Por que aceitamos tão passivamente os abusos de Temer, Moro, Gilmar, Globo etc?

POR PAULO NOGUEIRA, no DCM

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Etienne de La Boétie é o pai dos “99%” – a vasta maioria da sociedade para a qual cabe uma pequena parcela de um bolo quase todo devorado pelo restante “1%”, para usar expressões vinculadas a um movimento que marcou intensamente o mundo moderno, o “Ocupe Wall Street”.

La Boétie escreveu aos 18 anos, em 1548, um pequeno grande livro chamado “Servidão Voluntária”. Nele, La Boétie sustentava que são as pessoas que dão poder aos tiranos. Por isso elas são mais dignas de desprezo do que os ditadores de ódio.

Por essa ótica, somos nós mesmos os culpados por Temer, Moro, Aécio, Gilmar e outras calamidades do gênero. Podemos incluir nesta conta a mídia que temos, a começar pela Globo.

Foi o primeiro livro francamente libertário. Foi usado pelos protestantes franceses como uma inspiração para reagir à violência dos católicos, expressa tenebrosamente no Massacre de São Bartolomeu, na segunda metade do século XVI. Milhares de protestantes que tinham acorrido a um casamento da família real francesa foram mortos por forças católicas.

Mais tarde, o tratado circulou entre revolucionários em vários momentos da história. Em 1789, por exemplo. Os teóricos do anarquismo foram também fortemente influenciados por la Boétie. O autor avisa, logo no início de “Servidão Voluntária”, que seu objetivo é entender como “tantas pessoas, tantas vilas, tantas cidades, tantas nações sofrem sob um tirano que não tem outro poder senão o que a sociedade lhe concede”.

La Boétie formou-se com louvor advogado pela Universidade de Toulouse, e depois foi um juiz especialmente admirado pela integridade. Arbitrou, por seu caráter libertário e equânime, muitas disputas entre católicos e protestantes.

Morreu aos 33 anos. Deixou todos os seus papéis a um amigo que o imortalizaria num ensaio sublime sobre a amizade: Montaigne. Tinham-se aproximado na juventude, depois que Montaigne leu com encanto uma cópia manuscrita de “Servidão Voluntária”. É com base na amizade entre ele e la Boétie que Montaigne escreveu seu célebre tratado sobre a amizade. “Dois amigos formam uma unidade tão absoluta que é como se fossem dois tecidos em que é impossível ver a costura que os junta”, disse Montaigne.

Montaigne tinha 31 anos quando seu amigo morreu. Ficou arrasado a ponto de se recolher e largar tudo que fazia. A dor da morte de la Boétie acabaria sendo vital para que ele começasse a escrever seus Ensaios.

O livro de La Boétie foi lido durante muito tempo em edições clandestinas por pequenos grupos de gente culta e rebelde. Um editor francês, muito tempo depois da morte de Montaigne, teve a idéia de publicar o tratado de La Boétie como um apêndice dos Ensaios, logo depois do que tratava da amizade e do próprio La Boétie.

Foi então que “Servidão Voluntária” ganhou reconhecimento em grande escala.

Quando os “99%” se insurgem contra a desigualdade em várias partes do mundo, eles podem até não saber – mas estão prestando um tributo a um gênio que ainda na universidade compôs linhas perenes contra a tirania e os tiranos.

Que La Boétie um dia nos inspire: é meu maior desejo neste momento.

No fogo cruzado

POR GERSON NOGUEIRA

Os adversários são emergentes, têm poucos títulos e não se comparam em tradição e torcida ao Papão, mas representam obstáculos respeitáveis nas duas competições em disputa, Copa Verde e Campeonato Paraense. A incerteza é maior porque são cruzamentos eliminatórios na fase semifinal dos dois torneios.

No certame estadual, o duelo será com o São Raimundo, que faz campanha sólida e tem um elenco de bom nível para a competição. Já na Copa Verde o Papão terá pela frente o surpreendente Santos do Amapá, que eliminou o Remo na semana passada.

Tecnicamente, o São Raimundo parece mais credenciado. Tem elenco mais homogêneo, mesclando experiência e juventude, sob o comando de Ricardo Lecheva, técnico que já conquistou o Parazão. Além disso, o Pantera terá uma torcida vibrante ao seu lado no confronto inicial da semifinal, marcado para o estádio Barbalhão, em Santarém.

O Santos não poderá ter o incentivo do torcedor amapaense, que tanto apoiou o time contra o Remo. Pelo regulamento geral das competições da CBF, o estádio Zerão não tem capacidade para sediar a semifinal da CV – por essa razão, o jogo foi transferido para S. Luís (MA). A lotação mínima exigida é de 10 mil pessoas, mas o Zerão só dispõe de 4 mil lugares.

Ao Papão, a essa altura, pouco importa o lugar onde os jogos serão realizados. O time é o representante nortista na Série B e o atual campeão da Copa Verde. Espera-se que mostre um futebol à altura desse cartaz. Favorito nas duas competições, terá que provar isso na prática.

Um dado reforça ainda mais o favoritismo bicolor. Nas duas competições, os jogos de volta serão realizados em Belém, sob o fervor e a pressão da massa alviceleste. Não é pouca coisa.

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Um ranking confuso e sob suspeita

Há muito tempo que o tal ranking de seleções que a Fifa desperta críticas e questionamentos. Tudo por se basear em critérios estapafúrdios, que nivelam competições inteiramente desiguais disputadas em todo o mundo. Só isso explica a incrível longevidade de Bélgica (7ª) e Colômbia (5ª) no top 10. Não contam os títulos obtidos, mas pontuações a cada jogo.

Desafio alguém a comprovar um feito expressivo na história da seleção belga que justifique sua insistente presença entre as melhores equipes do planeta. Em 2015, os belgas chegaram a liderar o ranking, meses depois de terem sido eliminados nas quartas de final da Copa no Brasil. A Colômbia, que cumpre campanha razoável nas Eliminatórias Sul-Americanas, também não ostenta retrospecto compatível com sua classificação.

O problema é que desde 2013 o tal ranking passou a definir os cabeças-de-chave no maior torneio de futebol do mundo, tanto que Bélgica e Suíca, seleções de nível médio, foram nomeadas para liderar chaves em 2014.

Defendo critérios mais rígidos e meritórios. Ranking só merece respeito se levar em conta o histórico de resultados e conquistas no futebol. Países que nunca chegaram nem perto de uma final de competição mundial ou mesmo continental (Copa do Mundo, Copa das Confederações, Eurocopa ou Copa América) não poderiam estar à frente de seleções campeãs do mundo.

Os cálculos são confusos e os critérios favorecem a valoração dos jogos e não dos títulos. Como a própria Fifa anda a rever conceitos já seria hora de corrigir e ajustar o tal ranking, motivo de piada entre os que levam futebol a sério. Do contrário, ficará a impressão de que a classificação pode ainda estar sob a influência das armações obscuras que mancharam a história da entidade desde a gestão de João Havelange.

Não por acaso, existem suspeitas de que o ranking seja alvo do interesse direto do poderoso mercado de apostas clandestinas.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda a atração, com as participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba baionense. Copa Verde e Parazão em debate. Excepcionalmente hoje, o programa vai ao ar às 21h30, na RBATV.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 09)