Por Pablo Villaça
Acho que é importante – não: fundamental – que paremos de lidar com questões políticas como se estivéssemos falando de absolutos. Às vezes, são, é claro: fascismo, obscurantismo e seu cruzamento no bolsonarismo devem ser rechaçados e ponto final.Mas nem sempre é fácil assim. Estou vendo, por exemplo, muita gente (de esquerda; da direita eu já esperaria) chamar a produtora Antonia Pellegrino de “canalha” e de outras coisas pesadíssimas por ter convidado José Padilha para dirigir a série sobre Marielle Franco para a Globo. O diálogo se rompe já no início.
Em primeiro lugar, julgo importante deixar clara minha posição sobre o tema da discussão em si: a ideia de contratar Padilha para dirigir a série é, francamente, desastrosa. Desastrosa. Marielle era uma importante ativista de esquerda, integrante de um partido que sempre marcou posição sobre a Lava-Jato e Moro.Padilha dirigiu O Mecanismo.
“Ah, mas Padilha reviu sua posição”. Não interessa. (E não acredito.) Bem antes e depois de O Mecanismo, Padilha ajudou a demonizar a esquerda e a endeusar Moro e a Lava-Jato. E, vale lembrar, Moro foi visto (com razão) pela família de Marielle como empecilho às investigações e claramente agiu no sentido de tentar atrapalhá-las como podia. Colocar o cara que ajudou a beatificá-lo para comandar a série sobre a história da mulher fantástica que se opunha a tudo que ele representa é ofensivo. Simplesmente não dá para conciliar o perfil de Padilha com o de Marielle. Já elogiei trabalhos do diretor anteriores e posteriores a O Mecanismo (fui um dos poucos que defenderam seu Sete Dias em Entebbe na Berlinale), mas colocá-lo neste projeto é inaceitável.
Por outro lado, condenar Pellegrino por ter a iniciativa (com aprovação da família de Marielle) para produzir uma série sobre a vida da vereadora é algo ridículo. Se ela tem condições, influência e poder para viabilizar o projeto, atacá-la por fazê-lo é miopia.
Mas aí vem a questão central: como feminista ativa que é, faltou a ela a percepção fundamental de colocar em prática a ideia da representatividade que corretamente prega ao falar sobre as mulheres em posições de poder. Um leitor, por exemplo, brincou no Twitter ao dizer que agora só faltava escalar Mariana Ximenes para interpretar Marielle – uma brincadeira que traz uma verdade importante, pois a representatividade ao contar histórias não deve estar só diante das câmeras. A escolha de Padilha é, sim, tão absurda quanto seria a escalação de Ximenes.
E Pellegrino se colocou numa situação ainda mais delicada ao falar um absurdo sem tamanho como ter sido forçada a convidar Padilha porque “não há um Spike Lee brasileiro”. Cometeu o mesmo erro que as produtoras do longa “Loop” no Festival de Brasília quando disseram que não investiram numa equipe feminina porque não havia diretorAs de fotografia no país.Pois há duas questões aqui:
1) Se não há um “Spike Lee brasileiro” é por pura falta de oportunidade. Que ela poderia dar como produtora de um projeto como este. Spike Lee fez três longas até “virar” Spike Lee em Faça a Coisa Certa. Uma produtora com influência pode ajudar nisso.
2) Podemos não ter um “Spike Lee brasileiro”, mas temos um Gabriel Martins. Um André Novais. Uma Sabrina Fidalgo, que arrebentou no último Festival de Brasília. Aliás, a última edição do festival foi uma comprovação de como temos, SIM, cineastas negras(os) fabulosos à disposição.
E se houvesse alguma dificuldade para encontrar profissionais negras(os) para preencher a equipe da série (e não deveria haver), bastaria entrar em contato com a Associação das(os) Profissionais do Audiovisual Negro (APAN).Sim, há uma associação! Seria facílimo.
O problema é que em vez de apontar estas questões, abrir o diálogo e dizer “Olha, Antônia Pellegrino, tenho certeza de que se refletir um segundo verá que sua posição foi equivocada. Vamos aproveitar a oportunidade para abrir espaços etc etc etc?”, a discussão já parte pro insulto. E como todo animal, o ser humano é um bicho previsível: acuado, ele ataca de volta. Finca os pés. Eu sei porque já aconteceu comigo algumas vezes: falar algo idiota, alguém chegar me insultando e eu, irritado, insistir ainda mais na posição inicial só de raiva. Por outro lado, sempre que a postura é de diálogo, eu acabo refletindo com mais abertura sobre o que falei/fiz. Praticamente todo mundo é assim. É a natureza humana.A esquerda contemporânea, por outro lado, parece gostar mais de bater nos seus do que na extrema-direita.
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P.S.: Há algum tempo, publicamos um artigo no Cinema em Cena sobre as(os) jovens cineastas negras(os) que vêm surgindo no Cinema pernambucano. É preciso nutrir, estimular, promover essa moçada. https://cinemaemcena.com.br/coluna/ler/2484/jovens-estudantes-negros-abrem-caminhos-no-cinema-em-pernambuco
P.P.S.: Depois que publiquei as considerações acima no Twitter, me chamaram de “senhorzinho da Casagrande”. Comprovando exatamente o que falei sobre como a esquerda adora atacar os seus em vez de dialogar. E olha que eu condenei a contratação de Padilha, defendi a de realizadores negros e até citei caminhos.Honestamente, nem sei por que ainda tento.