Pimentinha rompe silêncio sobre sua saída do Papão

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“Pesa [o salário atrasado]? Pesa, mas não era o principal fator. Fiz um acordo amigável com o Paissandu, por que depois surgiram muitas histórias que eu tinha abandonado, tanto é que o clube não se pronunciou porque sabia que não existia isso. Deram uma semana para ir em São Paulo tentar resolver e eu me reapresentei normal na segunda-feira (15 de julho) quando eu tive outra conversa com o Felipe [Albuquerque] e ele me comunicou que não tinha mais clima para eu ficar no clube. Realmente concordei em relação a isso porque já havia saído muitas coisas na mídia, a torcida já sabia de algumas coisas que não eram verdade, mas achavam que eram”. 

Pimentinha, ex-jogador do PSC, em entrevista ao Globo Esporte

Papão reforça ataque e meio: lista de contratações em 2019 já chega a 32

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O atacante Hygor Garcia é o 32º reforço do PSC na temporada. Vem para se integrar à campanha da Série C. O jogador tem 26 anos, que estava na Ferroviária disputando a Série D do Brasileiro. A equipe paulista foi eliminada pelo Cianorte na segunda fase da competição. A última partida de Hygor este ano foi justamente no jogo de volta do mata-mata, no dia 23 de junho.

O jogador está em Belém desde terça-feira e faz os exames médicos antes de assinar contrato. Atacante de lado, ele chega para ser mais uma opção no setor ofensivo bicolor, que é o pior da Terceirona e recentemente teve dispensados os atacantes Paulo Rangel, Paulo Henrique e Pimentinha.

Hygor é de Franca (SP) e iniciou na base do Botafogo-SP. Além da Ferroviária, passou pelo Noroeste, Suwon Bluewings (Coreia do Sul), Penapolense, Sport e Juventude. Em 2019, o atacante atuou em apenas três partidas pela Ferroviária e não marcou gols. No ano passado, chegou a jogar cinco partidas da Série A pelo Sport.

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O meia-atacante Tomás Bastos, de 27 anos, foi anunciado na sexta-feira. Ele foi campeão da Série B do Brasileiro com o Botafogo, em 2015. O jogador estava no Al Hamriyah, dos Emirados Árabes, disputando a segunda divisão, onde marcou cinco gols em 12 jogos.

Tomás passou pelas categorias de base da Ferroviária-SP e Athletico Paranaense. Além de passar pelo Botafogo, o jogador teve destaque na Série B de 2014, quando terminou a competição como artilheiro do Boa Esporte com 15 gols.

O meia também já vestiu as camisas do Coritiba, Ceará e, em 2018, o Atlético-GO, onde disputou o estadual, Copa do Brasil e Série B, antes de se transferir para o futebol árabe. Vem por indicação do executivo Felipe Albuquerque e com aval de Hélio dos Anjos.

GALO DÁ ADEUS

A rescisão contratual do volante Alex Galo saiu ontem no BID da CBF nesta segunda-feira, 22. O jogador havia sido afastado do restante do elenco, pois não fazia mais parte dos planos do técnico Hélio dos Anjos. Galo atuou apenas sete minutos com a camisa do clube, no empate em 1 a 1 com o Clube do Remo, pela 9ª rodada do Parazão 2019. O goleiro Douglas Silva e os atacantes Paulo Henrique e Paulo Rangel ainda negociam suas rescisões com a diretoria.

Quem tem medo de caminhoneiro?

Por Itamar Garcez

Há cerca de um ano, o Brasil é refém dos caminhoneiros. Mais do que a ameaça de greve, um direito, a categoria vale-se da chantagem para ameaçar o poder público e os brasileiros.

Ninguém é obrigado a se tornar motorista de caminhão. E, caso adote a boleia como profissão, não é obrigado a trabalhar.

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Menos PIB, menos cargas

Os caminhoneiros derrapam no convívio civilizado e democrático quando atravessam a carroceria na estrada e impedem o Brasil de funcionar. Fazem isto de forma dolosa quando barram outrem de transportar mercadorias, já que o ir e vir é um direito constitucional.

De acordo com o Ministério da Fazenda, à época do Governo Temer, o prejuízo do movimento paredista de 2018 foi de R$ 16 bilhões. Foi tamanho o impacto que o PIB brasileiro, já esquálido, sofreu avarias.

A queda da economia, aliás, exibe a forma desinteligente da paralisação. Com economia fraca evidentemente os profissionais do volante terão menos o que transportar.

O que eles precisam é comércio a todo vapor, como nos EUA. Lá, há escassez de caminhoneiros que, evidentemente, cobram mais pelo frete. Não se tem notícia de que os comerciantes tenham feito lockout contra a categoria.

Além disso, se param, incentivam outras formas de transporte de cargas. Na economia, busca-se o tempo todo o menor custo. Ganha quem entregar mais, mais rápido e por menos.

Greves & greves

Ainda assim, o direito à desinteligência também deve ser respeitado. Desde que a truculência grevista não produza desastres, como a morte de 70 milhões de aves, falta de insumos em hospitais e descarte de toneladas de alimentos perecíveis.

O Direito já reconheceu que há greves & greves. Caso luthiers resolvam paralisar suas atividades haverá um prejuízo para os profissionais das cordas. O Brasil, porém, seguirá em frente, embora menos sonoro.

Não é o caso dos responsáveis pelo abastecimento de energia elétrica ou água. Ou de motoristas de transporte coletivo. Ou de trabalhadores da saúde.

Há limites para estas categorias. Entre estes limites o de deixar trabalhar quem quiser trabalhar, caso contrário ferem o direito de locomoção alheio.

Se são incapazes de mobilizar toda ou a maior parte da categoria, problema das lideranças caminhoneiras. Convoquem eventos sindicais para uma DR coletiva.

Querem os caminhoneiros uma tabela que garanta um preço mínimo para suas entregas. Que tal se, doravante, todas as categorias resolverem reivindicar uma tabela de preços para seus serviços? Se uns podem, não é justo que todos possam?

A livre concorrência é igualmente um princípio constitucional. É assim que o mundo tem se movido.

O motor a explosão não foi inventado por cientistas altruístas. Foi inventado para gerar riqueza para seus idealizadores.

A não ser que queiramos retornar ao sistema de economia centralizada, adotada pelos generais-ditadores e pelo PT – e que não funcionou. Vivemos no sistema de livre comércio. Sistema que, diante dos fracassos socializantes, é o que funcionou melhor até aqui.

A vida de caminhoneiro não é fácil. Enfrentar estradas malconservadas e perigosas é arriscado.

É justo que alguém considere que os riscos e os prejuízos pecuniários não compensem as longas jornadas. Não é justo que os que queiram agir desta forma, paralisando as entregas de mercadorias, forcem os demais a desligar os motores.

Novos modais

Enquanto o Judiciário não assume seu papel de fazer com que a Constituição seja respeitada, cabe ao Executivo adotar medidas que reduzam a dependência extrema que tem o País dos profissionais das rodovias.

Excluídos grãos e minérios, o transporte rodoviário é responsável por 82% da movimentação de cargas no Brasil. Certamente não é por falta de terra para construir rodovias ou de águas navegáveis para implantar hidrovias.

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Incentivar o transporte via asfalto, e a consequente dependência deste modal, foi uma opção de políticas públicas desde JK. Na era dos drones, hora de diversificar os meios de transportes.

Bolsonaro tem mostrado fixação por atacar ambientalistas e pederastas, além de tentar se diferenciar dos antecessores. Se é isso que pretende, pode começar incentivando o transporte ferroviário e hidroviário.

Com isto, reduziria a dependência brasileira de uma parte da categoria que ainda não aprendeu a respeitar os demais brasileiros. Civilidade, aparentemente, é produto que não pode ser encomendado. Precisa ser adquirida.

Reunião sobre manifestação contra Bolsonaro é invadida por policiais

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Uma reunião de sindicalistas que planejam manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro (PSL), em Manaus, foi interrompida por três policiais rodoviários federais armados na tarde de ontem. Os policiais entraram na sede do Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Amazonas (Sinteam), onde acontecia o encontro, e quiseram saber como seriam as manifestações durante a visita de Bolsonaro, que estará em Manaus amanhã.

“Eles disseram que estavam a mando do Exército Brasileiro, que está cuidando da segurança do presidente”, disse ao BNC, a presidente do Sinteam, Ana Cristina.  “Nós explicamos que todas as nossas manifestações são pacíficas. E que vamos exercer nosso direito democrático de discordar das ações do governo, pois entendemos que o estado, do jeito que está, não pode ficar”, completou.

Os policiais ainda ficaram na sede do Sinteam por cerca de 20 minutos, acompanhando a reunião. Depois foram embora.

Bolsonaro em Manaus – O presidente Jair Bolsonaro vai a Manaus pela primeira vez depois de eleito. Ele participa de solenidade no Colégio Militar da Polícia Militar e depois abre a reunião do Conselho Administrativo da Suframa (CAS).

Se a moda pega… Policial (ou qualquer outro cidadão) só pode invadir recinto de reunião privada com mandado judicial. 

Bom conselho

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Por Elio Gaspari

Com 13 milhões de desempregados, a economia andando de lado e a projeção de mais um ano de pibinho, o Brasil já tem problemas suficientes, não precisa trazer de volta o fantasma da anarquia militar. Com idas e vindas, ele assombrou a vida do país dos últimos anos do século XIX até o final do XX.

Jair Bolsonaro elegeu-se presidente da República pela vontade de 57,8 milhões de brasileiros. Teve o apoio público de dezenas de oficiais das Forças Armadas e formou um ministério com oito militares. Fez um agradecimento ao ex-comandante do Exército dizendo que “o que nós já conversamos morrerá entre nós, o senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui, muito obrigado, mais uma vez.” Sabe-se lá o que conversaram, mas desde o primeiro momento o capitão reformado associou seu governo às Forças Armadas. Como agradecimento, tudo bem. Além disso, é uma perigosa impropriedade.

Bolsonaro deixou a tropa depois de dois episódios de ativismo e indisciplina. Referindo-se ao capitão, o ex-presidente Ernesto Geisel classificou-o como “um mau militar”. Quem está no Planalto é um político com 30 anos de vida parlamentar e uma ascensão meteórica. Em seis meses de presidência, demitiu três oficiais-generais e na semana passada disse que outro, Luiz Eduardo Rocha Paiva, aliou-se ao PCdoB: “Descobrimos um ‘melancia’, defensor da Guerrilha do Araguaia em pleno século XXI”. Ele havia criticado a escolha de Eduardo Bolsonaro para a embaixada em Washington e a fala dos governadores “de Paraíba”.

Esse general de brigada chefiou a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e, na reserva, em março foi nomeado para integrar a Comissão da Anistia. Chamá-lo de “melancia” (verde por fora, vermelho por dentro) foi um despautério. Em 2010, Rocha Paiva acusou o PT de “querer implantar um regime totalitário no Brasil”. Dois anos depois, lembrou as execuções praticadas pelo PCdoB no Araguaia. Foram pelo menos três. (Esqueceu-se das execuções de guerrilheiros que se renderam, mas ninguém é obrigado a se lembrar de tudo.)

Tanto o general Rocha Paiva como Bolsonaro deram suas opiniões por meio desse instrumento diabólico que são as redes sociais. Num caso, falou um general da reserva que ocupa um cargo público. Noutro, o presidente da República. Juntos, produziram um inédito curto-circuito.

A presença de militares no governo gerou a compreensível curiosidade em torno de suas preferências e ansiedades. General da reserva é uma coisa; da ativa, outra. Muito outra é general da reserva que ocupa cargo civil. Os chefes militares raramente falavam, de Dutra até comandantes mais recentes, passando por Castelo Branco, Médici e Geisel. O atual comandante do Exército, Edson Pujol, não tem conta no Twitter.

Na dia 12 de outubro de 1977, quando o presidente Geisel demitiu o ministro do Exército, general Sylvio Frota, um grupo de oficiais tentou sublevar-se, e um general ligou para o ex-presidente Médici, que vivia no Rio, calado. Queria seu apoio e ouviu o seguinte: “Põe água na cabeça. Põe água para esfriar a cabeça.”

(O general Augusto Heleno, que era capitão e ajudante de ordens de Frota, lembra-se de alguns episódios desse dia.)

Bolsonaro precisa pôr água na cabeça para cuidar de seu governo, deixando os quartéis em paz e silêncio.

Os medos dos lavajateiros diante da #VazaJato

Assim, mais uma vez as possíveis ilegalidades da Lava Jato foram jogadas para debaixo do tapete”.

Por Marcelo Auler

As conversas dos operadores da Força Tarefa da Lava Jato de Curitiba, divulgadas pelo The Intercept, na série Vaza Jato, deveriam despertar o interesse do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. Ele, desde 14 de março, por decisão do presidente do STF, ministro Dias Toffoli, investiga ataques à Corte e seus integrantes nas redes sociais.

Nos diálogos travados no Telegram por procuradores, juízes e policiais federais da Operação Lava Jato em Curitiba, certamente haverá trechos que, como apostam algumas pessoas próximas aos lavajatistas paranaenses, interessarão – e muito – ao trabalho do ministro Moraes. Possibilidade que tem deixado em pânico, segundo apurou o Blog em Curitiba, alguns dos membros da Força Tarefa.

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Tais diálogos, segundo se comenta em Curitiba, já se tornaram uma das principais preocupações do chefe da Lava Jato curitibana, o procurador Deltan Dallagnol, cujo celular hackeado abasteceu o The Intercept com as conversas nada republicanas dos membros da Força Tarefa. Conversas e áudios que foram encaminhadas por fonte anônima ao jornalista Glenn Greenwald. Mas esta não é a única preocupação dele.

Também teme – como dizem aqueles que viram, na primeira semana de maio, o desespero estampado no rosto de Dallagnol ao perceber que seu celular tinha sido hackeado -, o surgimento nas conversas de nomes ainda não muito conhecidos publicamente. Como de determinado advogado que teve papel importante, nos bastidores, nas negociações em torno das “delações premiadas”. Tão importante que ganhou clientes poderosos.

Embora admitam que o ataque ao celular possa ter ocorrido em abril, foi na semana de 05 a 10 de maio que Dallagnol foi visto na Superintendência da Polícia Federal de Curitiba sem conseguir disfarçar a preocupação estampada na sua fisionomia. Reclamava do hackeamento que, então, pensavam que tivesse atingido os celulares de todos os membros da Força Tarefa. Não apenas de Curitiba, mas do Rio de Janeiro também.

O curioso é que Dallagnol, mesmo sabendo desde o início de maio – ou abril, como já admitiu em algumas reportagens como a publicada no site UOL (Hackers atuam desde abril e se passaram até por jornalistas, diz Lava Jato…) – da ação ilegal do hacker, manteve-se calado por um longo tempo. Tampouco concordou em deixar o seu aparelho – teoricamente funcional, pertencente à Procuradoria da República – para a devida perícia. Preferiu manter escondido o que ali estava armazenado e até já pode ter sido apagado.

O desespero dele à época, conforme muitos ouviram, era provocado por ter consciência que o seu Telegram guardava conversas diversas não apenas entre procuradores da Força Tarefa, mas também com juízes – incluindo Sérgio Moro e a sua substituta na 13ª Vara Federal, Gabriela Hardt – e ainda com jornalistas. Ou seja, conversas que podem revelar vazamentos. Sua sorte, neste momento, pode estar no sagrado compromisso de jornalistas com o respeito ao sigilo das fontes, o que os impede de revelar todos os diálogos captados.

Curiosamente não houve a preocupação, por parte dos investigadores, de realizarem uma busca e apreensão do aparelho para a devida perícia, como cansaram de fazer nas operações da Lava Jato.

A falta de perícia destoa, por exemplo, do que fez no Rio de Janeiro o desembargador federal Abel Gomes, relator dos processos da Lava Jato no Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Ao suspeitar de um hackeamento, ele deu queixa à polícia e deixou o celular para ser periciado.

Embora Dallagnol falasse que o hacker tinha atingido a todos, a cada dia é mais forte na Polícia Federal a suposição de que o alvo foi apenas o seu próprio aparelho. O inquérito instaurado na superintendência do DPF do Paraná é presidido pelo delegado Flávio Setti. Seus esforços podem ser em vão. Os entendidos em internet apostam que dificilmente será possível chegar autor do “furto”.  Dizem que foi trabalho profissionalíssimo, com a utilização de provedores variados, localizados em países diversos.

Além do profissionalismo, o hacker demonstrou ser um provocador. O desespero de Dallagnol aumentou, em meados de maio, ao receber mensagens, vinda de um celular que usava seu próprio número, com fotos das postagens captadas/furtadas do aparelho dele. Junto a promessa de divulgação. A partir daí que surgiram, inicialmente no site Antagonista – considerado por muitos como porta-voz da Lava Jato -, as notícias dando conta de que “criminosos tinham atacado a Força Tarefa da Lava Jato”.

Ficou, no entanto, uma grande dúvida: se Dallagnol sabia, desde o início, que seu aparelho tinha sido vítima de ação criminosa, por que demorou a tornar público tal fato? Por que não denunciou logo que soube? Que motivos lhe impediram de divulgar o seu pedido de investigação à Polícia Federal?

Talvez aguardasse (torcesse?) que o hacker não cumprisse a promessa de divulgar as conversas. Atualmente, diante do pouco que já foi revelado pela série Vaza Jato do The Intercept, apesar de oficialmente insistir que não reconhece os diálogos como seus, Dallagnol teme a cada dia o que ainda estar por surgir.

Como um determinado operador do Direito, que tem outros familiares que também atuaram na Força Tarefa da Lava Jato. Ele, em determinado momento, parece ter admitido incentivar (há quem fale em financiar) algum tipo de campanha/ataque contra o ministro Gilmar Mendes, do STF. Justamente o alvo das investigações do ministro Moraes. O medo em torno desta possibilidade, segundo se comenta em Curitiba, gerou até um atestado médico por estresse.

Há ainda o receio do surgimento, nas conversas e citações, do advogado ainda desconhecido do grande público que desempenhou papel importante nas “negociações” das delações premiadas. Acabou, inclusive, defendendo clientes de nome, cuja delação vem sendo explorada politicamente pelos lavajatistas de Curitiba.

O certo é que a divulgação dos diálogos vem comprovando o que muitos já diziam há tempos. A Operação Lava Jato, ainda que tivesse sido iniciada com os melhores propósitos – e há fortes indícios de que isso não ocorreu – em diversos momentos desrespeitou o chamado devido processo legal.

Falou aquele que ama Trump e bate continência para a bandeira americana

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“Eu não sei por que essa gente tem tanto amor por ONGs estrangeiras. O Estado está aparelhado. Não temos preconceito contra ninguém, mas temos uma profunda repulsa por quem não é brasileiro”.

Jair Bolsonaro, presidente

Da esperança ao ódio: como a inclusão pelo consumo da era Lula atiçou o recalque nas elites

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Por Rosana Pinheiro-Machado – The Intercept_Brasil

Na periferia de Porto Alegre, Zeca, 52 anos, vivia pedindo dinheiro para comprar leite Ninho para sua filha com deficiência motora e cognitiva. Em 2015, quando ele ganhou uma boa grana de um processo na justiça, a questão do leite parecia finalmente estar resolvida. Mas não. Ele foi direto a um shopping e gastou todo valor em um tênis marca, deixando muita gente perplexa. Assim ele explicou:

Todo mundo se comove com minha filha, e leite não vai faltar. Mas ninguém se importou comigo quando quase morri de frio na fila do posto tentando interná-la, quando sou perseguido pelos guardas de shopping como se fosse ladrão só porque sou pobre. Eu tenho direito a ter coisa boa também. Agora que eu comprei as roupas à vista, me respeitam. Volto no shopping sempre que posso só para passar na frente da loja e ver os vendedores dizer: “OI, SENHOR ZECA!”. Eles dizem meu nome.

A história de Zeca é comum a grande parte da população brasileira que teve o sentido de suas vidas alterado com a inclusão pelo consumo da era Lula. Esta coluna traz alguns resultados e histórias de uma pesquisa de campo sobre consumo popular e política feita durante uma década (2009-2019), em parceria com a antropóloga Lucia Scalco. Nosso interlocutor de pesquisa queria sentir o efêmero prazer e poder proporcionado pela compra de um objeto de status. Mais do que isso, ao dizer que era chamado pelo nome pelo vendedor da loja, ele estava reivindicando sua própria existência numa sociedade capitalista, marcada pela exclusão.

O consumo passou a ser um meio fundamental de reconhecimento, visibilidade e cidadania entre as camadas populares nos últimos anos, com consequências na democracia brasileira.

Nasceu a esperança

A periferia de Porto Alegre é um laboratório para observar as transformações políticas recentes do país. A cidade, governada pelo PT por 16 anos (1990-2006), foi um dos berços do Orçamento Participativo (OP) e um dos símbolos do Fórum Social Mundial. Porto Alegre era internacionalmente conhecida como um modelo de democracia radical. Hoje, a realidade é outra: Bolsonaro venceu em todos os bairros.

Durante os governos do PT, as reuniões do OP eram um canal fundamental de mobilização social. Seu maior legado foi fomentar o espaço coletivo, dando a oportunidade da mulher pobre pegar o microfone e falar sobre suas prioridades.

Após anos de mobilização popular, com a vitória de Lula em 2002, inicia-se uma nova era do PT – o lulismo –, caracterizada por políticas de redução da pobreza, inclusão social e financeira em conciliação com as elites. Mas a relação entre o estado e a população se tornava a cada dia mais individualizada e despolitizada, demandando menos esforço na construção do coletivo. “Toma aqui o seu cartão Bolsa Família, cumpra o check-list e tchau”. Aos poucos, houve uma gradual desmobilização das bases petistas e o esvaziamento da lógica coletiva. Mas isso não era um problema enquanto a economia ia de vento em popa.

No plano social mais do que na transformação das instituições, o lulismo focou-se no acesso: a direitos, universidades, crédito e bens materiais. As novas classes médias e os pobres andando de avião pela primeira vez se tornaram emblemas nacionais. Vale notar que o verbo “brilhar” foi amplamente utilizado por acadêmicos e formuladores de políticas públicas para descrever essa fase marcada pela esperança e emergência de uma nação.

Mas como esse grande momento nacional impactou na formação política dos sujeitos de baixa renda? Diferentes pesquisadores, como Wolfgang Streeck e Lena Lavinas, concordam que políticas públicas neoliberais, como a inclusão financeira e inclusão pelo consumo, levam à erosão da democracia, à retração de bens públicos e ao esvaziamento da política no tecido social. Nesses anos acompanhando os “novos consumidores”, vimos os espaços coletivos minguarem, os bens públicos se degradarem e o tio do pavê que comprava um carro se achar superior a seus vizinhos.

É inquestionável que o foco na inclusão pelo consumo causou enfraquecimento democrático em muitos níveis. Mas essa não é a história completa. Em paralelo, trouxe também um despertar político e uma transformação na autoestima e no orgulho das pessoas de baixa renda, o que chamo de autovalor.

Quanto mais as pessoas compravam “coisa boa”, mais conscientes eles se tornavam do quanto as elites não engoliam a figura do pobre orgulhoso. Pobre tem que ser eternamente humilde, servil e grato pelas migalhas que ganha.

Em uma sociedade que joga na cara o tempo todo que os pobres não são merecedores das coisas boas, a aquisição de bens de prestígio pelas camadas populares é um ato poderoso de enfrentamento de preconceitos. Como Katia, 37 anos, sobre seu recém-adquirido óculos Ray-Ban:

“Eu sei que quando uma negona como eu usa um Ray-Ban no ônibus, fedendo a água sanitária, as pessoas pensam que é pirataria. E eu me importo? [gargalhadas] Dane-se racista! Eu estou me achando uma negona muito gostosa e chique.”

Betinho, 17 anos, me disse uma vez que seu boné da Nike era como uma capa de super herói: “Eu deixo de ser o pobre favelado que ninguém vê”.

Talvez o efeito político mais importante da inclusão pelo consumo foi um incipiente processo do que chamamos de insubordinação. No livro “Laughter Out of Place”, de Donna Goldstein, é descrita uma cena de uma patroa que leva sua empregada num restaurante em Copacabana dos anos 1990. A trabalhadora doméstica fica constrangida sem saber como agir naquele lugar, que sente que não lhe pertence. O Brasil do século 21 é justamente o contrário: um país em que os mais pobres começaram a achar que são merecedores de “coisas boas” e que cada vez mais se sentiam à vontade para transitar num shopping ou num aeroporto.

Kátia prosseguiu falando dos óculos: “Eu ponho meu Ray-Ban e subo no elevador social de cabeça bem erguida”. Em um ato microscópico, ela contesta a segregação social e racial dos espaços que transitava.

Isso também ocorreu na época dos rolezinhos. Nossos interlocutores não eram mais os meninos de gangues que, anos atrás, assaltavam na calada da noite para ter um boné. Eles se orgulhavam de estar trabalhando e gostavam de ir ao shopping por onde entravam, como gostavam de enfatizar, pela porta da frente.

O ato de adquirir bens de status embaralha o monopólio de símbolos de prestígio das elites e ameaça romper com as relações servis que se perpetuam desde a escravidão. A autonomia de se comprar o que se deseja pode causar uma reação social devastadora.

Não é à toa que, na época dos rolezinhos em 2014, os shoppings centers fecharam as portas literalmente para os jovens de periferia. Era insuportável uma meninada brincando, cantando, namorando, comprando. Era insuportável ver a autoestima dos filhos dos novos consumidores. Era a metáfora do novo Brasil: o autovalor do pobre e o recalque das elites. Não demorou para a reação chegar, e o resto dessa história a gente conhece bem.

Então, o ódio emergiu

Quando falamos em “esperança” para se referir à era Lula, sempre ressaltamos que era uma esperança precária. Apesar da crescente insubordinação, nossos interlocutores falavam do ato de comprar como uma espécie de “último desejo”, demonstrando uma profunda consciência dos limites dessa inclusão.

Basta relembrar a história de Zeca, cujo prazer de ser chamado pelo nome após ter realizado uma compra cara, veio em meio a uma narrativa que enfatizava que ele havia quase morrido na fila do SUS. Dona Neli, 57 anos, trabalhadora doméstica e mãe de 16 filhos, sempre dizia que as meninas da favela engravidavam cedo e que os meninos morriam pelo tráfico. Ela não poderia dar uma casa ou pagar universidade, então comprava roupa boa porque “dignidade na aparência é só o que eu posso dar”. O pessimismo da narrativa não podia ser mais preciso: seu filho, Betinho, aquele mesmo que dizia que seu boné da Nike era uma capa de super-herói, foi assassinado com 12 tiros em uma chacina do tráfico.

O Brasil mudava rapidamente para melhor, mas também é verdade que as estruturas racistas, classistas e violentas se mantinham quase inalteradas.

Em 2014, o Brasil entrou em uma profunda crise econômica política e, em Porto Alegre, também de segurança pública. O resultado foi a degradação da vida cotidiana da periferia. Em pouco tempo, a grande narrativa de um país emergente e do “direito a brilhar” colapsou.

Grande parte da esquerda hegemônica desdenhou da crise econômica, mas foram os pobres que a sentiram na pele. Nossos interlocutores agora compravam e sonhavam menos. Com dificuldade de encontrar trabalho, não tinham mais cartões de crédito. Estavam com o nome sujo na praça, endividados em um dos sistemas bancários com os maiores juros do mundo.

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Para muitos, o principal ganho da era Lula foi conforto material. Com a crise, eles não podiam mais comprar as coisas que tanto adoravam. Eles também perdiam as poucas coisas que restavam em assaltos que sofriam. Cássio, 18 anos, ex-rolezeiro, caixa de supermercado, foi assaltado duas vezes pelo mesmo sujeito na parada de ônibus na volta do trabalho às 23h. O celular roubado custara o salário de um mês inteiro de trabalho – em quem será que Cássio votou para presidente?

Ao perderem seus bens, as pessoas perdiam um pilar de sua identidade, reconhecimento e cidadania, gerando uma crise que também foi existencial. Nada mais restava, nem os bens públicos, que se encontravam ainda mais deteriorados.

A angústia, a violência e o desalento cotidiano foram vividos de maneira individualizada e deslocada do coletivo, já que os fóruns comunitários foram esvaziados. Não havia mais nenhuma política de base de esquerda no cotidiano da periferia.

O que restou então? Uma mídia hegemônica que apenas batia na corrupção do PT, igrejas evangélicas oferecendo conforto e um candidato autoritário prometendo, pelo WhatsApp, acabar com “tudo que está aí”. A verdade é que, entre 2014 e 2018, um vácuo político tomou forma e ficou pronto para ser preenchido.

O problema não foi a inclusão pelo consumo em si, mas a forma como ela foi feita: a soberba da confiança de que só ela bastaria sem mexer de forma profunda na estrutura da desigualdade social. O problema foi ter virado as costas para as periferias acreditando que somente a autoestima dos novos consumidores seria suficiente para produzir uma fidelidade partidária eterna.

*Nomes foram omitidos para preservar a identidade das fontes.

*Correção, 23/7, 11h01:
A última convenção da ONU substitui o uso do termo “pessoa com necessidades especiais” por “pessoa com deficiência”. Corrigimos a primeira frase do texto que usava o conceito em desuso.