Mês: junho 2012
Um craque sob ataque
Por Gerson Nogueira
Bastaram dois reveses – a derrota para o Barcelona no Mundial de Clubes e a eliminação na Taça Libertadores – para que o futebol de Neymar volte a ser questionado no Brasil inteiro. Depois de confirmar nos últimos dois anos a condição de jogador diferenciado, com jeito de futuro fora-de-série, o jovem atacante santista prova o lado amargo da fama.
Como é próprio da rotina do futebol, assim como despontou muito rápido, merecendo elogios por vezes exagerado, passa agora também a ser alvo de apedrejamento sempre que seu time tem um resultado infeliz. As seguidas – e impróprias – comparações com Lionel Messi atiçam ainda mais a onda de críticas a Neymar.
Prudente como sempre, Mestre Telê recomendava preservar o craque em momentos ruins. Isso significa blindá-lo e trabalhar para que volte, no mais breve espaço de tempo, a jogar o que sabe. Infelizmente, Neymar não tem descanso. Os múltiplos compromissos de sua agenda publicitária convivem com a necessária carga de treinamentos e exercícios.
Conciliar as exigências da bola com as obrigações contratuais do marketing é um desafio que requer super capacidade física. Se a juventude permite aguentar a sobrecarga, não se pode esquecer que Neymar é um garoto ainda, com os anseios e conflitos próprios da idade.
Precisa se divertir, conviver com os amigos, namorar, curtir a vida. É claro que, para um profissional do seu nível e com a aura de celebridade, o direito à curtição é extremamente limitado, mas jamais lhe pode ser negado.
A dedicação espartana à carreira, dentro e fora de campo, já bagunçou a cabeça de muitos atletas. Sem vida social e interação com as pessoas dificilmente um profissional, seja de que área for, obtém sucesso pleno e duradouro.
Esperança nacional para a Copa de 2014, Neymar é frequentemente aconselhado a atuar no futebol europeu. Os mais tradicionalistas resistem a isso, temerosos de que sua impressionante habilidade acabe domada pelos rígidos sistemas táticos do Velho Continente.
Na contramão desse nacionalismo boleiro, há a evidência de que precisa evoluir quanto ao posicionamento em campo e ganhar maturidade para encarar grandes defesas. Na fase de mata-mata da Libertadores, vigiado pelos zagueiros do Vellez, praticamente não conseguiu jogar.
Contra o Corinthians, essa dificuldade ressurgiu e aumentou as angústias de quem vê o único craque brasileiro da atualidade sem saber o que fazer diante de marcações mais firmes. E o exemplo negativo de Robinho, o rei das pedaladas, reaparece em todo o seu esplendor.
No inferno astral de Neymar, há espaço também para a proverbial mania nacional de esculachar com famosos. Fazer sucesso por aqui parece ofensa pessoal, já dizia o maestro Tom Jobim, do alto de sua sabedoria. Se o atacante santista vai aproveitar a maré ruim para empreender uma virada na carreira, ninguém sabe. Mas é certo que, para brilhar em seu próprio Mundial, o Brasil vai depender muito dele.
Registro mensagem de Sérgio Papellin, ex-supervisor do Remo, referindo-se à coluna “Categoria sub-40 em alta”, publicada na última quarta-feira: “Caro Gerson, quero lhe parabenizar pela análise que você faz da equipe do Remo na sua coluna de hoje (anteontem). As séries C e D são competições em que precisamos de atletas de força e velocidade, mas infelizmente o Remo está indo pelo caminho oposto. Vamos ficar na torcida para que dê certo! Grande abraço”.
Para não ficar atrás de Corinthians e Santos, Palmeiras e Grêmio dedicaram-se a fazer um jogo ruim, de poucas jogadas criativas e profusão de pontapés. Felipão e Luxemburgo, técnicos consagrados, pareciam irreconhecíveis na distribuição de seus times em campo.
De um lado, o Palmeiras resguardando-se ao máximo, confiante na vantagem de dois gols. Do outro, um Grêmio raçudo como sempre e violento como nunca. Até jogadores discretos, como Pará, perderam o juízo. No fim, três expulsões (incluindo a injusta exclusão do palmeirense Henrique, mais vítima do que algoz na pancadaria).
A classificação palmeirense, há doze anos esperada, acabou assegurada por personagem improvável: o chileno Valdívia, que entrou no segundo tempo e em dois lances estabeleceu a diferença entre pernas-de-pau e um autêntico camisa 10. Fez o gol de empate, mandou uma na trave e descontrolou de vez os brucutus do Grêmio.
Direto do blog
“Já andam falando em Tite na Seleção caso Mano fracasse na Olimpíada. Já imaginaram o Brasil atuando atrás contra o Zimbábue em pleno Maracanã em busca do 1 a 0? E a coletiva do Tite, que disse dois palavrões para externar todo o seu êxtase com a pelada de ontem, dizendo que o embate foi de muita ‘qualidade técnica’? Não há vida inteligente apenas na meia-cancha de nossas equipes, falta também nos bancos de reservas…”.
De Daniel Malcher, implacável na crítica à “retrancabilidade” de Tite.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 22)
Rock na madrugada – Raul Seixas, Meu Amigo Pedro
Mr. Tite x Sr. Muricy
Vai pra Europa, Neymar!
Por Roberto Vieira
Se conselho fosse bom não se dava… Pois é. Mas todo adágio popular também carrega exceção. Pois então! Muita gente meteu o pau em Mano Meneses. Mano que desejava Neymar na Europa. Longe do Santos. ‘Herege!’. ‘Judas iscariotes do futebol pentacampeão!’. ‘Vendido!’.
Mas o tempo estabelece as verdades da vida e do futebol. Neymar estagnou. Com todo seu talento já aprendeu o que tinha de aprender por aqui. O futebol brasileiro jogado no Brasil. Virou escola primária. Não serve pra mais nada.
Quem deseja evoluir tem de sair do lactário. Abandonar a barra da saia da mãe. Ingressar na universidade do mundo. Longe se vão os tempos gloriosos de Pelé e Garrincha. Pelé olhava de lado e tinha o catedrático Coutinho.
Garrincha formulava teses com o PhD Nilton Santos. O Brasil era o MIT da bola no pé. Hoje? Quadro de giz e chuteira. Cartilha e mata borrão. Enquanto o mundo do futebol vai de androids e lap tops.
Mano Meneses estava certo. Neymar por aqui vai se tornar desses meninos sabidos. Espertos. Desses que os turistas conhecem em Olinda. Capazes de decorar toda a história das capitanias hereditárias. Incapazes de escrever uma carta na Central do Brasil…
Chance para os jovens jornalistas
Coritiba supera S. Paulo e vai decidir Copa BR
Timão elimina Peixe é finalista da Libertadores
Ideia simples, triunfo justo
Por Gerson Nogueira
Era a definição da semifinal, mas os festejos corintianos fizeram parecer que era quase a decisão do título. De qualquer forma, os ecos do empate que classificou a equipe à final da Taça Libertadores valorizam o duríssimo embate entre alvinegros brasileiros, seguramente os dois principais clubes nacionais da atualidade. A comemoração ressalta, acima de tudo, o esquema operário, quase à européia, do Corinthians de Tite, cuja origem está na campanha do título brasileiro do ano passado.
Na ocasião, a conquista foi vista com ressalvas pelos fãs do futebol ofensivo. Não era para menos. O Corinthians cultivou um impressionante esmero defensivo e, como se sabe, quem muito zela pela defesa quase sempre deixa o ataque em segundo plano.
As vitórias por escores magros tornaram-se uma espécie de característica corintiana desde então. Tite, corajosamente, não renegou essa estratégia. Muito pelo contrário. Diante dos resultados positivos ganhos a partir de uma sólida linha de zagueiros e volantes, passou a louvar esse estilo simples, guerreiro e eficiente.
Diante do Pacaembu cheio de corintianos, o time jogou dentro de seu padrão habitual, desfilando o receituário que assegurou a caminhada ao longo da Libertadores. Marcação forte e pouquíssimo espaço para brincadeiras – suas e do adversário – na grande área.
O Santos, de estilo mais leve e ofensivo, parecia assumir o domínio das ações, ocupando o campo de defesa inimigo com passes rápidos e constante inversão de posicionamento. O gol saiu, mas o time desceu para os vestiários acreditando que estava com o jogo sob controle. Ledo engano.
A estratégia corintiana para empatar o jogo (e desempatar a disputa) foi centrada no próprio histórico do time. Bolas roubadas no meio-de-campo, contragolpes velozes puxados por Alex e Jorge Henrique e cruzamentos sobre a área. Logo de cara, esse expediente deu certo e o empate veio praticamente de mão beijada, com falha dos zagueiros do Santos e finalização precisa de Danilo.
Quem acompanha esse Corinthians forjado nas divididas e na batalha pela retomada da bola sabia que o Santos teria que mover mundos e fundos para reaver a vantagem. Missão prejudicada pelo rendimento discreto de Paulo Henrique Ganso e o visível esgotamento de Neymar, que chegou a voltar para buscar jogo quase na linha do meio-campo.
O tempo ia passando e deixando claro que a sorte pendia para o time que se baseia na fibra e na transpiração. Tite não gosta da comparação, mas nada lembra mais o jeito bate-estaca do Chelsea que essa esquadra corintiana. Com dois volantes à moda antiga, Ralf e Paulinho, postados quase como zagueiros extras, o técnico fechou os caminhos e tornou praticamente impossível a missão santista.
Antes que saia a repudiar as referências inglesas, Tite devia saborear o triunfo de uma idéia tática tão simples quanto precisa, responsável por colocar conduzir o time à grande decisão sul-americana. Isso é o que, de fato, importa.
Vale considerar que, do lado santista, a frustração pelo fim do sonho do bicampeonato continental vem junto com nova atuação irregular do maior craque do time. Neymar, apesar do gol e da movimentação nos primeiros 45 minutos, foi totalmente anulado na etapa final e sem ele toda a força do Santos cai por terra.
Muricy Ramalho, que nunca foi conhecido pela ousadia, parecia um peixe fora d’água ao lado do campo tentando fazer seu time ir à frente. Duro era observar que um time montado a partir de raros talentos não achava jeito de impor seu jogo.
Nos 15 minutos finais, tomado pelo desespero, o Santos passou a cruzar todas as bolas possíveis para o centro da área. Qualquer timeco de várzea age exatamente assim quando se esgotam os recursos técnicos. O Peixe precisa aproveitar essa lição para reencontrar seus próprios caminhos. Assusta também a constatação de que, nesses momentos, por força das circunstâncias ou por limitação individual, Neymar também fica nivelado a um jogador comum – o que não é.
A confirmação de que a bola vai finalmente rolar na Série D é um alento para os torcedores do Remo. Depois de 28 dias de indefinição, a CBF conseguiu finalmente desatar os nós jurídicos que inviabilizavam a competição. Não sem traumas. Com a quase confirmada inclusão do amotinado Treze (PB) na Quarta Divisão fica escancarada a porteira para a repetição do mesmíssimo imbróglio que atrapalhou a edição deste ano.
Foi assim que Ricardo Teixeira agiu quando o Rio Branco ameaçou parar a Série C 2011. Deu no que deu. Marin, cópia envelhecida do antigo chefão, trilha as mesmas ondas perigosas.
Enquanto o rival já entra em ação no próximo domingo, o Paissandu deve estrear a 1º de julho, caso o arranjo com o Treze realmente se confirme. No fundo, atletas, técnicos e torcedores já não agüentavam a situação. Que os times tratem de compensar em campo essa longa espera.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 21)




