
Por André Forastieri
Quando Bertrand Russell fez 90 anos, a entrevistadora perguntou pra ele: o senhor teve uma vida tão variada, tão plena, viu quase um século se passar, tantas mudanças, do que o senhor sente mais falta? “De contemporâneos”, respondeu. Entendo perfeitamente. A sua turma é a sua turma. A sua geração é a sua geração. São duas coisas diferentes. Alguns dos meus melhores amigos têm dez, quinze anos a mais ou a menos que eu.Mas eles não imaginam o que eu vi.
Entre 1983 e, sei lá, 1990 e alguma coisa, eu assisti pelo menos dez filmes por semana. Menu variado. As locadoras de então viviam repletas de filmes gringos, VHS (eu tinha) e Betamax, e algumas cheias de pirataria.
A Video Factory, na avenida Rebouças, era meu caminho para a faculdade, e tinha o diabo, da era de ouro de Hollywood a programas de TV gravados por algum primo do dono nos Estados Unidos, com comerciais e tudo. E especiais de videoclipes!
Os anos 80 foram a época da explosão do vídeo, e muitas produtoras começaram a fazer filmes diretamente para vídeo, coisas que um cinema respeitável jamais exibiria, e a esta altura os drive-ins e cinemas podres, estilo grindhouse, já tinham ido para o saco nos EUA.
Então a gente via tudo que não tinha podido ver antes, inclusive um monte de super clássicos do cinema. E muita podreira da boa. Muito terror radical.
Quem não viu Re-Animator, não viu uma cabeça sem corpo fazendo cunilingus numa mocinha acorrentada em uma mesa, e atenção, é uma comédia. Foi quando a pornografia chegou ao aconchego do seu lar. Pornô direct to video, cores berrantes, edição maluca, mulheres lindas.
Ginger Lynn – linda, sapeca, e topava tudo. Entre 1985 e 1988 ou um pouco mais, toda segunda-feira tinha sessão dupla tripla na minha casa. É, tripla. Presenças obrigatórias, minha namorada e meu compadre Ronnie. Ana e Beto, dois amigos queridos, apareciam sempre.
Outros convidados eram bem-vindos, claro. Eu não trabalhava e meio que não estudava também. Então a gente começava cedo a tomar cerveja – empilhando todas as latinhas que já emborquei dá pra fazer uma Torre Eiffel. Quando minha namorada chegava, pizza do Babbo Giovanni, e um filme que parecia bom.
Lá pra meia noite, minha namorada tinha que se picar para a casa dos pais, que era início de semana e a moça trabalhava pesado.
Outros dias da semana, às vezes a gente ia jogar sinuca e comer misto quente lá na Rui Barbosa, em um bilhar 24 horas. Sábado sessão dupla de cinema na Paulista, Astor + Bristol / Liberty / Cinearte. Puxa, faz tempo.Mas voltemos à nossa segunda-feira: depois da meia noite começavam as sessões lo que quieras.
O segundo filme, mezzo, entrava lá pela uma, e o terceiro, trasheira, geralmente só o Ronnie e eu, lá pelas três. De vez em quando já saíamos direto para a padaria do quarteirão, pegar o primeiro pãozinho do dia, na chapa, para rebater os dez mil cigarros tragados na madruga. Ê saúde…
Vimos filmes incríveis, vimos filmes horríveis. E, claro, vimos no fim da noite muitos filmes de macho. Milhões de versões geralmente pioradas de Rambo e Cobra e Predador e Duro de Matar e Mad Max. Comando para Matar, acho que até hoje sei de cor as falas. Se não tivesse nada melhor para assistir, rolava Comando Para Matar.
“I lied”, grune o Schwarza, e lá se vai o bandidão de Warriors morro abaixo. Hoje tem aí The Rock e Jason Statham nos cinemas, legítimos herdeiros da truculência despreocupada dos 80.
Hoje a vida é outra e, aviso os jovenitos, bem melhor. E de vez em quando, dá um banzo de outras épocas e outros Andrés.
Mas antes disso
Antes dos 80 teve os 70. Teve a Sessão da Tarde. E o leitor atento Glauber Gorski me escreveu, comentando meu texto de outro dia sobre os Monkees, e lembrando de outros clássicos vespertinos da nossa geração. Respondi: se você fizer uma lista dos filmes desta época, publico na newsletter. Ele fez, fez melhor do que eu faria, a lista derreteu meu coração, e está aí abaixo.
O texto do Glauber
“Eu sempre tive em minha mente e coração cinematográficos referências vivas, tanto de obras inteiras como de cenas isoladas. Tudo isso sempre enxerguei como insumos e substratos para o que, um dia, poderia ser material de referência, mesmo que mental, caso não tivesse a oportunidade de estudar mais formalmente a linguagem cinematográfica. As oportunidades vieram (sou formado em Comunicação Social/Publicidade, com pós-graduação em Cinema) e o trabalho aconteceu e é vivo em minha carreira, como roteirista e diretor de cena, tanto em publicidade, que é o que paga minhas contas, como em ficção em curtas metragens, conteúdo em tv e web, e teledramaturgia, em emissoras locais da capital paranaense. E magicamente tenho a oportunidade, mesmo que sazonalmente, de poder compartilhar estes meus aprendizados, em sala de aula – e em breve na web, de forma aberta.
Bem, essa coisa de carregar referências, vem desde minha infância, quando assistia Os 3 Patetas, Carga Pesada, O Bem-Amado, O Gordo e o Magro e Vila Sésamo, minhas lembranças televisivas mais antigas que minha mente consegue se recordar.
Depois vieram os filmes, longas metragens, com suas exibições em Supercine, Sessão da Tarde, Sessão Karatê, Sessão Especial, Sessão Disney, Sessão Bang Bang, Sessão de Gala, entre outras – além das semanas temáticas, durante as férias escolares, que exibiam filmes de Jerry Lewis, Trapalhões, Abbot e Costello.
Minha memória afetiva tem muito a agradecer aos programadores das tvs, anônimos, que sequer imaginariam da importância daquilo que iria ao ar, mesmo que sendo “enlatados da tv” – vale sempre aquela reflexão recorrente sobre a força da mídia.
Enfim, uma vida de uma média infância de classe média, onde dividia meu tempo com escola, gibis, bicicleta, enciclopédias, pega-pega Trol, rádio AM, jogos de tabuleiro e muito LP – felizmente com uma diversificação muito grande e rica na vitrola… A lista, que compreende filmes que assisti provavelmente de 1974 até 1984, exclusivamente na tv, na era pré-VHS, pré-rato-de-cinema, cobrindo a infância/adolescência, onde consegui descobrir o nome de alguns filmes ao longo dos anos, já na vida adulta, que quase chamo de “a lista dos filmes que-acho-que-só-eu-vi-na-tv”, mas alguns foram ressuscitados em dvd, alguns em youtube, ripados de vhs gravadas na televisão, e poucos em torrent:
O Leão, a Bruxa e o Guarda-Roupa (The Lyon, The Witch and the Wardrobe – 1979)
O Magnífico (Le Magnifique – 1973)
Os Monkees estão Soltos (Head – 1968)
O Demônio dos Seis Séculos (Gargoyles – 1972)
O Incrível Mr. Limpet (The Incredible Mr. Limpet – 1964); O Menino que Falava com Fantasmas (Child of Glass – 1978)
As Sete Maldições de Lodac (The Magic Sword – 1962) O Horror de Frankenstein (The Horror of Frankenstein – 1970) A Noite em que o Sol Brilhou (Watermelon Man – 1970) A Lenda do Revólver Dourado (The Legend of the Golden Gun – 1979) O Vingador Anônimo (Street Law – 1974)
Armadilha Para Turistas (Tourist Trap – 1979)
As Trapaças do Tio Falcão (Flight of the Doves – 1971) Mothra, a Deusa Selvagem (Mothra – 1961) Os 5.000 Dedos do Dr. T. (The 5.000 Fingers of Dr. T – 1953)
Regresso ao Mundo Maravilhoso de Oz (Journey Back to Oz – 1972)
Operação Dragão Gordo (Enter the Fat Dragon – 1978)
No Coração da Terra (At The Earth’s Core – 1976) Sinbad e a Princesa (The Seventh Voyage of Sinbad – 1958)
A Volta ao Mundo Pré-Histórico (Dinosaurus – 1960)
Os Primeiros Homens na Lua (First Men in the Moon – 1961)
O Incrível Homem que Derreteu (The Incredible Melting Man – 1977)
E também curtas de animação, que devo ter assistido na TV Globinho:Castelos de Areia (um curta de animação stop-motion, da National Film Board of Canada – The Sand Castle – 1977) Gerald McBoing-Boing (curta de animação da UPA, de 1950)
Vizinhos (Neigbours , também da National Film Board of Canada – 1952)
Alguns filmes ainda fazem eco forte em meus estudos sobre narrativa audiovisual, mesmo sendo mais conhecidos do grande público, e acabei por nunca colocar nesta lista – mas são contemporâneos em influência e entram numa lista mais “premium”: A Fantástica Fábrica de Chocolate (1971), Meu Nome é Ninguém (1973), As 7 Faces do Dr. Lao (1964), A Sentinela dos Malditos (1977), O Monstro da Lagoa Negra (1954), O Destino do Poseidon (1972), A Dança dos Vampiros (1967), Viagem Fantástica (1966), Westworld (1973) e O Pequeno Polegar (1958).”