Moro, Dallagnol e a nova normalidade

Por Tânia Maria de Oliveira

No poema “No caminho com Mayakovsky”, muitas vezes confundido e atribuído erroneamente ao poeta russo, o autor Eduardo Alves da Costa descreve os passos de avanço autoritário e ausência de resistência, dos atos simples até que não seja mais possível resistir. Da retirada de flores do jardim a arrancar a voz da garganta, o inexorável é que, ao permitir que se vá adiante, não há o que fazer quando tudo se consuma.

Desde o último domingo, 09 de junho, quando os primeiros conteúdos de conversas entre o então juiz e hoje ministro Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol e demais procuradores da força tarefa da operação Lava Jato foram revelados pelo portal eletrônico The Intercept, muito já se debateu, se escreveu em artigos, reportagens e, sobremaneira, nas redes sociais.

Curiosamente, a disputa de narrativas não se deu entre mentira e verdade, uma vez que as personagens dos eventos cujos diálogos foram publicizados não negaram sua autenticidade, limitando-se a atacar a forma como foram obtidas e afirmando-se vítimas de hackers. Assumiram como legítimos os diálogos que disseram considerar normais, sem qualquer problema. E ao fazê-lo, indicavam adotar o comportamento que vem sendo legitimado desde que apareceram no cenário nacional.

É fato que condução coercitiva sem intimação prévia, delações premiadas com réus presos, usadas como prova sem nada que as corroborasse, vazamento de conteúdos de depoimentos e até mesmo de conversas privadas, prisão automática após julgamento em segunda instância sem trânsito em julgado, foram sendo praticados diuturnamente e, quando questionados judicialmente, foram mantidos. Desse modo, a Lava Jato vem praticando abusos há 5 anos como se normal fosse, sem reparos, impunemente. Seus membros, longe de serem questionados, eram ovacionados. E passaram a operar em uma lógica totalmente midiática, de olho na aprovação popular e nos holofotes, proferindo palestras, dando entrevistas e dialogando com as manifestações nas ruas. Enquanto isso, seus pares do sistema de justiça ignoraram as irresignações e questionamentos que lhes foram feitos, dentro e fora dos autos, e não foram poucos.

Não é nenhum absurdo dizer que os conteúdos revelados pelo portal The Intercept não surpreendem ninguém, mesmo que muitos afirmem seu espanto. A Lava Jato, que se em algum momento foi pensada para enfrentar a corrupção sistêmica, não captou as contradições em seu interior, tratando, desde sempre, a política como delito, e escolhendo atores a quem atingir de acordo com as preferências políticas de seus membros. Operou a utilização do sistema de justiça e especificamente do Poder Judiciário para atingir seus fins, maximizando objetivos particulares e não republicanos.

Igualmente, não é estranho que tanto o juiz Sérgio Moro quanto o procurador Deltan Dallagnol tenham respondido que o conteúdo divulgado são coisas “normais”. Na lógica lavatista de descumprir normas, princípios constitucionais e processuais legais, nada aconteceu de errado. De tal modo que o magistrado se portar como superior hierárquico do procurador, dando broncas, instruindo a busca de fontes, sugerindo investigações e inversão da ordem das etapas, antecipando decisões ainda não proferidas, em diálogos cotidianos é “normal”, as reuniões e os telefonemas cotidianos para discutir os casos – como mostram o inteiro teor das conversas – são normais. Grupos de procuradores interessados, não nos dados e rumos da investigação sobre as quais eram titulares, mas em fórmulas e métodos de como impedir uma entrevista autorizada pelo Supremo Tribunal Federal porque ela iria, em tese, ajudar o candidato com quem eles não simpatizam politicamente também são normais.

Nesse caminho da nova normalidade, encontram os membros da força tarefa da operação Lava Jato o amparo social e político dos que se apoiam no argumento fácil de que tudo fora feito para combater a corrupção, fundamento, a propósito, sempre o mais utilizado em todo o mundo no surgimento ou renascimento de regimes autoritários,como mote de fazer valer o desprezo pelos valores e instituições da democracia.

Em espectro amplo, essas posturas se alinham com a busca da naturalização do absurdo, que vai se impondo paulatinamente em nosso país. Exemplos não nos faltam, desde a exaltação à tortura e torturadores dentro do plenário da Câmara dos Deputados na votação do impeachment, até placa de rua quebrada com o nome de uma vereadora assassinada, ambos os atos sob aplausos de multidões. E a operação Lava Jato, é preciso reconhecer, virou uma operação famosa não apenas pelos seus números e seu discurso de combate à corrupção, mas por escancarar a seletividade do processo penal brasileiro, e o descumprimento comezinho de normas processuais, sem que jamais qualquer de seus membros, servidores públicos, respondessem por seus atos.

As garantias do processo penal são marcos civilizatórios. A realidade incontrastável de que o juiz e os procuradores da operação Lava Jato as desprezaram totalmente, atropelando-as, assume, a partir da revelação trazida, uma dimensão de que não mais cabem as vendas nos olhos de quem tem poder para recolocar as coisas em seu devido lugar. O The Intercept, que a propósito afirma que revelou 1% de todo o conteúdo de que dispõe, evidenciou a ausência de alternativas que indiquem “lixo para debaixo do tapete” como factíveis. Não se pode sustentar a normalidade de relações de conluio, diante de evidências sistematizadas. Não há explicação convincente capaz de modificar o degradante espectro que sustentou essa investigação e custou a liberdade de cidadãos e sua execração pública.

Da aberrante divulgação de grampos ilegais envolvendo a Presidenta da República à aceitação do cargo de ministro do governo a quem beneficiou nas eleições, retirando o adversário de cena, Sérgio Moro testou todos os limites, impunemente. Do bizarro Power Point da denúncia de Lula à fundação para gerir recurso públicos, Dallagnol perdeu as balizas de qualquer atuação comedida. Retiraram flores do jardim da legalidade, mataram o cão e invadiram a casa. Agora é preciso gritar enquanto ainda há voz na garganta, agir antes que seja tarde. Se não dissermos nada agora, é provável que logo não possamos mais dizer.

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Tânia Maria de Oliveira é membro da Coordenação Executiva da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia.

Repórter da Globo que deu Bíblia de presente a Bolsonaro tem filha empregada na Presidência

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Por Kiko Nogueira, no DCM

Todos os jornalistas da Globo são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.

No fim do café da manhã com Bolsonaro na sexta, dia 14, a veterana Delis Ortiz, setorista do Planalto, pediu a palavra.

Em nome dos colegas presentes, mas sem consultá-los, fez um agradecimento a Jair e entregou-lhe uma Bíblia.

De acordo com o site Poder360, Delis agradecia o sujeito por finalmente receber os profissionais que cobrem o cotidiano da presidência.

Alguns lembraram que outros presidentes realizavam, no máximo, apenas um café da manhã anual com esse pessoal, no período de Natal.

Bolsonaro já organizou seis — o que seria, de acordo com a turma, razão bastante para puxar-lhe o saco em cenas dignas de fã de Luan Santana.

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A cobertura do convescote ficou a cargo do Planalto, que divulgou as fotos constrangedoras que acompanham este post. Celulares foram proibidos.

Em abril, Delis foi notícia porque uma de suas filhas havia sido nomeada para um cargo na coordenação de relações públicas da Secretaria-Geral da Presidência.

“Delis cumpriu as normas e comunicou que foi informada pela própria filha do cargo para o qual ela foi convidada (sem nenhuma participação da Delis). Não foi preciso sequer que a chefia determinasse que Delis deixasse de cobrir o Planalto. Ela mesmo fez a sugestão, imediatamente aceita. E, assim, Delis passará a cobrir o Congresso”, disse a Globo em nota enviada ao UOL.

Aparentemente, a transferência não foi necessária.

Como no caso da Lava Jato, está tudo em casa.

Trivial variado do Estado controlado por uma Justiça seletiva e autoritária

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“Como avisei antes, não subestimem Greenwald. Ninguém ganha um Pultzier, um Oscar por documentário e a reputação de ser um dos melhores jornalistas investigativos do mundo impunemente”. Milly Lacombe

“A parcialidade de Moro/Russo sempre foi evidente. O que eu não tinha como saber era o grau intenso de promiscuidade com Dallagnol e a cumplicidade dos dois nas práticas criminosas hoje reveladas”. Wadih Damous

“O showzinho de Sérgio Russo já, já acaba. Assim é bom. 100 políticos envolvidos em corrupção, mas Russo pedia pra Dalllagnol só investigar 30%. Por isso, nenhum tucano foi preso, mas isso não vem ao caso. Isso é surreal, é assustador”. Gilvan Freitas

“Já pararam pra pensar? Lula é o ex-presidente do Brasil. O mais popular da história recente. E esse é o modus operandi da justiça com ele. Pensem agora na juventude negra, nos pobres, nas mulheres negras. Vocês se tocaram que nós não temos como confiar na justiça burguesa?”. Marcão Freitas

“General que aceita se subordinar a presidente que bate continência à bandeira americana não merece ser general”. Lula, preso político

“Foi um assalto ao aparelho de Estado com objetivo de partidarizar a justiça brasileira. Algo próximo da ação totalitária”. Rudá Ricci

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“Nova matéria do Intercept revela que relação entre Moro e procuradores da Lava Jato não era de parceria, mas de subordinação. Ele ditava como a acusação deveria atuar e chegou a impor a estratégia de comunicação à força-tarefa. Moro agiu como um coronel togado e violou a lei”. Marcelo Freixo

Como o futuro de Kawhi Leonard impacta grandes times da NBA

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Por Fábio Balassiano, no blog Bala na Cesta

Nesta altura dos acontecimentos você já deve estar sabendo que o Toronto Raptors é o novo campeão da NBA, né? A franquia canadense venceu o Golden State Warriors na quinta-feira em Oakland, conquistou a sua primeira taça, ainda está comemorando, mas sabe que uma decisão mexerá com o seu futuro e também com o de grandes equipes ao redor da liga.

Trata-se, obviamente, do MVP Kawhi Leonard, que se tornará agente-livre e a partir de 1º de julho poderá ouvir proposta de toda e qualquer equipe da NBA. Do ponto de vista de orçamento, os Raptors podem oferecer um pouco mais: US$ 190 milhões por cinco anos, ao passo que demais franquias,  US$ 140 milhões por 4 anos (no valor anualizado fica praticamente a mesma coisa, obviamente). Sua decisão impacta não só o Toronto, mas quase a liga inteira. E explico.

Caso fique no Canadá, Leonard certamente irá exigir de Masai Ujiri, o manda-chuva da franquia, o mesmo ou melhor elenco de apoio em relação ao que acaba de ser campeão da NBA. Marc Gasol, o pivô espanhol, pode se tornar agente-livre ou renovar automaticamente por US$ 25 milhões. Danny Green, fiel escudeiro de Kawhi, estará livre pra assinar com qualquer franquia a partir de 1º de julho. Paskal Siakam, um dos destaques do time, e Fred VanVleet, ainda têm mais um ano de contrato. Não ter o MVP das finais faria com que os canadenses tivessem que começar praticamente do zero em busca de um novo jogador-franquia, um cenário realmente terrível.

Há outros interessados nessa história. A começar pelo rival de conferência Milwaukee Bucks. Derrotado pelo Toronto na decisão do Leste, os Bucks sabem que ter Kawhi Leonard por perto significa ver a conferência bem disputada por longo tempo (o Boston Celtics e o Sixers entram nesse balaio). No Oeste a mesma coisa. Caso Kawhi opte em ir pra lá, muita coisa em relação aos concorrentes e ranking de forças pode se modificar. Se ele voltar a jogar na conferência pela qual disputava jogos com o San Antonio Spurs, sua ex-equipe, ajustes deverão ser feitos pelos times.

Existem, também, os interessados em contratar Kawhi caso o ala opte por sair do Canadá. Os dois de Los Angeles, Clippers e Lakers, sonham dia após dia com isso e parecem os mais fortes candidatos. O Clippers tem uma folha salarial quase que 100% aberta para lhe oferecer uma bolada e outra para alguma estrela da liga. O Lakers visualiza um trio com LeBron James, Leonard e algum outro craque (Anthony Davis?), mas sua gestão temerária nos últimos anos faz com que alguns craques evitem vestir a camisa da franquia.

Cruzando o país há o pessoal de Nova Iorque na espreita também. O Brooklyn Nets, bem cotado para ser a nova casa do craque Kyrie Irving, deseja juntar Kawhi a Kyrie. O Knicks, mesmo sem o pick 1 do próximo do Draft, tem muita grana, mídia, espaço e chance de dar a Kawhi o estrelato que ele nunca teve – ou nunca quis. Vê-lo como um Knick não me parece razoável, palpável, mas como a cabeça do craque (ainda) do Toronto Raptors é indecifrável é sempre bom deixar no ar.

A decisão de Kawhi deve ser tomada na primeira semana de julho. Por enquanto a liga inteira fica em compasso de espera pra saber que movimentos fazer projetando o que se passará com Leonard pelos próximos anos. Se eu pudesse palpitar, eu diria que o MVP das finais de 2019 permanecerá no Toronto Raptors por mais cinco anos.

E você, acha o quê?

Derrota dispara alerta no Leão

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POR GERSON NOGUEIRA

O Remo sofreu na quinta-feira à noite, em Porto Alegre, sua primeira derrota na Série C após oito rodadas disputadas. O time segue muito bem posicionado, mas o desempenho diante do São José gerou imediatos questionamentos e disparou alguns alertas dentro do clube. Ao contrário do que vinha ocorrendo na trajetória remista, pela primeira vez o adversário ditou o ritmo e controlou completamente a partida.

Na entrevista pós-jogo exclusiva à Rádio Clube do Pará, o técnico Márcio Fernandes se amparou em dois argumentos para justificar o rendimento técnico da equipe. Alegou falta de adaptação ao gramado sintético e desgaste provocado pela maratona de jogos em curto espaço de tempo.

Tem razão nas duas justificativas. De fato, como muita gente temia, estranhando o gramado, os jogadores erraram passes em demasia e tiveram dificuldades para desenvolver o tipo de jogo que vinham praticando até então.

É fato também que a agenda de jogos também foi prejudicial ao Remo, que praticamente não treinou desde o confronto contra o Tombense, em Minas Gerais, no dia 3 de junho.

A delegação voltou a Belém na madrugada de 5 de junho. O clube havia solicitado alteração do jogo com o Volta Redonda, de sábado (8) para domingo (9), mas a CBF não atendeu. Para piorar, o jogo contra o São José, que seria neste sábado (15), foi antecipado para quinta (13).

É preciso, porém, observar que além desses dois fatores o Remo perdeu também para a qualidade e o entrosamento do São José, que tem praticamente a mesma formação há dois anos e um técnico (Rafael Jaques) que caminha para o segundo ano de trabalho.

Com tranquilidade, o São José não caiu na armadilha que o Remo custa armar quando atua fora de casa, cedendo espaço para explorar o contra-ataque em rápida troca de passes. O time gaúcho também não ficou preso à estratégia previsível dos cruzamentos altos, preferindo jogadas pelos lados. Na prática, o Remo pela primeira vez encarou um adversário à sua imagem e semelhança.

O gol de Dudu Mandai, aos 26 minutos do 2º tempo, surgiu de uma jogada em contragolpe e de uma tabelinha final junto à área, entre o lateral e o meia Maradona, culminando com o chute cruzado que Vinícius não conseguiu defender.

Além do bom nível técnico do mandante, o Remo não foi eficiente nas poucas chances de definições. Teve duas chegadas fortes com Gustavo Ramos e Ramires no 1º tempo e uma oportunidade clara com Emerson Carioca, logo a um minuto do 2º tempo.

As ausências de Douglas Packer e Yuri, principalmente, também foram sentidas demasiadamente pela equipe. Ramires, peça fundamental nas jogadas de transição, pouco apareceu, talvez preocupado em ajudar Rafael Tufa na cobertura à zaga.

Nas circunstâncias, o resultado foi normal e não deve causar abalos maiores no ambiente azulino, mas sinaliza a existência de problemas que devem ser corrigidos. A falta de força ofensiva na área talvez seja o mais grave e evidente de todos – daí, inclusive, a contratação de um novo centroavante.

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Papão faz jogo da reconciliação com a galera

O Luverdense poderia ser considerado o adversário dos sonhos. Ainda não engrenou na Série C e estacionou na zona da morte do grupo B, com cinco pontos resultantes de cinco empates. Acontece que o Papão não pode subestimar ninguém: está no bloco intermediário da tabela e sem vencer há sete partidas (incluindo os jogos da Copa do Brasil).

Com o auxiliar técnico Leandro Niehues no comando, o time tem obrigação de reencontrar a vitória e reatar ligações com a torcida. Algumas mudanças devem ser notadas na formação, em função do afastamento de dois titulares – Marcos Antonio e Paulo Henrique.

Niehues, que ainda não foi perdeu como interino do PSC, terá que contar com a colaboração de seus principais jogadores – Tiago Luís e Nicolas. Ambos não têm entregado o que deles se espera. Nicolas caiu de rendimento nas três últimas partidas e Tiago ainda não assumiu o papel de protagonista da equipe.

Em suma, o PC precisa apresentar outra postura, com ênfase na organização ofensiva. O ataque bicolor é um dos piores da competição, com apenas quatro gols anotados em sete rodadas.

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Chance de aperfeiçoamento para karatecas

Pela primeira vez, Belém (e a região Norte) recebe um curso de karatê de alto rendimento. Será hoje, 15, a partir das 8h30, no Shopping Bosque Grão-Pará (piso térreo, ao lado aceso C), ministrado por Ricardo Aguiar, técnico da Seleção Brasileira Olímpica de Karatê. Com 11 títulos brasileiros, oito títulos sul-americanos e quatro títulos pan-americanos, Aguiar é uma referência no esporte.

O curso é um aperfeiçoamento técnico de alto nível para os atletas e tem o caráter de oportunidade para jovens praticantes se apaixonarem pelo esporte, abraçando a competição profissional.

Evanildo Pereira, organizador do evento, chama atenção para a importância do karatê do Pará, de forte presença no país. Ele mesmo foi 27 vezes campeão estadual e ganhou 10 títulos nacionais, além de vários internacionais.

Em Belém, existem vários projetos sociais que incentivam a prática do karatê. Casos do Projeto Resgate, com crianças e jovens do bairro Promorar; o Salvando Crianças com Karatê e o Projeto Nazireu, do Barreiro.

(Coluna publicada no Bola deste sábado, 15)

Provando do próprio veneno

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Da coluna de Josias de Souza no UOL:

A divulgação em conta-gotas das mensagens tóxicas que Sergio Moro trocou com os procuradores da força-tarefa de Curitiba subverteu a rotina do ministro da Justiça. Moro ainda não percebeu. Mas já reproduz maquinalmente procedimentos que se tornaram habituais no dia a dia dos investigados da Lava Jato. O ex-juiz foi empurrado para dentro do mesmo pesadelo vivido por vários dos seus sentenciados. Nele, o encrencado está sempre um passo atrás da encrenca.

Mal comparando, a captura dos diálogos que estavam escondidos no recôndito dos celulares tem o peso da apreensão de uma planilha da Odebrecht. É como se os criminosos tivessem realizado uma operação de busca e apreensão sem ordem judicial. Ironicamente, numa das mensagens arrancadas do Telegram, Deltan Dallagnol identifica Moro pelo codinome de “Russo”, reproduzindo o vício dos executivos da empreiteira de brindar os interlocutores com apelidos sugestivos.

Nas primeiras gotas, o vazamento expôs um juiz metido em conversas nas quais cobrava a realização de operações, oferecia testemunha à Procuradoria, sugeria certos procedimentos aos procuradores e consultava-os sobre procedimentos incertos. Em nota, Moro declarou que “o fato grave é a invasão criminosa do celular dos procuradores”. No mais, não viu no material “qualquer anormalidade ou direcionamento da atuação enquanto magistrado.”

Com a reputação já bem umedecida, Moro permaneceu sob a goteira. Soube-se que, no escurinho do cristal líquido, o ex-juiz exibe um humor insuspeitado. Ali, ele se permite escrever coisas como “In Fux we trust”. Aos poucos, as reações de Moro à goteira foram se tornando tão escorregadias quanto a superfície molhada que se formou sob seus sapatos.