Arte ou chatice?

Por Renato Maurício Prado

A primeira vez que ouvi tal opinião foi num intervalo do Globo Esportivo. Para grande surpresa dos componentes da mesa, meu amigo Edson Mauro, o locutor “bom de bola”, disparou, sem piedade: “Acho esse time do Barcelona muito chato! Parece que joga futebol de salão! Toquinho pra lá, toquinho pra cá, toquinho pra trás, um porre!”, trovejou, escandalizando todos nós.
Quando voltamos ao ar, após os comerciais, ainda provoquei-o, tentando que repetisse “em on” o polêmico julgamento que nos segredara “em off”. Habilmente, porém, Edson esquivou-se; afinal, o Barça massacrara o Santos, no Mundial de Clubes, e seguia arrasador na Espanha e na Europa. Politicamente, não soaria correto.
De lá pra cá, voltei a me surpreender ao constatar a vibração de muita gente quando da eliminação dos catalães diante do retrancado Chelsea (que acabaria conquistando a Liga dos Campeões). E tal antipatia se manifestaria, novamente, na útima quinta-feira, quando a Espanha goleou a Irlanda por 4 a 0, na Euro-2012.
Pelas redes sociais e pelo e-mail, li muita gente baixando o pau na Fúria, irritada com o toque de bola dos campeões do mundo, apesar da goleada. Admito, pela primeira vez, também me aborreci um pouco, assistindo à exibição de Xavi, Iniesta e Cia. Que após marcarem o primeiro gol com menos
de cinco minutos, só voltaram a balançar a rede na segunda etapa, embora passassem praticamente o tempo todo com a bola nos pés.
Bocejando, enquanto acompanhava a partida, foi impossível não me lembrar do Edson Mauro: toquinho pra cá, toquinho pra lá, toquinho pra trás e nada de chute! Haja preciosismo… Que o estilo de jogo espanhol exige refinamento técnico e tem se mostrado extremamente eficiente nem se discute. Os resultados do Barcelona e da própria seleção (título mundial e da última Eurocopa) falam por si. Mas que acompanhar um duelo como o que aconteceu contra os irlandeses dá sono, ah isso dá!
Em determinados momentos, os jogos de futebol da Espanha lembram as touradas: tal qual os “matadores”, seus jogadores se esmeram em “verônicas”, “chicuelinas” e “portas gayola” (passes com o capote, ou seja, dribles com a capa) e as “faenas” (parte do espetáculo onde o toureiro demonstra a habilidade e a coragem), por vezes, se prolongam em demasia até a estocada fatal.
Na última quinta-feira, tal qual um touro extenuado e picado pelos bandarilheiros, os irlandeses apenas corriam de um lado para o outro, “chifrando o ar”. Sem outra ambição que não fosse a morte digna ao final de tudo. Inegavelmente maçante. Tornando compreensível a torcida de muita gente pelo “touro”. O problema é que, tal como em “Las Ventas” e nas demais “plazas” da Espanha, também aqui nos estádios da Polônia e da Ucrânia, os “toureiros” têm todas as armas a seu favor…

MIÚRA GERMÂNICO. A seleção da Alemanha aparenta ser, até o momento, a com mais chances de “chifrar o toureiro”. Mas não foi capaz disso nos dois últimos confrontos, na última Euro e na Copa da Africa do Sul, quando um de seus principais jogadores, o atacante polonês naturalizado Klose, admitiu que os alemães foram colocados na roda de tal forma que, nas poucas vezes em que conseguiram contra-atacar, lhes faltou fôlego.
— Passamos o tempo todo correndo atrás da bola e ela não saía dos pés dos espanhóis…
Esta é, aliás, uma das principais vantagens do poderoso toque espanhol. Mantendo a pelota sob controle, não somente evita correr riscos como exaure as forças dos adversários. Pode não ser emocionante para a platéia. Mas é eficaz…

Cruzeiro embala e Botafogo renasce no Brasileiro

 

Por Juca Kfouri

Sabe por que o Inter foi para o intervalo ganhando de 1 a 0 do Botafogo, no Beira-Rio, com um gol de Dagoberto ao receber um passe sem querer de Leandro Damião de cabeça? Porque , mesmo sem conseguir, o Inter tentou jogar futebol, ao passo que o Botafogo ficou num tico-tico irritante, daqueles que não chovem nem molham.

Já o Figueirense não foi com a mesma vantagem diante do Cruzeiro, no Independência, com 17.883 pagantes, porque o goleiro Fábio não deixou uma vez, a trave não deixou outra e a falta de pontaria também colaborou. Mas ao cabo do primeiro tempo o Cruzeiro completou dois anos e 45 minutos sem jogar em Belo Horizonte. E bote mais dez minutos do segundo tempo, quando só deu Figueira e mais duas chances claras de gol.

O outro alvinegro, o Botafogo, seguia tendo mais a bola em Porto Alegre, aproveitando-se de erros infantis dos colorados, mas perigo de gol que é bom, nada. D’Alessandro, em compensação, num contra-ataque, por pouco não ampliou.

Assim como o Cruzeiro, do 11o. minuto em diante começou a jogar  e a criar chances de gol.

Mas de tanto insistir e de se dar conta da preguiça gaúcha, Vitor Júnior deu com carinho para Andrezinho fazer lindo gol, aos 12. O empate, diga-se era justíssimo.

Como o Cruzeiro marcou um golaço com Wellington Paulista, aos 20,  dando uma cavadinha e ainda completando para o gol, depois de ótimo passe de Souza  que Celso Roth teve a boa ideia de botar para jogar no segundo tempo: 1 a 0. Não era exatamente justo, mas o Cruzeiro mostrava a eficácia que faltou ao time catarinense.

No sul, o Botafogo seguia desfilando sob o olhar estranhamente complacente do Inter. E Fabrício fez pênalti em Vitor Júnior, daqueles de ir para DVDs, porque ignorado pelo asssoprador de apito. O Botafogo fazia para estar vencendo e o Cruzeiro já justificava sua vitória. E  numa falha da alta zaga colorada em cobrança de escanteio de Andrezinho , Felipe Gabriel virou aos 27, porque o Glorioso abandonou o tico-tico no vestiário: 2 a 1. O Fogão deixou o Cruzeiro virar, quase  virou sobre o Náutico e, enfim, como fizera contra o São Paulo e o Coritiba, virou sobre o Inter, nāo mais invicto e preocupantemente apático, desfibrado, nervoso e fartamente vaiado pelo Beira-Rio meio vazio, com 12.419 pagantes.

E o Cruzeiro derrubou outro invicto, o Figueira, que não empatou por causa de Vitor e não tomou o segundo gol por causa de seu goleiro Wilson. Enfim,  em BH as coisas parecem que vão ser mesmo diferentes para este Cruzeiro que ganhou a terceira partida seguida e dormirá vice-líder, como nos bons tempos.

Eles também sabem jogar

Por Gerson Nogueira

A gente fala generosamente do futebol dos nossos sonhos. Fazemos isso o tempo todo, mesmo sem platéia interessada. Estranho esporte o futebol. Todos se agarram a uma concepção pessoal sobre a forma de jogar, mas se unem nos aplausos a um lance refinado ou um gol espetacular. No fundo, somos todos prisioneiros da beleza do jogo, embora o ato de torcer desperte reações tão radicais, primitivas e contraditórias.
Com jogos de alto nível e alguns dos maiores craques do planeta, a Euro é uma espécie de ensaio de luxo para a Copa do Mundo. Aliás, para ser uma Copa, só fica faltando mesmo contar com Brasil e Argentina. O torneio é um sucesso porque reúne todas as demais seleções realmente importantes, aquelas que sentimos prazer especial em vencer.
Com a excepcional vantagem de não apresentar os calhaus do mundo da bola, como Costa Rica, Egito, Equador, Austrália, Japão e Coréias. Tudo bem que a Euro tem lá suas próprias bombas. Nesse grupo estão Irlanda, Grécia (que, surpreendentemente, até já ganhou uma edição) e a Polônia, uma das sedes do torneio deste ano.
O lado bacana da Euro é que apreciamos tudo de camarote, naquela situação privilegiada de apenas acompanhar os jogos, sem as atribulações do envolvimento emocional. O espírito crítico fica mais aguçado e certeiro, embora, de vez em quando, surja uma inveja danada das torcidas presentes aos estádios.
Quanto à parte técnica, mesmo sem ter aparecido nenhum super time, a primeira fase da Euro mostra excelente nível. Parte disso pode ser atribuída às performances de Alemanha, Espanha, Rússia e França. São seleções que desmontam, de uma vez por todas, a tese de que europeus não têm intimidade com a bola e baseiam seu jogo na força física. 
Futebolistas como Iniesta, Cristiano Ronaldo, Ribery, Ozil, Sneijder, Fábregas, Nani, Miller, Robben, Xavi, Walcott e Pirlo têm o mesmo repertório de fintas e recursos de qualquer brasileiro ou argentino. A partir dos anos 80, com a importação maciça de talentos sul-americanos, a Europa começou seu aprendizado de dribles e passes. Acrescentaram a isso a obsessão pelos fundamentos e a organização tática.  
É verdade que a origem étnica e a vocação natural ainda fazem alguma diferença, mas também é forçoso reconhecer que o abismo técnico das primeiras Copas (de 1930 a 1974) simplesmente desapareceu. Recomendo olhar os jogos da Euro para confirmar o discurso surrado, mas verdadeiro, de que não existe mais bobo em futebol.
 
 
Em 17 de junho de 1962, o Brasil conquistou o bicampeonato mundial no Chile. Um título que, bem mais que os outros, leva marca e assinatura do Botafogo. Afinal, pontificavam naquele escrete os craques Nilton Santos, Amarildo, Didi e Zagallo, além de um incrível gênio de pernas tortas, Mané Garrincha. Todos alvinegros.
Ouço, com freqüência diretamente proporcional aos insucessos dos últimos anos, gozações cruéis em relação ao Botafogo. Sempre uso como recurso de contra-ataque a importância da façanha de 62. Não por acaso, sempre tive simpatia especial pelo Mundial chileno. Botafoguense por excelência, aquela Copa acabaria marcada por lances dramáticos.
Começou com a perda de Pelé. Depois, contra a Espanha, Nilton Santos fez falta dentro da área, mas escapou do pênalti ao se adiantar um passo. Por fim, a suspensão de Mané Garrincha do jogo final foi evitada graças a uma misteriosa ação de bastidores. 
Nada, porém, que desmereça o triunfo de uma seleção que parecia (e estava) envelhecida, mas teve a ventura de contar com o entrosamento excepcional de jogadores de um dos melhores times do Botafogo em todos os tempos.  
 
 
Tudo está fora de ordem quando o presidente da CBF promete “pegar pesado” para resolver uma confusão criada pela própria entidade. Por ignorância ou cara-de-pau, José Maria Marin garantiu na sexta-feira que vai tomar as medidas necessárias para assegurar a realização das Séries C e D, suspensas há um mês em função da guerra de liminares promovida por alguns clubes.
Marin devia, em primeiro lugar, pedir desculpas públicas pelos transtornos causados a clubes, torcedores e patrocinadores. Em seguida, assumir todos os prejuízos decorrentes da lambança surgida sob os auspícios de Ricardo Teixeira, seu antecessor e padrinho, que avalizou um acordo ilegal com o Rio Branco na Série C do ano passado. Simples.
 
 
Iago Pikachu, lateral-direito do Paissandu, é o convidado do Bola na Torre deste domingo. Sob o comando de Guilherme Guerreiro, programa vai ao ar às 23h45, na RBATV.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 17)