Por mais diversão e arte

POR GERSON NOGUEIRA 

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Com dificuldades óbvias para lidar com o fenômeno que é o Flamengo atual, sucesso de público e crítica, Tite fez na sexta-feira a convocação para os jogos das eliminatórias sul-americanas. Tentou apelar para aquele discurso patrioteiro de que este é o pontapé inicial para a Copa de 2022, para atiçar um nacionalismo que já aflora como antes – por culpa, dentre outros, do próprio técnico.

Não há comoção em relação às convocações porque todo mundo sabe que restam quase três anos para o Mundial e que muita coisa vai acontecer até lá. É possível até que ocorra a substituição do técnico, dependendo do que ocorrer nas eliminatórias e na Copa América. Ninguém liga mais para a lista de convocados porque fica claro que algo além da qualidade técnica influencia na chamada deste ou daquele jogador.  

Mas o ponto mais curioso do ritual de convocação foi uma historinha que Tite resolveu revelar, a título de justificar as dificuldades que a Seleção enfrentou durante o torneio continental de 2019.

Sem que ninguém perguntasse, citou conversa com a imprensa espanhola sobre a façanha de ganhar a Copa América mesmo sem ter o seu principal jogador – Neymar estava lesionado. Observou, para reforçar, que a Argentina trouxe Messi e o Uruguai tinha Suarez e Cavani.

A ideia era valorizar a conquista de um torneio tecnicamente fraco, que o Brasil ganhou às duras penas, beneficiado por erros de arbitragem no jogo contra a Argentina. Que alguém elogiasse aquela campanha fuleira, tudo bem. Fica feio, porém, ver o técnico praticando a auto-louvação, como que pirangando reconhecimento.

Foi como aquele amigo chato que vive enchendo a bola dos próprios feitos, principalmente quando nota que alguém está chamando mais atenção. O “alguém”, no caso específico de Tite, é Jorge Jesus. Campeão de quase tudo pelo Flamengo e formulador de um modelo de jogo que agrada a gregos e baianos, JJ é o preferido da torcida para assumir a Seleção.

Seria uma novidade e tanto, que quebraria o secular preconceito nacional contra técnicos estrangeiros. A CBF dificilmente abraçaria a causa, mas é inegável que o clamor popular existe. Com o Fla de Jesus, o povo percebeu que aquela velha e modorrenta maneira de jogar para trás pode, sim, ser substituída por esquemas mais ofensivos e desassombrados.   

Vencer é importante, mas a massa agora quer diversão e arte. Sacou, de certa forma, que era ludibriada pelos retranqueiros que dominam o futebol no país. É improvável que Adenor não tenha captado essas mensagens.

Antes de JJ era possível manter a mesmice tática como estratégia na Seleção, sem riscos de substituição imediata, afinal as alternativas eram sempre iguais ou piores – Luxemburgo, Felipão, Carille, Renato, Tiago Nunes etc.

Por essa razão, o tema não declarado da convocatória foi um só: o Flamengo de JJ. Esperava-se que Tite abdicasse do orgulho e chamasse rubro-negros. Ele convocou três – Bruno Henrique, Gabriel Barbosa e Everton Ribeiro. Sinal de respeito pelo trabalho exitoso do português?

Há controvérsias. O trio pode ter sido convocado para não jogar. O histórico aponta para o aproveitamento maciço dos “europeus”. Os rubro-negros só entrarão no time principal se a galera engrossar o coro.

A barração pode vir por duas razões: se atuarem bem, os méritos serão também de JJ, que apostou primeiro neles; se fracassarem, haverá sempre alguém a lembrar que no Flamengo o técnico faz com que eles rendam.

Tite optou por ficar cima do muro ao chamar o trio de jogadores de Jesus. Cedeu à pressão, mas também não deu asa para que o clube rubro-negro vire a base do selecionado – como Santos e Botafogo no passado.

O problema, que Tite finge não levar em conta, é que se a Seleção não deslanchar nas fracas eliminatórias a grita geral será não por atletas do Flamengo no time, mas pela presença do Mister na direção. Os ventos da mudança já estão soprando e é fácil identificá-los.

Aliás, JJ fez questão de registrar que sabe dos obstáculos para vir a ser treinador do Brasil. A declaração revela o alcance de suas ambições.    

No mundo da catimba, o clássico já começou

Mimica e Wesley

Pela primeira vez desde que voltou ao Pará, Hélio dos Anjos tem como oponente um técnico tão ardiloso quanto ele. Não tão cascudo, pois Hélio tem mais estrada, mas igualmente afeito a truques e catimbas. São característica que se aplicam aos chamados técnicos raiz, que adotam o estilo linha-dura no comando das equipes e acostumados a lançar mão de todos os truques (lícitos) disponíveis no tabuleiro do futebol.

Por isso mesmo, adoram lançar cortinas de fumaça, trocar jogadores na escalação sempre distribuída à última hora. No primeiro Re-Pa do ano, Hélio deitou e rolou em cima do inexperiente Rafael Jaques.

Mudou a composição da defesa, lançando o zagueiro Perema na lateral direita, e o segredo foi tão bem guardado que o técnico remista só se deu conta disso no final do primeiro tempo.

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O treinador do Papão também se deu bem em cima de Márcio Fernandes, que via o Re-Pa como um jogo qualquer. Hélio sabe que não é. A diferença é que agora enfrenta alguém que também sabe da importância do clássico.

Pela atmosfera reinante, o clássico começou muito antes das 16h deste domingo. Com o clima de suspense no ar, a única certeza possível é quanto aos goleiros (Vinícius e Gabriel Leite) que estarão em campo. A torcida é para que tanta malandragem resulte num grande jogo. (Fotos: Samara Miranda/Ascom Remo; Jorge Luís Totti/Ascom PSC)

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro apresenta o programa na RBATV, às 22h30, depois do jogo da NBA. Participações de Valmir Rodrigues e deste escriba de Baião. Em pauta, a 7ª rodada do Parazão, com destaque para o Re-Pa. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 08)

3 comentários em “Por mais diversão e arte

  1. Foi surpresa pra mim ver, ontem, o bom futebol da seleção brasileira feminina de futebol. Sob o comando de Pia Sundhage, a seleção toca bem a bola, tem variações de jogadas e não dá chutões como outrora. Peca ainda no preparo físico, como a própria técnica admite. Em entrevista ao final do jogo, a goleira declarou que a orientação de Pia é para não dar chutões. Evidente que a maneira de jogar mais organizada da seleção tem a mão da técnica estrangeira, reconhecidamente adepta da disciplina e da organização tática. Perdemos para a França por 1 X 0, mas ficou a impressão que a fase amadorística do futebol feminino começa a ficar no passado.

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  2. O retorno de Mazola, deixado de lado pela diretoria do PSC, ainda que, a torcida mantenha um carinho especial pelo bocudo, é um grande ingrediente neste clássico. Goste ou não do “homem que denunciou o sistema”, ele é competente. Se o rival der tempo, ele pode construir um bom caminho na C.

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