Por Francisco De Laurentiis e Camila Mattoso, de BH – no ESPN.com.br
“Fiquei muito, mas muito chateado quando disseram que eu estava desatualizado”. Foi assim, em tom de desabafo, que o técnico Levir Culpi respondeu aqueles que o criticaram quando ele assumiu o comando do Atlético-MG, em abril deste ano, após passagem de seis anos pelo Cerezo Osaka, do Japão.
Meses depois de voltar ao “Galo”, ele conquistou a Copa do Brasil em cima do Cruzeiro, com direito a duas vitórias em cima do maior rival na decisão. O fato é que a taça inédita da equipe alvinegra passa pelos ensinamentos de “samurai” que Levir trouxe do Oriente.
Depois de anos em terras japonesas, onde é idolatrado como herói pelos torcedores, ele voltou ao Brasil atualizado, e não atrasado, como muitos disseram após ele assumir o cargo deixado por Paulo Autori no Atlético.
“Eu estava no Japão, mas você pensa que eu fui lá ensinar? Eu fui aprender! Trouxe coisas de lá que já estão funcionando”, bradou o comandante, logo após o triunfo sobre os cruzeirenses, no Mineirão, na última quarta-feira.
Uma das novidades japonesas implementadas pelo treinador na Cidade do Galo foi o fim das concentrações quando a equipe joga em Belo Horizonte. Desde que isso foi feito, contra o Atlético-PR, na 13ª rodada do Brasileirão, o aproveitamento alvinegro como mandante foi de 92,6%: 16 vitórias e 2 empates em 18 jogos no Independência.
Não à toa, Levir saiu muito elogiado pelos líderes do elenco atleticano.
“O que vejo como diferencial do nosso time foi a retirada da concentração nos jogos em casa. Os números mostram isso, temos uma estatística fantástica a partir do momento em que se tirou. Isso mostra que a concentração nem sempre vai ganhar jogo, e isso deu mais leveza ao nosso ambiente de trabalho”, disse o goleiro Victor, em entrevista à ESPN Brasil.
“O Levir acertou ao acabar com a concentração, pois confiou nos jogadores. Nada melhor do que você poder dormir com a sua família, em casa. Então, ele acertou muito nisso”, completou o atacante Diego Tardelli.
Do Oriente, Levir Culpi também implantou o estilo de jogo extremamente disciplinado dos japoneses. “Eles são muito, mas muito bem organizados que nós, em todos os sentidos. Nós, brasileiros, é que estamos desatualizados, pois só pensamos em resultados”, disparou o treinador.
Com isso, o treinador de 61 anos transformou seu Atlético em uma máquina que joga com intensidade pouco vista no futebol brasileiro, e que acabou superando com folga o Cruzeiro, campeão do Campeonato Brasileiro, nos dois jogos da final da Copa do Brasil.
“O Atlético de Levir manteve a intensidade dos tempos de Cuca. Agora, porém, se defende de maneira mais organizada, sem encaixe na marcação. Também trabalha mais a bola, troca passes. Envolve”, analisa André Rocha, analista tático e blogueiro do ESPN.com.br.
Culpi montou um time extremamente compacto, que nega espaços aos adversários, e se destaca também pela transição em alta velocidade, com no mínimo quatro jogadores chegando à área adversária nos contra-ataques – o que foi visto em vários momentos do segundo jogo da final da Copa do Brasil. “Todo time atua com o ‘turbo’ ligado”, diz Rocha.
Outro trabalho elogiado de Levir em sua atual passagem pelo Atlético é o aproveitamento dos garotos das categorias de base do clube. Mais um ensinamento que veio do Oriente.
Quando ainda estava na segunda divisão japonesa com o Cerezo Osaka, em 2007, o treinador olhou para a base do clube em busca de novidades. Encontrou o então desconhecido Shinji Kagawa, que atuava como volante nessa época, e resolveu apostar em seu talento.
Kagawa tornou-se meia nas mãos de Levir, tornou-se artilheiro do time e conduziu a equipe à J-League, a elite do futebol japonês. Pouco depois, acertaria sua transferência para o Borussia Dortmund, da Alemanha, onde virou ídolo e bicampeão alemão – jogou também por dois anos no Manchester United, da Inglaterra.
Já no Atlético, o treinador segue a mesma filosofia. No time que disputou a final contra o Cruzeiro, na quarta, estavam três atletas da base: o zagueiro Jemerson, o atacante Carlos e o volante Eduardo. No ano que vem, Levir deve usar ainda mais garotos.
“Perdemos peças importantes, como o Ronaldinho, mas em nenhum momento o Levir ficou lamentando. Ele buscou alternativas, e não teve medo de bancar a base. Hoje, o Atlético tem ao menos três ou quatro talentos que se destacaram muito, principalmente na nossa arrancada no segundo semestre”, observou o goleiro Victor.
Agora, Levir que implantar não só no “Galo”, mas como em todo o futebol brasileiro, uma nova filosofia de trabalho para os treinadores. Segundo ele, os dirigentes deve parar de pensar apenas em resultados, confiando no trabalho a longo prazo.
No Japão, o treinador vivenciou isso da meneira mais real possível. Nos seis anos que comandou o clube, nunca conquistou um título. Apesar disso, foi mantido no cargo temporada após temporada, e deixou a “terra do sol nascente” por opção própria, já que estava com saudades do país natal.
Após seu último jogo, o comandante foi jogado para o alto pelos jogadores e ovacionado pela torcida. No dia em que foi embora do Japão, uma multidão foi ao aeroporto se despedir do grande ídolo.
“Aqui no Brasil, tudo fica para o último jogo. Se eu perdesse esse jogo [contra o Cruzeiro, na final da Copa do Brasil], era bem provável que eu não ficasse mais no cargo”, lamentou. Apesar disso, a renovação de contrato do treinador já está encaminhada. Resta agora saber se os cartolas terão a famosa paciência oriental com Levir Culpi na próxima temporada, quando o Atlético disputará mais uma vez a Libertadores.

Levir poderia até encerrar a carreira, está no seu auge. Grande surpresa. Seria fantástico ver ele ou Marcelo na seleção.
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