Estrela do Norte

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Por Lúzio Ramos

Nem submundo nem sub-região, tampouco subfutebol!

O que Paysandu, Macaé e a torcida bicolor proporcionaram no último sábado, no Mangueirão, foi um espetáculo em três dimensões. Digno de um verdadeiro final de campeonato de âmbito nacional, ainda que tenha sido da terceira divisão. O brilho esteve presente no gramado pelo belo futebol que se viu e, nas arquibancadas, pelo show que se assistiu. Prova de que o futebol brasileiro é bem-jogado e bem-festejado por todos os cantos deste país. Pra coroar o espetáculo o time alvi-celeste marcou três belíssimos goals, inclusive um “de placa”, o terceiro; enquanto que a torcida bicolor, para completar o feito, assinalou outro golaço, “de mosaico”. Se este tipo de goal não existia, considere-o inventado.

Mas, apesar de todo este brilhante espetáculo, a imprensa nacional ignorou. Apenas uma pífia notinha de rodapé aqui, outra acolá. É muito pouco, pra não dizer ridículo. Este é o Brasil desigual. O Brasil de preconceitos malfadados. É porque somos do Norte. Do Norte “desnorteado”.

Pense na fruta-do-conde, por exemplo. Quando a partimos vemos as sementes distribuídas em seu interior, em absoluta igualdade de condições; não há nenhuma mais importante do que a outra. A que está mais internamente colocada tem o mesmo valor daquela que está disposta mais superficialmente. Ah se a natureza humana fosse diferente do que é!

Mas não há de ser nada não. Neste esquecido espaço geográfico, “desnorteado”, há uma estrela, um norte chamado Paysandu, cujo brilho de um lindo e celestial azul, norteia-nos a uma grande constelação que, tal como as operárias e os zangões acolhem a abelha rainha, corteja essa estrela-mãe, movida pela força infinita de milhões de apaixonados corações e é capaz de transformar um Mangueirão inteiro em uma colossal colmeia de paixão.

Parabéns ao glorioso Paysandu, mil louvores a essa imensa nação celeste.

Sobre a relevância do jornalismo

PH/Bradlee

Por Ricardo José Torres, no Observatório da Imprensa

A história do jornalismo demonstra a sua capacidade de adaptação às novas possibilidades tecnológicas, culturais e econômicas, por meio de processos que envolvem os jornalistas, os meios de produção e a sociedade. Atualmente, estamos vivenciando a constituição de um ecossistema midiático que apresenta novas perspectivas para a atividade jornalística. Entretanto, não podemos perder de vista os princípios e valores essenciais do jornalismo que se consolidaram ao longo dos anos. A busca pela verdade, as diretrizes éticas e o debate das problemáticas sociais constituem a credibilidade da função jornalística e refletem diretamente na sua relevância.

Na comunicação analógica, encontrávamos um cenário de escassez de informação e lucros astronômicos. Atualmente, as múltiplas plataformas digitais descentralizam e horizontalizam as informações, além de fornecer outra dinâmica ao conteúdo jornalístico, que altera a relação entre os meios produtores e seus públicos. A função de filtro de representação da verdade não está somente no que disseminam os veículos de comunicação tradicionais. A relevância dos conteúdos pode ser questionada e as angulações das temáticas podem ser avaliadas. Essa configuração redimensiona a prática jornalística, mas não interfere na sua relevância social e no seu papel enquanto produtor de conteúdo relevante.

Independentemente do suporte em que irá se disseminar o jornalismo, a busca pela relevância deve ser um dos balizadores centrais da produção do conteúdo. No objetivo de atrair a atenção do público, o jornalista deve refletir também sobre os efeitos que essa informação irá gerar no contexto social e no cotidiano dos indivíduos. Acredito que esse seja o grande desafio para os jornalistas atualmente, diante das inúmeras informações como atrair a atenção e manter o compromisso com os parâmetros relacionados a relevância. Sem falar no desafio apresentado pelas adaptações culturais e pela quebra de alguns paradigmas que permaneceram intactos durante décadas.

Quem decide o que é relevante?

Na “missão” de conjugar a atenção do público com os parâmetros jornalísticos, o que fica evidente são algumas implicações desafiadoras para os jornalistas que envolvem: O que o público quer? (Nem sempre é o que o público precisa) E o que o público precisa? (Nem sempre está ligado aos interesses dos veículos de comunicação ou dos próprios jornalistas). Neste sentido, o conceito de relevância está atrelado ao equilíbrio desses interesses onde o que deve prevalecer são os interesses dos cidadãos.

Na ânsia de oferecer as suas pautas, muitos jornalistas perdem de vista o referencial de que o mínimo (oferecer informações relacionadas ao contexto social pautadas na apuração) pode ser o máximo. Entre as perdas e ganhos do cotidiano do jornalismo, uma boa pauta acaba perdendo espaço, pois, na dinâmica de mercado a quantidade supera a qualidade e a utilidade da informação perde espaço para sua expectativa de venda.

Quando nos referimos a informações públicas ligadas a investigações, as práticas policiais e judiciais parecem suplantar as técnicas jornalísticas. Documentos jurídicos e policiais são propagados como verdades absolutas e estão presentes regularmente nos debates propostos pelo jornalismo. Mesmo diante da infinidade de fontes de informação o que continua sendo recorrente é a utilização de fontes oficiais. As iniciativas de transparência dos órgãos públicos em todas as esferas ainda não surtiram efeito na prática jornalística que continua tendo dificuldades para filtrar os dados relevantes para sociedade.

Nem toda produção de um jornalista será relevante, mas apenas o que for relevante poderá ser considerado jornalismo. Claro que temas que em um primeiro momento parecem banais podem se tornar boas matérias se levarem em conta as técnicas jornalísticas e explorarem as suas potencialidades.

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Ricardo José Torres é mestrando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

Como foi chocado o ovo da serpente na PF

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Por Luis Nassif

Um veterano repórter investigativo que esteve semana passada em Curitiba, relatou-me trechos de conversas com delegados federais. Um deles, sua fonte antiga, mencionou os esforços que estão sendo feitos para encontrar elementos na Lava Jatos que permitam acusar Dilma Rousseff de improbidade administrativa.

Escarafuncham até viagens da Lula à África, depois que deixou a presidência, bancada por empreiteiras. Nada encontrarão por aí, mesmo porque, como é de conhecimento geral, são eventos públicos para estimular negócios de empresas brasileiras na África.

Mas mostra a que ponto chega a gana da PF.

Em uma padaria tradicional de Higienópolis, um dos frequentadores é um policial federal que, embora não esteja no centro dos acontecimentos, gosta de relatar os esforços de seus colegas para encontrar provas que que permitam construir as acusações por improbidade.

Mas, como diz o douto ministro José Eduardo Cardozo, nada a fazer porque a Polícia Federal é “republicana”. O que levou a esse estado de espírito? O absoluto descaso do governo Dilma – através de Cardozo – com a Polícia Federal.

O veterano policial de Curitiba falou com nostalgia dos tempos de Márcio Thomas Bastos, o aparelhamento técnico da Polícia, o orgulho de se mirar na capacidade técnica do FBI como benchmarking, a cooperação internacional e interna para combater o crime organizado..

Quando esbarravam em uma investigação mais delicada, corriam até Bastos, que garantia o respaldo necessário.

Ele situa o início do esvaziamento da PF na posse do delegado-geral Luiz Fernando Correa – nomeado no governo Lula, com a missão precípua de esvaziar a Satiagraha. E o desmanche final na gestão José Eduardo Cardozo.

Hoje em dia cessaram as cooperações internacionais, a ambição de buscar a excelência, a polícia está corroída por disputas internas. Toda essa frustração foi canalizada para a Lava Jato.

Ou seja, a luta pela legalidade democrática exigirá esforço dobrado dos legalistas, porque tem duas pernas mancas: o governo Dilma e o PT.

Este crime chamado Justiça

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Por Márcio Sotelo Felippe

Fatos recentes me lembraram uma frase do jurista alemão Ossip K. Flechtheim, que já citei em textos e palestras. Dizia ele que por uma deformidade profissional difícil de evitar o jurista às vezes tropeça em uma espécie de muralha da China. Juízes, promotores e advogados pensam que entre eles e o delinquente existe um abismo. De um lado o mundo imaculado do Direito e da ordem e de outro o pensamento do mal, da delinquência e do crime atroz. Acrescenta que por trás disso pode haver uma pretensão de superioridade, agressividade pessoal ou mesmo complexo de inferioridade, mas também uma relação de domínio ou vínculo de classe.

Não há um mundo imaculado da ordem.

A palavra ordem parece ter poderes mágicos. Pode transformar a delinquência política ou atrozes crimes do Estado em coisas naturais e corretas. O século XX mostrou como os regimes mais cruéis que a História conheceu agiam em nome da “ordem” e dominavam consciências com essa simples palavrinha.

Bons alunos do mestre Goffredo da Silva Telles aprenderam a desconfiar da palavra ordem desde o 1º. ano da Faculdade: “a desordem é uma ordem que não nos interessa”, dizia ele nas aulas de Introdução ao Estudo do Direito. Goffredo, como bom Filósofo do Direito, ensinava a pensar sobre o Direito: quando alguém diz a palavra ordem, antes de mais nada veja a quem ela interessa. Ensinava, enfim, a usar o método socrático. Se o seu interlocutor diz “ordem”, pergunte: “o que é a ordem”?

Explicando a frase de Goffredo, Tércio Sampaio Ferraz Jr. dizia que mesmo um depósito de lixo é uma ordem, a ordem ditada pelo ato de atirar os objetos ao solo. A ordem é uma disposição conveniente a um fim. Dizemos que é desordem quando o fim a que ela serve não nos interessa.

A ordem social que está posta aí convém a uns e não convém a outros. Para nós outros, que queremos mudá-la, esta estrutura desigual é desordem. Longe de ser revolucionário, o liberal e progressista Goffredo apontava para o sentido que Marx dava à palavra “ideologia”: o leque de convicções, opiniões e o senso comum que encobrem a dominação de classe e lhe dá a aparência que ilude. E apontava para o que move todos os revolucionários sérios: a ordem pode e deve ser transformada.  Não é uma cláusula pétrea, algo como um fato da natureza, como o pensamento conservador (muitas vezes metodologicamente ingênuo) que pensa que a ordem que está posta é sempre “A ORDEM”, e em sua defesa pode-se tudo. Até matar, torturar ou justificar que pessoas sejam jogadas nos depósitos horrendos que denominamos de prisões. Uma tal “ORDEM” entendida como sagrada vale mais que as pessoas, sem que se precise perguntar o que ela expressa de verdade ou qual o seu fim.  Talvez não haja coisa mais banal e ao mesmo tempo tão levada a séria do que a ideia de “ordem”, em nome da qual agiram os mais torpes perpetradores de crimes contra a humanidade. Banal no sentido arendtiano: quem diz ordem e não se detém sequer um fugaz instante para refletir sobre o que na verdade está dizendo simplesmente renunciou ao pensamento.

Flechtheim conclui a passagem citada falando da gravidade pseudomoral com que frequentemente se pronuncia uma sentença. Os operadores do Direito agem como representantes de uma ordem imaculada e sagrada combatendo o mal e a desordem. E seria cômico não fosse trágico constatar como tantas vezes transgridem a própria ordem que dizem defender. Pode acontecer, por exemplo, de um juiz coibir os reús de mencionar pessoas que têm foro privilegiado porque com isso retém sua competência. Ou decretar prisões preventivas porque não está satisfeito com as confissões. E então, nas redes sociais ou nos botequins esse juiz é transformado em herói, o justiceiro que defende a “lei e a ordem” e que age em nome do povo brasileiro contra a corrupção e a desordem. Mas garantir o direito de defesa e respeitar as competências processuais não são coisas que fazem parte da lei e da ordem? Parece que há um problema de lógica aí, posto que para defender a ordem deve-se transgredi-la…

Há um clássico do cinema italiano chamado In nome del popolo italiano (Dino Risi, 1971). O título brasileiro é Este crime chamado justiça. Não sei qual dos títulos é melhor. Os dois são ótimos. Um juiz italiano investiga um empresário suspeito de matar uma mulher. Na apuração surge a personalidade do empresário, um inescrupuloso que foi destruindo tudo à sua volta em seu próprio benefício. (Quem não viu e odeia spoiler pode pular agora para o próximo parágrafo). O juiz, ao final da investigação, descobre que a vítima havia se suicidado e o empresário era inocente desse crime. Mas, para o juiz, não era inocente de uma vida abominável. Ele destrói o documento que absolveria o empresário do homicídio e por sua conta o condena pela iniquidade de toda sua vida.

O título italiano e o brasileiro se completam: este crime chamado justiça em nome do povo. As pessoas podem imaginar   bons argumentos para defender a atitude do juiz no filme. Vejo uma reles atitude “justiceira” que não pode ser “em nome do povo”.

Quando alguém em tom indignado dispara a palavra “ordem” já vislumbro bombas de gás lacrimogênio. Antes de mais nada, socraticamente, cabe perguntar: o que é a ordem? Nada mais revolucionário do que pensar.

Marcio Sotelo Felippe é pós-graduado em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo. Procurador do Estado, exerceu o cargo de Procurador-Geral do Estado de 1995 a 2000. Membro da Comissão da Verdade da OAB Federal. Junto a Rubens Casara, Marcelo Semer, Patrick Mariano e Giane Ambrósio Álvares participa da coluna Contra Correntes, que escreve todo sábado para o site Justificando.

O pensamento vivo de Chaves

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“Eu prefiro morrer do que perder a vida”

“Tá bom, mas não se irrite…”

“As pessoas boas devem amar seus inimigos”

“Eu nunca roubei e nunca vou roubar de novo”

“Tudo eu, tudo eu…”

“Foi sem querer, querendo”

“Isso, isso, isso!”

Professor Girafales: “Chaves,como se chamam os animais que comem de tudo?”. Chaves: “Ricos!”

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