POR GERSON NOGUEIRA
“Estou cansado, muito cansado, de ler reportagens negativas sobre a Olimpíada brasileira”. Assim começa o artigo do colunista norte-americano Roger Cohen no celebrado The New York Times. Exibindo fé inquebrantável na capacidade que o Brasil tem de se reinventar, o jornalista conta que esteve aqui como correspondente nos anos 1980 sob inflação exasperante e vigência de três moedas – cruzeiro, cruzado e cruzado novo. Com conhecimento de causa, cita Tom Jobim e sua frase definitiva: “o Brasil não é para principiantes”.
De maneira até surpreendente para um ianque, Cohen afiança que o país tem forças para superar os desafios, apesar de chagas profundas, como a desigualdade social (que já foi mais grave) e a violência. Lembra o industrial José Mindlin, que certa vez disse que se preocupava sempre com as contas do final do mês, mas jamais se inquietava com o futuro do Brasil. Concorda com ele e acrescenta, peremptório, que o Brasil é “o cemitério dos pessimistas”.
O norte-americano lembra que o país é hoje uma das dez maiores economias do planeta, que a expectativa de vida saltou de 63,9 anos em 1986 para 74,4 anos em 2014 e que o analfabetismo ainda é alto, mas que caiu drasticamente nos últimos 10 anos.
“Os problemas do país persistem, mas só um tolo pode negar que o Brasil será um dos grandes atores do século XXI. Como qualquer pessoa que esteja na Olimpíada pode perceber, o Brasil tem uma cultura nacional poderosa e feliz. É a terra do ‘tudo bem’”, acentua Cohen.
Certeiro, diz que há algo no mundo desenvolvido que parece não gostar de ver países em desenvolvimento organizando (e bem) eventos planetários. Aqui caberia mencionar que há gente no próprio Brasil que pensa desse modo, como avestruz – foi assim, por exemplo, na Copa do Mundo, quando um grupo de oportunistas e fantoches tentou sabotar miseravelmente o evento, e quase conseguiu.
Para Cohen, fica claro que sempre aparecerá alguém para criticar países como o Brasil diante da grandiosidade de uma Olimpíada. Depois da magistral cerimônia de abertura, surgiu logo quem reclamasse dos problemas sociais brasileiros. Compara com a África do Sul, onde lamúrias semelhantes foram proferidas por ocasião da Copa de 2010. Diziam que o crime, a pobreza e a ineficiência iriam estragar o mundial. Ao contrário, o evento foi um triunfo.
Um dos pontos mais agudos do artigo é quando Cohen observa que não viu nenhum repórter do Primeiro Mundo ser escalado para fazer pente-fino nas partes mais pobres e violentas do Reino Unido durante a Olimpíada de 2012, em busca de gente que falasse mal dos jogos em Londres.
A coluna termina com um voto de esperança no Brasil e no brasileiro, personificado pela judoca Rafaela Silva, a menina que saiu da Cidade de Deus para virar heroína nacional. A medalha ganha por ela significa, segundo Cohen, que uma criança pobre pode acreditar no sonho da redenção, pois, mesmo que leve tempo, ele pode se realizar.
O americano esqueceu de Nelson Rodrigues, há pelo menos cinco décadas, já dizia exatamente isso – que o Brasil é a pátria dos idiotas da objetividade. Por sorte, além de outros motivos convenientes, a Olimpíada não sofreu o mesmo bombardeio negativista que a Copa das Copas.
Apesar disso, o país, que luta para ser reconhecido entre as nações, poderia ter aproveitado mais (e melhor) a superexposição dos maiores eventos esportivos mundiais. E é sempre bom destacar que, antes do Brasil, somente a poderosa Alemanha teve o privilégio de sediar Olimpíada e Copa num intervalo de dois anos, em 1972 e 1974.
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Bola na Torre
Giuseppe Tommaso apresenta a atração, a partir de 00h20, logo depois do Pânico na Band, na RBATV.
Na bancada de debatedores, o jornalista Alex Ferreira e este escriba baionense.
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Um programa de apoio ao atleta brasileiro
Antes que as tradicionais arengas virtuais subvertam o verdadeiro sentido do programa de Esporte de Alto Rendimento, do Ministério do Esporte, é importante dizer que a iniciativa foi a responsável por boa parte das medalhas obtidas pelo Brasil nesta Olimpíada. Trata-se do maior projeto individual de incentivo ao esporte já instituído no mundo.
Amparado no Bolsa Atleta, o programa beneficia aproximadamente 17 mil atletas e paratletas brasileiros. Da delegação nacional nos Jogos do Rio, 77% dos integrantes contam com o patrocínio do programa, entre os quais os ganhadores das duas primeiras medalhas brasileiras na competição: Rafaela Silva, ouro no judô, e Felipe Wu, prata no tiro esportivo.
Com mais de uma década de existência, o programa criado no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu mais de 43 mil bolsas, um investimento superior a R$ 600 milhões. Somente em 2016, 6.152 atletas foram contemplados, representando um investimento de R$ 80 milhões.
Portanto, quando um aloprado qualquer ficar vociferando que o Brasil não apoia ou incentiva atletas olímpicos, lembre do Bolsa Atleta e do Programa de Esporte de Alto Rendimento.
Dos 465 atletas brasileiros inscritos na Olimpíada, 145 são militares, que integram o programa, criado em 2008 num convênio entre os ministérios da Defesa e do Esporte. Ganham bolsas de até R$ 3 mil, 13º salário, auxílio de alimentação, transporte e alojamento. Graduam-se como terceiros sargentos, sem precisar passar por serviço ou operação militar.
Quando eles vencem provas e prestam continência, não estão reverenciando as Forças Armadas, mas indiretamente prestando uma homenagem a Lula, responsável pela ideia de preparar o país para se fazer representar dignamente nos Jogos do Rio. Sem isso, dificilmente o Brasil teria alcançado os melhores resultados de sua história.
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Edno e Flamel: alternativas para Waldemar
Para surpresa até dos médicos azulinos, o atacante Edno se recuperou da lesão na perna e pode vir a ser escalado para o jogo de amanhã contra o Confiança. Caso não jogue, Waldemar Lemos está entre Ciro, Fernandinho e Magno para formar o duo ofensivo.
Regularizado, o meia Flamel deve ser relacionado e pode ser uma alternativa para o decorrer da partida.
(Coluna publicada no Bola deste domingo, 21)