Por Afonso Medeiros
Regina tem razão quando diz que “vocês carregam muitos mortos nas costas”.
Sim, Regina, estás coberta de razão. É isso mesmo! Tem sido assim desde que o mundo é mundo sob a perspectiva humana: enterrar e reverenciar seus mortos é um dos mais eloquentes sintomas da cultura, de quaisquer culturas. É o mais sagrado dos liames com o ancestral que artistas e xamãs conhecem muito bem.
A começar por um Senhor pregado numa cruz e por mulheres queimadas em nome d’Ele na fogueira, inclusive das vaidades, nós carregamos nossos mortos.
Carregamos os companheiros de marias e clarices, carregamos Garcia Lorca, carregamos Walter Benjamin, todos mortos ou levados à morte por tiranos. Carregamos nas costas das memórias corpos de milhões de indígenas e milhões de judeus e milhões de escravizados – nem imaginas quantos, Regina!
Tu, que queres ser “leve”, talvez nem saibas que não há leveza sem luto, luto sem dor, dor sem lágrima, lágrima sem reverência, reverência sem poesia. Tua “leveza”, Regina, é insustentável.
Carinhosamente carregamos os corpos de Antunes Filho, Beth Carvalho, Rubem Fonseca, Bibi Ferreira, Aldir Blanc, Flávio Migliaccio – todos esses que o tirano que coadjuvas não quis reverenciar, com o teu apoio obsequioso.
Carregamos Chico Mendes, assassinado por aqueles que exercem um papel que tu, Regina, conheces muito bem: o de criador de gado; papel este que continuas interpretando como feitora pusilânime da cultura, uma Porcina a gritar “Minaaaaaaa” para um país que consideras teu curral. Encantada com os hinos ufanistas da ditadura, é provável que não tenhas aprendido com Vandré que “gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente” – e já faz tempo que carregamos a consciência de que marcar, ferrar e matar é iníquo até pros bovinos.
Carregamos maravilhados o corpo de uma outra Regina, a Elis, que soube cantar os fenecimentos e os renascimentos, nossos e de nossos mortos.
E carregaremos com veneração, ainda, os corpos de muitos de tua geração.
Mas não carregaremos teu corpo, Regina, nem de todos esses que acham que és a namoradinha deles, assim como não carregamos os corpos de Ustra, de Fleury, de Médice, de Geisel, de Pinochet, de Franco e de todo aquele capim que o teu gado tanto aprecia.
Para ti e para todos estes, seguimos a lição do torturado na cruz: “deixem que os mortos enterrem seus mortos”. Então talvez entendas o que é tortura, só que eterna, no quinto dos infernos.
Pois tu, que não entendes o papel público que exerces como atriz e como secretária, restarás como a viuvinha porcina do Brasil, “aquela que foi sem nunca ter sido”.
Afonso Medeiros, belenense, professor da UFPA, Doutor em Comunicação e Semiótica.