Adriano, Eduardo Galeano e uma imprensa que não olha o próprio rabo

13 de outubro de 2017 at 9:33 1 comentário

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POR LÚCIO DE CASTRO, no SportLight

No último dia 12 de setembro, o empresário português Nuno Vasconcellos foi condenado a um ano e quatro meses de detenção. Por um episódio de três anos antes, no dia 6 de fevereiro de 2014, de acordo com boletim de ocorrência no 11º Distrito Policial, Santo Amaro, zona sul de São Paulo.

De acordo com o registro, Nuno Vasconcellos deu pontapé na coxa direita da sua mulher, Daniela Rodrigues Moreira. Em seguida, um soco em seu rosto, fazendo com que ela batesse a cabeça na parede, causando uma lesão na testa. E depois outro soco, desta vez nas costas, caindo no chão. A condenação do empresário, milionário, branco, 53 anos e capaz de pagar os melhores advogados, é em regime aberto.

A folha corrida de Nuno Vasconcellos não para por aí. Acionista do grupo Ongoing, com atividades no mercado financeiro e imobiliário e na mídia. Declarado insolvente no início deste ano pela Justiça de Portugal, assim como sua holding já havia passado pela mesma situação no ano passado. As dívidas foram estimadas em 1,2 bilhão de euros.

Na série de reportagens “Malta Files”, parceria da Agência Sportlight de Jornalismo Investigativo e The Intercept Brasil, foram encontrados no nome dele os registros da empresa Unity 1 LTD, aberta em agosto de 2013, com capital de 1.165 euros. Nos registros em Malta, conhecido como o “Panamá da Europa”, o empresário deu um endereço no bairro do Brooklin, em São Paulo. Os documentos mais recentes de atividades da firma são de novembro de 2015.

No iníco desse ano, Nuno foi alvo de busca e apreensão na Operação Marquês, a Lava Jato portuguesa. Apesar de uma dívida pessoal de 9,7 milhões de euros em Portugal e do conhecido imenso patrimônio, as autoridades daquele país só encontraram no nome do empresário o que a imprensa portuguesa sabiamente e recusando anglicismos tolos chamou de “moto de água”. Que por aqui é macaqueada chamada de “jet ski”.

Acionista de peso também da Portugal Telecom, uma das principais acionistas da OI. Outro escândalo ainda não terminado.

Mais do que isso: ao que consta, já que nunca se sabe ao certo em que negócios ainda está ou não, era o homem na linha de frente do grupo Ejesa, cujas dividias com funcionários, fornecedores e impostos somam mais de R$ 250 milhões. No Brasil, o grupo é proprietário, entre outros veículos, do “Portal IG”, do jornal “O Dia” e do jornal “Meia Hora”.

Pois foi o último citado, matutino popular da coroa de Nuno Vasconcellos, que publicou no dia 22 de setembro a capa de imensa repercussão em que Adriano, o Imperador, aparecia com rosto encoberto ao lado do traficante Rogério 157. De acordo com Adriano, em entrevista ao “Conversa com Bial”, foto feita em uma festa na Rocinha anos antes. Segundo o ex-jogador, a pedido do traficante.

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Embora não existisse qualquer elemento além de uma fota de uma pessoa com exposição pública e portanto sujeita a tais pedidos, nenhum registro policial, nenhum indício de prática criminosa de Adriano ou nenhuma condenação, o jornal de Nuno Vasconcelos estampou a famosa frase dita pelo jogador anos antes: “Que Deus perdoe as pessoas ruins”.

Ou seja: exatos dez dias depois do dono do jornal, com tal folha corrida nos negócios, alvo da Lava Jato portuguesa, ser condenado por agressão a uma mulher, seu veículo batia o martelo sobre Adriano como um fora da lei.

É provavelmente uma das histórias mais inacreditáveis da também imensa folha corrida da imprensa brasileira e seus julgamentos morais permanentes. Sem jamais olhar para o próprio rabo. Para os pecados nossos de cada dia, para folhas corridas de alguns executivos e jornalistas dignas de corar até mesmo qualquer Rogério 157.

Não me lembro de algo tão emblemático: o dono de um jornal, envolvido em diversos escândalos, é condenado por agressão a uma mulher. Dez dias depois o jornal de sua propriedade bate o martelo e o joga na vala comum dos criminosos sem uma prova. É algo tão surreal que dá engulho.

Olhar para o próprio rabo, com o perdão do péssimo gosto da expressão mas a que cabe agora. De olhar e fazer autocrítica das omissões nossas de cada dia. Que de inocentes não tem nada. Muito mais do que isso: omissões que um dia descobriram que o “namoradinho do Rio” Sérgio Cabral era o que todos sabiam mas ela protegia, um ladravaz contumaz. A omissão que permitiu o crime maior da destruição do Maracanã apenas para um bandido e sua organização criminosa lucrarem. Omissões que protegeram Cunha enquanto ele era útil ao intento golpista e a convocação para as ruas nas tardes de domingo na programação da TV. Para chutar no momento seguinte.

As omissões de cada dia que deixaram Havelange, Teixeira, Nuzman e tantos outros reinarem, entrarem nas casas de todos como os mais capazes gestores. “O homem que nunca sua”, como Havelange foi tratado um dia ao vivo. Que tratou Nuzman por duas décadas como o gestor ISO 9000, o homem eficiência, que foi pautada por ele em cada passo. Que tratou Coaracy Nunes como o “Apóstolo das Águas” (teve isso!) e Ary Graça como protagonista de uma revolução de gestão. E que passou 20 dias de umas Olimpíadas com tom de epopeia.

De julgamento moral em julgamento moral, de linchamento em linchamento, de adjetivar e botar como criminoso que não tinha crime conhecido, foram se criando cuervos. Até chegarmos ao dia de hoje. Em que o ódio, o obscurantismo e o fascismo batem no portão deles mesmos. Dos criadores de cuervos, agora insultados. Porque cuervos são cuervos, sempre querem mais, tem sanha de sangue e opressão, tem desejo de trevas. De “marchar com a família”, de determinar o que é arte, o que pode ou não pode. Quem cria cuervos…

Existem tantos outros. Adriano talvez seja um símbolo bom disso tudo. Não há aqui nenhuma defesa de Adriano. Até porque, até segunda ordem, não há nenhum crime de Adriano. Ao contrário do que geralmente vem em profusão quando se fala em Adriano (“defendendo bandido”, etc), sem que ninguém tenha uma prova de crime. Não me venham com fotos, provas de “estar ao lado”. Como vemos pelo dono do jornal que julgou Adriano, em redações muitas vezes também “estamos ao lado” e nem por isso somos criminosos.

Escrevi algumas vezes sobre isso. Sob o sentimento de indignação de estar no meio de linchamentos. Adriano é só talvez o mais simbólico. Talvez seja tarde demais para reclamar do monstro que se avizinha. Acho sempre graça em tantos que se calaram ou agitaram seus blocos quando o monstro era gestado e agora aparecem em vídeos falando em liberdade de expressão.

Não me lembro de algo tão emblemático como esse caso aqui tratado: o dono de um jornal, envolvido em diversos escândalos, é condenado por agressão a uma mulher. Dez dias depois o jornal de sua propriedade bate o martelo e joga alguém sem qualquer crime cometido na vala comum dos criminosos sem uma prova. É algo tão surreal que dá engulho.

Poderíamos citar mil casos nessas omissões nossas de cada dia, nesses julgamentos morais e linchamentos que foram criando cuervos. Por hora fiquemos nesses dez dias que separam a condenação da justiça ao empresário espancador de mulher e a condenação que a empresa dele proferiu a alguém sobre o qual não se conhece crime.

Encerro com Eduardo Gaelano. Depois dele recomenda-se não acrescentar nada mais.

Corria o ano de 2010. Peço licença para o sempre antipático soar das trombetas da vaidade. Afinal, não se fala em conversar, trocar ideias com Eduardo Galeano tentando ser natural. Seria mais antipático. Nesse privilégio que a vida me deu de uma amizade compartilhada em boas conversas por aqui e em Montevidéu, falamos muito de Adriano e o que ele representava.

Um dia, trocando e-mails, contei que tinha escrito algo sobre Adriano e o que representava, muito em cima do que tínhamos conversado antes numa tarde do Café Brasileiro, em Montevidéu, que Galeano frequentava regularmente e passava tardes na boa resenha. Enviei pra ele. Galeano me enviou as palavras abaixo. Pedi licença para publicar, concedida. Saiu no site da ESPN, em 10 de março de 2010. Contundentes, carregadas do sentimento de amor e justiça dos grandes, de alguém que sabia exatamente o que estava por trás daqueles julgamentos.

Republico agora. Primeiro a versão original, a mensagem em espanhol. E depois minha livre tradução, já pedindo aos gato-mestres de plantão que nos poupem das correções de alguém que não fala espanhol e só cometeu uma livre tradução porque desfrutar de tais palavras se faz necessário quando as trevas batem nossa porta.

Eduardo Galeano sobre Adriano:

Lúcio, querido:
gracias por enviarme ese comentario tuyo, valiente y claro.

yo creo que el caso de adriano es revelador, como bien dices, de prejuicios y juicios que van más allá de las anécdotas.

el bombardeo que adriano sufre revela, por ejemplo:

*la obsesión universal por la vida privada de la gente de éxito, y sobre todo por los deportistas triunfantes que provienen de la miseria y que habían nacido estadísticamente condenados al fracaso;

*se les exige que sean monjitas de convento, consagradas al servicio de los demás y con rigurosa prohibición del placer y de la libertad;

*los puritanos que los vigilan y los condenan son, por lo general, mediocres cuyo más audaz desafío, su más peligrosa hazaña, consiste en cruzar la calle con luz roja, alguna vez en la vida, y eso mucho tiene que ver con la envidia que provoca el éxito ajeno;

*y mucho tiene que ver con la demonización de los pobres que no reniegan de su más profunda identidad, por muy exitosos que sean;

*y mucho tiene que ver, también, con la humana necesidad de crear ídolos y el inconfesable deseo de que los ídolos se derrumben.

abraço do teu amigo
eduardo galeano

Tradução:

“…Eu creio que o caso de Adriano é revelador, como bem disse, de preconceitos e julgamentos que vão além das anedotas.

O bombardeio que Adriano sofre revela, por exemplo:

– A obsessão universal pela vida privada dos que tem êxito, e acima de tudo pelos desportistas vencedores que vem da miséria e que tinham nascido estatisticamente condenados ao fracasso.

– Exige-se deles que sejam freiras de convento, consagrados ao serviço dos demais e com rigorosa proibição do prazer e da liberdade.

– Os puritanos que os vigiam e os condenam são, em geral, medíocres cujo desafio mais audacioso, sua mais perigosa proeza, consiste em cruzar a rua com luz vermelha, alguma vez na vida, e isso tem muito a ver com a inveja que provoca o êxito alheio.

– Tem muito a ver com a demonização dos pobres que não renegam sua mais profunda identidade, por mais exitosos que sejam.

– E muito tem a ver, também, com a humana necessidade de criar ídolos e o inconfessável desejo de que os ídolos se derrubem.

Um abraço do teu amigo,

Eduardo Galeano

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Só por hipótese… O novo Nobel de Economia tem uma coisa importante pra te ensinar

1 Comentário Add your own

  • 1. Pedro Paulo  |  13 de outubro de 2017 às 11:06

    hahahahaha…Nunca leram os jornais locais.

    Curtir

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