A maior plateia de um homem é seu pai

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POR FABIO HERNANDEZ, no DCM

A mulher pode implicar com qualquer coisa nossa. Com nossos amigos. Com nosso carro. Com nosso cachorro. Com nossa mania de discutir sobre futebol como se fosse uma coisa realmente séria. Até com o talento culinário da nossa mãe. A mulher pode implicar com tudo o que quiser.

Exceto uma coisa: O pai.

 A pior coisa que uma mulher pode fazer pelo romance é implicar com o pai do namorado, marido ou o que seja. Porque o pai é a figura central na vida de um homem. O pai é nosso modelo desde o berço até o caixão. Nós passamos a vida inteira querendo fazer bonito para as mulheres. Mas o julgamento de nenhuma mulher, por mais amada que seja, tem para nós o mesmo impacto do julgamento do nosso pai.

A reprovação paterna é cruel como um velho cossaco russo (Meu tio Fábio, um homem sábio do interior, é quem dizia que os velhos cossacos russos eram cruéis. Nunca chequei, mas confio em meu tio, e então acredito na crueldade cossaca.) E poucas coisas se igualam, em toda a nossa vida, à aprovação paterna. A maior platéia de um homem é composta de uma pessoa só: seu pai.

Um amigo meu jogava futebol. Futebol sério. Não essas peladas de cervejeiros nos finais de semana. Batia de canhota. Jogou em estádios cheios, com torcida fazendo batucada. Ele me disse uma vez que, durante os jogos, sempre olhava para as arquibancadas à procura de seu pai.

Importava menos a opinião do seu técnico do que a de seu pai. Cada grande jogada que fazia pensava no pai. E quando perdeu um gol decisivo ele ficou arrasado porque sentia que decepcionara seu pai. Sempre entendi esse meu amigo perfeitamente.

Numa certa época da vida, na adolescência, gostamos de contestar o pai. Mas uma contestação de mentirinha. Somos, na adolescência, idiotas sem juízo, ignorantes presunçosos. Mas este estado de torpor intelectual não dura uma vida inteira. Envelhecemos, graças a Deus. E logo aprendemos que nosso pai estava quase sempre certo nos reparos que nos fazia em nossa adolescência. Matamos o pai, adolescentes, para ressuscitá-lo, ainda mais forte, na idade da razão.

E então digo a todas as mulheres do mundo interessadas num bom relacionamento amoroso: não mexam com o pai dele. Se não bastassem todas as razões que alinhei, haveria ainda uma outra.

O nosso pai, ao contrario da nossa mãe, é quase sempre aliado da namorada. Porque ele tem a esperança de que ela possa trazer juízo para o filho. Possa transformar o garoto num homem. No mais das vezes, é – para citar uma frase fabulosa de La Rochefoucauld que já utilizei numa coluna anterior – o triunfo da esperança sobre a experiência.

E agora a parte triste (quem quer coisas alegres mude agora, por favor, de post.) A morte do pai atira o homem num persistente estado de desamparo do qual ele leva anos, décadas para se livrar. Às vezes, nunca se livra. Pai morto. E então me ocorre a idéia de uma onda. Para enfrentá-la preciso bater os braços, bater os braços e ainda bater os braços. Para onde as braçadas levam? Francamente não sei, mas o que importa?

O que importa é bater os braços, bater os braços e ainda bater os braços.

Em memória de Emir Macedo Nogueira. 

Cunha, Temer e a história dos “cinco amiguinhos” que foram passear no poder

DO TIJOLAÇO

A coluna de Lauro Jardim, em O Globo, daqui a pouco deve ser desmentida no twitter de Eduardo Cunha, que odeia o colunista global com todas as suas forças.

A história da vez é a de que um amigo de Cunha foi conversar com o presidente golpista e contou uma parábola: “O Eduardo me disse: ‘era uma vez cinco amigos que faziam tudo junto, viajavam, faziam negócios…. então, um virou presidente, três viraram ministros e o último foi abandonado’… E que isso não vai ficar assim.”

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A metáfora – na geração deles todos leram o “O Caso dos Dez Negrinhos”, da Agatha Christie – não parece muito ao estilo de Eduardo Cunha.

Parece destinada mais a mostrar a suposta resposta:

Temer, de acordo com o relato que Cunha tem feito a pessoas muito próximas, respondeu: “Ele sabe que estou tentando ajudá-lo”.

Seja como for, a chantagem e o medo que ela provoca estão se tornando explícitos.

Como está se tornando explícito o asqueroso papel do Ministério Público e do Judiciário em apenas assistir ao o esquema mafioso  – em cujas  entranhas os vermes do golpe ameaçam entredevorar-se – consume a ruptura do regime democrático no Brasil, reduzidos a conferir prazos, formalidades, selos e estampilhas.

A imagem de Nossa Senhora colocada às paredes de certos ambientes ao menos coram, ruborizadas pela luz avermelhada com que as iluminam.

Supremacia Phelps

POR GERSON NOGUEIRA

O mundo reverencia Michael Phelps. Os jornais se esforçam para encontrar o adjetivo perfeito, mas o certo é que todos os superlativos ficam banalizados quando alguém se refere a ele, o maior nadador de todos os tempos e seguramente um dos maiores nomes da história das Olimpíadas.

Quando garoto, acompanhei a Olimpíada de Munique pela TV e fiquei impressionado com as marcas de Mark Spitz, outro prodígio das piscinas, que levou para casa sete medalhas em 1972. Um monstro.

Pois o mito Phelps superou Spitz com sobras. Os especialistas dizem que fenômenos dessa magnitude só aparecem de 50 em 50 anos. Faz sentido.

unnamed (16)Com sua velocidade impressionante nas piscinas, Phelps representa a glorificação máxima do ideal americano de supremacia no esporte. É produto direto do programa olímpico desenvolvido há décadas nos Estados Unidos, beneficiando-se dos estudos e pesquisas desenvolvidos para a descoberta de atletas de alto padrão.

Aos 31 anos e 22 medalhas de ouro, ele desembarcou no Rio com propósitos bem definidos. Anunciou que esta é sua última Olimpíada e, por isso, precisa ampliar seus recordes já fabulosos.

Na quinta-feira, ante os olhos do mundo inteiro, Phelps mostrou a que veio. Venceu os 200 metros medley e se tornou o primeiro nadador tetracampeão olímpico na mesma prova individual. É também até o momento o único na natação a repetir uma medalha de ouro de Londres-2012.

Após os 150 metros, Phelps não deu qualquer chance aos adversários e fechou a prova em 1min54s66, quase dois segundos à frente do segundo colocado. Ainda nas raias, ele abriu um sorriso e fez o número 4 com as mãos para destacar a alegria pela conquista. Em um dia de recordes no Rio, Phelps ainda pulverizou mais um: é o atleta com mais medalhas individuais da história olímpica. Ultrapassou a ex-ginasta ucraniana Larisa Latynina, que detém 14 pódios. O nadador, agora, tem 15.

Suas façanhas incluem a quebra de um recorde milenar. Ao ganhar o ouro nos 200m medley, superou Leônidas de Rodes, um dos mais célebres atletas da Antiguidade, com o maior número de vitórias individuais olímpicas: 13 a 12. Na Era Antiga, Leônidas foi tricampeão da mesma prova em quatro edições seguidas: 164 a.C., 160 a.C., 156 a.C. e 152 a.C..

O mais admirável em Phelps é a insaciável sede de vitórias, característica natural dos gigantes do esporte. Apenas meia hora depois de ganhar o ouro nos 200 metros, lá estava ele de novo, pronto a brigar por mais um pódio. Na semifinal dos 100m borboleta, classificou-se em quinto lugar para a final que foi travada na sexta à noite – e ficou com a medalha de prata.

Só a título de comparação, o brasileiro Tiago Pereira se dedicou exclusivamente à disputa dos 200 metros, apesar da insistência da confederação e até de técnicos que o acompanham para que participasse de outras provas. Ele se manteve irredutível, evitando correr o risco do desgaste excessivo. Terminou em sétimo lugar na prova em que Phelps estabeleceu uma nova fronteira para os recordes humanos.

Tiago não cometeu nenhum erro grave, agiu apenas como um nadador normal, comum. Receou que o cansaço tirasse suas forças na única prova em que se considerava com chances. Phelps desafia a exaustão física, combate o desgaste mental e vai colecionando medalhas.

Na verdade, Tiago e todos nós que estamos de olho na Olimpíada devíamos agradecer o privilégio de acompanhar ao vivo um capítulo espetacular da história dos Jogos. Phelps escreveu páginas memoráveis no Rio.

Ao vê-lo se encaminhar, superior e circunspecto, para receber o ouro na quinta-feira, é impossível não pensar na eternidade de seus feitos. Está no panteão dos maiores desportistas da era moderna – três deles, por coincidência, atendem pelo nome de Michael: Jordan, Schumacher e Phelps. Três arcanjos da vitória.

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Emoção à flor da pele e futebol de quinta categoria

Foi penosa a disputa eliminatória entre Brasil e Austrália no futebol feminino, sexta à noite. Duro de assistir os 120 minutos de técnica precária, erros em excesso, chutes bisonhos e a constatação que o Brasil tem mesmo Marta e mais 10 que se esmeram em bater cabeça.

Nos penais, triunfo brazuca em série das mais dramáticas. Para gáudio dos pachecos de plantão, as australianas erraram mais e a goleira Bárbara homenageou Rogério Ceni, adiantando-se escandalosamente em todas as cobranças. Não importa, o Brasil marcou 7 a 6 e vai à semifinal. O que vale – para muitos – é seguir vencendo.

A melhor notícia para a seleção nacional é que as americanas, tricampeãs olímpicas, caíram nesta rodada. Um obstáculo a menos no caminho do tão desejado ouro olímpico. Mas é óbvio que o time de Vadão precisa jogar mais bola. Só emoção e transpiração não garantem medalha.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda a atração, que começa logo depois do Pânico, na RBATV, por volta de 00h20. Giuseppe Tommaso e este escriba de Baião integram a bancada, analisando a rodada da Série C e a movimentação dos times paraenses.

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No mundo das escolhas, Gomes prefere o São Paulo

Sem maiores dramas, em meio a um campeonato difícil, o Botafogo está abrindo mão de Ricardo Gomes, técnico que acolheu quando se recuperava de um AVC. As notícias de sexta-feira indicavam que o técnico campeão da Série B em 2015 está se transferindo para o São Paulo. Aceitou ganhar cerca de R$ 300 mil mensais – recebia R$ 250 mil no Botafogo.

Sem dúvida, suas chances de êxito no Tricolor são bem superiores. Terá um elenco mais qualificado e condições estruturais melhores. As cobranças, obviamente, serão maiores. Mas o mundo, como na canção, é movido por ondas e escolhas. Gomes esteja escolhendo a onda que lhe parece mais favorável.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 14)