas pelo Estado brasileiro, independentemente de seu caráter vinculante, como expressão de sua boa-fé no cumprimento de obrigações internacionalmente assumidas quanto à implementação de direitos humanos no país.

CONSELHO NACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS – CNDH

Ação contra reitor da UFSC cai nas mãos de juíza que mandou prender Cancellier

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Do blog de Marcelo Auler

A ação penal proposta contra o atual reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ubaldo Cesar Balthazar, e o seu chefe de gabinete, Aureo Mafra de Moraes, acusados pelo procurador da República Marco Aurélio Dutra Aydos pelo crime de injúria contra a delegada federal Erika Mialik Marena, foi distribuída, “por dependência”, à juíza Janaína Cassol Machado, da 1ª Vara Criminal Federal de Florianópolis.

Ou seja, o processo que busca condenar o reitor e o chefe de gabinete da universidade por não terem impedido uma manifestação crítica aos “agentes públicos que praticaram abuso de poder contra a UFSC e que levou ao suicídio do reitor” (como consta da faixa que gerou a ação penal), acabou nas mãos de uma das criticadas na mesma faixa. Janaína foi responsável pela prisão do ex-reitor Luiz Carlos Cancellier que, sentindo-se humilhado, suicidou-se.

A cobrança dos manifestantes na cerimônia no hall da reitoria, em 18 de dezembro passado – “pela apuração e punição dos envolvidos e reparação dos malfeitos” -, não se relacionou apenas à delegada federal que conduziu a operação Ouvidos Moucos. Atingiu também a juíza Janaína e o procurador da República André Stefani Bertuol, que atuam no caso. As fotos dos dois estavam ao lado da de Érika, como mostra a reprodução ao lado.

A juíza foi quem, a pedido da delegada e com a concordância do MPF, decretou a prisão do reitor – motivo do seu suicídio. Dos três, porém, somente a delegada ofereceu representação por se sentir atingida na sua “honra funcional”, pelo que descreveu o procurador Aydos na denúncia contra reitor e o chefe de gabinete.

Como noticiamos em Procurador da República ignora STF e denuncia reitor da UFSC,  a ação penal contra os dois (Proc. 5015425-34.2018.4.04.7200) foi protocolada na sexta-feira (24/08), embora datada do dia anterior. Somente na terça-feira (28) ocorreu a distribuição na Justiça Federal de Santa Catarina (JFSC). Pelo sistema consta que ela chegou à 1ª Vara Federal Criminal daquele fórum, “por dependência” ao procedimento 50041517320184047200. Para o público em geral, o mesmo sistema da Seção Judiciária de Santa Catarina registra que esse “código do processo não corresponde a um processo cadastrado”.

Como mostra a foto ao lado, o número 50041517320184047200 refere-se ao tombamento naquela seção judiciária, em 16 de março de 2018, do Inquérito Policial (IPL) 0120/2018 SR/DPF/SC.

Trata-se do Inquérito Policial instaurado a partir da representação apresentada pela delegada Érika, uma vez que a faixa, como alega o procurador na denúncia, “inequivocamente ofende a honra funcional subjetiva” da delegada, “dando causa injustamente a diminuição do sentimento pessoal de autoestima, eis que publicamente caracterizada pela qualidade negativa de “agente público que pratica abuso de poder” e necessita de “punição” para “reparação dos [seus] malfeitos”.

Este inquérito, como constataram advogados a pedido do Blog, permanece em “segredo de justiça nível 1”, o que significa que somente as partes têm acesso ao mesmo. No caso, as partes – o reitor e o chefe de gabinete, assim como seus advogados – evitam comentar o caso em si.

Há ainda, como relata o procurador Aydos na denúncia cuja íntegra publicamos na reportagem acima citada, outro inquérito instaurado na Superintendência da Polícia Federal de Santa Catarina – IPL 0643/2017 (5026418-73.2017.404.7200). Ele “apura a confecção e exposições da faixa”. Pelo que se depreende, além de tentarem punir o reitor e o chefe de gabinete por não usarem o “poder de polícia” para impedir a manifestação, querem identificar e tentar punir quem se manifestou, usando de um direito constitucional.

O curioso é que o inquérito que investigou reitor e chefe de gabinete por não impedirem uma manifestação na qual a própria juíza foi envolvida nas críticas dos manifestantes não identificados, tramite na Vara em que ela atua e esteja diretamente vinculado à mesma.

Advogados alegam que um Inquérito, mesmo que tombado judicialmente, costuma tramitar apenas entre a polícia e o Ministério Público, sem participação do juízo. Uma meia verdade, pois caso a investigação necessite de alguma das chamadas “medidas invasivas e/ou coercitivas” (como quebra de sigilo, busca e apreensão, etc.)  haverá necessidade da manifestação judicial. Portanto, é questionável se já no tombamento do IPL a juíza não deveria se dar por impedida.

Janaína, pelo que o Blog conseguiu levantar, encontra-se de férias até 14 de setembro. Quem responde pela 1ª Vara Federal é sua substituta, Simone Barbisan Fontes.  No sistema, porém, a denúncia foi distribuída à titular da Vara (a distribuição entre juízes tem como regra se o algarismo final do processo é par ou ímpar). O juiz pode recusar a denúncia de imediato, ao entender que não há crime ou que ela é inepta. A questão, porém, é se a juíza Janaína pode atuar em um caso no qual, ainda que indiretamente, está envolvida?

Um caso que por si só gera debate no meio jurídico. Inclusive no próprio Ministério Público Federal, apesar de, como dizem alguns procuradores, ser difícil mensurar no quadro atual da Procuradoria da República qual percentagem concordaria com esta denúncia. Em uma consulta do Blog a alguns de seus membros um deles deixou claro que por conta da pluralidade da instituição é “difícil falar em maiorias e medi-las”. Porém, acrescentou: “certamente a denúncia trouxe desconforto a muita gente.”

Outro procurador admitiu que na Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) certamente a posição do procurador Aydos não encontra respaldo. “Mas saber o pensamento do pessoal de 1ª instância é impossível, não tem como aferir”, concluiu.

Uma terceira fonte do Blog disse que entre procuradores há quem classifique a denúncia como uma “barbaridade”, explicando o motivo: “o problema está em imputar responsabilidade pelo fato de terceiros terem colocado uma faixa”.

Na reportagem Corporativismo: MPF encampa perseguições e denuncia novo reitor da UFSC , no site Jornalistas Livres, consta que “pelo menos dois procuradores do MPF em Santa Catarina estão insatisfeitos com a intervenção indevida do órgão neste e em outros processos contra professores e dirigentes da UFSC, jornalistas e militantes sociais que criticaram os abusos de poder relacionados à prisão e morte do reitor Luiz Carlos Cancellier”.

Cidade mais progressista dos EUA vira refúgio para imigrantes

Por Antonia Laborde, El País

As aparências enganam em Takoma Park. O rosto com que esta cidade de Maryland (leste dos EUA)recebe o viajante compartilha os mesmos genes com centenas de pequenos núcleos urbanos Estados Unidos afora. Os pórticos descuidados das casas vitorianas, os carros modestos, a livraria, a barbearia… De repente, um Starbucks. Em frente a ele, uma drogaria CVS. As únicas redes que rompem uma atmosfera que preferiu não entrar no terceiro milênio. Mas essa fachada esconde a vida de uma das cidades mais progressistas do país. Aqui, bem na fronteira com o Distrito de Columbia, onde fica Washington, os imigrantes em situação irregular podem votar nas eleições municipais desde 1992. Seus quase 17.000 habitantes (48% brancos) gabam-se de morar na primeira cidade dos EUA a reduzir a idade de votação para 16 anos. Aqui, onde tudo aparenta ser como antes, o rotineiro é a vanguarda.

Ernesto Campos, um salvadorenho de 60 anos, percorreu os Estados Unidos de costa a costa durante sua juventude. O ativista se dedicava durante metade do ano a promover a solidariedade internacional com seu povoado durante a guerra civil (1980-1992). Visitou várias vezes Los Angeles, Chicago, San Francisco, Nova York… todas as grandes. Mas quando finalmente decidiu se estabelecer em algum lugar com sua esposa norte-americana, retornou ao cenário das suas melhores lembranças: Takoma Park. Quando chegaram, há três décadas, dois membros da cooperativa Takoma Park-Silver Spring Co-op, ainda em funcionamento, bateram à sua porta e lhe deram as boas vindas com uma cesta de alimentos e folhetos com informação útil.

O ativista teve duas filhas que estudaram no colégio bilíngue da cidade e que após se formarem em universidades de fora voltaram para o seu lar – algo extremamente raro nos Estados Unidos. Campos tinha apreço por Takoma por ser uma “cidade irmã” da salvadorenha Santa Marta, o que gerava intercâmbios culturais e comerciais entre elas. As políticas migratórias e ser zona livre de armas nucleares também o seduziram. O último item significa que a cidade não faz negócios com companhias relacionadas a esse tipo de armamentos. Em 2012, houve um problema quando se percebeu que os novos computadores da biblioteca eram da marca Hewlett Packard, empresa que trabalhou em programas de arsenal atômico para o Governo. Os moradores deixaram as máquinas em suas caixas durante meses, até que a Câmara de Vereadores autorizou uma exceção.

Esse espírito foi o mesmo que trouxe Jenny Stello da Califórnia: “Eu estava na faixa dos 20 anos e disse ao meu pai que viria para Takoma. Ele não ficou contente, porque achava que havia muita droga, mas não era assim”.

Jenny chegou ao chamado Santuário Nacional dos Imigrantes em 1988, quando o lugar ainda conservava uma importante população de hippies, artistas e profissionais da saúde. A sexagenária massagista parece ter menos de 50. Ostenta uma melena castanha que lhe chega aos quadris, salpicada por fios grisalhos. Passeia ágil por sua casa com um vestido vermelho florido que combina com o forro selvagem das poltronas. Cada cômodo parece um museu, e cada peça da sobrecarregada decoração tem uma história: cabeças de bonecas carecas nos vasos, abajures construídos com garrafas de vidro recolhidas do rio, um enorme quadro em relevo que emula uma vagina… Os gatos zanzam pela cozinha, e ela recorda as duas vezes em que esteve na prisão por se manifestar contra as armas nucleares.

Nesta cidade, se você tiver um interesse por algo, vai encontrar um grupo de gente que compartilha e que faz coisas a respeito”, argumenta.

Entre as ruas de Takoma é difícil encontrar um quarteirão sem cartazes com frases como “Black Lives Matter” (“vidas negras importam”) e “Welcome everybody” (“bem-vindos todos”). No encosto de uma banqueta perto do mercado crescem ramos de tomilho, orégano, camomila e outras ervas. “Pegue o que precisar”, está escrito sobre a madeira. A multidão de ativistas entre os moradores e uma Câmara Municipal progressista, que segue com o legado de Sammy Abbott, o prefeito socialista que a governou durante quase uma década nos anos oitenta, conseguiram que os restaurantes entreguem seus pedidos em embalagens biodegradáveis, que exista um silo de milho como método de calefação para os membros da cooperativa, e que haja incentivos para que as instalações utilizem a energia eólica.

A ameaça dos novos moradores

Os cidadãos a chamam de República Independente de Takoma Park, e é conhecida como a Berkeley do Leste, alusão à liberal cidade da Califórnia. Gabi Hilliger e Patrício Domínguez são um casal chileno com dois filhos que morou por sete anos em Berkeley e chegou a Takoma há poucos meses. São parte do novo perfil de moradores que se estabelecem na cidade seduzidos pela abertura de seus habitantes, mas que contam com mais recursos econômicos que estes. A idade média dos moradores cresceu, e o preço das moradias duplicou na última década, de 252.500 dólares para 522.200 (de um milhão para dois milhões de reais, pelo câmbio atual), segundo dados do Escritório do Censo.

Recomendaram-nos ir para Bethesda [uma cidade vizinha], onde fica o instituto Walt Whitman, apelidado de Whiteman [homem branco] pela pouca diversidade. Acabamos optando por Takoma, onde mais de 50% das crianças que vão à creche são afro-americanas”, conta Gabi.

Jenny Stello, vizinha desse casal, considera que famílias como essa estão alterando a identidade da cidade porque querem outras coisas. “Têm os recursos para instalar ar condicionado, calefação central, querem restaurantes mais finos e lojas às quais ir andando com seus filhos, algo muito diferente do que sempre foi Takoma Park”. Gabi reconhece que essa realidade existe, mas a considera paradoxal. “Afinal, as famílias que vêm morar em Takoma a escolhem pela identidade mais progressista e livre, mas ao mesmo tempo é superagradável ter um café gostoso a uma distância que se possa ir caminhando”, comenta.

Kate Stewart, prefeita de Takoma desde 2015, sem partido, criou há dois anos um grupo de debate com os moradores para abordar o tema da moradia. Dessas reuniões surgiu o projeto piloto Homestretch, que busca subsidiar famílias vulneráveis na compra de sua primeira casa. O orçamento por pessoa é de 10.000 dólares e um empréstimo sem juros. “Estamos a ponto de finalizar um plano estratégico. Além disso, as políticas de estabilização de aluguéis da cidade limitam os aumentos de aluguel e protegem os inquilinos contra grandes aumentos da renda”, explica Stewart. “Com isto queremos nos assegurar de sermos fiéis a nossos valores de inclusão, equidade racial e diversidade, e nos esforçar para continuar sendo uma comunidade acolhedora”, acrescenta.

Quando foi vendida uma casa por um milhão de dólares, soube que isto tinha mudado”, diz Jenny, que é proprietária do imóvel que compartilha com três jovens. O salvadorenho Campos, chateado com o fim da casa de ferramentas, comenta que os novos moradores contratam alguém para cortar sua grama. A prefeita tenta acalmá-los: “Sempre recebemos gente de fora. E o que torna Takoma Park especial não são suas casas, e sim seus habitantes, maravilhosos e diversos. Estamos trabalhando para que isso não mude”.

Lia Amancio

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