
Direto e reto



A Diretoria de Registro e Transferência da CBF divulga o relatório final de transações internacionais realizadas pelos clubes brasileiros durante a janela de transferências aberta entre 12 de janeiro e 4 de abril. Os dados mostram que mais atletas deixaram o país nessa primeira janela em relação a 2016. Foram 614 transferências para o exterior englobando registros de amadores, de profissionais como amadores, de atletas para futsal e transferências feitas no sistema da FIFA (TMS). O total recebido pelos clubes foi de R$ 311.421.250,00.
Destacam-se nesse relatório os números de consultas por jogadores sem registro na CBF. Foram 146 casos desse tipo. O número preocupa o diretor de Registro, Transferência e Licença de Clubes da CBF, Reynaldo Buzzoni:
– Esse número tem aumentado muito. Estamos alertando a FIFA e sempre falo sobre isso por onde eu passo, seja nas federações nacionais ou internacionais. Como esse jogador entra no país, vive e ganha dinheiro com o futebol sem nunca ter jogado em seu país de origem? Quem está contratando esses atletas? Isso é muito estranho – questiona.
No período, 530 jogadores entraram no país e movimentaram R$ 124.753.463,00 nos cofres dos clubes brasileiros, sendo 4 empréstimos envolvendo valores e 21 transações de compras de atletas. Confira os detalhes abaixo:
TRANSFERÊNCIAS PARA O EXTERIOR : 614
Amadores: 126
Profissionais como amadores: 118
Futsal: 63
TMS: 307
Consulta de jogadores sem registro na CBF: 146
TMS (Sistema FIFA):
Jogadores sem contrato: 176
Empréstimos sem valores: 50
Retorno de Empréstimo: 35
Empréstimos com valores: 21 – R$ 20.442.000,00
Venda de jogadores: 25 – R$ 290.979.250,00
TOTAL RECEBIDO: R$ 311.421.250,00
TRANSFERÊNCIAS PARA O BRASIL: 530
AMADORES:29
FUTSAL: 22
TMS: 479
TMS (Sistema FIFA):
Jogadores sem contrato: 335
Empréstimo sem valores: 38
Retorno de empréstimo: 81
Empréstimo com valores – 4 – R$ 1.246.200,00
Compra de jogadores: 21 – R$ 123.507.263,00
TOTAL GASTO: R$ 124.753.463,00
——–
Relatório FIFA – Transferências internacionais – Brasil – 2016, 2015 e 2014
Entrada de jogadores
2016 – 399
2015 – 407
2014- 426
Portugal (54), Japão (26) e Estados Unidos (21) lideram a lista de origem dos atletas
Saída de jogadores
2016 – 186
2015 – 208
2014 – 223
Japão (34), Portugal (17) e Coreia (16) lideram lista de destino dos atletas
Considerando todas as transferências feitas desde o dia 1º de janeiro, os clubes brasileiros já trouxeram 411 atletas e negociaram 303 para o exterior.
“O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso”.
Mário Quintana

Por René Magritte, 1956.

POR RUDOLFO LAGO – Os Divergentes
Circula pela internet um texto que vale leitura. É importante neste momento em que deparamos com a lista do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin e nos perguntamos o que fazer. Alguns dirão que a lista não é surpresa, que de há muito já se sabia que a política brasileira era exercida a partir de uma promíscua relação entre financiadores e financiados. Mas a novidade é que tal relação deixou de ser tolerada. E a lista coloca nas garras da Justiça praticamente toda a elite política brasileira (elite aqui não exatamente quanto à qualidade mas quanto ao poder exercido). E o problema agora é saber o que acontecerá em seguida.
O texto da Unicamp parece ser o início de uma necessária reflexão sobre o atoleiro em que nos metemos. Ele colhe cinco depoimentos de cientistas ligados à Universidade de Campinas sobre a lista de Fachin e seus efeitos. Pode ser lido aqui.
As diferentes visões dos professores Eduardo Fagnani (Economia), Luiz Marques (Filosofia e Ciências Humanas), Reginaldo Moraes (Ciência Política), Roberto Romano (Filosofia e Ciências Humanas) e Sebastião Velasco e Cruz (Ciência Política) centram-se em pontos diversos do problema. Mas trazem em comum a constatação de que o relatório de Fachin e os elementos que o originaram, na investigação da Operação Lava-Jato, apontam para práticas generalizadas dos partidos políticos brasileiros.
Todos eles – da esquerda para a direita -, ou pelo menos todos os que de fato se tornaram perspectivas de poder, afundaram num sistema em que a disputa ideológica perde terreno para certo jogo de conveniências menores. Um jogo em que passa a valer mais a mera permanência no poder. Um jogo praticado por partidos sem consistência programática, formados por caciques regionais que não têm maiores interesses além de simplesmente manterem-se caciques. Um jogo de desvios de recursos, seja para a mera manutenção dessas posições política seja para o enriquecimento pessoal mesmo.
“Como governar o país com 30 partidos, em geral não ideológicos, não programáticos, apenas fisiológicos?”, pergunta o professor Eduardo Fagnani. Como observa o professor Luiz Marques, o vaticínio do senador Romero Jucá na sua famosa conversa com o ex-presidente da Transpetro Sergio Machado não se confirmou: a crise não se estancou com a entrega da cabeça da ex-presidente Dilma Rousseff e do PT. Porque aparentemente já não se aceita que o país seja governado por “30 partidos, em geral não ideológicos, não programáticos, apenas fisiológicos”. Para o professor Reginaldo Morais, diante da amplitude de tudo, as negociações não estão mais claras. “O país está em situação de quase ilegalidade”, observa o professor Roberto Romano. “A situação está muito embaralhada, justamente porque o Judiciário, que deveria ser um elemento decisivo na solução, passou a fazer parte – essencial – do problema”, conclui Sebastião Velasco e Cruz.
A saída? Pode estar na sociedade. “Certamente, a reforma política não pode passar pelo Congresso, não pode passar pelos partidos políticos”, considera Eduardo Fagnani. Para que a sociedade, porém, possa ser ator determinante nesse processo, é necessário sair do jogo tolo e maniqueísta do Fla x Flu que por aqui se instalou. O país precisa de menos chefes de torcida e de mais artigos como o da revista da Unicamp.

Atribui-se a Kant a afirmação de que “quanto mais civilizados se tornam os homens, mais eles se tornam atores. Querem exibir-se e fabricar uma ilusão”. Essas palavras ganharam corpo e densidade histórica no impeachment de Dilma Rousseff.
A eleição de 2014 foi um duro embate. De um lado, a candidata à reeleição propunha a continuidade de um governo que havia tirado milhões de brasileiros da miséria. De outro, Aécio Neves propunha um claro retorno ao neoliberalismo do período FHC.
Ganhou Dilma Rousseff. O descontentamento das elites conservadoras e dos derrotados explodiu. Queriam deslegitimar o resultado das urnas. Não conseguiram. Iniciaram, então, a conspiração pelo impeachment.
Inicialmente a conspiração vinha dos políticos derrotados. Mas, com o avançar da Lava Jato e a firme posição da presidenta em não obstá-la, outros a ela se somaram. Queriam por fim à “sangria da classe política brasileira” causada pelas investigações de corrupção.
Foi Eduardo Cunha a sua mola propulsora. Apoiador de Aécio Neves, eleito presidente da Câmara contra o governo, não escondia de ninguém o seu descontentamento com as investigações. Usou seu poder para desestabilizar o governo. Criou um clima de ingovernabilidade não permitindo a aprovação de medidas de combate à crise, e ao pautar a votação de projetos que arrebentavam a economia do país. E após exigir, sem sucesso, que o governo impedisse a abertura do seu processo de cassação, abriu o processo de impeachment.
Em um país marcado pela corrupção, as acusações dirigidas contra Dilma Rousseff eram risíveis. Ela não foi acusada de enriquecimento indevido, mas da prática de falsos ilícitos orçamentários. Foi acusada de atos praticados pelos governos anteriores, sem que, até então, ninguém tivesse questionado nada a respeito. Foi, inclusive, acusada de ter praticado um crime, sem que nenhum ato seu tivesse sido encontrado.
Um verdadeiro escândalo. Aliás, eram tão frágeis as acusações que os defensores do impeachment passaram a se escudar na desculpa de que a destituição se daria, na verdade, não por estes “crimes”, mas pelo “conjunto da obra”. Agiam como se estivessem no parlamentarismo, uma vez que, no presidencialismo, um impeachment apenas pode ocorrer diante de atos ilícitos provados, gravíssimos e dolosos.
Consumou-se, então, o impeachment, com clara ofensa à Constituição. Para quê? Para tirar o país da crise e da corrupção, diziam os “ilusionistas” que articularam, “para o bem do povo”, o golpe parlamentar.
Não só não salvaram o país, como o afundaram de vez. Seguindo o programa neoliberal do candidato derrotado em 2014, o governo Temer se esforça para tirar direitos da classe trabalhadora. Não soluciona a crise econômica e cria uma crise social.
Quando fizemos a defesa de Dilma Rousseff no processo de impeachment, afirmamos que nenhum governo ilegítimo tiraria o Brasil da crise. Afirmamos que um golpe articulado pelos que diziam combater a corrupção sob a luz do sol, mas se locupletavam a mancheias na calada da noite, colocaria em descrédito as instituições brasileiras.
E assim foi. Pagamos hoje o preço da inconsequência oportunista e da hipocrisia. A crise se agravou e os Poderes do Estado, diante do descrédito da institucionalidade, sobrevivem em conflito. Um governo fraco que perdeu a bússola, ao ver seus timoneiros e seguidores chafurdarem na lama. Paga-se o preço da maldição democrática, pela qual quem fere a democracia, cedo ou tarde, por ela será destruído. E para quem imaginava que o futuro colocaria os “atores” do golpe no banco dos réus, antes do que se esperava, as palavras atribuídas a Kant vieram a ter um sentido de lamentável verdade histórica. (Transcrito de Os Divergentes)

Lá, em Vila Isabel,
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba.
São Paulo dá café,
Minas dá leite,
E a Vila Isabel dá samba.
A Vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente
(Noel Rosa, em “Feitiço da Vila”)
O empresário e ex-executivo Marcelo Odebrecht revelou em depoimento que a empreiteira chegou a perder o controle do esquema de corrupção revelado pela Operação Lava Jato e descobriu que houve roubo interno no Departamento de Operações Estruturadas, conhecido como ‘setor de propina’.
Odebrecht fez a declaração ao Ministério Público Federal dentro de acordo de delação premiada no âmbito da Lava Jato. Os depoimentos dos ex-executivos da empresa basearam a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin de autorizar a investigação de 8 ministros, 3 governadores, 24 senadores e 39 deputados. (Do DCM)

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