
Por Rodrigo Perez, no Facebook
“Tem tanta coisa envolvida nesse caso do Neymar que fica até difícil pinçar uma pra comentar. É um tipo de evento síntese capaz de reunir os principais dramas abertos nestes nossos tempos tão complexos e difíceis. Vamos lá, por partes.
O fato é: uma moça jovem e bonita diz que um astro do futebol mundialmente conhecido a estuprou.
De um lado, o machismo estrutural aciona seus operadores, que deslegitimam o testemunho da mulher usando os mais vulgares argumentos de desqualificação pessoal. Ela seria prostituta, interesseira, estaria endividada. Neymar, o milionário ingênuo e refém da própria testosterona, foi vítima de um golpe. Nem precisa de processo legal. É óbvio o que aconteceu: Adão se deixou levar pelo ardil de Eva e por isso é inocente. Temos aí a atualização de uma narrativa tão velha quanto o próprio mundo.
Do outro lado, algumas vozes do ativismo feminista, sedentas de punitivismo, transformam o testemunho da moça em prova cabal de culpa. Nem precisa de processo legal, perícia e investigação, pois quando uma mulher diz que foi violentada ou agredida, ela está dizendo a verdade, sempre e em qualquer circunstância. É como se sujeitos historicamente oprimidos nao fossem capazes de mentir, de dissimular, de chantegear. É óbvio que Neymar é culpado e deve ser preso. Não! Mais que isso. Deve ser linchado, com suas vísceras arrancadas em praça pública.
Por sua vez, o próprio Neymar, acreditando ter em mãos a prova de sua inocência, utiliza uma rede social para se defender junto à opinião pública. Pra que o processo legal? Pra que organizar o material em um dossiê e apresentar às autoridades competentes, no legitimo e sagrado exercício de defesa?
As instituições não estão mais funcionando mesmo. Presidenta eleita é golpeada, liderança política é presa sem provas e contrariando os preceitos constitucionais. Governador de Estado sobe em helicóptero pra dar teco de arma de fogo em favela. O Presidente da República, acompanhado do filho mais velho acusado de corrupção, se encontra a portas fechadas com o corregedor de justiça.
Por que o Neymar deve seguir os protocolos institucionais e apresentar sua defesa apenas em juízo? Mais vale é expor conversas e fotos íntimas na internet. É crime? É sim. Mas tem problema não. Ninguém liga mais pra essas coisas.
O advogado de defesa da moça, que tem a função, imprescindível para o Estado democrático de direito, de representar os interesses de sua cliente, é cooptado pela outra parte e trai sua causa. Uma pessoa que não pode confiar no seu advogado foi assassinada em sua cidadania. É uma morte civil.
A mídia hegemônica escolhe assumir um lado, desconsiderando completamente sua função social de reportar informações de maneira sóbria, neutra e imparcial. Função social? O que é isso? É de comer?
Definitivamente, não é apenas mais uma treta envolvendo jogador de futebol. É a tradução perfeita da nossa contemporaneidade: as instituições e os valores que deveriam mediar o contrato social e garantir a convivência harmônica entre as pessoas não são mais reconhecidos, não são mais respeitados. Por ninguém, por absolutamente ninguém.
Estamos todos afundados no mesmo mar de merda, bebendo o mesmo chorume. Ninguém tá livre. A crise é muito grave, muito grave mesmo. A crise é civilizatória.