POR GERSON NOGUEIRA

Quase virou uma novelinha, mas no fim das contas prevaleceu a sensatez. O Campeonato Paraense foi suspenso por tempo indeterminado. Com o endosso público dos presidentes de Remo e PSC, a decisão que tinha sido tomada na véspera caiu por terra, fulminada pela necessidade de medidas mais efetivas de prevenção contra o novo coronavírus.
A proposta de continuidade do campeonato com portões fechados foi superada pelo surgimento do primeiro caso de contaminação pela Covid-19, registro feito na tarde de quarta-feira pelas autoridades da Secretaria Estadual de Saúde e pelo governador Helder Barbalho.
O papel desempenhado por Helder foi decisivo no processo. Como de hábito, mesmo com o posicionamento dos presidentes de Remo e PSC em favor da suspensão dos jogos, a Federação Paraense de Futebol custou a formalizar a decisão. O governador foi então às redes sociais informar que o Parazão estava mesmo suspenso.
Ao longo do dia, os demais clubes se manifestaram, nem sempre de maneira coerente. Alguns tentaram até se opor à paralisação, por mais incrível que pareça. Foi o caso da diretoria do Águia de Marabá, que chegou a apresentar a sugestão de cancelamento da competição, juntamente com uma lista de imposições, como se o cenário criado pela pandemia comportasse esse tipo de atitude exclusivista.
O Águia argumentou que não foi consultado sobre o adiamento dos jogos e sugeriu que o Parazão fosse anulado. Não haveria campeão, nem vice e os representantes nas competições nacionais seriam definidos em 2021. Mais ainda: sem rebaixamento. Tudo, no fim das contas, conveniente para o clube marabaense, que faz campanha abaixo do esperado.
Já o Castanhal, terceiro colocado no campeonato, foi mais coerente. Apoiou a paralisação unindo-se à dupla da capital, mostrando sensibilidade em relação ao drama provocado pela Covid-19. Firmou posição, porém, contra qualquer movimento no sentido de cancelar o campeonato.
Aliás, esse ponto é considerado pacífico. O Parazão será retomado quando forem abolidas as restrições a eventos de grande concentração popular. Será normalizado quando não houver mais risco à saúde de torcedores e jogadores. Por enquanto, diante dos últimos acontecimentos, a retomada da competição ainda é incerta.
É importante destacar que, mesmo diante da inevitável crise financeira que irá recair sobre PSC e Remo, as diretorias marcaram um golaço aliando-se ao esforço geral da população em relação à pandemia. A estimativa de prejuízos iniciais é de R$ 800 mil para cada um dos grandes, valor que aumentará caso a suspensão se prolongue.
Todos os setores da economia serão atingidos pelos efeitos colaterais das restrições impostas nestes tempos de coronavírus. O confinamento social, item básico de todos os planos de combate à pandemia, conflita com a natureza de um esporte tão popular quanto o futebol.
As perdas mais significativas talvez não possam ser medidas em dinheiro. O ponto mais traumático é o jejum forçado a que o público será submetido, privando-se de acompanhar o esporte mais popular do país.
Donos do espetáculo ficam sem opinar
No embate entre a posição conservadora dos clubes e a conhecida indecisão da FPF quanto ao futuro do Campeonato Paraense ficou evidenciada a fragilidade de um dos segmentos mais importantes do processo todo. A classe dos atletas profissionais não foi ouvida em nenhum momento, praticamente abstendo-se da forte discussão que permitiu até manifestações da torcida através das redes sociais e nos programas de rádio.
Ontem pela manhã, diante do fato consumado, o Sindicato de Jogadores de Futebol Profissional finalmente marcou presença, ainda que de forma tímida, apenas para aplaudir, referendar e concordar com o acerto já sacramentado entre clubes e federação.
Através do presidente Oberdan Bendelac de Menezes, o Sinjop apresentou sugestões aos clubes no sentido de preservar a integridade dos atletas nos treinamentos da semana, com turnos alternados e exercícios que não incluam a totalidade dos elencos, a fim de diminuir os riscos de contágio.
Propõe, também, a flexibilização de horários e a distribuição dos atletas em turnos diferentes de treinos. Posição tecnicamente elogiável, mas de pouco efeito prático na vida interna de cada clube.
O fato é que o episódio vem confirmar a quase invisível presença do sindicato, incapaz de se fazer presente (e influente) nas tomadas de decisão referentes aos atletas. A pouca representatividade ficou patente desde as primeiras discussões sobre a realidade instaurada pelo coronavírus.
Não que seja culpa exclusiva da entidade que deveria falar em nome dos boleiros. O problema é bem mais amplo, estende-se pelo país. Historicamente, jogadores sempre foram pouco participativos e sem consciência de classe, justamente o oposto dos vizinhos sul-americanos, que até paralisam campeonatos quando têm seus interesses desrespeitados.
Sem força de mobilização, os atletas entregam-se a ações de natureza individualista que só beneficiam os mais famosos. A imensa maioria permanece silente, sem voto e arredia a qualquer iniciativa reivindicatória. De resto, um mal que aflige praticamente todo o sindicalismo brasileiro.
Tempos de bonança para a poderosa CBF
Em meio ao maior abalo na vida dos clubes brasileiros, com futuro incerto em meio aos solavancos gerados pela Covid-19, a CBF festeja números auspiciosos. Os lucros quase bilionários da entidade mostram a constrangedora realidade do futebol no Brasil.
De um lado, os clubes arcando com o ônus do negócio. Na outra ponta, a entidade que ostenta o fabuloso faturamento decorrente do controle da máquina registradora, capitaneando acordos nababescos com uma infinidade de fortes parceiros.
Quando o sufoco passar, os clubes pelo menos terão a quem estender o pires implorando socorro para sanar os inevitáveis rombos nas contas.
(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 20)