O livro vermelho de canções socialistas – dos EUA

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Por Cynara Menezes

Entre os relatos sobre “vencidos” pouco conhecidos das novas gerações, um é particularmente fascinante: a história do sindicalismo de tendência socialista e anarquista que dominou os Estados Unidos no início do século 20. Como quaisquer “vermelhos” ao longo dos anos, os líderes sindicais norte-americanos foram perseguidos pelas autoridades, presos ou executados até que sobrasse quase nada do seu legado. Ficaram, porém, canções.

Os marxistas alemães que chegaram aos EUA após o fracasso da revolução de 1848 são considerados os primeiros socialistas em território norte-americano e influência primordial sobre o sindicalismo que se instalaria no país a partir de 1886. Disseminadas pelos sindicatos de trabalhadores, as ideias de esquerda começaram a se espalhar na pátria do capitalismo e só foram contidas, como sempre, com o uso da força. O maior e mais radical destes sindicatos, o IWW (Trabalhadores da Indústria Mundial, na sigla em inglês), criado em 1905, chegou a ter 40 mil filiados em seu auge, em 1923. Era, na época, o único sindicato norte-americano que aceitava mulheres, negros e asiáticos.

Perseguidos pela primeira caça às bruxas contra comunistas empreendida pelo governo norte-americano, entre os anos 1919 e 1920, os Wobblies, como eram chamados, se esvaziaram e perderam a queda-de-braço com um sindicato rival, mais conservador e visto com melhores olhos pelo governo, a AFL (Federação Americana do Trabalho). Com a paranóia anti-bolchevique instalada no país após a eclosão da revolução russa, em 1917, centenas de sindicalistas foram presos, mortos ou deportados. Marchar com a bandeira vermelha no Dia do Trabalho já era causa para prisão.

Há histórias dramáticas, como a de Frank Little, membro do IWW que foi linchado em 1917 por um grupo de encapuzados que invadiu o hotel onde estava hospedado em Butte, Montana, onde organizava uma greve de mineradores. Em seu peito, os assassinos deixaram uma nota onde se lia “primeiro e último aviso”, ao lado das iniciais dos nomes de outros sindicalistas da organização.

Joe Hill, nascido Joel Haggalund, foi um imigrante sueco que chegou aos Estados Unidos em 1902, aos 23 anos. Mudou seu nome para Joe Hillstrom e ficou famoso como Joe Hill, ativista e compositor de canções engajadas, criadas para atrair os trabalhadores para a causa operária. Um dos principais líderes do IWW, Hill foi condenado à morte em 1915, em um julgamento polêmico, por supostamente ter assassinado um comerciante e seu filho.

Após a execução de Joe Hill, aumentaram as perseguições ao sindicato, com a polícia invadindo as sedes e prendendo membros. Hill se tornaria um símbolo do trabalhismo norte-americano e inspiração para várias canções de música folk. Seu testamento era lido em recitais e shows durante as décadas de 1960 e 1970:

(Escrito em sua cela em 18 de novembro de 1915, na tarde em que seria executado)

My will is easy to decide,
For there is nothing to divide.
My kind don’t need to fuss and moan –
“Moss does not cling to a rolling stone.”

My body? Ah, If I could choose,
I would to ashes it reduce,
And let the merry breezes blow
My dust to where some flowers grow.

Perhaps some fading flower then
Would come to life and bloom again.
This is my last and final will.
Good luck to all of you.

Joan Baez canta a Balada para Joe Hill, de Alfred Hayes e Earl Robinson, no festival de Woodstock, em 1969:

Em 1909, oito anos antes da revolução russa, Joe Hill, Ralph Chaplin, T-Bone Slim e outros compositores socialistas ligados ao IWW fizeram um livro de canções que se tornaria conhecido como “The Little Red Songbook” e que foi reeditado pela última vez em 2010. Entre as célebres canções do livro vermelho, está The Rebel Girl, que Hill escreveu em homenagem a uma sindicalista pioneira, Elizabeth Gurley Finn (1890-1964).

A feminista Elizabeth havia conhecido o socialismo na infância, por intermédio dos pais, ambos radicais de esquerda. Considerada uma oradora poderosa, foi detida diversas vezes desde a adolescência, como militante e uma das organizadoras do IWW. Filiada ao Partido Comunista norte-americano a partir de 1937, foi finalmente condenada a dois anos de prisão em 1951, durante o macartismo, a nova onda de perseguições aos vermelhos nos Estados Unidos que se iniciara após a Segunda Grande Guerra.

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As canções trabalhistas reunidas no livro utilizavam o humor e o sarcasmo para satirizar as religiões e a exploração capitalista e, ao mesmo tempo, cativar os operários. Era uma estratégia de Joe Hill: em vez de dar folhetos políticos para os trabalhadores lerem, espalhava canções com refrões fáceis de lembrar. “Um folheto, não importa o quão bem escrito que seja, nunca é lido mais de uma vez, enquanto as canções são aprendidas de cor e repetidas diversas vezes”, ensinava o mártir do sindicalismo de esquerda.

Entre os títulos, Trabalhadores do mundo, despertai, versão em inglês da Internacional por Joe Hill, The Road to Emancipation, de Lone Wolf, Paint’er Red, de Ralph Chaplin, ou Casey Jones – The Union Scab, paródia de Hill da canção em homenagem ao maquinista que, em 1900, preferiu a morte a saltar do trem que conduzia, evitando assim que descarrilasse. Era uma noite de intensa neblina e o trem de Jones acabaria por se chocar contra uma locomotiva de carga parada, mas, graças a seu heroísmo, foi a única vítima fatal e se tornou um mito entre os ferroviários dos EUA. Mas Hill o pinta como um fura-greve. Ouça a canção com Pete Seeger, cantor e ativista morto este ano:

Joe Hill foi personagem de uma produção sueco-americana de 1971. Dirigido por Bo Widerberg, o filme ganharia o prêmio do júri no Festival de Cannes. Assistaaqui, em inglês, sem legendas.

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O líder socialista sueco Ture Nerman (1886-1969) escreveu uma biografia do ícone trabalhista e traduziu seus poemas. Em 2011, foi publicada uma biografia de Joe Hill nos Estados Unidos, The Man Who Never Died, de William M. Adler, que investigou o crime pelo qual Hill acusado. O escritor defende que o sindicalista foi condenado injustamente, mas que deixou de oferecer um álibi para salvaguardar a honra de uma donzela, mas também, de certa forma, por se achar mais útil à causa como mártir. Há ainda um documentário sueco sobre Joe Hill disponível no youtube, com legendas em inglês:

Bob Dylan escreveu sobre Joe Hill no primeiro volume de suas Crônicas. O compositor descreve o líder sindical como “precursor” de Woody Guthry, um elogio e tanto, já que o cantor e compositor folk foi o maior ídolo de Dylan, que o imitava em suas primeiras apresentações. Bob Dylan comenta sobre o julgamento de Hill, que considera uma farsa. “Quem lê a história dele percebe seu caráter e vê que seria incapaz de matar um balconista de mercearia à toa. Tudo em sua vida fala de honra e justiça. Mas, para os políticos e industriais que o odiavam, era um criminoso perigoso e um inimigo da sociedade. Foi condenado antes mesmo do julgamento”, escreveu. O que Bob não gosta é da canção que foi escrita para Joe gravada por sua ex-mulher, Joan Baez, e outros grandes nomes. Acha fraca. Fantasia, inclusive, como seria a canção se ele a tivesse composto. Nunca o fez.

Mas a mais incrível história sobre o sindicalista vermelho só foi revelada 25 anos atrás. Após a execução de Hill, seu corpo foi cremado e suas cinzas colocadas em 600 envelopes que deveriam ser enviados para sindicatos, partidos e organizações ao redor do mundo. Entretanto, em 1988, descobriu-se que um dos envelopes com as cinzas havia sido confiscado pelos correios em 1917 por “conteúdo subversivo”. Com uma foto de Joe Hill, trazia as inscrições “assassinado pela classe capitalista”. O sindicato recebeu as cinzas de Hill de volta e as enviou para serem sopradas ao vento no Canadá, Nicarágua, Austrália e Suécia, como era seu desejo…

Daria um grande filme de Oliver Stone, não? É possível conferir online uma edição de 1968 do Little Red Songbook aqui.

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