Advogados contestam indiciamento de Lula

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Nota oficial dos advogados do ex-presidente Lula reagindo ao indiciamento anunciado nesta sexta-feira pelo delegado da PF, Marcio Anselmo, famoso por se posicionar nas redes sociais em favor da candidatura Aécio Neves (PSDB) em 2014.
“Os advogados do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua esposa Marisa Letícia Lula da Silva repudiam veementemente o indiciamento de seus clientes a partir das apressadas conclusões do Relatório elaborado em 26/08/2016 pelo Delegado de Polícia Federal Marcio Adriano Anselmo nos autos do Inquérito Policial nº1048/2016 (5035204-61.2916.4.04.7000), que tem caráter e conotação políticos e é, de fato, peça de ficção. Lula e D. Marisa não cometeram crimes de corrupção passiva (CP, art. 317, caput), falsidade ideológica (CP, art. 299) ou lavagem de capitais (Lei nº 9.613/98, art. 1º), como se demonstra a seguir: 
 
1- Corrupção passiva – 
O ex-Presidente Lula e sua esposa foram indiciados pelo crime de corrupção passiva (CP, art. 317, caput) sob o argumento de que teriam recebido “vantagem indevida por parte de JOSE ALDEMÁRIO PINHEIRO FILHO e PAULO ROBERTO VALENTE GORDILHO, Presidente e Engenheiro da OAS, consistente na realização de uma reforma no apartamento 174 do Edifício SOLARIS, no GUARUJÁ, devidamente descritas e avaliadas no laudo pericial nº 375/2016, que apontam melhorias no imóvel avaliadas em obras (R$ 777.189,13), móveis (R$ 320.000,00) e eletrodomésticos (R$ 19.257,54), totalizando R$ 1.116.446,37)”:
 
1.1 O imóvel que teria recebido as melhorias, no entanto, é de propriedade da OAScomo não deixa qualquer dúvida o registro no Cartório de Registro de Imóveis (Matricula 104801, do Cartório de Registro de Imóveis do Guarujá), que é um ato dotado de fé pública. Diz a lei, nesse sentido: “Art. 1.245. Transfere-se entre vivos a propriedade mediante o registro do título translativo no Registro de Imóveis”. O Relatório não contém um único elemento que possa superar essa realidade jurídica, revelando-se, portanto, peça de ficção.
 
 
1.2.  Confirma ser o Relatório uma obra de ficção o fato de o documento partir da premissa de que houve a “entrega” do imóvel a Lula sem nenhum elemento que possa justificar tal afirmação. Aliás, nem mesmo o Delegado que subscreve o Relatório sabe quando teria ocorrido essa “entrega” que ele atribui a nosso cliente: “Houve a reforma após a entrega do imóvel, possivelmente no segundo semestre de 2014” (p. 06). 
 
1.3. Lula esteve uma única vez no imóvel acompanhado de D. Marisa — para conhecê-lo e verificarem se tinham interesse na compra. O ex-Presidente e os seus familiares jamais usaram o imóvel e muito menos exerceram qualquer outro atributo da propriedade, tal como disposto no art. 1.228, do Código Civil (uso, gozo e disposição).
 
1.4. D. Marisa adquiriu em 2005 uma cota-parte da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop) que, se fosse quitada, daria direito a um imóvel no Edifício Mar Cantábrico (nome antigo do  hoje Edifício Solaris). Ela fez pagamentos até 2009, quando o empreendimento foi transferido à OAS por uma decisão dos cooperados, acompanhada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo. Diante disso, D. Marisa passou a ter a opção de usar os valores investidos como parte do pagamento de uma unidade no Edifício Solaris – que seria finalizado pela OAS — ou receber o valor do investimento de volta, em condições pré-estabelecidas. Após visitar o Edifício Solaris e verificar que não tinha interesse na aquisição da unidade 164-A que lhe foi ofertada, ela optou, em 26.11.2015, por pedir a restituição dos valores investidos. Atualmente, o valor está sendo cobrado por D. Marisa da Bancoop e da OAS por meio de ação judicial (Autos nº 1076258-69.2016.8.26.0100, em trâmite perante a 34ª. Vara Cível da Comarca de São Paulo), em fase de citação das rés.
 
1.5. Dessa forma, a primeira premissa da autoridade policial para atribuir a Lula e sua esposa a prática do crime de corrupção passiva — a propriedade do apartamento 164-A — é inequivocamente falsa, pois tal imóvel não é e jamais foi de Lula ou de seus familiares. O Relatório sequer enfrenta o assunto.
 
1.6. Outro aspecto primário também foi solenemente desprezado pelo Relatório. A corrupção passiva prevista no art. 317, do Código Penal, é crime próprio, ou seja, exige a qualidade especial do agente, que é ser funcionário público. Segundo um dos maiores juristas do País, Nelson Hungria, “A corrupção (…), no seu tipo central, é a venalidade em torno da função pública, denominando-se passiva quando se tem em vista a conduta do funcionário público corrompido” (Comentários ao Código Penal, vol. IX, p. 367). As melhorias descritas no Relatório teriam ocorrido após 2014. No entanto, Lula não é agente público desde 1º de janeiro de 2011 e D. Marisa jamais foi funcionária pública. Ou seja, não há como sequer cogitar da prática criminosa.
 
 
2- Falsidade ideológica – 
Lula foi indiciado pelo crime de falsidade ideológica (CP, art. 299) sob o argumento de que “atuou na celebração de contrato de prestação de serviço de armazenamento ideologicamente falso com a GRANERO TRANSPORTES LTDA”. A verdade é que o ex-Presidente não teve participação nessa relação jurídica e, por isso mesmo, o Relatório não aponta qualquer evidência nesse sentido. O indiciamento ocorreu apenas sob a premissa de que Lula seria o “beneficiário direto” do contrato, numa clara imputação de responsabilidade objetiva que é estranha ao Direito Penal. Ademais, os bens do acervo presidencial integram o patrimônio cultural brasileiro, são de interesse público por definição legal (Lei 8394/91) – não se tratando de bens privados de Lula, mas sim de documentos que a lei exige que sejam conservados.
 
3- Lavagem de capitais – 
Lula foi indiciado pelo crime de lavagem de capitais (Lei nº 9.613/98, art. 1º) sob o argumento de que teria dissimulado o recebimento de “vantagens ilícitas” da OAS, que seria “beneficiária direita de esquema de desvio de recursos no âmbito da PETROBRAS investigado pela Operação Lava Jato”. 
 
3.1. Para a configuração do crime previsto no art. 1º, da Lei nº 9.613/98, Lula e sua esposa teriam que ocultar ou dissimular bens, direitos ou valores “sabendo serem oriundos, direta ou indiretamente, de crime”.
 
3.2. Além de o ex-Presidente não ser proprietário do imóvel no Guarujá (SP) onde teriam ocorrido as “melhorias” pagas pela OAS, não há no Relatório um único elemento concreto que possa indicar que os recursos utilizados pela empresa tivessem origem em desvios da Petrobras e, muito menos, que Lula e sua esposa tivessem conhecimento dessa suposta origem ilícita.
 
4- Inquérito oculto – 
O Relatório se refere a um inquérito policial instaurado em 22/07/2016 e que ficou tramitando de forma oculta — nas “gavetas” das autoridades envolvidas — até o dia 24/08/2016. Há apenas dois dias, os advogados de Lula tiveram conhecimento do procedimento, após terem ingressado com Reclamação no Supremo Tribunal Federal por violação à Súmula 14 (Autos nº 24.975). E somente foi possível ter conhecimento da existência desse procedimento por erro do Ministério Público ao peticionar em um inquérito policial que tramitava de forma pública, para investigar a propriedade dos apartamentos do Edifício Solaris, e que foi concluído sem imputar ao ex-Presidente ou aos seus familiares a prática de qualquer ilícito (Autos nº 060/2016).
 
Conclusão 
Os elementos acima não deixam qualquer dúvida de que:
 
1. A peça é uma ficção: o Relatório não parte de fatos, mas, sim, de ilações ou suposições;
 
2. A peça não tem respaldo jurídico: Lula e sua esposa não são proprietários do imóvel que teria recebido as melhorias; não são funcionários públicos, que é a premissa do crime de corrupção passiva; Lula não participou da contratação indicada no Relatório, de forma que o Relatório pretende lhe atribuir a prática de um crime sem que ele tenha qualquer envolvimento (responsabilidade objetiva, estranha ao Direito Penal); e, finalmente, Lula e sua esposa não receberam qualquer bem, valor ou direito da OAS que seja proveniente de desvios da Petrobras e muito menos tinham conhecimento da suposta origem ilícita desses valores;
 
3. A peça tem motivação política: O Delegado Marcio Adriano Anselmo tem histórico de ofensas a Lula nas redes sociais e já expressou publicamente sua simpatia por campo político antagônico ao ex-Presidente. Não se pode aceitar como coincidência o fato de o Relatório ser apresentado no meio do julgamento do impeachment da Presidente da República eleita com o apoio de Lula.
 
Cristiano Zanin Martins e Roberto Teixeira”

Querido

POR EDYR AUGUSTO PROENÇA

Walter Bandeira foi um querido. Talvez o tenha visto pela primeira vez cantando com Guilherme Coutinho na antiga boate “Tic Tac”. Mas foi na boate da Assembléia Paraense, primeiro aos domingos, depois aos sábados, que o tenho na lembrança. O hit “Curtição”, uma mistura de samba e balada, com Guilherme fazendo Cesar Camargo Mariano e ele fazendo Simonal. No entanto, para mim, funcionava “eu e eu, neste amor que só vive em mim, que nem mesmo pode morrer, sendo eterno na dor, de amar..”, romântica, fundo musical de meus sonhos de amor na adolescência. Sim, naquela época, dançávamos juntos, havia um pequeno intervalo preenchido com música mecânica e pasmem, tocava até “Whole Lotta of Love”, do Led Zeppelin. Naquela época, os gays já saíam do armário, primeiro como “engraçados”, aqueles que diziam gracinhas com um fundo de verdade. E Walter se colocou muito bem. Cantor preferido do soçaite, sua performance era cheia de gestos femininos e xistes na direção dos homens, ironias, tudo provocação. Ele vestia essa persona para dizer que estava ali por dinheiro e aproveitava a liberdade para dizer algumas verdades. Quanto a mim, gostava de conversar. Nos aproximamos na base da provocação. Satisfeito com as respostas, estendia os temas, discutia a evolução ou involução da cidade e seus costumes. Professor de dicção, foi um grande locutor e apesar de se tornar marca da Rádio Cultura, foi por mais tempo funcionário da Rádio Rauland. Nunca o vi atuando no Teatro, mas assistia a quase tudo o que era apresentado. Seu estilo pessoal era desleixado, na base do “se dependesse de mim, nào estaria aqui”. E fazia isso mesmo que a festa onde cantava fosse black tie. Todos diziam que devia seguir para o sul e tentar uma carreira nacional. Preferiu ficar. Produzi um show dele, parceria com o saudoso Eduardo Silva. “50 Caetanos”. Agora não lembro se o baiano fazia 50 ou ele. Depois, Eduardo o convenceu a fazer um show bem produzido, bem vestido, com orquestra, no Teatro da Paz, onde não fizesse as piadas e ironias de sempre. Escrevi no jornal que era um Walter “lobotomizado”.
Walter Bandeira 4Ele nem deu bola, mas Eduardo não gostou. Trabalhamos juntos produzindo a cantora Ana Cristina. A convivência era ótima, séria e com bom rendimento. Era descuidado. Adotou como idéia de vida. Bebida, cigarros, tudo o que não prestava para sua voz. Sem estranhos por perto era uma pessoa doce, inteligente, que gostava de conversar e era atento a tudo o que acontecia no mundo. Com outras pessoas, fazia o personagem. Pintava aquarelas lindas. Estava gravando um disco. Me disse que era pra fazer sucesso. Canções fáceis, na linha pop. Uma tarde, compus uma música. Na época, a italiana Cicciolina era política e sofria grande rejeição. “Eu to do lado da Cicciolina”, escrevi. Gravei demo. Enviei. Acho que não vai dar, disse. O repertório está pronto. Está bem, gravaremos como uma vinheta, tá? Tá. Que bom, foi a música que mais fez sucesso do disco. Gravou alguns jingles que compus, um deles, um tango para o lançamento do edifício Las Leñas. O tempo foi passando. O Cuíra achou de encenar um texto “Quando a sorte te solta um cisne na noite”. Compus umas músicas. Chamei Walter, Nilson Chaves e Marco Monteiro para gravar. Deve ter sido sua última gravação. Ele faz falta. Queixou-se quando ficou insuportável. Foi muito rápido. Sem espaço para bis. Um amigo, grande cantor, personalidade da cidade. Talvez tenha achado que a farra lá no céu precisava dele.

(Transcrito da coluna Cesta, caderno TDB do DIÁRIO)

Xadrez da delação que ficou pairando no ar

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POR LUIS NASSIF, no Jornal GGN

Os últimos capítulos da Lava Jato – com a emocionante refrega entre o Ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, e o Procurador Geral da República Rodrigo Janot – trazem uma montanha de informações para quem aprendeu a ler além do meramente factual.

Vamos a algumas conclusões e algumas explicações sobre a capa da Veja sobre Dias Toffoli e sobre a suspensão da delação da OAS pelo PGR.

Como se recorda, era uma denúncia tão anódina que a própria reportagem tratava de desqualificar. Mesmo assim, serviu de álibi para que o PGR suspendesse a delação de Léo Pinheiro, da OAS.

O Xadrez de Toffoli e o fruto da árvore envenenada (http://migre.me/uKQMH)

O Xadrez do empate vitorioso de Gilmar e Janot (http://migre.me/uKQNQ)

SOBRE DISPUTAS E CONCORDÂNCIAS

Alguns leitores tendem a ver tudo como uma jogada ensaiada, com roteiro e ações combinadas. Não é bem assim. Há as grandes linhas e posições prévias, pontos em comum, pontos discordantes entre os personagens envolvidos na trama. Em torno deles, movimentos que acontecem ao sabor das circunstâncias.

Gilmar e Janot discordam em quase tudo que se relaciona com Ministério Público Federal. As pancadas de Gilmar na Lava Jato e em Sérgio Moro são reais. Gilmar é tido no MPF como inimigo da corporação, mesmo sendo originário dela. Dai o apelido de Darth Vader, com que se referem a ele.

Gilmar é adversário figadal dos poderes do MPF, mas tolerou a Lava Jato enquanto ela foi politicamente útil. Além disso, ambos – Gilmar e Janot – têm em comum a participação na frente para derrubar a presidente Dilma Rousseff. Daí o fato de Gilmar se manifestar apenas quando a Lava Jato chega perto do PSDB. E também estão juntos na provável vontade de anular a delação da OAS, Gilmar por solidariedade partidária, Janot um pouco por afinidade com Aécio Neves, um pouco para afastar de si esse cálice.

Não se pode afirmar que o vazamento da denúncia anódina contra Toffoli tenha sido uma ação combinada entre ambos. Quem vazou queria anular a delação.

Por outro lado, Janot enfrenta o dilema, sobre como anular a delação da OAS (que, pelos rumores, seria fatal para José Serra e Aécio Neves) sem confirmar as suspeitas gerais sobre o facciosismo da Lava Jato. A capa da presunção da isenção é essencial para que a Lava Jato prossiga com sua parcialidade. Tem que anular sem ficar mal na fita.

A saída encontrada foi aproveitar o empurrão da capa da Veja para ensaiar um salto maior: suspender a delação, imputando a responsabilidade aos advogados da OAS.

O que essa barafunda nos informa?

Informação 1 – a desculpa canhestra de suspender a delação mostra que Janot foi apanhado de surpresa pela capa da Veja.

Caso contrário teria pensado em um álibi mais elaborado. Não terá como explicar a falta de atitudes em relação aos 17 vazamentos anteriores.

SOBRE A MENÇÃO A TOFFOLI NA PRÉ-DELAÇÃO DE LÉO

Segundo a Folha de ontem (http://migre.me/uKOyA), “o episódio ligado a Toffoli foi mencionado em conversas preliminares entre OAS e investigadores, mas ficou de fora dos capítulos da delação por falta de indícios da empresa contra o ministro do Supremo”.

O que esse trecho nos informa:

Informação 2 – os procuradores da Lava Jato sabiam da declaração vazada para Veja.

ao contrário do que Janot afirmou – que a PGR e o MPF não dispunham da informação, logo não poderiam tê-la vazado – os procuradores da Lava Jato tinham essa informação, sim. Janot recorreu a uma meia verdade: não dispunham de informação oficial. Faltou com a outra metade da verdade: a de que os procuradores ouviram de Léo Pinheiro esse fato. Então tinham a informação e poderiam ter vazado. Alguém de dentro pode ter vazado, não o conjunto da Lava Jato.

Golbery do Couto e Silva dizia que a mentira é muito mais interessante que a verdade, porque esconde algum motivo. E São Tomas de Aquino dizia que uma das formas de mentira era não contar toda a verdade.

Se se somar a isso

* as afirmações de procuradores, de que aceitariam apenas mais uma delação de empreiteira;

* o fato de não terem permitido que os delgados da Polícia Federal assistissem os depoimentos de Léo Pinheiro;

* a posição do juiz Sérgio Moro, de interromper os trabalhos para analisar a delação da OAS,

chega-se à conclusão de que se depararam com bomba de alta octanagem, piscaram e ficaram planejando como se livrar da bomba. Mas nada indica que tenha sido um vazamento da Lava Jato.

Informação 3 – Léo Pinheiro foi induzido pelos procuradores a encontrar algo que comprometesse Toffoli. Mas não tinha.

A troco de quê, Léo Pinheiro iria levantar tema tão anódino nas conversas preliminares? O que é mais factível:

Alternativa 1 – Do nada Léo Pinheiro dizer que Toffoli pediu conselhos sobre a impermeabilização da sua casa, ele indicou uma empresa, mas quem pagou foi o Toffoli. E os procuradores questionariam: e daí?

Alternativa 2. Os procuradores indagaram se ele não teria nada contra Toffoli e a única coisa de que ele se lembrava era de ter dado conselhos a Toffoli sobre impermeabilização.

É evidente que do nada, Pinheiro não levantaria uma informação que não significava nada. A única explicação é que foi instado a falar qualquer coisa sobre Toffoli, por indução dos procuradores, e só se lembrou desse episódio insignificante.  A Alternativa 2 é a correta.

Informação 4 – os procuradores pautam as delações.

Esse pormenor reforça as versões que circulam sobre os métodos de delação da Lava Jato. Primeiro, há uma conversa informal, não gravada, na qual os procuradores passam dicas aos réus sobre os temas de seu interesse.

Sobre Lula, nem é necessário enfatizar. Mas se alguém é crítico da Lava Jato, político, advogado ou blogueiro, ou Ministro do Supremo, eles indagam do réu se não teria nada a oferecer sobre o crítico em questão. Mesmo sendo irrelevâncias, serve para assassinatos de reputação na mídia. O caso Gilberto de Carvalho é típico.

Informação 5 – Rodrigo Janot tem pleno controle sobre os vazamentos de informações.

Vazamento é como caixa 2 de empresa: não entra na contabilidade. Conforme levantamento do GGN, até hoje foram pelo menos 17 delações vazadas (http://migre.me/uKXP9). Então, para ter agido com tal presteza, de imputar de bate-pronto o vazamento aos advogados da OAS, significa que Janot tinha plena certeza de que nenhum dos 14 procuradores da força-tarefa vazou.

Se tem controle sobre o que não vazaram, obviamente sabe sobre o que vazaram. Faz sentido?

RESULTADO FINAL

Gilmar atribui o vazamento aos procuradores; Janot rebate dizendo que foi estelionato informacional. Marco Aurélio Mello entra no meio e diz que tem que se apurar o vazamento. A imprensa regurgita impropérios de lado a lado.

No que importa: o candidato a delator Léo Pinheiro compareceu a uma audiência e nada falou, porque o acordo de delação está suspenso. Ponto para Gilmar, ponto para Janot.

O passado é uma parada…

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Claudia Cardinale e Marcelo Mastroianni em cena de “O Belo Antonio”, de Mauro Bolognini. Produção ítalo-francesa de 1960, com roteiro baseado em romance de Vitaliano Brancati. No drama, as mulheres se apaixonam pelo belo e atraente Antonio (Mastroianni) porque imaginam que ele seja o “amante ideal”. Na realidade, ele é impotente.

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Golpe quebra o pacto social básico no Brasil

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J. CARLOS DE ASSIS, no Jornal GGN

O possível que para milhões de brasileiros o que aconteceu em Brasília nos últimos meses, com o coroamento agora da deposição definitiva de Dilma Roussef, seja uma “simples”  troca de governo do PT  para a aliança PMDB-PSDB-DEM. É um equívoco. O que aconteceu foi a ruptura do pacto social básico do país que, desde Getúlio Vargas, e confirmado até pela ditadura de 64, estendeu-se pelo governo de conciliação de Lula e  equilibrou as relações básicas da sociedade brasileira sem grandes convulsões sociais durante décadas.

O  símbolo do Governo interino que se apropriou do poder sem votos é sua estreita colaboração com a Fiesp de Paulo Skaf, sendo o traço característico de Skaf – que sequer é  industrial – a profunda ignorância em relação aos interesses da própria burguesia brasileira. Por mais de um século os empresários que representaram a classe capitalista foram suficientemente inteligentes para acolher pelo menos parte dos interesses dos trabalhadores como condição de convivência e, naturalmente, de preservação e ampliação de seus próprios lucros a partir daí.

Skaf não se preocupa com isso porque, na condição de dono de um armazém e não de uma indústria, não precisa de se preocupar com empregados. Na verdade, sua exclusiva preocupação é administrar como bem entende os bilhões de reais que irrigam os cofres do Senai e do Sesi, uma aberração brasileira que coloca impostos públicos sob gestão de empresários privados. Por outro lado, não admira que Temer leve tanto em consideração os conselhos de Skaf. Foi ele quem geriu um caixa de R$ 500 milhões para comprar o impeachment de Dilma, dinheiro recolhido entre alguns presidentes de federações que certamente o tiraram do mesmo lugar, o Sesi/Senai financiado por  imposto.

A forma como a burguesia conciliou seu apetite de lucros com salários controlados por ela mesma foi o que chamo de mais valia social. Em síntese, a mais valia social é o tributo distribuído em programas de interesse social e despesas de infraestrutura do governo. Em termos rigorosos, é a parte do valor da mercadoria produzida pela força de trabalho acima do salário que é apropriada pelos não produtores diretos, ou seja, o próprio capitalista, o rentista e o governo. É a mais valia social que financia a saúde, a educação, a previdência, o Estado de bem-estar social enfim.

Uma vez retirada a mais valia social, resta aos trabalhadores a luta de classes a fim de obter salários diretos que lhes garantam um mínimo de bens e serviços de sobrevivência. Como contrapartida, os lucros advindos da mais valia convencional explodem, na media em que a burguesia se apropria da mais valia social. Essa é uma bela receita para convulsões sociais. A Europa e os Estados Unidos já passaram por isso em tempos de grandes crises sociais no passado. Skaf quer trazer isso para o tempo presente no Brasil, e Temer, com aquela expressão de tão alienado quanto ele, se associou à tarefa politicamente estúpida.

Trata-se de uma situação tão claramente regressiva que eu próprio me vejo usando um terminologia originalmente marxista para descrevê-la. Justifica-se. É efetivamente uma regressão. Bata olhar a pauta Temer-Renan, e agora Rodrigo Maria, para concluir que o Brasil está andando para trás de forma acelerada. Imagine-se quando o interino se tornar permanente. Está em curso uma pauta de abolição de direitos consagrados na Constituição em nome de um suposto equilíbrio fiscal que é fruto exclusivamente de uma ideologia que interessa sobretudo a banqueiros e financistas, e finalmente visando ao Estado mínimo. Certamente, isso não acabará bem!

J. Carlos de Assis – Economista, doutor  pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre economia política brasileira. 

Perigos da gourmetização

POR GERSON NOGUEIRA

O futebol paraense vive uma encruzilhada como negócio. O Papão, que disputa a Série B e tem calendário alvissareiro para 2017, quando jogará a Copa Sul-Americana, é uma espécie de oásis em meio à tempestade de areia que ronda os demais clubes, exceção no balaio de agruras. A coisa é tão periclitante que a simples boataria sobre suspensão do patrocínio do Governo do Estado já provocou resmungos de aflição.

unnamed (42)A dura realidade é que, sem a ajuda oficial, somente os dois grandes da capital conseguiriam sobreviver sem maiores percalços – embora o Remo dependa hoje bem mais das verbas públicas do que seu tradicional rival.

Boa parte dos problemas dos titãs estaria sanada se ambos tivessem pleno controle sobre o processo de venda de ingressos. Refiro-me à adoção de práticas mais realistas e coerentes com a natureza do cliente final – no caso, o torcedor comum, não vinculado a programas de sócio-torcedor.

Tomemos o exemplo do Remo, que depende exclusivamente do estádio Jornalista Edgar Proença para mandar suas partidas, sejam contra adversários ilustres ou do baixo clero futebolístico. Nessa hierarquia de cobrança de ingressos, em face das despesas que o estádio estadual impõe, o clube é forçado a fixar preços nem sempre adequados ao perfil do torcedor e à importância do jogo.

Resulta disso tudo um caos na tabela de preços, que pode levar o clube a cobrar por um jogo classificatório, como o mais recente, diante do Confiança, a quantia de R$ 40,00 pela arquibancada, quando os demais confrontos em Belém saíram a R$ 30,00, inclusive o penúltimo, contra o River, quando cerca de 20 mil espectadores foram ao Mangueirão.

Pelo aperreio que ronda as finanças do clube, a diretoria preferiu não manter os valores até então praticados. Apostou que a majoração resultaria em aumento de receita. Tiro no pé. O público encolheu pela metade, provando que o torcedor médio não aceita reajustes tão bruscos. Mesmo que esteja a fim de comparecer, não pode pagar 30% a mais entre um jogo e outro.

Na Curuzu, onde manda seus jogos pela Série B, o Papão tem mantido os preços entre R$ 30,00 e R$ 40,00, dependendo de adversário. É uma maneira mais gentil de tratar o torcedor, além da óbvia facilidade de acesso oferecida pelo velho estádio, localizado em área central da cidade. Ainda assim, diante do Ceará, o público minguou também.

Muito se comenta sobre a gourmetização que contamina o futebol brasileiro desde a Copa de 2014 e a construção das suntuosas arenas. Clubes do eixo Sul-Sudeste passaram a tratar os jogos como um produto para destinado a segmentos sócio-econômicos mais privilegiados, como ocorre na Europa.

Acontece que aqui o futebol, mesmo recebendo partidas em arenas milionárias, ainda fica muito aquém do padrão europeu, até mesmo na capacidade de atender necessidades básicas do torcedor. O problema é que, num efeito vertical, o futebol no Pará também passou a ambicionar os preços praticados por Corinthians, Palmeiras, Internacional, Atlético-PR, Flamengo e outros, que se situam entre R$ 50,00 e R$ 300,00, em média.

Seria plenamente legítimo se a oferta fosse vantajosa para o torcedor. Além dos conhecidos transtornos nos estádios de Belém, o típico torcedor de arquibancada não dispõe de recursos para suportar a agenda de duas, às vezes até quatro, partidas mensais de seu clube. Precisaria gastar cerca de R$ 120,00 a R$ 160,00 somente com ingressos, o que compromete quase 25% do valor líquido do salário mínimo.

Por isso mesmo, a dupla Re-Pa podia providenciar um estudo pormenorizado sobre os segmentos sócio-econômicos que consomem futebol como lazer – e se dispõem a pagar por isso.

Pesquisas informais indicam que o universo de clientes regulares de jogos em Belém não ultrapassa, em cada torcida, 30 mil. E mais de 70% desse total pertencem às classes C, D e E, justamente as de menor poder de compra. Os outros 30% podem pagar mais caro pelo espetáculo, mas não garantem volume suficiente para contemplar anseios (e necessidades) dos clubes.

Portanto, é bom ir devagar com o andor da gourmetização porque o dinheiro anda curto.

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Direto do Facebook

“Paralimpíada é um troço tão errado, mas tão errado, que eu até hesitei antes de postar sobre o assunto. Mas a capa da Vogue deste mês resume todos os problemas e me dá a oportunidade de explicar porque detesto esse evento. (…) Em 2007, fui convidado para ser repórter no Parapan. Aceitei porque era um moleque inseguro de 21 anos, louco para ter uma experiência jornalística real. Mas aceitei cheio de receios. Não tava fazendo faculdade de jornalismo para virar repórter sobre deficiência, ou para pessoas com deficiência. Queria ser um repórter com deficiência, ponto. Isso não deveria dizer nada sobre a qualidade ou o foco do meu trabalho. Durante a cobertura, todos os meus receios se confirmaram. Na redação, fui usado como uma espécie de mascote deficiente para um evento de deficientes.

É esse o problema do paraesporte – a ideia de que exista um troço para deficientes. No caso da paralimpíada, cria-se uma competição de segunda classe, com ingressos a preços ridículos, porque ninguém quer pagar caro para assistir um evento de segunda classe. A mensagem é uma só: os atletas são de segunda classe. Enquanto isso, pessoas sem deficiência sentam-se em seus sofás e permitem que os olhos encham-se d’água com as histórias de superação que assistem no Jornal Nacional.

Mascara-se o fato de que pessoas com e sem deficiência podem perfeitamente concorrer em pé de igualdade em vários esportes. Não vejo porque uma pessoa cega bem treinada ficaria prejudicada na natação ou no judô. Meu amigo Luiz Alberto Carvalho me conta que pessoas cegas sempre competiram perfeitamente na prova de adestramento. Já houve ginasta sem uma perna competindo nas olimpíadas. A paraolimpíada é um evento segregado, trata pessoas com deficiência como merecedoras de admiração primariamente por conta da deficiência”

Por Lucas de Abreu Maia, repórter – cego desde a infância.

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Sobre sedes de Olimpíada e Copa

Nada como ter leitores de primeiríssimo nível. O Paulo César Alves, um dos 27 baluartes da coluna, faz uma correção à errata que publiquei na coluna de anteontem sobre os países que sediaram Olimpíada e Copa do Mundo, seguidamente.

Além de Alemanha, Estados Unidos e Brasil, ele lembra que o México também promoveu as duas maiores competições esportivas do mundo num intervalo de apenas dois anos, em 1968 (Olimpíada) e 1970 (Copa).

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 26) 

Ex-atletas candidatos prestigiam a Loja do Lobo

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Quatro ex-jogadores do Paissandu posam com o troféu da Copa dos Campeões, conquistado em 2002. Lecheva, Albertinho, Zé Augusto e Vandick prestigiaram a inauguração da Loja do Lobo, na noite desta quinta-feira, no Boulevard Shopping. Todos, coincidência ou não, candidatos à Câmara Municipal de Belém, sendo que Vandick busca a reeleição.