Da velha arte de mamar em onça

Por Gerson Nogueira

Dizia-se em tempos idos lá em Baião, para minha total descrença, que existe sujeito intrépido o suficiente para mamar em onça. Fico pensando nisso ao saber do projeto que parte da diretoria remista alimenta: contratar o atacante Jobson, do Botafogo. Paraense, bom de bola, driblador e abusado, o ponteiro confirmou em parte a sina que persegue os homens que correm ali na faixa estreita junto à linha lateral. São, segundo o velho João Saldanha, uns malucos de pedra.

15Precisa coragem sem tamanho para arriscar dinheiro e esperança em jogador tão problemático. Depois de começo arrasador no Botafogo, vindo de experiências no futebol de Brasília e até em clubes estrangeiros, Jobson não resistiu aos muitos encantos – e armadilhas – da vida noturna do Rio de Janeiro. Como tantos outros antes dele, terminou refém dos folguedos, tentações e vícios da Cidade Maravilhosa.

Garoto pobre, de pouca leitura, Jobson viu-se enredado no circuito trepidante da Princesinha do Mar e acabou, sem música ou poesia, perdendo espaço no time do Botafogo. Com o know-how de outras figuras historicamente complicadas, como Heleno de Freitas e Mané Garrincha, o Alvinegro criou uma força-tarefa para tentar salvar o ponta talentoso.

Não adiantou muita coisa. Relapso com os treinos e negligente com os exercícios que a carreira profissional impõe, Jobson desceu ao fundo do poço. Apanhado em exame anti-doping, foi suspenso do futebol. Depois de ter a pena reduzida, foi emprestado ao Bahia, de onde saiu sem deixar saudades. Voltou ao Rio, sofreu recaída, recebeu assistência do Botafogo, mas nunca mais foi o mesmo atacante ágil e driblador de outros tempos.

Jobson, como Adriano, é uma aposta de risco. Há sempre a esperança de que se recupere e volte a jogar bola em alto nível, mas o histórico recente não recomenda o pleno otimismo. Os azulinos devem saber onde pisam.

Além de Jobson, o clube foi sacudido na sexta-feira por boatos acerca do atacante Kempes, que passou fase não mais que razoável no futebol mineiro. Um pacote que chegaria a R$ 100 mil seria disponibilizado por um patrocinador para garantir o reforço. Caso o negócio se confirme, tenho sérias dúvidas quanto ao acerto da escolha.

Há, ainda, forte especulação quanto à contratação de Leandro Cearense e Flamel, que disputaram a primeira fase do Parazão pelo Santa Cruz. De todas as alternativas, o investimento na dupla regional parece a mais equilibrada e com chances de sucesso.

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A incrível confiança corintiana

Apesar do susto pelo terremoto logo na chegada, o Corinthians desembarcou no Japão com banca de real candidato ao título mundial de clubes. A postura é inédita entre clubes brasileiros que disputam o torneio. Nem mesmo nos tempos do São Paulo de Telê, Raí, Müller e Cerezo, havia tanta convicção quanto às chances de vitória na decisão.

Nos últimos anos de participação nacional, com Internacional e Santos, o sentimento era de visível inferioridade. Os resultados confirmaram essa desvantagem técnica. O Inter foi atropelado por um azarão, na maior zebra de todos os tempos, e o Santos foi surrado impiedosamente pelo Barcelona de Lionel Messi.

Desta vez, porém, o clima é outro. Em grande medida, a confiança vem da maneira categórica como o Corinthians se impôs na disputa continental, batendo quatro ex-campeões da Libertadores. Não estou falando de futebol exuberante, mas de um esquema pragmático, preocupado apenas com o resultado. Contribui para isso, também, o visível esfacelamento do Chelsea, que só fez desmoronar depois da surpreendente vitória na Champions League, superando a Barcelona e Bayern.

Com um técnico (Rafa Benítez) renegado pelo próprio elenco e a ausência de um jogador carismático, como Didier Drogba, o Chelsea deixou a condição de favorito absoluto. Continua mais cotado, mas o Corinthians encurtou a distância. Com os milhares de torcedores que estarão no Japão, a batalha está praticamente parelha.

Esperemos a bola rolar para brasileiros e ingleses a fim de avaliar melhor as probabilidades. Até no cruzamento contra franco-atiradores, a desvantagem está com os europeus, que enfrentarão um legítimo (e audacioso, obviamente) representante do futebol mexicano.

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Papão bem na foto

O ranking do Campeonato Brasileiro de pontos corridos, dez anos depois de sua instituição, reserva lugar honroso para o Paissandu, que permaneceu por apenas três anos na elite do futebol nacional. Com média de 48,67 pontos, o representante paraense aparece em 25º lugar, com 146 pontos.

Não é nada, não é nada, mas o Papão aparece à frente de Bahia, Portuguesa, Atlético-GO, Avaí, Fortaleza, Ceará e América-MG. E, se a tabulação fosse pela média de pontos ganhos, iria se posicionar melhor do que Sport-PE e Náutico.

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Goleiro no Bola na Torre

Fabiano, um dos reforços do Remo para o campeonato estadual, é o convidado de hoje no Bola na Torre (RBATV, 23h50). Comando, como sempre, de Guilherme Guerreiro, com participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba baionense.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 09)