Futebol jogado no Brasil não atrai interesse lá fora. Por que?

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Por Mauro Cezar Pereira (ESPN)

“A Liga dos Campeões é o objetivo máximo que tem um clube”. A frase é de Vicente del Bosque, técnico da seleção da Espanha, campeã mundial e bi da Eurocopa. Declaração nada surpreendente partindo de um europeu. Mas o que há por trás dela? O recém-encerrado Mundial de Clubes da Fifa, conquistado merecidamente pelo Corinthians e mais uma vez repleto de times risíveis, proporciona uma boa reflexão.

O que motiva os europeus a se fecharem de tal forma ao redor de sua principal competição e das ligas nacionais? Auto-suficiência? Pode ser. Mas o que a explica? Creio que seja provocada pela força de suas competições, que movimentam torcidas, dinheiro, repercutindo em todo o planeta. Eles têm os mais valorizados jogadores do mundo e exploram isso ao máximo. 

Nesse cenário, fica difícil outro torneio competir em qualidade com a Champions, apesar de alguns timecos que participam da fase de grupos da competição europeia. E como a Fifa faz enorme uso do seu Mundial (distribui vagas por critérios políticos, não técnicos), o mesmo não consegue se aproximar do certame europeu no quesito técnico.

A Fifa arma seu Mundial com um representante de cada continente dando quase o mesmo peso para regiões do mundo onde se joga futebol em alto nível e outras nas quais o esporte é amador. O desafio imposto pela Liga dos Campeões é muito maior. Tivesse o torneio “fifeiro” mais equipes de nível técnico elevado (tradução: mais vagas para europeus e sul-americanos), certamente ele começaria a ficar mais atraente, desafiador.

 
O Corinthians tem torcida, tradição, títulos, patrocinador, um estádio sendo construído, muita mídia e um bom time de futebol. Como foi possível um clube de tal calibre ser praticamente ignorado por muitos torcedores e jornalistas europeus até a vitória na final? E que fique claro: fosse outro o representante brasileiro no Japão, não seria diferente. O futebol jogado aqui praticamente não é visto lá fora. E isso precisa ser encarado por nós, para que possamos encontrar problemas e pensar em soluções.
Quais os pontos fortes do Campeonato Brasileiro sob a ótica de um europeu que ligaria a TV de sua casa para acompanhá-lo? Times populares, jogadores jovens que podem surgir e alcançar fama internacional, bons times dentro de nossa atual realidade e, claro, jogos legais. Sim, temos muitos cotejos interessantes por aqui.

E os pontos fracos? Primeiro a pequena quantidade de partidas que realmente tenham grande apelo para quem busca um jogo atraente, sem ter vínculo afetivo com os times que estão em campo. São muitas as pelejas arrastadas, com 40 a 50 faltas, jogadores que reclamam de tudo e árbitros que marcam de tudo. Isso é somado a gramados ruins, estádios na maioria das vezes vazios e um cenário melancólico.

O produto não é bom. Se o sujeito não for um brasileiro morando no exterior ou alguém absolutamente fanático pelo futebol daqui, dificilmente irá parar para ver o Brasileirão. Até no empacotamento do produto, nas transmissões de TV, é preciso melhorar muito. Que tal colocar o dedo na ferida, enfrentar isso? Ainda mais agora, que os clubes daqui têm mais dinheiro?

Outra opção é ficarmos indignados com o jornalista inglês que desconhecia o Corinthians. E aqui volto a reforçar: seria o mesmo caso lá estivesse qualquer outro time brasileiro. Eles não conhecem porque não veem, não têm interesse no que é jogado aqui. O futebol brasileiro e sua seleção têm respeito e admiração lá fora, mas os times e o que proporcionam em campo não chamam a atenção.

Até concordo que um jornalista especializado em futebol, inglês, que acompanha o Chelsea, deveria saber o mínimo sobre o time corintiano às vésperas do torneio “fifista”, isso faz parte do trabalho. Mas quantos de nós da imprensa brasileira têm amplo conhecimento sobre os demais times que disputaram o Mundial de Clubes, como o próprio Al Ahly? No geral, estamos no mesmo barco.

Alguém dirá algo como “mas o cara não acompanha o futebol jogado no Brasil, que absurdo!” E quantos da imprensa brasileira sabem algo sobre, digamos, os times que disputam o Campeonato Paraguaio? O Chileno? O Equatoriano? O Argentino? Poucos. E qual o motivo? Esses torneios não despertam grande interesse por aqui, as pessoas priorizam aquilo que lhes importa.

Sim, o Brasileirão está para um torcedor ou jornalista europeu como para nós estão o Campeonato Costarriquenho ou a Liga Postobón da Colômbia. Azar do repórter inglês que não conhece o Corinthians ou azar de quem tem tanta tradição no futebol e não consegue chamar a atenção do mundo? Pare, pense. O inimigo do progresso de nosso futebol mora em casa.

13 comentários em “Futebol jogado no Brasil não atrai interesse lá fora. Por que?

  1. Acredito que a imprensa brasileira valoriza demais os clubes e torneiros europeus, comportamento oposto praticado pela a estrangeira. Basta exemplificar a divulgação que a rádio clube do Pará dá no programa esportivo dominical conhecido como balanço geral.

  2. Assino embaixo.. Campos de futebol, sem as mínimas condições, não investem em grandes contratações do exterior, e outras e outras coisas, que fazem com que isso aconteça.

    As séries A e B, vão começar em 5 meses, todos já sabem quantos jogos farão em casa e não se vê um clube sequer, vender carnês com ingressos dos 19 jogos que farão em seus estádios, como é feito na Europa, com isso, teremos, mais uma vez, jogos com 800, 1000,.. torcedores… Pode?

    O campeonato brasileiro, teve 2 mudanças, apenas, pra melhor: Adotou os pontos corridos e acabou com a velha virada de mesa… Muito pouco… Pouquíssimo..

    Te dizer..

  3. Mas sempre foi assim! E sempre será! Além da diferença administrativa, é poder aquisitivo que fala mais alto, a nossa distribuição de renda é uma das piores do mundo, quer dizer poucos podem pagar regularmente os ingressos dos jogos, então, só se enche estádio com preços promocionais ou subsidiado ou ainda em jogos decisivos.

  4. Gerson, Claudio e demais, aproveitando o ensejo, pergunto: e o quê dizermos dos inimigos do futebol do Pará ?! Vai ver que só METRALHANDO-OS. Se bem que, agora, o PSC pode iniciar seu ingresso na era profissional do futebol, ainda que com enorme atraso.

  5. E aí, amigo Cláudio, estou esperando anunciares a BOMBA, sobre quem será que vai chegar de helicóptero no Baenão. rs Enquanto isso, o PAPÃO perdeu o bom zagueiro F. Sanches ! VOU TE CONTAR !

  6. No meu entendimento, o diferencial está na ordem orçamentária. Onde os clubes europeus superam os nossos clubes brasileiros, assim como todos os clubes da região sul-americana. Pois, com dinheiro em caixa, os clubes europeus conseguem formar grandes esquadrões para tetar faturar um título da copa mais importante do velho continente que e a copa do campeões da Europa.
    Já aqui em nossa bandas, como a pindaíba de alguns de nossos clubes e eminente, os mesmos entram nessa competição apenas para fazer parte do figurino, meros figurantes em um grande filme. Então como atrair grandes astros do futebol mundial, se nossos clubes vendem o almoço pra comprar a janta? Não há como! Somente virão jogadores para a nossa terra, quando os mesmos estiverem em franco processo de finalização de carreira, eis os casos de Ronaldo Fenômeno, Seedorf, Locco Abreu entre outros, então se não houver parcerias de empresas com os clubes que farão parte de uma grande competição inter-continental, que e o caso de uma “Libertadores da América” teremos que nos contentar apenas com uma minoria de clubes a almejar o título dessa tão importante competição para o futebol brasileiro…Minha opinião!

  7. O estádio lotado no Japão joga por terra metade dos argumentos do Mauro Cezar Pereira, a outra metade balança diante do fato de que todos os anos o Brasil exporta muitos jogadores para a Europa, tanto que num momento de longa estiagem de craques como o atual, os europeus têm levado até jogadores medianos. Enfim, o que resiste, porque óbvio, é a insolúvel desorganização do futebol brasileiro e o baixo nível técnico da maioria dos times que disputam o torneio da FIFA. Rematando, quando critica a qualidade do produto, reclamando que até o “empacotamento” precisa melhorar, comete o ato falho e fica parecendo mais a raposa acusando de verdes as uvas que estão longe de seu alcance.

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