Um fascista mora ao lado

nazismo-fascismo-700x300_c

POR VLADIMIR SAFATLE

Há alguns dias, foi publicada a última pesquisa CNT/MDA para a eleição presidencial de 2018. Três fenômenos são dignos de nota: a ascensão de Lula, que venceria hoje em todos os cenários, a queda de todos os candidatos ligados de forma ou outra ao atual desgoverno e a consolidação do sr. Jair Bolsonaro em segundo lugar, em empate técnico com Marina Silva.

Uma leitura mais detalhada da pesquisa revela fatos ainda mais surpreendentes. Bolsonaro é o candidato mais votado dentre aqueles que possuem ensino superior (20,7%) e aparece empatado com Lula na escolha dos que ganham acima de cinco salários mínimos (20,5%).

Já há algum tempo, o termo “fascista” é utilizado no embate político de forma meramente valorativa, e não descritiva. Ou seja, não se trata de descrever algum tipo específico de fenômeno político, mas simplesmente de desqualificar aquele que gostaríamos de retirar do debate político.

No entanto, há sim um uso descritivo do termo, há situações nas quais devemos nomear claramente o que, no final das contas, é a pura e simples adesão a práticas facilmente qualificadas como fascistas. Pois poderíamos dizer que todo fascismo tem ao menos três características fundamentais.

Primeiro, ele é um culto explícito da ordem baseada na violência de Estado e em práticas autoritárias de governo. Segundo, ele permite a circulação desimpedida do desprezo social por grupos vulneráveis e fragilizados. O ocupante desses grupos pode variar de acordo com situações históricas específicas. Já foram os judeus, mas podem também ser os homossexuais, os árabes, os índios, entre tantos outros. Por fim, ele procura constituir coesão social através de um uso paranoico do nacionalismo, da defesa da fronteira, do território e da identidade a eixo fundamental do embate político.

Neste sentido, não seria difícil demonstrar todo o fascismo ordinário do sr. Bolsonaro. Sua adesão à ditadura militar é notória, a ponto de saudar e prestar homenagens a torturadores. Não deixa de ser sintomático que pessoas capazes de se dizerem profundamente indignadas contra a corrupção reinante afirmem votar em alguém que louva um regime criminoso e corrupto como a ditadura militar brasileira (vide casos Capemi, Coroa-Brastel, Paulipetro, Jari, entre tantos outros).

Bem, quem começa tirando selfie com a Polícia Militar em manifestações só poderia terminar abraçando toda forma de violência de Estado.

Por outro lado, sua luta incansável contra a constituição de políticas de direito, reparação e conscientização da violência contra grupos vulneráveis expressa o desprezo que parte da população brasileira sempre cultivou, mas que agora se sente autorizada a expressar.

Por fim, o primarismo de um nacionalismo que expressa o simples culto do direito secular de mando, algo bem expresso no slogan “devolva o meu país”, fecha o círculo.

Ora, o fato significativo é que a maioria da classe média brasileira com sua semiformação característica assumiu de forma explícita uma perspectiva simplesmente fascista.

Ela operou um desrecalque, já que até então se permitia representar por candidatos conservadores mais tradicionais. Essa escolha é resultado de uma reação à “desordem” e à abertura produzida pela revolta de 2013.

Todo evento real produz um sujeito reativo, sujeito que, diante das possibilidades abertas por processos impredicados, procura o retorno de alguma forma de ordem segura capaz de colocar todos nos seus devidos lugares. Nesse contexto, a última coisa a fazer é acreditar que devemos “dialogar” com tal setor da população.

Faz parte de um iluminismo pueril a crença de que o outro não pensa como eu porque ele não compreendeu bem a cadeia de argumentos.

Logo, se eu explicar de forma pausada e lenta, você acabará concordando comigo. Bem, nada mais equivocado. O que nos diferencia é a adesão a forma de vida radicalmente diferentes. Quem quer um fascista não fez essa escolha porque compreendeu mal a cadeia de argumentos. Ele o escolheu porque adere a formas de vida e afetos típicos desse horizonte político. Não é argumentando que se modifica algo, mas desativando os afetos que sustentam tais escolhas.

De toda forma, há de se nomear claramente o caminho que parte significativa dos eleitores tomou. Essa radicalização não desaparecerá, mas é embalada pelo espírito do tempo e suas regressões. Na verdade, ela se aprofundará. Contra ela, só existe o combate sem trégua.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2017/03/1863080-um-fascista-mora-ao-lado.shtml 

Famílias das vítimas da tragédia entram na Justiça contra a Chapecoense

679301-970x600-1

O filho do técnico Caio Junior, Matheus Saroli, criticou duramente os dirigentes da Chapecoense em postagem no Facebook. O treinador morreu no voo da delegação do clube que se acidentou em Medellín, na Colômbia, em novembro do ano passado. Segundo Matheus, os dirigentes não estão priorizando o atendimento e as pendências com as mais de 50 famílias de vítimas da tragédia (no total, morreram 71 pessoas). Na postagem, Matheus mira o esforço da atual diretoria para valorizar o marketing e a captação de recursos. Faz menção à contratação de um diretor artístico para a promoção do evento que recepcionou o Atlético Nacional para jogo válido pela Recopa Sul-Americana – e vencido pela Chapecoense, ontem, por 2 a 1.

“Hoje vou postar sobre um assunto no mínimo inesperado, mas poderia usar outros adjetivos como ‘triste, ridículo, absurdo, ganancioso, entre outros’. Como já deixei claro em uma entrevista recente, o foco do clube é na reconstrução. (…) Hoje o clube é dirigido por pessoas que não têm ligação com as vítimas. A ligação deles é com o marketing, com a expansão, com o retorno, com a captação, blá blá blá… Impressionante o quanto eles estão empenhados com a reconstrução do clube, que continua vivo, mas não a construção de uma imagem de todos os guerreiros que doaram a vida pelo clube. Pela construção de famílias sem pais para filhos pequenos e mães desamparadas, de famílias sem seus filhos e irmãos queridos”, diz Matheus.

Ele também critica as ações de marketing da diretoria, que inclui show pirotécnico, trio elétrico e até patrocínio em carros de corrida. Reclama que o clube só se preocupe em manter os salários em dia de elenco e comissão técnica, sem dar atenção ao drama das famílias dos jogadores mortos na tragédia. Faz referência ao erro na escolha da aeronave fretada – um assunto que o clube insiste em evitar.

Pessoas da cidade que acompanharam o clima festivo em torno da presença do Atlético Nacional também fizeram críticas, considerando estranho que a tragédia hoje seja utilizada de forma abertamente promocional.

A família de Caio Junior entrará com ação na Justiça reclamando indenização de R$ 30 milhões. O valor reivindicado se baseia em pareceres de outras indenizações concedidas por tribunais brasileiros. Viúvas dos atletas Bruno Rangel, Gil e Ananias também entraram na Justiça contra o clube catarinense. (Com informações da Folha de SP)

O fascista na comunidade judaica

bolsonaro_nazista-compressed

POR GUILHERME COHEN, no Facebook

Fiz questão de ver toda a gravação do fascista ontem no clube da comunidade judaica. São tantas falas de ódio e extremistas que é difícil selecionar. Mas escolhi as piores barbaridades e coloco abaixo:

“Eu tenho 5 filhos. Foram 4 homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”

“O pessoal aí embaixo (jovens de movimentos juvenis, torturados da ditadura militar, ativistas dos direitos humanos), eu chamo de cérebro de ovo cozido. Não adianta botar a galinha, que não vai sair pinto nenhum. Não sai nada daquele pessoal.”

“Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Nem pra procriador ele serve mais”.

“Alguém já viu um japonês pedindo esmola por aí? Não, porque é uma raça que tem vergonha na cara. Não é igual a essa raça que tá aí embaixo, ou como uma minoria que tá ruminando aqui do lado”

“Pedi prum assessor meu dar um pulo ali no bar, comprar um sanduíche de mortadela que eu vou jogar pela janela.”

“Se eu chegar lá não vai ter dinheiro pra ONG. Esses vagabundos vão ter que trabalhar. Pode ter certeza que se eu chegar lá (Presidência), no que depender de mim, todo mundo terá uma arma de fogo em casa, não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola.”

“Tinhamos na presidência um energúmeno que são sabia contar até 10 porque não tinha um dedo”

“Se um idiota num debate comigo falar sobre misoginia, homofobia, racismo, baitolismo, eu não vou responder sobre isso”

“Eu não tenho nada a ver com homossexual. Se bigodudo quer dormir com careca, vai ser feliz.”

Terminou sob aplausos e gritos de “Mito, mito, mito”.

Musas do blog – Matilde Gioli

matilde-gioli

rischiatutto-matilde-gioli-matilde-gioli

Protagonista do filme “O Capital Humano”, de Paolo Virzi, Matilde Gioli (26) é uma das mais festejadas, talentosas e belas atrizes do novo cinema italiano. Natural de Milão, com um quê de Claudia Cardinale e Monica Vitti, Gioli tem brilhado também em especiais para a TV, além de participações de destaque em outras produções.

matilde-gioli_1586226

Vale a pena ver – “O Capital Humano”

20151028-capitale-600x338

POR MATHEUS BONEZ – site Papo de Cinema

O cenário é um salão de luxo recheado de sujeira pós-festa. Copos no chão, pratos com restos de comida, papel picado pra todo lado. O serviço de limpeza precisa andar rápido para deixar tudo pronto. Um dos trabalhadores resolve não fazer hora-extra, vai embora em sua bicicleta e é atropelado por um carro em alta velocidade. A sequência inicial de Capital Humano, novo filme do italiano Paolo Virzì não poderia ser mais metafórica. Pois é a partir da sujeira proporcionada pela classe alta que eventos tomam proporções catastróficas e atingem a camada mais pobre da população. E este não é o único foco da produção vencedora do David di Donatello Awards, o Oscar Italiano. A crítica aos valores do ser humano tem como pano de fundo a crise econômica europeia, em especial a italiana. Dividido em quatro atos, o drama se transforma em um suspense cheio de detalhes que vão se agregando e esclarecendo a trama para o espectador.

Tudo começa com Dino Ossola (Fabrizio Bentivoglio), um corretor de imóveis que está prestes a ser pai de novo. Querendo ganhar o dinheiro que nunca teve na vida, resolve pedir um empréstimo de 700 mil no banco para aplicar na empresa de Giovanni Bernaschi (Fabrizio Gifuni). Um fundo “garantido”. Bernaschi é casado com Carla (Valeria Bruni Tedeschi), foco da segunda parte. Ela é uma ex-atriz que virou dondoca e sofre com o tédio proporcionado pelas constantes viagens de negócio do marido e com as saídas do filho adolescente, Massimiliano (Guglielmo Pinelli). A inspiração vem através da compra e restauração de um antigo teatro da cidade. Seu filho único namora Serena (Matilde Gioli), primogênita de Dino e protagonista do último capítulo individual do filme. Esta se envolve com Luca (Giovanni Anzaldo), rapaz recém saído do reformatório após ser detido com drogas em casa e que se consulta com sua madrasta, a psicóloga Roberta (Valeria Golino).

20151028-el-capital-humano3-600x400

Com este mosaico de personagens e situações, Virzì se baseia no livro homônimo do crítico de cinema Stephen Amidon para fazer um retrato desta Itália decadente em que o capital deixa as pessoas loucas e sedentas por poder. Além das situações apresentadas por cada um, o que une todas estas personas é o acidente do início do filme, causado por não se sabe quem, ainda que o dono do carro seja Massimiliano. E as acusações começam a respingar sobre os outros, fazendo sentimentos guardados explodirem e causando ruptura nestas relações que já não tinham uma base sólida. Não é apenas a decadência da sociedade de consumo e dos holofotes das colunas sociais. É isto tudo refletido pela decadência do ser humano, sempre em busca de mais e mais em sua ambição, mesmo que para isso precise sacrificar os outros e a si mesmo. Tudo se encaixa no último capítulo da história, que amarra qualquer ponta solta e também os diferentes pontos de vista relatados, já que muito do que os personagens vivem individualmente também está diretamente relacionado com os colegas de cena.

De suas 18 indicações ao David di Donatello 2015, o longa levou para casa sete estatuetas, incluindo a principal, o que catapultou sua escolha para ser o indicado ao Oscar italiano do ano de seu lançamento. Entre atuações extraordinárias de um elenco que não deixa seus personagens serem meras caricaturas vilanescas ou o contrário, Paolo Virzì quebra paradigmas da sociedade italiana de forma sutil, mas nem por isso menos cru, com uma fotografia sempre nublada, escura, assim como a alma de seus personagens. Capital Humano retrata toda a podridão da humanidade em seus gestos, dos maiores aos menores, como a eterna discussão de quem é mais corrupto: o grande executivo que desvia dinheiro ou o empreendedor da classe média que mente para qual fim é o empréstimo no banco? De todos os personagens, as mulheres apresentadas pelo cineasta talvez sejam as que apresentam dados mais otimistas em suas atitudes e honestidade, ainda que não sejam 100 por cento santas (ainda bem). É uma cutucada que pode ter sido apontada para os europeus, mas serve para qualquer um que vive no modus operandi capitalista. Afinal, quanto custa a vida ao final disso tudo? Se depender dos cálculos das seguradoras, cerca de 200 mil euros. Mas será que alguém admite valer apenas isto?