Os dois Paulos

POR LÚCIO FLÁVIO PINTO (via Miguel Oliveira)

O pai, Paulo César Fonteles de Lima, morreu assassinado, em setembro de 1987. O filho, que levava o seu nome, quase exatamente 30 anos depois, hoje. A vida de Paulo foi cortada por três balas, disparadas à queima-roupa, quando ele tinha 39 anos. A de Paulinho foi por um infarto fulminante, aos 45 anos.

O pai perdeu o mandato ao tentar passar de deputado de deputado estadual a federal. Tornou-se mais vulnerável e seus poderosos inimigos se aproveitaram para se livrar de um advogado combativo e de um parlamentar atuante. Paulinho exerceu mandato de vereador de Belém e seguiu a trilha do pai, empunhando as mesmas bandeiras e causas, como militante do Partido Comunista do Brasil.

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Nascido na época mais sombria da ditadura militar e sobrevivendo às torturas da mãe, que o carregava no ventre e enfrentou todas as adversidades, ele era um resistente. Tinha direito a mais tempo de vida e ação. Lamentavelmente, não teve esse direito de conquista.

Persistirá, porém, na memória.

Tempos de convivência pacífica e democrática

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Relato passado ao blog pelo amigo Ronaldo Passarinho, um dos baluartes mais ilustres deste espaço, acerca de sua convivência com os dois Paulos Fonteles, o pai assassinado em 1987 e o filho morto nesta quinta-feira. Com o pai, Ronaldo trocou ideias e argumentos em embates memoráveis na Assembleia Legislativa, nos idos de 1980. Como repórter (à época em O Liberal), cobria o Legislativo e acompanhei de perto a atuação de ambos.

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“Paulo, pai, e eu debatemo dezenas de vezes na tribuna da Assembleia Legislativa e nas universidades. Ao sair da Alepa, em discurso emocionado em aparte, disse-lhe:

– V. Exa. via em mim a própria figura do anticristo da direita e eu V. Exa. o demônio vermelho. Vejo, agora, que vermelho continua, mas não tão demônio. 

Paulo, em resposta ao meu aparte:

– Tive o imenso prazer, inúmeras vezes, de ter debatido com o ilustre deputado Ronaldo Passarinho, que me obrigou a rever certos conceitos, aprofundar-me no estudo de certas conceituações para que pudesse enfrentá-lo corretamente no debate, disse o ‘vermelho’.

Foi o maior elogio que recebi em minha vida parlamentar. Quem conheceu Paulo, sabe que ele não fazia concessões a ninguém. Paulo e eu exercitamos a convivência entre contrários, defendendo com ardor nossas crenças doutrinárias e ideológicas mantendo a amizade e a cordialidade. 

O trecho que citei está reproduzido no livro ‘Contido a Bala’, de Luís Maklouf Carvalho, página 379. 

Paulinho, seu filho, morto hoje, acompanhava o pai e tinha carinho comigo nos muitos encontros que tivemos após a criminosa e brutal tragédia que matou seu pai. 

Paz à sua alma”.

Galeria do rock

Registro inédito de “Satisfaction” está no próximo álbum dos Stones, On Air, que reúne clássicos, capas e gravações raras dos anos iniciais da banda, capturadas ao vivo na BBC de Londres. On Air deve ser lançado no dia 1º de dezembro, mas está disponível para pré-encomenda em vinil amarelo de luxo na edição limitada, exclusivo para cadastrados na loja virtual dos Stones, além de pacotes de álbuns e livros, CD e download digital.

Adeus a um grande camarada

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“Hoje, o dia seria de festa.
É meu aniversário e, até quando ficar velhinha, o esperararei como criança.
Mas hoje o dia é de tristeza pela perda do grande camarada Paulinho Paulo Fonteles Filho
Ele se foi, golpeado por um enfarte fulminante. Seu coração, que tanto suportou injustiças, desmandos e vilezas, não resistiu e parou de bater pela humanidade a qual sempre defendeu.
Sua mãe, tão pequenina e tão gigante, cuidou de mim quase como uma filha durante os 2 anos nos quais fomos vizinhas.
À Angelina Di Angelis , esposa, à mãe, Hecilda, ao irmão João Carlos Haase à toda a família, meus mais profundos sentimentos.
O legado de Paulinho estará em cada um de vocês e em quem, como eu, tive o privilégio de ouvi- lo e admirá-lo.
Amava o povo, amava o Paysandu com uma intensidade comovente.
Nos últimos dias, ainda internado, encontrou forças para perguntar pelo seu time.
E é no céu azul e branco que ele agora vai guardar morada. Muito à vontade, ouvindo ” Joquim” e sabendo que sua missão aqui foi cumprida com louvor: nos ensinar a lutar!
Paulo Fonteles Filho, PRESENTE!”.

Syanne Neno, jornalista

Aos bravos homens de fé

“No dia seguinte a mais um espetáculo lamentável naquele Distrito idealizado por Oscar Niemeyer e da lembrança da morte de Vladimir Herzog por covardes da Ditadura, acordo com a notícia da morte de Paulinho Fonteles. Militante da causa dos Direitos Humanos, tão vilipendiado por dementadores do ódio, Paulo lutou como um bravo pelos mais fracos. Seu exemplo veio de casa: seu pai era um sindicalista e advogado de camponeses, morto de maneira covarde por pistoleiros, em Belém. Niemeyer, Herzog, Paulo, Paulinho. Tinham muito em comum: eram comunistas e bravos homens de fé na justiça social e que, de consolo, nos deixaram seus exemplos de vida e moral. Que sirvam de pilar para evitar que desmoronemos de vez nessa sociedade em demolição”.

Fábio Nóvoa, jornalista

Carros elétricos são mais eficientes e menos poluentes, diz estudo do WWF

WWF-Brasil lança estudo com destaque para vantagens dos elétricos e híbridos e recomendações para políticas públicas

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Os veículos elétricos são a principal tendência da área de transporte no mundo todo. França e Reino Unido anunciaram recentemente que a partir de 2040 não permitirão mais a venda de veículos a combustão, por entenderem que a queima de combustíveis fósseis, que gera os chamados gases de feito de estufa, vai contra a busca por uma economia mais limpa. Em 2016, as vendas mundiais de elétricos atingiram 750 mil unidades. A China foi o maior mercado, com 336 mil novos carros elétricos. Em seguida, vieram Europa e EUA, com 215 mil e 160 mil carros respectivamente.
No Brasil, a incorporação de veículos elétricos – que engloba tanto os carros pequenos, que utilizam bateria, quanto os conectados à rede elétrica, tais como trólebus e VLTs – ainda é ínfima. Alguns defensores do etanol alegam que a disseminação dos elétricos no país prejudicaria o mercado de combustíveis à base de cana, uma tecnologia em que o Brasil é o principal expoente no planeta. O que acontece, no entanto, é que os veículos elétricos, além de poluírem menos, serem mais silenciosos, econômicos e possuírem melhor desempenho do que os modelos convencionais, podem ser usados de forma complementar aos de combustão por etanol, por meio de motores híbridos.
Essa e outras análises estão no novo documento lançado pelo WWF-Brasil: O papel dos veículos elétricos na economia limpa. De acordo com o estudo, veículos elétricos – sejam eles 100% elétricos ou híbridos – são mais eficientes, econômicos e menos poluentes do que um tradicional, dotado de motor a combustão interna.
“Por terem menos partes móveis e não sofrerem o desgaste causado pelo sistema de combustão, os carros elétricos geram cerca de 28% menos custos de manutenção”, comenta o analista de conservação do WWF-Brasil, Ricardo Fujii. Segundo ele, os custos de reabastecimento também são muito inferiores, cerca de metade de um veículo abastecido com etanol ou gasolina. “Além disso, ele é mais silencioso e possui mais torque que um veículo convencional, especialmente nas arrancadas”, acrescenta Fujii.
O estudo também destaca que a adoção de veículos elétricos junto com o uso de etanol em veículos flex pode contribuir para a redução das emissões de gases de efeito estufa.
Uma das análises citadas na publicação mostra que o aumento em 10% da frota de veículos elétricos no estado de São Paulo reduziria o total estadual de emissões em 1,3%, sem provocar impactos significativos na demanda por eletricidade (apenas 2% a mais). Pensando de forma nacional, caso a circulação de veículos elétricos no Brasil alcance ¼ do total da frota de veículos de passeio até 2030, a redução de emissões seria de 30 milhões de toneladas CO2.
“Isso equivale a 2,5% da meta de emissões com a qual o Brasil se comprometeu no Acordo de Paris”, comenta o coordenador do programa Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, André Nahur.
Atualmente, há dois grandes obstáculos para a adoção de veículos elétricos no Brasil: o alto custo de aquisição e a ausência de infraestrutura de recarga. Para Nahur, essas questões só seriam resolvidas com estímulo à produção local e diminuição de impostos, como IPI e IPVA, entre outras ações (ver lista completa abaixo).
“Com as condições atuais, os carros elétricos ou híbridos são inacessíveis para a maioria da população. A diminuição de encargos para produção e venda e a incorporação de outros benefícios pode alavancar o mercado de elétricos, promover novos negócios, incentivar a produção nacional e ainda beneficiar o clima do planeta”, conclui Nahur, lembrando que hoje, veículos elétricos e híbridos estão isentos do rodízio em São Paulo.

Custo de reabastecimento e recarga:

Combustível/distância 400 km 10 mil km 20 mil km
Gasolina R$ 131,80 R$ 3.294,90 R$ 6.589,80
Etanol R$ 133,25 R$ 3.331,31 R$ 6.662,62
Eletricidade R$ 70,67 R$ 1.766,80 R$ 3.533,60

Desse modo, recomenda-se:

REDUÇÃO DO IPI de veículos elétricos e híbridos com motores flex, o qual deve ter alíquota máxima igual à de veículos flex de baixa cilindrada;

REDUÇÃO DO IPVA de veículos elétricos e híbridos com motores flex;

INCORPORAÇÃO DE ESTÍMULOS para a redução de emissões e aumento da eficiência energética no Rota 2030 ou outro programa que venha a ser criado para o setor automotivo;

ADOÇÃO DE VEÍCULOS ELÉTRICOS E HÍBRIDOS com motores flex pelas frotas governamentais, especialmente em veículos utilizados nos centros urbanos, conjugadas a metas de diminuição das emissões da frota por km rodado;

REALIZAÇÃO DE CAMPANHAS DE CONSCIENTIZAÇÃO sobre a possibilidade de consumidores adotarem a tarifa branca a partir de 2018 para aproveitar o desconto oferecido fora do horário de ponta para recarga dos veículos elétricos com menor custo e menor impacto sobre a rede de distribuição;

INCORPORAÇÃO NOS PROJETOS DE NOVOS EDIFÍCIOS comerciais e residenciais de infraestrutura elétrica nas garagens, facilitando a implantação de carregadores com o surgimento da demanda;

DEFINIÇÃO DE PADRÕES para os sistemas de recarga, garantindo a sua compatibilidade entre os diversos modelos de veículos elétricos;

ISENÇÃO DO RODÍZIO veicular nas grandes cidades;

IMPLANTAÇÃO DE INSPEÇÃO VEICULAR obrigatória com isenção para veículos elétricos;

AUMENTO DOS INVESTIMENTOS EM PESQUISA e desenvolvimento para nacionalização dos veículos elétricos e híbridos no Brasil, incluindo o desenvolvimento de veículos híbridos flex.

Sobre o WWF

O WWF-Brasil é uma organização não governamental brasileira dedicada à conservação da natureza, com os objetivos de harmonizar a atividade humana com a conservação da biodiversidade e promover o uso racional dos recursos naturais em benefício dos cidadãos de hoje e das futuras gerações. Criado em 1996, o WWF-Brasil desenvolve projetos em todo o país e integra a Rede WWF, a maior rede mundial independente de conservação da natureza, com atuação em mais de 100 países e o apoio de cerca de 5 milhões de pessoas, incluindo associados e voluntários. 

Protesto na mídia contra arbítrio judicial só alveja Justiça do Trabalho

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Enfim, na grande imprensa, alguém se levanta para protestar contra  o fato de que os juízes acharem que  “não são obrigados a seguir a “literalidade” da lei”.

Ou seja, que estão livres para interpretá-la conforme sua “livre convicção”, para buscar a “vontade concreta da lei” a partir das “balizas constitucionais e legais”.

O título do artigo é duríssimo: “Juízes fora da lei”.

Você está pensando que é um protesto contra Rosa Weber dizer que não existem provas, mas a jurisprudência permite condenar José Dirceu? Ou contra a turma do MP da Lava Jato dizer que não tem provas mas tem convicções? Ou contra as “cognições sumárias” de Sérgio Moro.

Enganou-se.

O protesto é do guru econômico da Globo, Carlos Alberto Sardenberg, mas contra os juízes do trabalho, que definiram pontos em que, no entendimento deles, a reforma trabalhista de Michel Temer se confronta com  a Constituição e ou com princípios da Consolidação das Leis do Trabalho.

Ora, para defender direitos do trabalhador, é inadmissível a interpretação da lei pelos princípios da Justiça. Mas apenas contra ele. Ou será que Sardenberg diria isso da ação da Lava Jato:

“(…)trata-se de um tipo de ideologia que domina boa parte do Judiciário brasileiro. Pode ser assim resumida: o juiz não está lá para aplicar a lei, mas para fazer justiça. Pode parecer muito bonito, mas a ideia é falsa. A verdade é o contrário: fazer justiça é fazer respeitar a lei e os contratos. Não há como escapar disso sem gerar uma enorme insegurança, uma ampla fonte de injustiças e de autoritarismo.”

Mas, a levar-se a sério o que diz o sabe-tudo da Globo, como seria essa história de se condenar alguém pela propriedade de um apartamento que nunca esteve em seu nome? Ou porque teve a “intenção” de doar um prédio a um Instituto? Ou porque tem os recibos de que pagou um aluguel mas estes recibos, claro, têm de ser falsos, porque se está “convencido” que foi um empreiteira quem o deu?

A verdade é que a mídia brasileira é quem se arroga à condição de “fazedora de leis”, que são burocráticas e debilitam o país quando protegem os fracos contra os fortes mas, quando interessa, podem ser torcidas em nome do que o sistema considera “fazer justiça”.

Aliás, no fundo, o que eles gostariam mesmo é de acabar com a Justiça do Trabalho, a única que ainda tem alguma preocupação com o “povão”. (Do Tijolaço)

Mais um bravo que se vai

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Depois de sofrer um infarto fulminante, morreu em Belém na manhã desta quinta-feira (26) Paulo Fonteles Filho, o Paulinho Fonteles, 45 anos, ex-vereador da capital paraense pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Paulinho era um ativo militante em defesa das liberdades democráticas, da igualdade social e dos direitos humanos.

Incansável na preservação dos ideias de seu pai, Paulo Fonteles (assassinado a mando de latifundiários, na década de 80), Paulinho permanecia no trabalho de mobilização e conscientização dos trabalhadores rurais. Era poeta, escritor e advogado. Era uma das vozes mais críticas ao golpe parlamentar que destituiu a presidenta Dilma Rousseff.

Estava hospitalizado há cerca de duas semanas, lutando contra uma broncopneumonia. A informação foi confirmada pelo primo, Ronaldo Araújo.

Torcedor fanático do Paissandu, Paulinho preparava o lançamento de um livro sobre sua atividade política e militância sindical. Nas redes sociais, desde cedo muitas pessoas se manifestaram lamentando a repentina morte de Paulinho. O velório será no salão nobre da Assembleia Legislativa e o enterro acontecerá amanhã (27) no cemitério Santa Izabel.

O pai de Paulinho, também Paulo, foi assassinado em 1987 quando era deputado estadual. Advogado, defendia posseiros. A mãe é Hecilda Veiga, militante comunista e dos direitos humanos. Paulo e Hecilda foram presos e torturados pela ditadura militar e Paulinho nasceu no cárcere.

Paulinho dedicou os últimos anos de sua vida a esclarecer pontos obscuros da Guerrilha do Araguaia, sendo integrante da Comissão da Verdade. Denunciava a injustiça, combatendo a violência policial e dos latifundiários contra posseiros. 

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