Adriano, Eduardo Galeano e uma imprensa que não olha o próprio rabo

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POR LÚCIO DE CASTRO, no SportLight

No último dia 12 de setembro, o empresário português Nuno Vasconcellos foi condenado a um ano e quatro meses de detenção. Por um episódio de três anos antes, no dia 6 de fevereiro de 2014, de acordo com boletim de ocorrência no 11º Distrito Policial, Santo Amaro, zona sul de São Paulo.

De acordo com o registro, Nuno Vasconcellos deu pontapé na coxa direita da sua mulher, Daniela Rodrigues Moreira. Em seguida, um soco em seu rosto, fazendo com que ela batesse a cabeça na parede, causando uma lesão na testa. E depois outro soco, desta vez nas costas, caindo no chão. A condenação do empresário, milionário, branco, 53 anos e capaz de pagar os melhores advogados, é em regime aberto.

A folha corrida de Nuno Vasconcellos não para por aí. Acionista do grupo Ongoing, com atividades no mercado financeiro e imobiliário e na mídia. Declarado insolvente no início deste ano pela Justiça de Portugal, assim como sua holding já havia passado pela mesma situação no ano passado. As dívidas foram estimadas em 1,2 bilhão de euros.

Na série de reportagens “Malta Files”, parceria da Agência Sportlight de Jornalismo Investigativo e The Intercept Brasil, foram encontrados no nome dele os registros da empresa Unity 1 LTD, aberta em agosto de 2013, com capital de 1.165 euros. Nos registros em Malta, conhecido como o “Panamá da Europa”, o empresário deu um endereço no bairro do Brooklin, em São Paulo. Os documentos mais recentes de atividades da firma são de novembro de 2015.

No iníco desse ano, Nuno foi alvo de busca e apreensão na Operação Marquês, a Lava Jato portuguesa. Apesar de uma dívida pessoal de 9,7 milhões de euros em Portugal e do conhecido imenso patrimônio, as autoridades daquele país só encontraram no nome do empresário o que a imprensa portuguesa sabiamente e recusando anglicismos tolos chamou de “moto de água”. Que por aqui é macaqueada chamada de “jet ski”.

Acionista de peso também da Portugal Telecom, uma das principais acionistas da OI. Outro escândalo ainda não terminado.

Mais do que isso: ao que consta, já que nunca se sabe ao certo em que negócios ainda está ou não, era o homem na linha de frente do grupo Ejesa, cujas dividias com funcionários, fornecedores e impostos somam mais de R$ 250 milhões. No Brasil, o grupo é proprietário, entre outros veículos, do “Portal IG”, do jornal “O Dia” e do jornal “Meia Hora”.

Pois foi o último citado, matutino popular da coroa de Nuno Vasconcellos, que publicou no dia 22 de setembro a capa de imensa repercussão em que Adriano, o Imperador, aparecia com rosto encoberto ao lado do traficante Rogério 157. De acordo com Adriano, em entrevista ao “Conversa com Bial”, foto feita em uma festa na Rocinha anos antes. Segundo o ex-jogador, a pedido do traficante.

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Embora não existisse qualquer elemento além de uma fota de uma pessoa com exposição pública e portanto sujeita a tais pedidos, nenhum registro policial, nenhum indício de prática criminosa de Adriano ou nenhuma condenação, o jornal de Nuno Vasconcelos estampou a famosa frase dita pelo jogador anos antes: “Que Deus perdoe as pessoas ruins”.

Ou seja: exatos dez dias depois do dono do jornal, com tal folha corrida nos negócios, alvo da Lava Jato portuguesa, ser condenado por agressão a uma mulher, seu veículo batia o martelo sobre Adriano como um fora da lei.

É provavelmente uma das histórias mais inacreditáveis da também imensa folha corrida da imprensa brasileira e seus julgamentos morais permanentes. Sem jamais olhar para o próprio rabo. Para os pecados nossos de cada dia, para folhas corridas de alguns executivos e jornalistas dignas de corar até mesmo qualquer Rogério 157.

Não me lembro de algo tão emblemático: o dono de um jornal, envolvido em diversos escândalos, é condenado por agressão a uma mulher. Dez dias depois o jornal de sua propriedade bate o martelo e o joga na vala comum dos criminosos sem uma prova. É algo tão surreal que dá engulho.

Olhar para o próprio rabo, com o perdão do péssimo gosto da expressão mas a que cabe agora. De olhar e fazer autocrítica das omissões nossas de cada dia. Que de inocentes não tem nada. Muito mais do que isso: omissões que um dia descobriram que o “namoradinho do Rio” Sérgio Cabral era o que todos sabiam mas ela protegia, um ladravaz contumaz. A omissão que permitiu o crime maior da destruição do Maracanã apenas para um bandido e sua organização criminosa lucrarem. Omissões que protegeram Cunha enquanto ele era útil ao intento golpista e a convocação para as ruas nas tardes de domingo na programação da TV. Para chutar no momento seguinte.

As omissões de cada dia que deixaram Havelange, Teixeira, Nuzman e tantos outros reinarem, entrarem nas casas de todos como os mais capazes gestores. “O homem que nunca sua”, como Havelange foi tratado um dia ao vivo. Que tratou Nuzman por duas décadas como o gestor ISO 9000, o homem eficiência, que foi pautada por ele em cada passo. Que tratou Coaracy Nunes como o “Apóstolo das Águas” (teve isso!) e Ary Graça como protagonista de uma revolução de gestão. E que passou 20 dias de umas Olimpíadas com tom de epopeia.

De julgamento moral em julgamento moral, de linchamento em linchamento, de adjetivar e botar como criminoso que não tinha crime conhecido, foram se criando cuervos. Até chegarmos ao dia de hoje. Em que o ódio, o obscurantismo e o fascismo batem no portão deles mesmos. Dos criadores de cuervos, agora insultados. Porque cuervos são cuervos, sempre querem mais, tem sanha de sangue e opressão, tem desejo de trevas. De “marchar com a família”, de determinar o que é arte, o que pode ou não pode. Quem cria cuervos…

Existem tantos outros. Adriano talvez seja um símbolo bom disso tudo. Não há aqui nenhuma defesa de Adriano. Até porque, até segunda ordem, não há nenhum crime de Adriano. Ao contrário do que geralmente vem em profusão quando se fala em Adriano (“defendendo bandido”, etc), sem que ninguém tenha uma prova de crime. Não me venham com fotos, provas de “estar ao lado”. Como vemos pelo dono do jornal que julgou Adriano, em redações muitas vezes também “estamos ao lado” e nem por isso somos criminosos.

Escrevi algumas vezes sobre isso. Sob o sentimento de indignação de estar no meio de linchamentos. Adriano é só talvez o mais simbólico. Talvez seja tarde demais para reclamar do monstro que se avizinha. Acho sempre graça em tantos que se calaram ou agitaram seus blocos quando o monstro era gestado e agora aparecem em vídeos falando em liberdade de expressão.

Não me lembro de algo tão emblemático como esse caso aqui tratado: o dono de um jornal, envolvido em diversos escândalos, é condenado por agressão a uma mulher. Dez dias depois o jornal de sua propriedade bate o martelo e joga alguém sem qualquer crime cometido na vala comum dos criminosos sem uma prova. É algo tão surreal que dá engulho.

Poderíamos citar mil casos nessas omissões nossas de cada dia, nesses julgamentos morais e linchamentos que foram criando cuervos. Por hora fiquemos nesses dez dias que separam a condenação da justiça ao empresário espancador de mulher e a condenação que a empresa dele proferiu a alguém sobre o qual não se conhece crime.

Encerro com Eduardo Gaelano. Depois dele recomenda-se não acrescentar nada mais.

Corria o ano de 2010. Peço licença para o sempre antipático soar das trombetas da vaidade. Afinal, não se fala em conversar, trocar ideias com Eduardo Galeano tentando ser natural. Seria mais antipático. Nesse privilégio que a vida me deu de uma amizade compartilhada em boas conversas por aqui e em Montevidéu, falamos muito de Adriano e o que ele representava.

Um dia, trocando e-mails, contei que tinha escrito algo sobre Adriano e o que representava, muito em cima do que tínhamos conversado antes numa tarde do Café Brasileiro, em Montevidéu, que Galeano frequentava regularmente e passava tardes na boa resenha. Enviei pra ele. Galeano me enviou as palavras abaixo. Pedi licença para publicar, concedida. Saiu no site da ESPN, em 10 de março de 2010. Contundentes, carregadas do sentimento de amor e justiça dos grandes, de alguém que sabia exatamente o que estava por trás daqueles julgamentos.

Republico agora. Primeiro a versão original, a mensagem em espanhol. E depois minha livre tradução, já pedindo aos gato-mestres de plantão que nos poupem das correções de alguém que não fala espanhol e só cometeu uma livre tradução porque desfrutar de tais palavras se faz necessário quando as trevas batem nossa porta.

Eduardo Galeano sobre Adriano:

Lúcio, querido:
gracias por enviarme ese comentario tuyo, valiente y claro.

yo creo que el caso de adriano es revelador, como bien dices, de prejuicios y juicios que van más allá de las anécdotas.

el bombardeo que adriano sufre revela, por ejemplo:

*la obsesión universal por la vida privada de la gente de éxito, y sobre todo por los deportistas triunfantes que provienen de la miseria y que habían nacido estadísticamente condenados al fracaso;

*se les exige que sean monjitas de convento, consagradas al servicio de los demás y con rigurosa prohibición del placer y de la libertad;

*los puritanos que los vigilan y los condenan son, por lo general, mediocres cuyo más audaz desafío, su más peligrosa hazaña, consiste en cruzar la calle con luz roja, alguna vez en la vida, y eso mucho tiene que ver con la envidia que provoca el éxito ajeno;

*y mucho tiene que ver con la demonización de los pobres que no reniegan de su más profunda identidad, por muy exitosos que sean;

*y mucho tiene que ver, también, con la humana necesidad de crear ídolos y el inconfesable deseo de que los ídolos se derrumben.

abraço do teu amigo
eduardo galeano

Tradução:

“…Eu creio que o caso de Adriano é revelador, como bem disse, de preconceitos e julgamentos que vão além das anedotas.

O bombardeio que Adriano sofre revela, por exemplo:

– A obsessão universal pela vida privada dos que tem êxito, e acima de tudo pelos desportistas vencedores que vem da miséria e que tinham nascido estatisticamente condenados ao fracasso.

– Exige-se deles que sejam freiras de convento, consagrados ao serviço dos demais e com rigorosa proibição do prazer e da liberdade.

– Os puritanos que os vigiam e os condenam são, em geral, medíocres cujo desafio mais audacioso, sua mais perigosa proeza, consiste em cruzar a rua com luz vermelha, alguma vez na vida, e isso tem muito a ver com a inveja que provoca o êxito alheio.

– Tem muito a ver com a demonização dos pobres que não renegam sua mais profunda identidade, por mais exitosos que sejam.

– E muito tem a ver, também, com a humana necessidade de criar ídolos e o inconfessável desejo de que os ídolos se derrubem.

Um abraço do teu amigo,

Eduardo Galeano

Histórias do mundo da bola

https://www.youtube.com/watch?v=Y3Aqc0qFoFI

Imagens cinematográficas (Canal 100) de um dos maiores jogos da história do futebol.

O fator Welinton Jr.

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POR GERSON NOGUEIRA

A um ponto de distância do CRB, o Papão tem hoje à noite uma jornada que vale seis pontos. Caso vença o jogo, se distancia e empurra o adversário para as proximidades da zona de rebaixamento. Além disso, avança rumo à parte central da tabela, podendo terminar a 29ª rodada até em nono lugar, incluso na chamada primeira página da Série B.

Para alcançar esses objetivos, bastará jogar com a mesma disposição demonstrada nos 20 minutos finais do confronto com o Boa Esporte na semana passada. A velocidade nas ações ofensivas e a participação dos atacantes de lado foram fatores determinantes na virada que deixou o Papão em condições de sonhar com posições mais altas na tabela.

O principal artífice daquela reação foi o atacante Welinton Jr., cuja participação nos jogos têm se resumido aos minutos derradeiros. Antes mesmo do jogo contra o Boa, Welinton já havia mostrado qualidades que o habilitavam a ganhar um lugar fixo na equipe, pois tem facilidade para o drible e costuma partir com a bola dominada em diagonal rumo à área, o que dificulta o trabalho dos marcadores.

Quando conseguiu o pênalti que levou ao empate em Varginha, Welinton já havia tentado outras arrancadas e sempre levava vantagem sobre o lateral adversário. Fez isso também rodadas antes contra o Internacional no Beira-Rio, criando mil dificuldades para o lateral Cláudio Winck. Naquela ocasião, Welinton mostrou outra faceta, a de bom finalizador, subindo para cabecear e fazer o segundo gol bicolor na partida.

Um dos caminhos para abrir defesas sólidas como as da Série B é o emprego de atacantes habilidosos e rápidos pelos lados da área. Todos os times que têm um jogador com essas características costuma fazer muitos gols. As defesas estão treinadas e habituadas a marcar bolas altas, mas encontram muitos problemas para conter jogadores leves e dribladores.

Welinton tem esses recursos e vem se apresentando em bom nível, embora quase sempre fique em segundo plano, pois Marquinhos Santos não esconde preferir o sistema com um centroavante fixo na área, fazendo o trabalho de pivô e esperando cruzamentos altos.

As convicções do técnico não encontram amparo na realidade fria dos números. Marcão, o centroavante titular, apesar de incansável na movimentação, tem discretíssima participação na artilharia e raramente contribui com assistências que resultam em gol dos companheiros.

De certo modo, Welinton tem um custo-benefício muito mais positivo para o time, pois entra por alguns minutos e ainda assim consegue ser produtivo. É importante observar, porém, que o desempenho na reta final das partidas é facilitado pelo cansaço dos adversários.

Hoje, quando deve entrar como titular ao lado de Bergson e Caion, Welinton ganha a oportunidade de mostrar que pode ser uma opção de ataque e não apenas um trunfo no banco de suplentes.

Tem o desafio também de mostrar que pode render bem mesmo contra marcadores mais recuados, pois o CRB de Mazola – que o conhece bem – dificilmente abrirá mão da vigilância mais forte nas laterais do campo.

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Enfim, um árbitro que reprime e pune o antijogo

O gaúcho Leandro Pedro Vuaden é um dos melhores árbitros da fraca safra de apitadores brasileiros liderada por Sandro Meira Ricci. Destaca-se destaca justamente porque costuma punir com rigor a cera praticada pelos jogadores. Em absoluta consonância com as diretrizes da Fifa, aplica com gosto a compensação de minutos ao final de cada tempo, sem apelar para aqueles protocolares três minutinhos de sempre. Com ele, é de cinco minutos para cima.

Fez isso, com inteira justiça, no jogo Botafogo e Chapecoense, anteontem, punindo com 11 minutos de acréscimos o escancarado antijogo praticado pelos jogadores catarinenses, à frente o goleiro Jandrei, que se “contundiu” até em cobrança de tiro de meta. Se Voaden foi parcimonioso na aplicação do cartão – que o jogador fez por merecer –, não refrescou na hora de computar os minutos que ele havia subtraído do jogo.

O gol botafoguense aos 49 minutos (Vinícius Tanque) completou o castigo.

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Vai acabar sobrando pro estagiário…

Um possível erro de informação na elaboração de ofício à Federação Paraense de Futebol deixou a organização da Copa São Paulo de Futebol Junior em palpos de aranha. Convidou o Papão para o torneio do próximo ano sem atentar para o fato de que só existem duas vagas destinadas ao Pará e estas já pertencem, por critério técnico, a Remo e Desportiva, respectivamente campeão e vice do certame estadual da categoria.

Apesar da informação prestada pela Federação Paraense de Futebol, o equívoco foi reafirmado em ofício datado de ontem, o que agrava ainda mais a lambança, pois praticamente exclui a Desportiva da competição. E, obviamente, a essa altura, até o Papão – que pleiteava participação por convite – entende já ter o direito a disputar o torneio.

O único meio de ajeitar a situação é dando uma vaga aos bicolores, que ficaram em terceiro lugar no campeonato, sem prejuízo da participação da Desportiva, que nada tem a ver com a desorganização da federação paulista.

No fim das contas, como costuma acontecer, a culpa ainda pode ser atribuída ao estagiário de plantão.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 13)

Palmeiras tropeça em casa, de novo

https://www.youtube.com/watch?v=1i4sa9_6r20

Empate atrapalha dupla Fla-Flu

https://www.youtube.com/watch?v=uu2_n28nOdg

Rock na madrugada – Titãs, Isso

Grande canção da fase madura dos Titãs. Composição de Tony Bellotto.